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terça-feira, fevereiro 03, 2009

O país onde se untam as mãos

Às oito da manhã já eu ouvia na Antena 1 os resultados da songadem da Católica relativos à possível contribuição do caso Freeport para a alteração da imagem do primeiro-ministro. Sorri. O que é que uma pessoa pode fazer senão esboçar um sorrisinho cínico?!
Tenho uma amiga sueca, mas por vergonha não lhe vou contar nada disto. Tem a mania de pôr muitas questões embaraçosas sobre determinados aspectos da nossa vida social e política, e pode ser que a notícia não chegue ao Báltico. Espero. No outro dia, perguntava-me ela porque é que o Fernando Mendes, do Preço Certo, tem uma menina em saltos altos e decotada para lhe tirar o casaco em pleno programa. Nunca tinha reparado. Ela repara em tudo. O que é que uma pessoa responde a isto?!
Conhecendo este povo como conheço, e conheço bem, um caso de corrupção não é coisa grave. Grave é ser-se doutor sem diploma, mas, por exemplo, aquilo que lhe dá origem, que é traficar influências para o obter, isso já é normal. Porque quem é que não paga umas luvazinhas? Quem é que não conhece um amigo de um tio?
Na minha família, que vem do cu da terra, sem apelidos com y ou consoante dobrada, poderia enumerar a quantidade de casos de corrupção que chegaram ao meu conhecimento. Uma cunha ali, dum padrinho que é doutor em leis, um favorzinho de um sobrinho, que é médico em Santarém... Sou do tempo em que se "untavam aos mãos" ao examinador para obter a carta de condução. Aliás, esta é uma expressão que toda a vida ouvi, "é preciso é untar-lhe as mãos", e faz parte indissolúvel da minha identidade cultural. Sou de um país onde se untam as mãos. Onde quer que vá é isso que lêem no meu passaporte, quando o apresento. Ainda no outro dia fui a Londres na Easy Jet para ver uma exposição na Tate, reparem como me cultivo, e assim que cheguei a Gatwick comecei logo a ouvir aos funcionários da alfândega, the flight coming from the paraise of bribery, sweet bribery, and so on. Ouvia-se distintamente. Todo o mundo sabe.
Depois, é preciso distinguir: a nossa corrupção não é uma organização em grande, uma máfia napolitana, embora configure uma teia que alastra por todo o tecido social, político e económico. Não se chama corrupção, mas favorzinho, jeitinho, um empurrão... e está embutido na casa de todos os que responderam à sondagem da Católica. É normal. Se calhar o primeiro-ministro deu um jeitinho no licenciamento de um projecto em Alcochete, e depois?!, aquilo não passava de um pântano de bicharada! E se ganhou alguma coisa com isso, melhor para ele, que só prova ser um homem desenrascado. Se eu tivesse uma filha haveria de a querer casar com um destes, dos que sabem fazer pela vida.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Corrupcracia

Decidi que não quero mais maçar os serviços de assessoria para a comunicação do senhor Sócrates com postes sobre corrupção, e rapazes e raparigas ao serviço do sistema qualquer-coisacrático. Para já, porque devem estar todos ao telefone falando inglês, e não lhes quero roubar tempo. Depois, porque sou portuguesa, e do que eu gosto é de coisas levezinhas, que não ocupem muito espaço na cabeça, nada de políticas, e poder andar livre e feliz atrás da carneirada, como no Música no Coração, fazendo e dizendo o que os outros acharem e disserem. Portanto, hoje resolvi escrever uns postes para a descontracção e informação dos meus queridos leitores portugueses, os cabrões e os que não são. Todos.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Tenho um pó aos Portugueses

