Para a Susana
Os homens não falam entre si. Falam pouco, só mesmo antes de estoirarem. Os homens não conhecem os homens. Por esse motivo, não podem crer que as meninas de 10 anos sejam alvo de assédio sexual grosseiro, violação, até, pelos seus amigalhaços. Não acreditam ou não querem acreditar ou são cúmplices, porque nós sabemos que os homens se protegem mutuamente.
Algumas mulheres ainda percebem as outras segundo uma visão masculizada do mundo. Exercem sobre elas o mesmo poder, por delegação inconsciente. Responsabilizam a puta da amante do marido, que o desencaminhou, não o marido; criticam a vizinha que se divorciou 3 vezes e casou 4 – uma vadia; juram a pés juntos que as mulheres, elas próprias, são umas víboras que se traem umas às outras na luta pelos homens. Não gostam de trabalhar com mulheres, porque são galinhas, intriguistas, conversadoras, superficiais e incompetentes.
Outras mulheres começaram a falar sobre si; cresceram, envelheceram, tiveram filhos, querem viver mais. Têm 40 anos e querem arrumar a casa. Deitar fora o lixo. É natural. Essas mulheres têm trazido para o espaço público a história do bas fonds institucionalizado da violação psicológica e física de que as fizeram culpadas.
Os homens, quando confrontados com relatos do assédio que sofremos toda a infância e adolescência, sem sabermos como nos defender, envergonhadas, caladas, perguntam-nos o que andávamos a fazer nesses lugares que não nos pertenciam – defendem que há lugares só para homens nos quais as mulheres não devem sonhar, ousar entrar.
Portanto, se vamos ao café, e no café há homens!, se formos alvo de violação física ou psicológica, a culpa é nossa. Não temos de que nos queixar. Não são os violadores que procedem mal, nós é que não devíamos aproximar-nos. Contemporizam: os homens são uns brincalhões, dizem umas frases picantes, mas que importância tem isso? É só brincadeira. Nós é que temos a responsabilidade de ter orelhas moucas; as mulheres sérias têm orelhas moucas, portanto eles estão desresponsabilizados.

Quando nos disseram aos 12, aos 13, aos 16, aos 19, etc., etc., «ai, anda cá, que coninha tão bem desenhada, o que tu precisavas era de um par de colhões bem pretos todos metidos lá dentro», e nos chocavam e corrompiam, era tudo só brincadeira. Se eu chegasse a casa a contar isto, ter-me-iam dito, “as mulheres sérias têm orelhas moucas”.
Estas brincadeiras afectaram a nossa relação com os outros, com os homens, connosco, a vida inteira; levaram-nos a ser injustas com gente que não merecia, encheram-nos de medo, posicionaram-nos numa plataforma destituída de poder, de resposta, de vontade.
Entretanto, outros homens, noutros sítios, diziam as mesmas grosserias às filhas dos que nos molestavam - as culpadas éramos nós, e as suas filhas.
À violência autorizada no espaço público, precedia a que havia de ocorrer no doméstico.
As mulheres começavam a ser abusadas em crianças. Quando casavam e eram mães, o abuso era já tradição.
Semelhante estrutura de poder paralelo e clandestino teve longo sucesso enquanto conseguiram fazer-nos sentir culpadas do seu opróbrio - enquanto não confidenciámos sobre as misérias de que nos culpavam. Não falávamos da intimidade. Do sexo. Das coisas más e vergonhosas. Todas já tinham feito, mas não diziam com quem. Não falávamos sobre violação, sobre falta de prazer, porque estávamos isoladas umas das outras, e dos outros, por barreiras de pudor e de estigmatização. Porque não era possível admitir violação e falta de prazer. A violação só acontecia às vadias sôfregas que não se sabiam preservar. Nós não éramos vadias. Sabíamos que os homens abusavam das mulheres, que tínhamos de fugir deles, portanto a culpa era nossa. Quanto ao prazer, se os homens diziam que nos tinham dado prazer, se eles achavam...
Depois começámos a falar. Nos anos 90, acho, começámos a falar. E descobrimos que todas vivemos o mesmo, caladinhas. As irmãs dos violadores também foram violadas permanecendo caladas.

