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quinta-feira, maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


domingo, abril 13, 2008

A obra poética de Dick Hard I

WARNING

Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo

o húmido duma língua desejada


Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer

Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada

com travo orgiástico

Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina

a cortar-te as veias

Tu, sim, tu

devias ter-te lembrado

antes de morrer

Os serial killers
também fazem
minete

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.


A obra poética de Dick Hard II

UM BOCADO CÃO

Sei que sou

um bocado cão

de manhãzinha

Quando vou
atesoado

à casa da vizinha

Eu deito-a na mesa
com o cu de fora

o rabo bem espetado

A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado

E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora


Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro

ao romper d'aurora

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

segunda-feira, abril 07, 2008

A boa velha sátira pós-moderna



Denuncio um caso flagrante de discriminação masculina. Bem sei que é a primeira vez.
Temos aqui uma Adília Lopes muito legível e desenjoativa, mas como é homem chamam-lhe ordinário, devasso, esse grande taradão. Se calhar é capaz de ser, mas tarados, tarados, obra à parte.
Ultimamente, ando viciada na poesia de Dick Hard, aliás Luís Graça, meu conhecido dos tempos do DN Jovem. Encontrei, na FNAC, um livro seu de que me haviam falado nos seguintes termos: "o gajo publicou uma merda qualquer com erecções no título, umas bacoradas, o gajo está passado de todo".
O livro chama-se De Boas Erecções Está o Inferno Cheio, não é nenhuma "merda", e se o "gajo" está passado, resta-me dar graças a Deus. Deixo-vos com algumas pérolas. Não me coibirei de vos ir oferendo outras, nos próximos dias:



Pony Express
Se as paixões
não são correspondidas
a culpa pode muito bem
ser dos correios


Oh! As Mulheres Bilingues
As mulheres bilingues duplicam o prazer
da felação
as poliglotas
provocam-nos múltiplos orgasmos.


Poema Canino
Ontem vesti um par de boxers
cada um deles me comeu
um tomate
Eram vegetarianos.


Raiva
Ele saiu de casa
violou criancinhas
sodomizou velhinhas
e roubou cassetes à bófia

Partiu montras
fez cunilingus a um pinguim com frio
deu estaladas em cangurus
e saiu do zoo

Calmamente
entrou no metro sem passe
saiu no Marquês de Pombal
e foi a pé para casa

Chegou ao lar
tomou um duche
leu uma revista porno, rezou as suas orações
deitou-se e adormeceu.


Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

(O livro é baratíssimo, meia dúzia de tostões, seis euros se não me engano.Vale cada cêntimo. Um grande saravá para ti, Dick, e mantém-te Hard!)



sábado, dezembro 08, 2007

Não se explicam

Estávamos sentadas perto de uma miúda loura, mais colegas de grupo. Procuravam qualquer coisa sobre a cidade de Almada, no Google, e desaguaram num site sobre Almada Negreiros. Comenta uma delas, em voz alta:
- Almada Negreiros?! Quem é este gajo?
A minha companheira de leitura adverte-a:
- Oh, menina, o Almada Negreiros não foi um gajo. Está a falar de um dos nossos melhores escritores e pintores, portanto vamos lá ter mais cuidadinho com a língua.
A miúda engoliu em seco.
A minha companheira concentra-se na leitura. Um par de minutos depois, interpela-me:
- Ouve lá, Isabela: O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo... o que é que este cabrão queria dizer com isto?

segunda-feira, setembro 05, 2005

"Com toda a vida às avessas a arder"

A nossa memória guarda, para sempre, certos momentos, e esquece outros, e nunca saberemos explicar porquê!
Há 20 anos, para aí, assisti a uma conversa pública, sobre poesia, na qual participava o poeta António Ramos Rosa. Tenho ideia que era por ali às Amoreiras; não me lembro se os prédios do Taveira já existiam.
O meu acompanhante segredou-me, já sentados, que o poeta estava gravemente doente e, provavelmente, já não se aguentaria muito. Talvez aquela fosse a última vez que o ouvíamos. Aquilo impressionou-me, pelo que o escutei com muito atenção; a voz e o aspecto eram frágeis, sim, mas aquele homem que quebrava, magro, branco, cabisbaixo era o enorme António Ramos Rosa.
O António tem-se aguentado. Tem a tal bolsa do Estado, não é? Deve ter as suas dores amargas, ver zero mesmo com óculos, tremer-lhe a mão quando escreve, mas cá anda.
E escreve. Que é o que me interessa.

O António, reza a história, ou então percebi mal, teve três profissões simultâneas: era poeta, empregado de escritório e infeliz. Bem, poeta não é uma profissão, ressalve-se!
Um dia fartou-se do deve e haver, não compareceu ao trabalho, deixou a contabilidade ao pó, e nunca mais regressou à Companhia Limitada. Ficou em casa a dormir, a escrever, a olhar pela janela. Ele lá saberá.
Não sei se isso fez dele um homem feliz – não parece – mas, pelo menos, não se vendeu ao dinheiro da estagnação e da mediocridade.
Eu, a isto, chamo coragem: não designar como “ganhar a vida” aquilo que não passa da sua vil hipoteca, com rodas dentadas nas quais vamos girando, girando até secar.
Que se ganhe a vida construindo para os outros, criando, dando, mas, preferivelmente, que nos construamos, também, por acréscimo!
A minha prima afastada, mesmo sendo das filosofias puras, diz-me que isso são sonhos, que não acontece a ninguém, que trabalho é trabalho.
Mas repara, Joana Rita, esse não é o exemplo do Ramos Rosa; nem do Alberto, que deixou a cátedra de Linguística, para poder fazer bonecos de madeira na carpintaria do mestre Roíz. Nem da Amparo, que largou 300 mocas/12 horas semanais para observar aves, a binóculo, no estuário do Tejo!

Juro que só queria contar a história do Ramos Rosa. Alonguei-me.
Às vezes doem-nos os ossos, porque os dentes da roda são de metal afiado; e o que seria de nós sem uma bengala?


António Ramos Rosa, Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...