Foto: Koudelka, 1976

Marcelo Rebelo de Sousa, opinou, a propósito do caso Sócrates/Freeport, que o Primeiro-Ministro saía chamuscado de todas estas suspeições.
Eu tenho muito mau feitio. Embora seja uma santa duma mulher, tenho um feitio que não desejo a ninguém, e o meu feitio está aqui a dizer-me que nesta altura do campeonato governativo, Sócrates não está chamuscado, porque o homem já se transformou numa pira funerária das que se ateiam para queimar corpos, na Índia. Nunca um Primeiro-Ministro tinha acumulado tanta acusação de corrupção, nas suas diversas vertentes, como este cidadão aparentemente exemplar, barbeado e lavadinho. E continua por aí em pé, auto-elogiando-se com veemência, algo que sabe fazer na perfeição. Noutro país da Europa...
Ocorre-me dizer que em Portugal não se chega a cargo nenhum sem cunha, sem amiguismo, sem uma palavrinha, sem um telefonema, e que Sócrates é apenas um entre muitos. A grande corrupção, no nosso país, e a pequena, são uma filosofia de vida como acreditar no Senhor e casar na Igreja, porque assim fizeram os nossos pais. Arranja-se sempre qualquer coisinha para alguém: uns cargos, uns terrenos em área protegida. Tudo é possível e a gente sabe que é assim. A voz do povo sabe-o.
Por exemplo, ocorre-me perguntar, para onde foram os boys e girls que trabalharam no anterior ministério de Maria de Belém, que se não me engano era para a igualdade? Estão no desemprego? Não?! Arranjaram cargos em empresas públicas e privadas?! Como?! Candidataram-se, entre outros?! Abriram concursos internos e externos e concorreram ao abrigo da Lei?! Foram publicitados os referidos concursos?! E caso estejam todos empregados, já agora gostaria de saber como são avaliados, que eu desde a polémica avaliação dos professores passei a ter muito interesse sobre a avaliação de todos os funcionários necessários ao Estado: como são avaliados os senhores deputados, funcionários de ministérios, funcionários judiciais, polícias, militares, médicos e enfermeiros, assistentes sociais, funcionários da segurança social, bombeiros assalariados e por aí adiante? Tenho aquilo a que se poderá chamar uma curiosidade mórbida.
Hoje, na Antena 1, num fórum que dá pela hora de almoço, meia dúzia de portugueses fiéis à cobardia, diziam ao repórter encarregado pela emissão, "deixem o senhor Sócrates governar; já é tão difícil governar uma casa quanto mais um país!" "O senhor Sócrates é que sabe, e o que ele está a fazer, mesmo que não concorde com algumas políticas, é para nosso bem! Porque se ele lá está é porque sabe o que está a fazer".
Santa ignorância provinciana, com todo o respeito pela província. Fiquei com a impressão que aos portugueses não interessa muito quem está no governo, o que interessa é que os faça sofrer, que lhes tire tudo, começando pela dignidade. E claro que compreendo, ao escutar a vox pop, como foi possível manter a ditadura, e como seria possível instaurar agora outra. Os portugueses querem-no. E eu, sinceramente, tenho pena que não se possa partir o país em dois e deixar com Sócrates os que são de Sócrates, de preferência todos concentradinhos na praça de touros do Campo Pequeno... para se resolver, finalmente, de uma vez por todas, o problema da robotização.
Não sei como é que fui nascer portuguesa. É karma pesado. Eu que tenho um pó à cobardia geral, à dos portugueses em particular, à sua pequenez, pequenininha, muito inha. Eu que lhes tenho um pó que nem sei como poderei enfrentá-los amanhã na rua. Os cabrõezinhos pequenininhos. Todos.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Um preto é um preto


A semana passada não houve tempo para comentar a interessante notícia segunda a qual os portugueses gostam mais de McCain do que de Obama, ao contrário da generalidade dos europeus.

A ditadura portuguesa foi das últimas a cair na Europa Ocidental, e não se tratou de um acaso. Os portugueses são conservadores, gostam de sentir o peso da autoridade, mesmo que prepotente. Vinga entre a maior parte dos sectores, não apenas na direita, a ideia de que "o papá é rígido e mau, mas o papá sabe o que é melhor para nós." Não uso aleatoriamente o termo papá. Os portugueses não saíram, política nem socialmente, da primeira infância. Não têm consciência do seu poder enquanto cidadãos reclamantes, e muito menos enquanto grupo. Não acreditam no exercício activo da cidadania como quem acha que nunca será capaz de conduzir uma automóvel, e nem tenta.
Mas esta notícia não me informava apenas sobre as nossas ideias conservadoras. Fornecia-me outra informação muito precisa: os portugueses não gostam de pretos; em Portugal nenhum Obama chegaria onde este chegou. Em Portugal, um preto é um preto.
No Domingo, uma senhora descrevia a outra, lá em baixo, umas cerimónias inusitadas em Fátima, uns festejos, e dizia que tinha sido uma coisa muito linda, que até tinham vindo de África uns tocadores de batuque acompanhados por um padre preto. E reforçou que era padre apesar de preto.
Os portugueses mantêm aquela ideia muito colonial de que o preto é bom para trabalhar barato, mas que nunca poderá equiparar-se profissional nem humanamente a um branco. Um médico preto, um professor preto e um advogado preto são, para uma boa maioria dos portugueses, profissionais de segunda classe, e sabe-se lá como conseguiram o diploma.

