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domingo, janeiro 04, 2009

Reclamação II

O dono do bordel, com algumas das coelhinhas.


Passa na Sic Radical um reality show baseado na vida dentro de um bordel americano, em pleno Texas. Intitula-se Rancho das Coelhinhas, e as ditas adoram sexo, adoram a profissão, e não saberiam viver de outra forma; as estrelas do programa ganham bom dinheiro, têm acções de formação sobre lingerie sexy, brinquedos eróticos, boundage, e por aí fora.
Embora o programa passe depois da meia-noite, questiono-me sobre como pode ver-se em canal aberto, uma vez que são filmadas cenas com clientes, dentro dos quartos, com um realismo tal que consigo perceber o momento exacto em que os homens ejaculam. As imagens não são captadas excessivamente perto, mas talvez a quatro ou cinco metros; os orgãos genitais masculinos e as poses de perna aberta das meninas são alvo de imagem desfocada, contudo tudo me parece muito grosseiro, desde o começo, altura em que o cliente entra e as coelhinhas, que vagueiam pelas instalações em trajes escassos, e 24 horas por dia, se alinham, em pé, numa sala própria, sujeitando-se a escolha segundo as preferências físicas e sexuais dos clientes. Há coelhinhas negras, latinas, anãs, louras americanas novas e velhas, acabadas ou fulgorosas, especializadas nisto ou naquilo, com mamas e rabos grandes ou pequenos, vestindo rendas ou latex. A escolha é vasta.
Sei que este programa é muito apreciado por adolescentes que ficam acordados até mais tarde, e preocupa-me a mensagem de legitimação do negócio que o programa passa. Preocupa-me o discurso das coelhinhas que tiraram cursos de odontologia e engenharia ambiente, mas gostam mesmo é de ganhar dinheiro no bordel. Não me parece grandemente educativo. Para adultos, tudo bem, mas nesse caso deveria passar para os canais de acesso restrito, e só veria lixo quem gostasse mesmo de lixo.

domingo, julho 27, 2008

Casos da vida - Andreia


A vida é que está difícil, por isso dorme com os amigos e eles pagam-lhe. E os amigos dos amigos. E os amigos dos amigos dos amigos. Até uns que vieram agora de férias da Alemanha, luso-descendentes.
Andreia arranjou este esquema para evitar ser prostituta.


quinta-feira, dezembro 13, 2007

Depoimento: adoro sexo e preciso de me entreter


Licenciei-me em Comunicação Social, trabalho em part-time no atendimento de uma empresa de telecomunicações, e, para me distrair, criei um blogue muito giro onde escrevo manifestos sobre a liberdade sexual das mulheres do sexo XXI, e as vantagens terapêuticas do sexo anal, do bondage, e isso. Para além do mais, sou casada, e adoro sexo, mas o meu marido, que é professor de Filosofia numa escola de Sacavém, e traz quilos de testes para corrigir, acaba por não ter tempo para me satisfazer como gosto, ou seja, imenso à bruta. Há uns meses fiz-lhe um ultimato, e atirei-lhe: "Toni, desculpa, mas não pode ser: não quero ficar ressabiada como a Isabela; sabes bem que preciso de, pelos menos, tipo... um, dois orgasmos por dia; portanto, se não podes, vou buscá-los onde existem: passo a prostituir-me para gozar. Porque quero gozar, gozar doidamente, aqui, acolá, e mais adiante, e ninguém tem nada a ver com isso. Aproveito e ganho mais qualquer coisa para a gasolina e o cartão de crédito, livre de impostos. Junto o útil ao agradável".
Respondeu-me ele, levantando os olhos de um trabalho sobre Descartes, integralmente copiada da internet, "fazes bem, querida; antes das férias do Natal, não só não tenho tempo para ti, como nem pensar em levar-te ao clube de swing. A prostituição não tem mal nenhum, e, se eles te chamarem puta, pelo menos sabes que não é do entusiasmo da função. Entretens-te. Se gostas... Por mim... Tu é que sabes... Eu, para dizer a verdade, tenho é medo que te enchas de celulite estando parte do dia sentada no call center; e esquece a ideia de te inscreveres para as limpezas do Almada Fórum. Sabes bem que a lixívia te descasca a pele toda, para além de que espirras com o cheiro dos detergentes. Pede a carrinha emprestada à minha irmã, que ela agora já só trabalha no Passerele, e não te esqueças de levar rolos do papel de cozinha e toalhetes refrescantes."

