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terça-feira, janeiro 08, 2008

A vida antes do saco de plástico


Até aos anos 70, meados de 80

Íamos a pé à mercearia do bairro, ao sábado. Levávamos sacos de pano ou oleado e uma lista de géneros. Às vezes havia bicha. As outras mulheres entretinham-se conversando sobre a vida, os filhos, os maridos, as vizinhas, enquanto a dona Maria ia debitando o avio, "um pacote de açúcar, um pacote de cotovelinho, uma garrafa de azeite, esse não, dê-me do Galo; uma lata de salsichas das grandes, uma lata de atum Bom Petisco, não tem Bom Petisco?!, quando é que vem? então levo p'ra semana; um pacote de café de cevada, uma garrafa de vinho branco, qualquer uma que é para o marido; um pacote pequeno de caldos Knorr, um pacote de rebuçados do Dr. Bayard, esparguete, tem do Nacional?..."
Regressávamos carregadas com o avio da semana. A mercearia era suficientemente perto e familiar para lá darmos um pulinho quando faltava algo, de repente. Batíamos no vidro da porta, ou íamos chamar o proprietário a casa, "oh, senhor António, desculpe lá, mas preciso tanto de um pacotinho de erva doce para as castanhas. Venda-me um, se faz favor."
Se íamos à praça levávamos os mesmos sacos de pano ou oleado. Se aí nos deslocávamos de improviso, ou nos esquecíamos dos sacos, era necessário comprar um de plástico, ou dois; os vendedores penduravam-nos nas bancas e vendiam-nos a cinco escudos a peça. Gastar dinheiro num saco plástico, dos bons, que guardávamos religiosamente, era um drama. Evitava-se bastante.

Ideias importante a reter:

1. Aviávamo-nos todos as semanas, e os avios eram pequenos, consentâneos com o que podíamos transportar nos sacos das compras.

2. Já existiam supermercados, como o Jumbo, no Centro Sul, onde se ia muito de vez em quando, mas não se tinha dada a explosão de hipermercados, a qual veio rebentar com o comércio tradicional. O consumo por atacado implicou a necessidade de sacos por atacado.

3. O lixo era depositado directamente do balde doméstico para o contentor. A campanha dos sacos surgiu posteriormente, dando utilidade aos que se traziam dos hipermercados.

Era outra vida. Impor limites ao uso de sacos de plástico implica, de alguma forma, voltar a um estilo de vida passado. Por mim, no que respeita às mercerias de bairro, venha ele. O pior são os contentores do lixo.

sábado, dezembro 08, 2007

Cada época tem o António Ferro que merece

Dadinho Pitão é a favor do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP), porque não suporta vê-los pendurados, com o objectivo de afugentar pombos, nas varandas das avenidas elegantes e Lisboa, isto é, Estados Unidos da América, Roma e transversais. Ah, Dadinho, que amofinação hein?! Só as ruas permanecem elegantes, de resto, que chusma de pindéricos plastique-nouveaux-riches!

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Aguenta e não chora (uma crónica sobre altas finanças)