Deprime-me reconhecer no povo ao qual pertenço tanta ignorância, tanto atraso e um desenvolvimento tão incipiente dos valores humanistas mais elementares. Portugal degrada-se em ódio e ignorância, como uma velha peça que enferruja.

terça-feira, julho 15, 2008

A pobreza e o luxo




Guardei o recorte. O artigo chamava-se A necessidade de empobrecer. Tratava-se da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público, há quase um mês. VPV defendia a ideia de que o slogan mudar de vida, muito repetido pelos políticos como forma para resolver parte da crise, apelando a um uso cada vez mais moderado do petróleo, e recorrendo às energias alternativas, é uma fraude. Afirmava que não é hoje possível mudar de vida sem voltar à pobreza "pela força e pelo sofrimento". Para VPV, a registar-se um empobrecimento generalizado, "num país como Portugal, com a sua miséria e o seu atraso, 80 por cento da população não a suportaria. «Mudar de vida» seria pior que uma revolução, seria o fim de uma civilização".

Isto da pobreza, comoveu-me. Por outro lado, a ideia de fim de uma civilização, considerando o desastre que é a nossa, animou-me.

Eu própria defendo a ideia de que deveríamos todos ser mais pobres. Mas pobreza, a meu ver, é qualidade de vida, e não inclui qualquer sofrimento. A pobreza a que VPV se refere, ao falar dos tempos em que não havia telefonia nem auto-estrada nem ar condicionado, é apenas uma forma de vida que exclui os luxos da sociedade de consumo. Consumir menos, mais barato, melhor, e reaproveitar. Considero óptimo que as roupas e os livros e brinquedos passem de irmão para irmão, que a comida seja reaproveitada, que não se acendam luzes sem necessidade, nem se gaste água à toa. Continuo a bater na ideia de que todos compram produtos acima do que podem e necessitam. Sobretudo maquinaria, mas também roupas, sapatos, malas, mobiliário, pechisbeque. Uma coisa é pobreza, outra é a miséria. Ora, eu defendo que é possível viver modestamente, aquilo a que VPV chama pobreza, sem viver na miséria.

Ultimamente tenho andado à procura de um carro para substituir o meu, que chegou às últimas, e reparo que os vendedores de automóveis me apresentam viaturas afirmando, bem, não é um carro como aquele ali, que vai aos 200, mas chega com facilidade aos 160, 170, uma velocidade decente para auto-estrada. 160, 170?! Mas para que quero eu um carro a atingir velocidades dessas?! Eu quero lá circular a 160?! Quero andar sossegadinha, com uma velocidade moderadazinha, com um carro seguro, com bons travões, espaço para carregar cadelas e objectos, que sou de carregar, e boa suspensão, porque gosto de estradas más. O melhor possível em termos de segurança e consumo, aliado ao melhor preço. É o meu lema para tudo.

Não penso que seja fácil viver hoje confortavelmente sem frigorífico e máquina de lavar roupa. Não são luxos. No meu caso pessoal, devo incluir nesta lista uma televisão, aparelhagem de som e computador com ligação ADSL. E isto, sim, para mim, é luxo. Poderia viver só com os meus livrinhos. Como cultura, chegaria. Mas digamos que é um luxo mínimo. Defendo-me, escolhendo bem, e não desperdiçando aquilo que já tenho. Acho os écrans plasma muito funcionais, com óptima imagem, mas os respectivos preços não, por isso, quando comprei a minha televisão, exclui essa hipótese. E não me passa pela cabeça deitar fora esta televisão para adquirir um objecto melhor. Viverá o seu tempo, e depois logo se vê. Exactamente como com o meu carro. Já prometi que vou andar mais de transportes públicos, mas por uma série de motivos pessoais não consigo cumprir as minhas obrigações sem um carro.

A minha ideia de pobreza está, portanto, relacionada com a esforçada recusa do luxo. Os portugueses acham que viver bem é viver no luxo, e sentem uma enorme apetência pelos sinais exteriores de riqueza. É exactamente aí que é preciso cortar, emendar. Melhor, educar. Só um povo muito pobre, pobre de ideias, de valores - é essa a nossa maior pobreza - pode julgar suplantar a pobreza por via da aparência, do luxo. Seria o mesmo que pintar um velho bidão ferrugento com verniz de purpurina. Não precisamos de luxo, mas de eficácia, e de conforto na eficácia. Isso já é viver bem, ou, se quiserem, pobremente.

