As pessoas que defendem a prostituição como actividade profissional não desejariam que as suas filhas se prostituíssem. Seria indigno. Imoral. É assunto que nem merece discussão, embora as putas sejam filhas de alguém, eventualmente nossas.
Algumas pessoas usam os referidos serviços; outras não, mas quase todas têm a certeza que as prostitutas são ladras, devassas, têm o que procuraram e merecem-no, porque gostam de sexo. Os prostitutos que vão com homens têm justificação: precisavam porque ficaram desempregados ou tiveram azar na vida, arranjaram vícios que tinham de pagar. Não gostam, tornou-se uma fatalidade. Os prostitutos para mulheres são sortudos. Quem é que não queria estar na pele deles? Receber para foder, no hotel, umas gajas esfomeadas?! Quem é que não ia de graça?
Alguns dos leitores do texto anterior, que defendem a prostituição como actividade profissional, também votam contra a interrupção voluntária de gravidez das prostitutas e das outras, contra a descriminalização do consumo de droga, e consideram que a única forma de se acabar com o tráfico seria condenar essa corja à pena de morte, bem como os pedófilos. Os corruptos deviam apodrecer na cadeia por andarem a roubar quem necessita.
Quanto à prostituição, é uma actividade profissional como qualquer outra, sujeita às leis da oferta e da procura. Uns precisam de um serviço e outros estão disponíveis para o prestar, portanto é como se chamássemos o canalizador. Nenhuma indignidade aqui.
Este fim-de-semana perguntei a um amigo, por curiosidade, se já tinha frequentado prostitutas; respondeu-me que não, bastante indignado. Como me calei, acrescentou que conhecia quem tivesse ido e lhe garantisse que a relação qualidade-preço não justificava. Era muito dinheiro para meia hora de mau serviço, regra geral.
Aquilo que na nossa cultura distingue prostitutas e prostitutos, e os justifica ou não, continua a basear-se numa diferente taxinomia dos sexos no que reporta ao direito à sexualidade e ao prazer. As prostitutas gostam mais do que as outras, e permitem uma prática cuja condição depende de um valor monetário, logo têm o que merecem. São putas. À partida, sobretudo para os homens, mas não exclusivamente, todas as mulheres que gostam de sexo são putas. As que levam dinheiro são putas más. As que vão de graça são putas parvas; não merecem mais respeito, mas sai mais barato e, por isso, são putas melhorzinhas. A questão não é a dignidade do sexo praticado, mas o preço que se paga por ele. Para muitas pessoas a sexualidade é sempre indigna, inclusive a sua. E estas são as que mais usam a prostituição.
É tácito que os homens gostam de sexo; gostar de sexo não os desonra perante os amigos ou a família; não os torna vadios nem dignos de censura. Pelo contrário. As raparigas espevitadas é que trilham mau caminho e são malucas; para os rapazes é a ordem da natureza, e, desde que usem preservativo, não existe problema. Ajuda-os a fazerem-se homens. Às mulheres, ajuda-as a ser putas mais cedo. Para que a relação mulheres-sexo seja socialmente pacífica, elas não poderão ser agentes, mas sujeitos. Vejamos o caso em que são elas quem compra o serviço de prostitutos. Não é uma prostituição menor. Mas se o consumidor for uma mulher, o prostituto é desculpabilizado e mantém intacta a sua dignidade. A desonra recai, neste caso inversamente, sobre quem consome. Elas é que são as putas.
Hoje, os valores humanos e as questões de dignidade pessoal e social são superadas pela sua utilidade económica. No entanto, e lá volto eu, há actos que permanecem iguais na sua natureza. É óbvio que se o tráfico de órgãos fosse legalizado e tributado, estes poderiam chegar ao destino em melhores condições, e mais rapidamente, optimizando o sucesso das cirurgias. Não tornaria o tráfico mais digno ou aceitável, embora regulamentasse condições e preços.