Portanto, uma rapariga sozinha a pé numa estrada era uma puta. Se um carro parasse e dele saísse alguém para nos violar, nós estávamos a pedi-las. Uma mulher decente não andava sozinha. Aos 13 anos éramos meninas irresponsáveis que não podiam sair à rua, mas seríamos, paradoxalmente, mulheres se fôssemos alvo de violação física ou psicológica. Éramos as culpadas da nossa própria violação. Tínhamos a responsabilidade de ser já umas mulheres e saber que não nos podíamos expor a riscos.
Os violadores ofereciam-nos rebuçados porque éramos crianças, mas queriam foder-nos porque éramos mulheres.
Consigo lembrar-me de um senhor de 50 anos, rico e idóneo, que me oferecia bonecas à frente dos meus pais, mas, na sua ausência, me sentava ao seu colinho, afastando-me as cuequinhas para o lado e segurando-me com força para não fugir, enquanto me perguntava como ia a escola. Os meus pais confiavam muito nesse senhor e na respectiva esposa, e até me deixavam à sua guarda quando iam à Joanesburgo. Eram meus padrinhos.
Denunciava o meu padrinho aos meus pais? Com que palavras? A minha madrinha entrava no escritório, via-me sentada no colinho do marido, enquanto este me abraçava com ternura e me falava carinhosamente sobre assuntos decentes - e entalava o respectivo pénis na minha racha... E a minha madrinha sorria e dizia, “adoras a miúda” ou então “o teu padrinho é babado por ti”. Era, de facto, muito babado.

Só depois dos 40 anos consegui ter uma conversa suficientemente aberta com outra mulher a ponto de poder perguntar-lhe, “mas tu já fizeste isto e aquilo?” E ela respondeu. “E gostas?” “Como sentes o orgasmo, como sabes que vai acontecer?” E ela respondeu.
Nunca falei de sexo com as minhas amigas. Falávamos de namorados, não do que fazíamos com eles. Durante muitos anos pensei que tinha uma deficiência qualquer, porque os orgasmos me eram tão difíceis. Hoje ouço-nos descrever as mesmas experiências, sintomas e bloqueios. No momento do sexo, olhávamos o nosso corpo com os olhos dele, com o julgamento dos olhos dele sobre o objecto fodível. Durante o sexo vigiávamos os nossos gestos e gemidos para que correspondessem ao que eles viam nos filmes e revistas pornográficas. Queríamos ser aquele produto que eles valorizavam entre si. Não podíamos abandonar-nos, esquecer, ser só o prazer do corpo. Aquilo não era sexo, para nós, era uma coreografia para o prazer deles. Copiávamos a imagem de mulher que nos traziam o cinema e as revistas.
Éramos objectos deles, para eles. Desejávamos para nós corpos que não existem, que são montados de outros corpos; gestos impossíveis...
Lembro-me de um namorado me ter descrito certa prática que sonhava ter comigo. Explicou quais seriam as posições, por onde é que a minha mão teria de passar para segurar o seu pénis, e de onde apareceria a sua tocando os meus genitais. Deixei-o falar; depois, disse-lhe apenas, “isso é impossível pelas leis da física, da biologia. Para fazermos isso cada um de nós precisava de ter braços meio metro mais longos.” Garantiu-me que não, que tinha visto num filme.
Lembro-me que os mesmos homens que publicamente me gozavam por ter o rabo grande, ou a barriga proeminente, tiravam prazer privado do meu corpo, adorando esse rabo e barriga. Publicamente havia que obedecer a um discurso que não tinha reflexo na vida privada. Adoravam o meu corpo na cama. Mas nunca o admitiriam em público.
Levei anos a compreender isto. A pensar a ditadura dos discursos. Dos códigos sexuais aceites, que não correspondem ao desejo do desejo.

A liberdade sexual dos homens e das mulheres há-de passar pela negação de códigos que transformam o sexo e o corpo numa ditadura estética. A liberdade sexual dos homens e das mulheres não banalizará a prática, mas desenvolverá um discurso limpo, livre sobre o prazer. Quando temos prazer ou não? E porquê? O que é o prazer? Só há prazer com orgasmo? Há quanto tempo não fazemos amor, quando não o fazemos? Por que motivo temos vergonha de admitir que durante sete anos da nossa existência não tivemos sexo, e nos masturbávamos de seis em seis meses, só para ver se aquilo ainda funcionava? Por que motivo a presunção de sexo e de prazer sexual valoriza socialmente os indivíduos? Porque motivo a presunção de sexo não valoriza a rapariga solteira, apenas o rapaz?
Vivemos o corpo e o desejo que o patriarcado de homens e mulheres, aliados enquanto senhores e serviçais fiéis, nos permitiram ter. Portanto, não tivemos corpo nem desejo. Não nos pertenceu.
A nossa vivência do sexo, tensa, acidentada, deve ao roubo desse corpo, desse desejo. Enforcámo-lo.
Estou aqui para pedir contas. Quero tudo o que roubaram. Quero garantir que as minhas filhas e as filhas dos outros não serão roubadas. Que os rapazes não serão ensinados a roubar pelas mães roubadas.