Já agora, a secretária sobre a qual tenho o computador no qual escrevo este blogue, veio lá de baixo do lixo. Exactamente. Estava entre os contentores do lixo orgânico e os da reciclagem de vidro, papel e embalagens. Alguém a deitou fora. É uma óptima secretária em estado novo, a qual, com sorte, ainda chegará aos os meus netos. Pobre, muito, muito pobre foi aquele que deitou fora uma secretária destas. A minha mãe admitiu que era uma excelente secretária, mas acrescentou que devia parecer muito mal aos meus vizinhos verem-me levar para casa coisas do lixo. Já não me lembro bem, mas acho que me ri.


quinta-feira, junho 19, 2008

O jogo da bola

Hoje há um jogo, vou já sair de manhã com a camisola da selecção, ai, hoje, o jogo, a ver se despego cedo, se regresso ainda mais, e preparar o petisco, uns pipis, o ritual, as cervejas no congelador quase a rebentar, mostrar-me confiante no café, falar sobre o jogo, quantos vamos marcar, ai, o que vamos ganhar, conduzir a alta velocidade, pisar o risco contínuo, não dar prioridade nas passadeiras nem à minha mãezinha, stress, senti-lo, essa antecipação do momento decisivo, o sol que se apaga, a lua que desce à terra, mas não, é mais que isso por agora, joga a selecção, por isso vou refastelar-me no sofá, preparar as bandeiras, as buzinas, porque se joga o meu dia, a minha felicidade, a minha vida.

sábado, março 22, 2008

Abençoados homens


Abençoados homens de 61 anos, carecas, reformados e com caixa de ferramentas.
Avariou-se-me ontem a torneira do lava-louça e não conseguia parar o fluxo de água, mesmo fechando a válvula de segurança, no exterior. Uma avaria estranha!
Telefonei à minha mãe, para me valer, como de costume, que telefonou à Dona Francisquinha, a vizinha dos cães, cujo filho trabalha na construção, mas não podia; veio cá o marido logo de manhã, de mangas arregaçadas, desenrascar a dona Isabelinha, que a sua mãe disse-me que está aqui com um problema, isto em casa há sempre pequenas coisas que ninguém quer fazer.
Abençoados homens. Deus lhes dê saúde, longa vida e braços que possam carregar caixas de ferramentas para atarraxar o que precisa de atarraxamento.
O marido da Dona Francisquinha tocou-me à campainha como um anjinho da Páscoa, pousou a caixa no chão, abriu-a, e nela foi desencantando anilhas de borracha, bocados de arame, parafusos, porcas, sisal, isto para além das ferramentas, enquanto me pedia lubrificante, que até podia ser óleo de fritar; parecia o MacGyver.
- O senhor parece o MacGyver.
- Ah, pois, eu não perdia um episódio.
- Eu também não. Até me regalava de os ver com o meu pai; o senhor lembra-se do meu pai?
- Então não lembro, Dona Isabelinha, então não lembro? Era um homem muito bem disposto. Mas, isto, nós não somos nada, é o que lhe digo... a minha mãe também já lá está, com a mesma doença do seu pai... há dois meses... mas a propósito do MacGyver, arranje-me aí um fósforo, que estou a precisar de qualquer coisa para fazer aqui enchimento.
- Um fósforo serve-lhe?
Riu-se.
- Dona Isabelinha, eu estive no Luxemburgo. Sabe por que gostam de nós lá no estrangeiro? Por causa disto. Os portugueses são capazes de arranjar tudo com poucos meios. Adaptam-se ao material. Dão-lhe o que ele quer. E resolvemos os problemas. Não há nada que um português não resolva.
E foi verdade; com óleo Fula, um fósforo e um bocado de papel de um folheto do Jumbo arranjou-me a torneira, depois o estore da sala, e a porta, que fechava mal, e pôs-me a luz da despensa a acender, e não me levou dinheiro nenhum, e eu sei, tenho a certeza absoluta, que este homem, para cúmulo da perfeição, ainda deve ter meias solas em condições para bater na cama.
Nunca imaginei que haveria de querer casar-me com o abençoado marido da Dona Francisquinha.

domingo, fevereiro 24, 2008

Aprender a não ter medo


Detesto a sobranceria ignorante, a agressividade gratuita, a vulgaridade, a indiferença, mas acima de tudo desprezo a cobardia e o medo. O medo tolhe, cala e humilha. Se estamos convictos da justiça de uma ideia, o único medo justificável é o de que essa ideia se perca porque nos calámos, porque desistimos, porque tivemos medo. Os poderes contam com o nosso medo da punição: a prisão, a multa - para nos controlarem. Se muitos não tiverem medo, os poderes não terão poder para nos controlar. É preciso que muita gente perca o medo. Se não obedecermos todos, se muitos não obedecerem, que poder tem o poder? O essencial é perceber que o poder não tem, afinal, poder nenhum. Somos nós, ao temê-lo, que o legitimamos.
Os portugueses precisam de aprender a não ter medo; sendo uma elementar e eficaz forma de resistência, logo, de sobrevivência, nunca lhes foi ensinada na família nem nos bancos da escola, nem no grupo social. Em todos os lugares, outros, ao seu redor, viveram, vivem sob o manto do medo, e ensinaram-no como exemplo - viver dissimuladamente, sem dar nas vistas, temendo em silêncio, para nos safarmos sem chatices, sem compromisso, sem exposição.
Mas convém aprender a não ter medo. Tenhamos medo do nosso medo. Isto é apenas um princípio. Um ponto de partida que pode levar-nos longe, e dar bom fruto.