Quando for grande a minha mamã quer que eu seja puta


Olha, eu cá, quando acabei a licenciatura em Estudos Portugueses meti-me nas limpezas do
Almada Fórum, mas depois a minha mãe começou a dizer que não era higiénico andar a limpar resquícios de fluídos alheios, mais a vergonha da bata, das luvas, da touca, e o que é que os vizinhos iam dizer se me reconhecessem, e porque é que eu não ia para puta, e que ganhava mais, e sempre era actividade liberal com horário flexível, e pronto, cá estou.
Hoje está um briol! Não tens os pés gelados?

domingo, dezembro 09, 2007

Os que têm vergonha de ser feministas

Foto: Craig Buchan, Boot


Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm vindo a substituir os que consistiam no tráfico de droga. A maioria das vítimas são mulheres oriundas dos países da ex-URSS, África e Brasil, usadas como matéria-prima no mercado da prostituição ocidental.
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?

terça-feira, maio 16, 2006

O valor da dignidade

O tráfico de drogas, armas, influências, órgãos, pessoas constitui uma profissão? E o lenocínio? E a corrupção? Vamos imaginar a seguinte situação: precisamos de preencher um impresso escolar para fins estatísticos. Profissão da mãe? Traficante de crianças africanas para fins de escravidão ou extracção de órgãos; profissão do pai? Pedófilo de média dimensão. Rimo-nos pela incredulidade, mas pessoas destas cruzam-se connosco na rua, moram ao nosso lado e vivem do lucro que fazem no exercício da actividade ilegal. Aquilo que torna a tarefa ilegítima aos nossos olhos não é a troca comercial de moeda ou serviços, mas o facto de ser indigna tanto para quem exerce como para quem se sujeita à prática ou a estimula; o consentimento ou dependência do corrompido não altera a natureza da indignidade. É indigno para os envolvidos independentemente do papel que desempenham. É-o mesmo que não tenham consciência da injustiça. Uma coisa é a indignidade e a injustiça, outra a responsabilização e criminalização pelo acto cometido. Ou seja, o traficante, o corrupto e o pedófilo também praticaram injustiça e indignidade sobre si, o que não atenua a sua culpa.
Isto é tudo difícil de perceber, porque, como qualquer ciência, assenta sobre o pressuposto de conhecimentos adquiridos em fase primária, formal ou informalmente. O que é a dignidade?
Ser indigno não é um problema que atormente a maioria do seres humanos: não se conhece bem o significado do vocábulo, embora já se tenha ouvido a outros, sem perceber o contexto. Portanto, a indignidade não é obrigatoriamente intencional; também acontece ser-se digno: acerta-se aleatoriamente, como se fosse um 5 no totoloto.
Se formos para a rua perguntar às pessoas se se sentem indignas, é provável que metade delas nos diga que não, que nunca teve isso, embora saiba de um tio que vai três vezes por semana ao hospital fazer tratamento numa máquina por onde entra o sangue e depois sai filtrado.



Foto de Gregory Colbert

Somos aparentemente livres, relativamente prósperos, e sentimos que quase tudo nos é permitido. Insultar outro, agredi-lo, não é grande problema. Há quem defenda que a desigualdade e a injustiça, como não se podem solucionar sem perigo de irremediável desestruturação económica, devem ser socialmente aceites e tributadas. Problema seria não ter uma pen para guardar informação do disco ou querer um fato da Gant para ir trabalhar e não poder comprá-lo. Problema é não ter um leitor de mp3 ou uma câmara digital. Ou um ailleron.
A dignidade é um princípio moral, mas por aqui também me meto em trabalhos. O que é um princípio? E a moral? Adiante, para facilitar a comunicação, digamos que a dignidade implica que encaremos a nossa existência humana exactamente como se encara o símbolo do nosso clube de futebol. Orgulhamo-nos do que simboliza. Não queremos queremos vê-lo sujo nem rasgado. Não queremos que o usem para fins inapropriados, que o desrespeitem. O nosso clube de futebol não é o melhor na medida em que ganha os jogos todos. Não; mesmo que perca é bom, está é em baixo de forma. O nosso clube de futebol é um valor indiscutível. Como um diamante. O valor de um diamante não depende da sua utilidade. Pode nunca sair de um saco de veludo e mantém o valor. É riqueza. A dignidade é mais ou menos isso. Como se fôssemos um clube de futebol cuja claque somos nós. Como se fôssemos, para nós, a garantia de um diamante dentro de um saco de veludo, dentro de uma gaveta.