O Governo pretendia acabar com a poluição mediante a tributação do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP). Portanto, eu que já uso os do supermercado para colocar o lixo doméstico, sendo que os preços dos produtos comprados no Jumbo incluem os gastos da empresa com os ditos, e portanto nem sequer são à borla, passaria a pagar acrescidos cinco cêntimos por cada unidade. Parece-me bem. A algum sítio tem o governo do cidadão Sócrates e conjurados de ir buscar receita, continuando a deixar por resolver os fracassos estruturais, todos culturais, de que padecem as finanças da nação.
Fiquei muito satisfeita, logo de manhã. Ia no carro para a fábrica, ouvi a notícia na TSF, e passei o resto do dia sorrindo. Imposto sobre o saco de plástico: ah, leões! Podia ser finlandesa e ter a melhor educação do mundo. Podia emigrar para o Canadá e beneficiar de excelente Segurança Social. Tinha possibilidade de ir para a Suécia ganhar um bom ordenado. Se quisesse casava com o meu amigo espanhol, reproduzíamo-nos que nem ratos nas clínicas de fertilização humana, e receberia subsídios de maternidade uns atrás dos outros. Mas não, o que eu quero é mesmo ser portuguesa, porque me divirto mais.
Para que possamos não só resolver os nossos problemas ecológicos, como encher os cofres da nação e reduzir o déficit, à custa da pura exploração dos cidadãos, todos já de fio dental, ou seja, matar três coelhos de uma só cajadada, proponho os seguintes impostos: ainda no âmbito do plástico, temos outras realidades altamente poluentes e passíveis de taxa. Isto é só um supor, mas vejamos: Imposto sobre a Garrafa de Plástico (IGdP); Imposto sobre os Pacotes de Batatas Fritas, Bolycaos e outros Snacks (IPBFBeOS); Imposto sobre Embalagens de Legumes, Frutos Secos e Fruta Fresca, ou de Qualquer Natureza, Tipo Detergente, Shampô, Dentífrico e Etc. (IELFSeFFQNTDSDeE). E já agora, para que não se elimine apenas a poluição plástica, vamos à das latas: Imposto sobre Todo o Tipo de Lataria (ITTL). Quanto à quantidade de garrafas de cerveja largadas no chão das zonas da noite, muitas delas escaqueiradas: o impostozinho da ordem (IGCLCZN).
Como os postos de trabalho nas empresas de reciclagem diminuirão drasticamente, proponho um plano de acções de formação em processamento de impostos, custeadas pelos trabalhadores, os quais seriam integrados nas repartições de finanças, onde o trabalho se multiplicaria, mas tudo a recibos verdes.
Outros impostos que convinha ponderar devido ao elevado número de cidadãos a que se aplicariam: Imposto sobre a Respiração (IR) - com condições especiais para asmáticos; Imposto sobre o Cagalhão Canino (ICagaCan) - só para donos de cães ou simpatizantes. Neste caso, seria necessário criar uma Polícia do Cagalhão (PolCaga) ou, em alternativa, promover a denúncia entre vizinhos; como os vizinhos bufos são bastante poluentes da atmosfera social, só por existirem, criar-se-ia o Imposto sobre o Bufo (IBufa). Da mesma forma, proponho o Imposto sobre a Estúpidez (IEst), mas, neste caso, o Governo seria o principal contribuinte. Contudo, era apenas dinheiro a entrar e dinheiro a sair, para além de criar postos de trabalho, todos a recibo verde, cujo objectivo seria cobrar o imposto ao Governo e, numa fase posterior, receber o imposto do Governo.
Nunca imaginei a quantidade de interacções contribuitivas que o Imposto sobre o Saco de Plástico podia gerar, pelo que o considero mais uma das geniais ideias deste Executivo.

Sobre o assunto, mas num registo sério, valerá a pena ler este poste no Quarta República.

sábado, novembro 25, 2006

As feias

A dona Zulmira e a dona São, minhas vizinhas do 4º Dto e do 3º Fte, respectivamente, tinham algumas rugas na cara e diziam sentir-se diminuídas na sua beleza.
Não é que o problema da dona Zulmira e da dona São fossem as rugas: elas nunca foram bonitas, e não creio que isso as tenha alguma vez prejudicado no seu afã conjugal e procriativo. Sempre achei que as feias tinham muito mais saída. E tenho provas.
As duas acabaram de chegar do Brasil onde foram fazer operações plásticas. Olhem que não vos estou a mentir! Regressaram com a cara inchada, certo, mas sem rugas. Entretanto, a cara vem desinchando, e posso confirmar: adeus rugas, até ver. Bonitas, bonitas... é claro, eu não lhes posso dizer isto, mas bonitas elas nunca serão nem que se transformem no plástico itself.


quarta-feira, abril 19, 2006

Nós, é mais plástico

Não compreendo o que distingue o pensamento português do de outros povos. Reconheço-nos características comuns aos mediterrânicos e latino-americanos, que também se revelam emocionais. Vivi três meses com uma colombiana tão impressionantemente portuguesa que a temia. O desenrascanço também não é exclusivo nosso, a menos que Mc Gyver tenha sido inspirado pelos nossos emigrados no Novo Mundo.
Um dos fenómenos mentais que mais me intriga, nos portugueses, é o seu apreço pelo plástico, o mais reles de todos os materiais inorgânicos. O plástico tem utilidade; serve-me bem se for Tupperware ou uma bacia para lavar a roupa à mão. Isso dá jeito. Mas o plástico é um contentor aprazado, como um frasco de detergente para lavar o chão; de resto, o plástico é quase infeccioso. Faz umas próteses levezinhas para membros inferiores e superiores, e isso aceito.
Os portugueses amam devotadamente o plástico. Bibelots para a sala, a cozinha, a casa-de-banho, copos, pratos, toalhas, cortinados, naperons. O plástico é considerado garantia máxima de segurança; protege. Os sofás novos, por exemplo. Tive de ser eu a comprar uma coberta para conseguir que a tia Ermelinda rasgasse o invólucro de plástico que o conjunto em amarelo pele-de-pêssego trazia de fábrica. Aquilo colava-se-me às coxas; quando me levantava ouvia-se um barulho artificial, moroso, a plástico a separar-se da pele. Uma espécie de chlac, mas lento. E doía. Usa a manta que lhe ofereci, mas inconsolável, porque o plástico não tinha que se lavar, era só passar um paninho.
Os portugueses também adoram o paninho. “Enverniza o chão, depois é só passar um paninho.” “Põe tijoleira, depois é só passar um paninho”.
Para os portugueses, a realidade, a verdade, a exposição, é uma afronta, por isso o plástico lhes serve tão bem. É artificial. É falso por excelência.