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Gostamos de apanhar tautau

Lá na minha fábrica, a chefe de secção é execrável. Pelos corredores, todos lhe cortam na casaca, o mais possível, em sussurro.
Registei um sorriso geral de vingança satisfeita quando chegou com o carro amolgado, a semana passada. Eu não fui excepção. Primeiro que tudo a moral, mas, antes da moral, o ressentimento. Bem feita, ouvia-se; era um clamor geral sem fonética. A mulher merece.
Sendo o seu cargo decidido por eleição anual entre pares, qualquer pessoa normal pensaria que a ditadora histérica está há pouco tempo na função, e não voltará a ser alvo de sufrágio, mas a verdade é que a víbora é eleita consecutivamente há uns bons oito anos e não se prevê que saia. Ninguém fala em mudança. Estou em crer que os meus colegas adoram levar nas trombas, e temê-la, para a seguir lhe morderem na sombra. Uma coisa masoquista que não terá grande explicação fora da psicanálise.
Por esta, e por outras, habilito-me a defender a ideia de que os portugueses não acreditam na democracia, e, mesmo que acreditassem, varriam-na para debaixo do tapete. Os portugueses gostam é que o papá, ou a mamã, dêem tautau, e digam não, não fazes, não, não podes, e faço isto para teu bem, meu filho. Depois choram, reclamam e batem o pé, mesmo sabendo que não adianta, porque não está nas suas mãos, que bom, alguém decide a sua vida por eles, seja o que for, por isso até não se importam de ir para o quarto de castigo, obedientes e lindos meninos chorosos com a catarse realizada. Tenho a ideia que a maioria dos portugueses está na fase dos 12, 13 anitos. Ai, que medo da vida dos crescidos!

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O respeitinho foi muito bonito, quando?


Sob influência do poste anterior, portanto, no que respeita a "lançar lixo para o quintal do vizinho", gostaria ainda de evocar os exercícios com F16, a 50 metros do solo, e à velocidade do som, que ocorreram, a semana passada, sobre os telhados nocturnos de Penamacor. Pela descrição das testemunhas, a mim, que sou nova, e urbana, e outras coisas, tinha-me dado o badagaio. Imagino, portanto, a inquietação sentida por velhotes, crianças e animais incapazes de perceber a origem das explosões, e de as racionalizarem.
Estamos ainda demasiado próximos dos habitantes dos bairros de Lisboa que, há poucos séculos, lançavam os dejectos pela janela, à baldada. Cada um suja como pode. Atira fora. Alguém limpará. Ou não. Que importância tem isso?!
Tudo isto, a meu ver, se relaciona muitíssimo com a questão humanista do respeito pelo outro, que está muito esquecida, ou nunca existiu, sei eu lá.


Vou abrir a janela e livrar-me já disto, enquanto ninguém vê

A semana passada, a funcionária de limpezas de um laboratório da Faculdade de Farmácia, da Universidade de Lisboa, atirou para fora do edifício um frasco contendo um químico da família do enxofre, e com o mesmo cheiro, o qual se espalhou velozmente pela zona da Cidade Universitária. Por acaso, não era químico cujo derrame pudesse constituir risco de maior para a saúde pública. Mas, se fosse?
Acho uma certa graça a esta história da dona Ermelinda que encontra um frasquinho fissurado no frigorífico do laboratório, pensa que o melhor é deitá-lo fora, e, em lugar de usar os depósitos de lixo próprios de um laboratório, assunto para o qual deve ter recebido formação, escolhe lançá-lo janela fora, para um baldio contíguo. Isto faz-me lembrar uns vizinhos meus, de diferentes prédios, que há anos atiravam os sacos do lixo doméstico pela janela do 5º ou do 4º andar, os quais sobrevoavam as nossas cabeças para aterrar uns metros mais à frente. É, sou testemunha desta original forma de alguém se desfazer do lixo doméstico.
A ideia é a mesma. A de mandar o lixo para o quintal do vizinho. A de não nos darmos aos trabalho que nos compete, a de desconhecer a noção de responsabilidade cívica. Tudo tão português e tão atrasado. Ainda.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Troco 10 milhões de portugueses