Foto de Gregory Colbert

Há realmente práticas indignas universal e intemporalmente. Não creio que alguém se sinta orgulhoso por ter um filho corrupto. Que espalhe a notícia. “Ah, o meu filho está muito bem, entrou para a corrupção, e a minha nora ajuda na contabilidade.”
Isto é lógico, para mim, mas não tenho a presunção que o seja para todos. É óbvio que há tantos advogados da indignidade como do diabo; é possível vesti-la bem, dar-lhe bom ar e inocentá-la. Há quem pretenda dar-lhe nome de firma. Pessoalmente, mesmo contemplando heróis e heroínas românticos não creio que a dignidade seja relativa. Um pícaro pode ser superlativamente inteligente, atraente e divertido na sua indignidade, mas não digno. Ou pode ser digno e indigno, conforme o destinatário ou o contexto. Ou pode aparentar ou construir uma aparência de indignidade e nunca ter corrompido o coração. A dignidade não é extrínseca nem visível a olho nu.

Da indignidade da prostituição

A de quem a promove e a daqueles sobre os quais é exercida

As pessoas que defendem a prostituição como actividade profissional não desejariam que as suas filhas se prostituíssem. Seria indigno. Imoral. É assunto que nem merece discussão, embora as putas sejam filhas de alguém, eventualmente nossas.
Algumas pessoas usam os referidos serviços; outras não, mas quase todas têm a certeza que as prostitutas são ladras, devassas, têm o que procuraram e merecem-no, porque gostam de sexo. Os prostitutos que vão com homens têm justificação: precisavam porque ficaram desempregados ou tiveram azar na vida, arranjaram vícios que tinham de pagar. Não gostam, tornou-se uma fatalidade. Os prostitutos para mulheres são sortudos. Quem é que não queria estar na pele deles? Receber para foder, no hotel, umas gajas esfomeadas?! Quem é que não ia de graça?
Alguns dos leitores do texto anterior, que defendem a prostituição como actividade profissional, também votam contra a interrupção voluntária de gravidez das prostitutas e das outras, contra a descriminalização do consumo de droga, e consideram que a única forma de se acabar com o tráfico seria condenar essa corja à pena de morte, bem como os pedófilos. Os corruptos deviam apodrecer na cadeia por andarem a roubar quem necessita.
Quanto à prostituição, é uma actividade profissional como qualquer outra, sujeita às leis da oferta e da procura. Uns precisam de um serviço e outros estão disponíveis para o prestar, portanto é como se chamássemos o canalizador. Nenhuma indignidade aqui.
Este fim-de-semana perguntei a um amigo, por curiosidade, se já tinha frequentado prostitutas; respondeu-me que não, bastante indignado. Como me calei, acrescentou que conhecia quem tivesse ido e lhe garantisse que a relação qualidade-preço não justificava. Era muito dinheiro para meia hora de mau serviço, regra geral.
Aquilo que na nossa cultura distingue prostitutas e prostitutos, e os justifica ou não, continua a basear-se numa diferente taxinomia dos sexos no que reporta ao direito à sexualidade e ao prazer. As prostitutas gostam mais do que as outras, e permitem uma prática cuja condição depende de um valor monetário, logo têm o que merecem. São putas. À partida, sobretudo para os homens, mas não exclusivamente, todas as mulheres que gostam de sexo são putas. As que levam dinheiro são putas más. As que vão de graça são putas parvas; não merecem mais respeito, mas sai mais barato e, por isso, são putas melhorzinhas. A questão não é a dignidade do sexo praticado, mas o preço que se paga por ele. Para muitas pessoas a sexualidade é sempre indigna, inclusive a sua. E estas são as que mais usam a prostituição.
É tácito que os homens gostam de sexo; gostar de sexo não os desonra perante os amigos ou a família; não os torna vadios nem dignos de censura. Pelo contrário. As raparigas espevitadas é que trilham mau caminho e são malucas; para os rapazes é a ordem da natureza, e, desde que usem preservativo, não existe problema. Ajuda-os a fazerem-se homens. Às mulheres, ajuda-as a ser putas mais cedo. Para que a relação mulheres-sexo seja socialmente pacífica, elas não poderão ser agentes, mas sujeitos. Vejamos o caso em que são elas quem compra o serviço de prostitutos. Não é uma prostituição menor. Mas se o consumidor for uma mulher, o prostituto é desculpabilizado e mantém intacta a sua dignidade. A desonra recai, neste caso inversamente, sobre quem consome. Elas é que são as putas.
Hoje, os valores humanos e as questões de dignidade pessoal e social são superadas pela sua utilidade económica. No entanto, e lá volto eu, há actos que permanecem iguais na sua natureza. É óbvio que se o tráfico de órgãos fosse legalizado e tributado, estes poderiam chegar ao destino em melhores condições, e mais rapidamente, optimizando o sucesso das cirurgias. Não tornaria o tráfico mais digno ou aceitável, embora regulamentasse condições e preços.
Não creio que obrigar prostitutas e prostitutos a manter uma tabela de preços actualizada dignifique o acto. O carácter obrigatório do uso de preservativo e da desinfecção de utensílios ou roupa de trabalho, bem como a limpeza obrigatória dos estabelecimentos, não legitimam a actividade, porque não a dignificam – garante mais limpeza. A pedofilia de quem toma banho todos os dias não é diferente da daquele que vê água e sabão só aos domingos. A limpeza do objecto de desejo também não altera a natureza do que é praticado. O carácter voluntário da prestação de serviços, ou o preço que se paga, igualmente não o dignifica. Um pedófilo não é menos culpado porque pagou bem a uma criança, ou porque a miúda tinha as hormonas em estado de sítio e queria tanto ou mais do que ele. Em literatura, considero Lolita uma belíssima obra, e aconselho-a. Na vida, a provocadora Lolita é tão vítima como a sua mãe, e o amor-obsessivo que o protagonista desenvolve por ela não branqueia o que ali se passa de indignidade.