Não creio que obrigar prostitutas e prostitutos a manter uma tabela de preços actualizada dignifique o acto. O carácter obrigatório do uso de preservativo e da desinfecção de utensílios ou roupa de trabalho, bem como a limpeza obrigatória dos estabelecimentos, não legitimam a actividade, porque não a dignificam – garante mais limpeza. A pedofilia de quem toma banho todos os dias não é diferente da daquele que vê água e sabão só aos domingos. A limpeza do objecto de desejo também não altera a natureza do que é praticado. O carácter voluntário da prestação de serviços, ou o preço que se paga, igualmente não o dignifica. Um pedófilo não é menos culpado porque pagou bem a uma criança, ou porque a miúda tinha as hormonas em estado de sítio e queria tanto ou mais do que ele. Em literatura, considero
Lolita uma belíssima obra, e aconselho-a. Na vida, a provocadora Lolita é tão vítima como a sua mãe, e o amor-obsessivo que o protagonista desenvolve por ela não branqueia o que ali se passa de indignidade.
Roy Lichtenstein, Ball of Twine, 1963
Os objectos, as ideias, os valores não são apenas o que deles compreendemos, mas o que realmente são. Podemos pensá-los e usá-los de diferente forma, nas não os modificamos. As putas e os clientes podem gostar do que fazem, mas isso não torna a prostituição defensável. Nem a pedofilia. Nem o tráfico. Nem a corrupção.
Um adolescente compreende facilmente a Alegoria da Caverna. Sabe distinguir entre objecto real e a sua sombra, o que é real e o que fazemos parecer real. Aquilo que julgamos ser e o que realmente somos. O bem e o mal, o certo e o errado. O claro e escuro convivem e geram equilíbrios. É essa a natureza dos opostos: equilibrarem-se. A vida resulta desse equilíbrio. Mas o claro não é escuro nem o escuro, claro. A indignidade da prostituição não reside na prática de sexo, mas na inadequação desse consumo ao que é imaterial num corpo. É muito bom que o corpo possa ser usado para atingir satisfação, saciedade. Mas nem tudo o faço do meu corpo, ou do corpo alheio, o nobilita. Por exemplo, se defender que o canibalismo ou o assassínio são actos indignos, não causarei controvérsia. A automutilação também constituí uma forma pouco saudável de usar o corpo. Na verdade, sentimos que o corpo imaterial não é próprio para determinados fins. E é essa inadequação que suja e rasga na(o) prostituta(o) o diamante que é o seu sopro de vida, as suas ilusões infantis, o que guarda na memória, o rosto do pai e da mãe, um cachorro que morreu, aquilo que amou. O consumidor precisa de apagar na prostituta a mulher, para a ressuscitar como indigna, e dessa forma comete o crime do qual depende o seu prazer.
Por outro lado, a rentabilidade do corpo prostituendo baseia-se na assumpção de indignidade da imaterialidade que o anima. Ou se é puta ou se é digna. Para o consumidor não há dignidade no próprio consumo. Como se fôssemos ao supermercado comprar iogurtes e escolhêssemos, por prazer, e para consumo, os estragados.
Mas maginemos que uma irmãzinha de caridade se prostituía para conseguir fundos que ajudassem ao tratamento da lepra numa dada população. A irmãzinha é pura, claro. Embora rezasse devotadamente todos os dias, e o seu espírito não pudesse tornar-se impuro por uma actividade a que se entregava como forma de angariar fundos para a caridade, e todos o soubessem, a irmãzinha transformar-se-ia, para o consumidor, numa puta indigna, sendo que esta expressão é uma redundância. Uma freirinha que se prostitui não é freira, é puta. Tornou-se um produto estragado; o prazer que tiro do seu consumo depende da impureza com que passei a considerá-lo.
Nunca fui ao Bom Dia, Portugal e, portanto, aceito que não me concedam créditos para abordar o assunto, mas posso aconselhar uma visita ao site da Associação O Ninho, dirigida por Inês Fontinha, que há 40 anos dá apoio a prostitutas, e fala disto muito melhor que eu.
O ano passado, Inês Fontinha foi candidata ao Nobel da Paz, mas, para muitos, Inês Fontinha, não passa de uma como as outras, porque quem se junta a um coxo...