A quem interessar, declaro-me disponível para colaborar em acções que visem a entrada ilegal, nesta choldra, de imigrantes de qualquer nacionalidade, vindos de choldras piores, por via marítima, aérea ou terrestre. Desloco-me em viatura própria. Preferência em horário pós-laboral ou fins-de-semana. Levo cobertores, roupa em segunda mão, farinha Nestum e bilhetes de identidade falsificados. Não estou a brincar.


segunda-feira, agosto 13, 2007

Contidos e discretos como uma pedra gasta na calçada


Paulo Macedo, ex-director da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, deu uma entrevista ao Expresso desta semana, na qual "aceitou falar um pouco de si, mas sempre de forma contida e discreta."
É o que se pode ler na página 48 do referido semanário.
Parei e reli as últimas palavras da introdução: "sempre de forma contida e discreta".
É isto que os portugueses mais desejam ser: contidos e discretos. Quem é contido e discreto sabe estar. Sabe imenso estar. É o tipo de sabedoria que emburrece, limita, e me irrita até às profundezas da minha ténue paciência, perdoe-se-me o paradoxo.
Contidos e discretos: mas que desperdício de tempo à vida, e que tédio!
A minha prima afastada, boa portuguesa, e excelente rapariga, passa a vida a repreender-me sobre um enorme defeito que não tenho sido capaz corrigir; tentando reproduzir mais ou menos as suas palavras, afirma ela que sou como um animal: quando tenho fome, como; se tenho sede, bebo; se me apetece falar, falo; se é para gritar, grito; se quero ir à casa-de-banho, arranjo maneira; se tenho sono, deito-me; quando acordo, levanto-me; se me dói, queixo-me; se tenho gozo, manifesto-me; quando me apetece cantar e dançar, canto e danço; se tenho dúvidas, pergunto; se tenho vontade de suspirar, suspiro; se me apetece bocejar, bocejo; se estou farta, nota-se, e se não estou, também; quando quero dizer sim, assinto; se é para negar, nego; se estou interessada em ver e ouvir, vejo e ouço ilimitadamente, e sem cerimónias; se sinto frio, tapo-me; quando me sobem os calores, destapo-me... e a lista, senhoras e senhores, é interminável.
A moça tem razão: sou um habilitadíssimo animal. Tenho reacções. Mexo-me. O meu rosto regista expressões visíveis a olho nu. Ocupo espaço, realmente. Não se pode sair comigo à rua. Não se me pode levar a casa de ninguém. Sítios chiques é melhor esquecer. Sou um bicho. O sonho de qualquer Dadinho Pitta seria transformar-me numa
fair lady, enquanto eu lhe gritaria, "deslarga-me: quero bazar da loja gurmé" e "fizestes pouco de mim, à séria, quando descobristes tipo quanto é que eu ganhava na fábrica".
Claro que tal constatação sobre os meus comportamentos associais me deixa desolada. Após as críticas da minha prima afastada, e enquanto enquanto penso nas inegáveis contra-indicações deste assinalável defeito, costumo perguntar-lhe se parece mal respirar caso sinta que me falta o ar nos pulmões. Os animais respiram, periodicamente, e receio que o bafo da respiração possa não ser suficientemente contido e discreto. Claro que posso sempre respirar às escondidas, tal e qual como quando me atiro aos pastéis de nata, mas o que não quero é que se perceba que estou viva, de forma alguma.




sexta-feira, junho 15, 2007

Passeio dos tristes

Os portugueses, como se sabe, gostam de sofá, e não sentem motivação para se unirem em movimentos populares espontâneos.
Ah, não é bem isso, que injustiça para os portugueses! Claro que existe movimentação popular espontânea, mas só em casos específicos de justificado interesse público: ou seja, se lhes cheirar a sangue, se houver catástrofe, se for mórbido.
Os portugueses não saem de casa para contemplar um final de tarde marítimo, mas não resistem a uma visita à zona norte da Caparica, a tal que as marés destruíram.
Os portugueses não encontram sentido na observação da natureza, a menos que, no meio da paisagem, se estendam os despojos amalgamados de um violento acidente de viação.
Portanto, este Domingo, o habitual passeio dos tristes será campestre, e a Sul: Odiáxere, estrada rural na serra algarvia, junto a Arão, a cerca de 15 quilómetros da praia da Luz.
Esperam-se vendedores de farturas.

quinta-feira, março 22, 2007

Portugal: fase anal



Vivemos anestesiados pelo futebol, pela humilhação laboral, pelas exigências de filhos cuja auto-eleição enquanto reis e rainhas tolerámos até à remediação impossível, e, em última instância, pelo ansiolítico nosso de cada dia; com frequência, assisto à congregação dos três aspectos na mesma filial - e tenho pena.