Roy Lichtenstein, Ball of Twine, 1963


Os objectos, as ideias, os valores não são apenas o que deles compreendemos, mas o que realmente são. Podemos pensá-los e usá-los de diferente forma, nas não os modificamos. As putas e os clientes podem gostar do que fazem, mas isso não torna a prostituição defensável. Nem a pedofilia. Nem o tráfico. Nem a corrupção.
Um adolescente compreende facilmente a Alegoria da Caverna. Sabe distinguir entre objecto real e a sua sombra, o que é real e o que fazemos parecer real. Aquilo que julgamos ser e o que realmente somos. O bem e o mal, o certo e o errado. O claro e escuro convivem e geram equilíbrios. É essa a natureza dos opostos: equilibrarem-se. A vida resulta desse equilíbrio. Mas o claro não é escuro nem o escuro, claro. A indignidade da prostituição não reside na prática de sexo, mas na inadequação desse consumo ao que é imaterial num corpo. É muito bom que o corpo possa ser usado para atingir satisfação, saciedade. Mas nem tudo o faço do meu corpo, ou do corpo alheio, o nobilita. Por exemplo, se defender que o canibalismo ou o assassínio são actos indignos, não causarei controvérsia. A automutilação também constituí uma forma pouco saudável de usar o corpo. Na verdade, sentimos que o corpo imaterial não é próprio para determinados fins. E é essa inadequação que suja e rasga na(o) prostituta(o) o diamante que é o seu sopro de vida, as suas ilusões infantis, o que guarda na memória, o rosto do pai e da mãe, um cachorro que morreu, aquilo que amou. O consumidor precisa de apagar na prostituta a mulher, para a ressuscitar como indigna, e dessa forma comete o crime do qual depende o seu prazer.
Por outro lado, a rentabilidade do corpo prostituendo baseia-se na assumpção de indignidade da imaterialidade que o anima. Ou se é puta ou se é digna. Para o consumidor não há dignidade no próprio consumo. Como se fôssemos ao supermercado comprar iogurtes e escolhêssemos, por prazer, e para consumo, os estragados.
Mas maginemos que uma irmãzinha de caridade se prostituía para conseguir fundos que ajudassem ao tratamento da lepra numa dada população. A irmãzinha é pura, claro. Embora rezasse devotadamente todos os dias, e o seu espírito não pudesse tornar-se impuro por uma actividade a que se entregava como forma de angariar fundos para a caridade, e todos o soubessem, a irmãzinha transformar-se-ia, para o consumidor, numa puta indigna, sendo que esta expressão é uma redundância. Uma freirinha que se prostitui não é freira, é puta. Tornou-se um produto estragado; o prazer que tiro do seu consumo depende da impureza com que passei a considerá-lo.
Nunca fui ao Bom Dia, Portugal e, portanto, aceito que não me concedam créditos para abordar o assunto, mas posso aconselhar uma visita ao site da Associação O Ninho, dirigida por Inês Fontinha, que há 40 anos dá apoio a prostitutas, e fala disto muito melhor que eu.
O ano passado, Inês Fontinha foi candidata ao Nobel da Paz, mas, para muitos, Inês Fontinha, não passa de uma como as outras, porque quem se junta a um coxo...