Compor a morte

Foi Páscoa e cumpri a visita habitual ao cemitério. Reclamo bastante, mas vou, claro, que há muita outra coisa que detesto e faço.
Assim que entro no recinto dou largas à resmunguice. Começo nas campas cobertas de plástico moldado, a que chamam flores. Milhares de quilos de plástico ou de poliéster requeimado para obsequiar, lembrar os mortos.
Compreendo os rituais das culturas animistas, as oferendas aos espíritos: leite, frutos, flores. Acho bonito. Mas, flores em plástico? Ou seja, plástico? Colorir as campas de plástico para estarem sempre compostas?
Eis outra tara portuguesa, a de compor tudo. Não é fazer bem, é compor. Por outras palavras, atamancar. “Fazes isto e mais aquilo, e depois compões tudo para não se notar nada”. Que fique tudo compostinho. Atamancado. Não interessa o valor real, mas a aparência. Por exemplo, uma coisa é fazer a cama, outra é compô-la, puxar a roupa para cima, assim a modos de dar a ideia que está feita.
Quando os mortos estão bonitos, se é que isso existe, dizem, “estava muito compostinho”. Não interessa se já está a derreter há dois dias na casa mortuária, desde que permaneça compostinho.
O cemitério onde vou é destes modernos: está tudo enterrado em campa de terra durante seis anos, depois levantam-se os restos, e vão de restolhada para a vala comum ou compra-se uma gaveta ao município, onde se arrumam fémures e tíbias. É uma limpeza. Claro que, no exterior da gaveta, manda-se logo colar um belo arranjo de flores em plástico. Para ficar compostinho.

Operações plásticas

Os portugueses têm muita dificuldade em assumir que uma campa é apenas um buraco no chão onde um cadáver vai sendo consumido. Isto não se diz, da mesma forma que não se fala da morte como morte. Não se morre, “já lá está”, “Deus o tenha em descanso”, “paz à sua alma”. Os portugueses cobrem as campas de plástico porque dissimulam melhor a morte, protegem-na. E protegem-se dessa fatalidade.
No cemitério onde vou, a morte está demasiado exposta, e os familiares dos falecidos deram em plantar, sobre o ressalto das campas, uma vegetação própria de zonas de areia, que alastra como relva, rasteira, verde-escura, que se adapta bem a terrenos batidos pelo sol e sem água. Não vejo nada de mal. Plástico é que não.
Na última visita, porém, deparei-me com as seguintes instalações artísticas: numa determinada zona do cemitério, alguém mandou o coveiro “compor” a campa em forma de urna, e forrou-a com relva artificial, que coseu com as costuras para dentro, nos cantos, como se fizesse um estofo. Trabalho impecável. Logo, os familiares vizinhos copiaram a ideia, pelo que nessa zona existem meia dúzia de campas forradas a plástico verde. Aproximei-me e observei as obras. Nem Christo, o artista que empacota monumentos, se lembraria desta. Um cemitério de campas forradas a plástico verde com picos, imaculadamente cosidas em forma de urna. Na mesma zona, alguém provavelmente menos abonado, ou mais artista, e com notável vocação maçónica, ladrilhou a campa com mosaico para chão de cozinha, de diferentes cores e padrões; peças inteiras que lhe sobraram das obras. Tendo a superfície ficado muito aplanadinha, prantou-lhe por cima, contente, seguro, duas jarras do mais garrido plástico que já se viu em flor.

terça-feira, abril 04, 2006

Unha disfuncional



Sobre unhas de gel quero esclarecer o seguinte:

- não interessa o nome que lhes dão: são 100% postiças!
- a cataplasma de verniz que lhes colocam para disfarçar o desnível, na base, relativamente à unha natural que vai crescendo e empurrando para fora o postiço, é atrozmente feia!
- por muita graça que ache ao risco branco da manicure francesa, e às florzinhas, e à arte em unhas, que acho!, só tenho vontade de arrancar o meio metro de unha postiça branca que a mão da imagem ostenta!
- há várias actividades cuja realização se torna impossível, nomeadamente, descascar batatas, entalar a roupa da cama, abotoar seja o que for, escrever num teclado, and so on, em resumo, usar as mãos.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...