A anestesia permite-nos sobreviver a períodos dolorosos, mas o entorpecimento embarga a consciência, logo, a vida plena. Por este motivo, a anestesia sempre agradou muito aos poderes que não pretendem ser contestados. Em Portugal temos muito disso.
Anteontem, assisti, pela televisão, ao momento de interpelação ao primeiro-ministro da deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes. Sócrates ignorava o discurso da deputada, minha representante naquela Assembleia, olhando para o tecto, realizando exercícios para descontrair o pescoço, e conversando com os colegas de carteira. Se Sócrates fosse aluno da escola pública, talvez levasse recadinho para casa, na caderneta, se a tivesse trazido na mochila. Um poder que não ouve nem quer ouvir os representantes da população que governa, que se limita ao frete de estar presente para cumprir a Lei, não está interessado senão em beneficiar-se, e aos seus afilhados, e bem merece participação disciplinar, seguida de suspensão, até decidir mudar as atitudes, as quais, como se sabe, têm hoje grande peso na avaliação. Heloísa Apolónio falava exactamente sobre afilhados do governo, os quais auferem salários mensais de 4500 contos pagos pelo contribuinte que ganha 80.
A vida em Portugal é dura. Não conseguimos manter a esperança, e mantê-la conta muito. Quando há esperança consegue-se um sorriso, mesmo que o salário seja curto; há vontade de agir, de prosseguir. Quem perdeu a esperança alheia-se. Não há novidade nisto. Para quem perdeu a esperança é indiferente que se corra para a esquerda ou para a direita.
A falta de esperança inibe-nos, prostra-nos a um pessimismo existencial. A quem perdeu a esperança resta-lhe viver "todas as experiências", "cada dia como se fosse o último", "um dia de cada vez", e só esse dia, nada mais. Resta-lhe oscilar entre o estímulo sensorial de alguma dor auto-mutiladora e o prazer imediato do consumo e do sexo, grande anestésico - afinal estou vivo, afinal sinto. Para os desesperançados, as manifestações são chatas, as vigílias também, bem como a defesa argumentativa de valores, de pontos de vista. Que valores?! Tudo isso exige confronto, desconforto. É neste ponto que nos encontramos: se perdemos a esperança, vivamos sensorialmente o que perdemos em ideia e espírito, porque ainda estamos vivos, e, quanto a isso, nada a fazer; se já ninguém nos pode valer, nem a sociedade nem Deus nem o sonho, façamos piercings, tatuemo-nos, realizemos essa espécie de auto-mutilação consentida, que dói tanto, mas sabe e fica tão bem, que assinala em nós uma diferença visível. Não pertencemos ao rebanho. Algo nos marca para sempre, e não muda, não nos abandona, que bom! Finalmente, a eternidade, uma certeza!




Se perdemos a esperança, gozemos o dia e forniquemos criativamente. Fornicar é viver. Melhor, a fornicação é uma arte! Nunca antes ouvi, tão amiúde, enunciados deste teor. Todas as semanas leio na Maria conselhos sobre a arte do fornicanço. A Maria é uma publicação destinada à classe média e baixa menos escolarizada, e eu sei que sou a única pessoa com mais de nove anos de escolaridade que assume o prazer desta leitura. Mas, caramba, a Maria liga-me ao mundo! A Maria, o café, a esplanada, as salas de espera, a publicidade e a TV Cabo. Acompanhar a involução da Maria ao longo das últimas três décadas merece estudo sério. A Maria reflecte a mundividência dos leitores, e, ao fazê-lo, também a reforça. Eu não usaria nenhuma outra publicação para compreender a cultura portuguesa.
Eu e a minha prima afastada, tentando compreender tais fenómenos de massificação sexual, passámos uma noite recente na maior risota, tentando simular, sobre o tapete da sala, a posição do carrinho de mão, que tínhamos acabado de ver num programa de um canal espanhol, sobre o Kama Sutra, esse outro grande best seller editorial. Não tivemos sucesso. Chegámos à conclusão que para mimar o carrinho de mão teremos de concluir, antes, uma licenciatura em Educação Física! É mesmo precisa muita arte! Assim não dá!
No passado Domingo, a Cidália, de O Sexo e a Cidália, dedicou a sua crónica, na NS, ao sexo anal, intitulando-a O Túnel, e defendendo que quem faz a lei somos nós, e, já agora, quase todas são para infringir. No Diário de Notícias, os classificados da secção Relax são agora ilustrados com fotos coloridas de rabos femininos diversos. Na FNAC, os expositores dedicados à literatura erótica acumulam livros escritos por prostitutas com blogue. Jovens razoavelmente educadas, que, compreensivelmente, não estão para se levantar às sete da manhã, e ser mal pagas, montando negócio por conta própria, em casa, e descrevendo, on line, as suas experiências com os clientes. Não escrevem mal de todo, e, uma das autoras, Paula Lee, pede aos clientes o favor de a deixarem ir teclando no portátil enquanto a sodomizam. É também especialista no uso de cinto com dildo, com o qual os penetra. Declara ao Público de 26 de Fevereiro, Muitas vezes eles querem com força e eu acabo por os magoar a sério. Não tenho culpa. Eu não sou um homem e aquilo não fica propriamente duro... (...) Mas em nenhum destes casos o cliente se tornou violento. Não que se tornem menos másculos por estarem a ser penetrados. "De início, eu pensava que eram efeminados, gays. (...) Mas não. Comportam-se como homens. Às vezes lá soltam um gritinho efeminado. Mas é raro."