terça-feira, março 07, 2006

Da prostituição enquanto carreira profissional


Este fim-de-semana li uma reportagem sobre prostitutos que andam por aí a satisfazer mulheres sozinhas como eu. Ou mulheres acompanhadas. Dizem eles que salvam casamentos; quer dizer, mantém o produto dentro da embalagem, embora podre.

Os rapazes são alegadamente bem constituídos, pelo menos eles acham, e as clientes, talvez, se é que isso importa.
Andam na vida há uns meses, apenas. Rende. A mulheres não lhes exigem muito; algumas querem apenas falar.
Afirmam que muitas vezes não sentem prazer, que é só um trabalho. E que às vezes lhes custa estar com mulheres de que não gostam. Grande novidade.
A reportagem não trazia nada de novo, a não ser o facto de se tratar de homens, não de mulheres, no negócio do sexo. Isto passa-se exactamente assim com as prostitutas, com uma provável diferença: talvez os homens queiram falar menos e despachar mais serviço.

Também coloco algumas questões que me parecem merecer atenção.
A prostituição passou a poder designar-se profissão a partir do momento em que se tornou público que os homens se prostituíam?
A prostituição masculina “legitima” a actividade?
O fenómeno da banalização da prostituição masculina significa que existe hoje mais igualdade, porque homens, afinal, também descem ao subsolo das mulheres, tornando-o menos subsolo, portanto menos indigno - e vamos já fundar sindicatos, ordem profissional, cobrar-lhes IRS, porque os homens, desculpem, os prostitutos têm de ser protegidos?


Houve, aqui, salvo erro em Junho/Julho - veja-se nos arquivos - cerrado debate sobre o assunto: legalização e consequente regulamentação dos serviços de prestação de sexo. Andámos quase à pancada, salvo seja.
Manifestei-me contra, entre todos, sozinha, porque, para mim, a prostituição implica uma desumanização para quem a pratica. Escrevi, na altura, que nenhuma criança sente orgulho em dizer, na escola, “o meu pai ou a minha mãe são prostitutos, ou andam no alterne”. Em Pretty Woman, a personagem a que Júlia Roberts dá corpo, também não quer continuar na “vida”. Quer romance. Podemos admirar-nos, “a ganhar tão bom dinheiro, com clientes tão bonitos, a mulher é parva!”

A dignidade da pessoa humana, a sua auto-estima são questões fundamentais. Há uns anos valentes fiz uma reportagem para o falecido A Capital sobre prostitutas que recebiam apoio na associação O Ninho. Há um dado que não consegui esquecer: a maior parte daquelas mulheres, quase todas escolarizadas, desaprendeu a leitura e a escrita. E, de aritmética, sabia o suficiente para fazer a soma às horas que gastavam com os clientes. Deixaram de saber escrever o nome. Assiná-lo. Do ponto de vista simbólico, desaprender o nome, a assinatura, é grave. Do ponto de vista simbólico, é a literal perda do eu, e só muita indignidade, muita degradação podem causá-lo.
Não concebo forma de se defender a ascensão da prostituição a carreira profissional.
No entanto, concebo que os prostitutos e prostitutas são cidadãos e cidadãs com direitos e deveres, até ao momento em que querem e conseguem exercê-los, e que, portanto, têm direito a tudo o que a Lei consagra para outros. Igualmente, não penso que a guetização da actividade seja favorável. Não é. Mas a sua legalização, enquanto profissão, assusta-me do ponto de vista da moral. Não da moralzinha imoral do Diácono Remédios, mas da moral – talvez da moral cristã. Porque estou formada nela.
A prostituição não se vai extinguir por ser, na maior parte dos casos, indigna e degradante - os depoimentos, recentemente publicados, de prostitutas de luxo que apenas precisavam do dinheiro para comprar melhores alfinetes, e que começaram por se divertir, chegam, a certo ponto, à inevitável admissão dessa ruína pessoal.
Penso que deveria inventar-se uma posição intermédia, como se conseguiu (conseguirá!) na questão do aborto. Ninguém pensa que o aborto seja grande coisa, na verdade. No entanto, exactamente por uma questão de dignidade pessoal de quem gera e de quem será gerado, porque o ideal é assegurar condições de vida não degradantes para ambos, considera-se que a interrupção voluntária da gravidez é um mal menor, portanto admissível. Mas não é assunto válido para promoção. Apenas solução última. De recurso.
Concordo com a prestação de apoio aos “trabalhadores do sexo”. Mas continuo a não concordar com a legalização e correspondente tributação dos referidos serviços, por muito interessante que isso possa parecer aos olhos da não-sei-quê liberal.
A libertação sexual, nos casos em que já se deu, foi excelente conquista, mas não se confunda com prostituição. Prostituição não é liberdade sexual. Prostitutos(as) e respectivos clientes estão todos aprisionados a algo. Demasiado aprisionados.
No entanto, continuo disponível para ouvir outros argumentos. Precisamos de soluções.

quarta-feira, julho 20, 2005

Da prostituição - duas mulheres III

Conceição anda pelos 60 anos.
(...)
Veste um tailleur azul e uma camisa branca de uma seda tão verdadeira como as verdades que conta aos fihos e à família: "A minha filha nem sonha. Mesmo que estranhe onde arranjo o dinheiro para os presentes que lhe dou, não pergunta. Consegui dar-lhe uma licenciatura e proporcionar-lhe um bom casamento. Ele também é doutor e tem um cargo importante.

Isabelinha nº2 formou-se e tem emprego certo. Agora está grávida de gémeos. É a primeira vez, e preocupa-se. Vai ser mãe solteira. Duas crianças...
O dinheiro para as fraldas, o pediatra... tudo a dobrar.


(Excerto transcrito de “Mulheres da Praça”, de Pedro Coelho, Única, Expresso, nº 1704, de 25 de Junho de 2005)

Da prostituição - duas mulheres II

“Se não morrer antes, só posso sair quando pagar a casa; está quase”, diz.
(...)
Isabelinha fala pouco e baixo, mas trabalha muito. Numa noite muito fria de um dia muito quente, Isabelinha subiu três vezes a escada da pensão, com três clientes diferentes. De cada vez, descia 20 minutos depois.
Conceição, há 30 anos na mesma esquina, riu-se quando lhe perguntámos o segredo de Isabelinha: “É o preço, leva 15 euros, paga ela o quarto e aceita sem preservativo”. Isabelinha confirma o preço, mas desmente a falta de protecção: “sem camisinha, nunca. Elas até dizem que eu transmito doenças. Inveja!”

Isabelinha número dois tem a casa para pagar. Vai reformar-se antes. Se morrer antes, o seguro de vida liquida a hipoteca. Os bancos pensam em tudo.

(O excerto transcrito de “Mulheres da Praça”, de Pedro Coelho, Única, Expresso, nº 1704, de 25 de Junho de 2005)

Da prostituição - duas mulheres

Texto de partida: reportagem “Mulheres da Praça”, de Pedro Coelho, Única, Expresso, nº 1704, de 25 de Junho de 2005

Isabelinha, prostituta na Praça da Figueira, depois das duas sovas que lhe deu a “colega”, por inveja, “nunca mais foi a mesma, anda meio longe...”
Isabelinha tem 73 anos, os cabelos louros, a pele muito branca e não sabe ler nem escrever. Se soubesse, poderia assentar as ofensas de que é alvo, por parte da outra - "a assassina" - tudo derivado das saias que veste, terminadas “quinze centímetros abaixo da cintura”.
Se assentasse as coisas, lembrar-se-ia.