No tempo em que vivemos, a enorme procura de estimulação e anestesiamento sexual, sensações fundentes, simultâneas, e a consequente oferta de serviços modernizados, nos quais o cliente não se sente um criminoso, muito pelo contrário, porque a prostituta afirma fazê-lo para seu prazer e ganho pessoal, gerou um fenómeno de branqueamento do que constitui a natureza da prostituição. A prostituição tornou-se, assim, uma actividade como qualquer outra: as prostitutas não temem dar a cara em jornais e badanas de livros, não se imaginam noutro ramo de actividades, e afirmam ter muito prazer. A prostituição, afinal, é bestial!
Sexo é a palavra que regista mais buscas no Google. Tornou-se uma palavra poderosa, capaz de vender tudo, e gerar capital. A publicidade explora o filão dos preconceitos e medos sexuais para promover seja o que for. A título de exemplo, o texto mais visitado deste blogue chama-se A cona das pretas, e, infelizmente para quem o procura via Google, às dezenas, todos os dias, versa comportamentos sociais de uma certa classe de ex-colonos. Deve ser frustrante encontrar título tão estimulante para assunto tão enfadonho.
A justiça e a liberdade podem falhar-nos, mas o sexo é certo. No sexo há libertação, e a sua prática realiza a justiça do gozo que precede a negação. O culto da sexualidade, acima do respeito por valores humanistas, encontra justificação na satisfação de que se tornou única e potencial fonte. Os valores humanistas são-nos esmagados na cara todos os dias. Entre solidariedade ou sexo a escolha acaba por não ser muito difícil.



A sexualidade é efectivamente poderosa, porque nos liga uns aos outros, nos forma e completa, porque sabe bem, mas o marketing do sexo alternativo, acrobático, do sexo lazer, mostra-no-lo como princípio de fim de todas as compensações. Se nada pode compensar-nos tão satisfatoriamente, como poderemos esperar que alguém sinta motivacão para o envolvimento em causas sociais ou políticas?
O sexo endeusado pode corporizar um acto de mutilação e castigo. Deus dá, mas Deus castiga/tira. Considero que a actual apetência por práticas de estimulação anal revela uma tendência social auto-mutiladora, com paralelo no fenómeno das tatuagens, piercings, anorexia, bulimia e obesidade mórbida. Damos as boas vindas ao prazer máximo, ao que se confunde na dor. Aprendemos a gostar da dor, porque o prazer não nos basta. Não temos nada, não somos nada, queremos tudo. Consequentemente, comportamentos sado-masoquistas de carácter sexual, e outros, generalizados, têm vindo a ser legitimados socialmente - lembro o cartaz da Moda Lisboa, que aqui postei há cerca de uma semana, a propósito da revista Dif.
A sexualidade aproxima-se vertiginosamente da escatologia, e um culto tão intenso de uma ideologia baseada na escatologia e na escarificação revela um niilismo incompatível com a defesa de ideais que transcendam o direito a uma sobrevalorização da existência física e dos seus atributos. O corpo é todo o espírito. O corpo é tudo.
É por isto que as revoltas "morrem na praia ... não se propagam como as ondas", como escrevia, ontem, Isabel Victor na caixa de comentários do texto anterior. É porque perdemos a esperança, porque queremos tanto morrer, porém, o corpo mantém-nos ainda tão presos à vida.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...