Isabelinha nº2 não é prostituta. Não recorda grande coisa da vida que viveu entre os 13 e os 23 anos. Guarda uma ideia geral; talvez a imagem viva de 2 ou 3 “slides” a cores.

quinta-feira, junho 09, 2005

Ligação


Foto - Helmut Newton

(Os outros blogs provocam-me!)

Não vivi a miséria nem a desgraça. As minhas necessidades básicas sempre puderam ser satisfeitas e, quando não puderam, era já suficientemente forte para lhes sobreviver com dignidade. Não sei o que significa ter fome de pão nem, na verdade, de algum amor. Isto fez de mim uma pessoa particularmente venturosa. Penso nisso com frequência quando me apanho a queixar-me de barriga cheia. E se eu não tivesse tido o suficiente? E se a vida me tivesse levado a uma situação em que precisasse de sobreviver e não tivesse como? Prostituía-me? Teoricamente, pelo que julgo saber de mim, a resposta é clara: obviamente que me prostituía! Prostituía-me para manter a vida intacta e para garantir a vida aos meus. Mas sei, igualmente, que isso destruiria, sem remédio, parte de mim. O amor por mim. O amor pelo outro. Teria de me insensibilizar. Amortecer. Ou seja, embrutecer. Não olhar para um corpo enquanto corpo. Não enfrentar o meu, não pensar nele. Abdicar do meu desejo.
A venda dos serviços que um corpo pode prestar a outro, embora gere rendimento, no nosso mundo, nao é uma actividade comerciável. O sexo não é comerciável. É poderoso, de facto; transforma os agentes; marca-os uns aos outros; por vezes, uns nos outros. Mas não é uma prática meramente física. Quer dizer, para mim não é. A mim, marca-me.
O C.B. deixou um comentário, noutro blog, há uns tempos, afirmando que, se apenas fodemos, estamos fodidos. E eu penso isso mesmo. O sexo não é uma brincadeira inofensiva. As prostitutas e os prostitutos fodem, mas fodem-se também. Ora, cá para mim, ninguém se fode por gosto.
Alguns homens têm a ideia que as mulheres se divertem, prostituindo-se, que gostam "daquilo". Se eu fosse prostituta, esmerar-me-ia para aparentar que gostava daquilo, que gostava mesmo muito daquilo, e que cada cliente era único e insuperavelmente macho - desde que se despachasse, pagasse bem e eu pudesse ir fazer outro rapidamente!
Alguma cultura dá-nos da prostituição uma imagem de amor livre. Alguma história mostra-nos que as prostitutas chegaram a desempenhar papéis sociais influentes, relevantes. Mas a prostituição não é livre nem atribui estatuto social. Pelo contrário, destrói estruturas espirituais e intelectuais. Não constitui, regra geral, uma prática de prazer para quem presta o serviço. Concordo que apertar parafusos durante oito horas por dia também não seja - mas continua a ser diferente. Se pudesse salvar a minha vida e a dos meus, apertando parafusos, e pagando impostos disso, escolhê-lo-ia. Que destruísse os olhos, mas que conservasse o espírito ileso à espera de oportunidade de fuga. A prostituição é um caminho que se faz em desesperança, mesmo quando é o primeiro, porque não se conhece nenhum outro.
Em tempos contactei algumas prostitutas ligadas à associação O Ninho. Fui colocada perante mulheres que tinham regredido ao ponto de terem desaprendido de ler e escrever. Que violência é essa, exercendo-se numa dimensão com poder para extinguir a capacidade da leitura e da escrita?
Claro que herdei um pensamento sexual. Mas a ligação (link: tocar e aceder de forma imediata!) que alcançamos através do sexo transcende a cultura e, na minha experiência, entra em esferas não taxáveis. Consciente dos riscos decorrentes desta afirmação, sinto que pode existir no sexo algo de "sagrado". Uma genuína consagração.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...