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terça-feira, janeiro 06, 2009

A doença mental dos homens


Os homens de hoje reclamam que já não são como os seus pais. Os homens de hoje metem a louça na máquina. Os homens de hoje compreendem as especificidades femininas e até vestem puloveres cor-de-rosa. É por isso que muito me admira que os homens de hoje ainda pensem que as mulheres como eu, normaizinhas, ambicionam ser lindas e arranjadinhas, inclusive como prostitutas. Ou melhor, que as mulheres como eu, com peso a mais, pré-menopausicas, solteiras, sonham ser lindas como outras, que as invejam desmedidamente, e tudo isto com o objectivo de arranjarem homem, porque o único objectivo de uma mulher normalzinha há-de ser arranjar um homem, e não se respira fora disso.

É verdade que eu não gostei do meu corpo durante uns bons 99 por cento da minha vida adulta, e mesmo quando estava magra, mas nunca me passou pela cabeça ser outra. O que eu quis foi ser a mesma de outra forma. Não invejei a beleza de ninguém um único minuto na minha vida. E hoje, para ser sincera, estou tão habituada ao meu corpo, que acabei por gostar dele. A minha celulite, tão fofinha! A minha barriguinha tão docinha! Não fossem estas dores ferradas no cóccix e nos ossos da anca, a ver se eu me dava ao trabalho de emagracer cento e cinquenta gramas, de racionar refeições, de ter dado o litro hoje durante duas horas no ginásio.

O que os homens pensam de nós é um mistério que só eles entendem. Revelado, deixa-nos perplexas.

Hoje, lá no ginásio, o Macho Que eu me Farto de Apreciar para Consolar a Vista, chegou radiante e cheio de energia. Fez abdominais, flexões, levantou 140 quilos em halteres, passeou-se, sorriu-me, etc., etc. Havia risota entre eles. A certa altura, o Camané veio pôr-me a par:
- O rapaz arranjou uma namorada nova, linda, boa... está assim...
Ri-me, e afinei o ouvido para tentar apanhar as conversas, enquanto fazia exercícios de braços. Havia gargalhada. Era o herói que os outros adulavam com graças. O Preto Grande imitava as poses musculadas que o tinha visto fazer ao lado da nova namorada. Risos.
O Camané voltou a aproximar-se para me dizer:
- Mas ele faz mal... uma mulher muito bonita e muito boa nunca serve para casar.
- Sabe lá o senhor se eles querem casar. - respondi-lhe.
- Seja como for... nunca é bom. - esclareceu o Camané, enquanto desenhava com a mão direita frente ao rosto o gesto do cornudo. - Percebe?
Percebi, claro. Para o Camané, mulheres bonitas são objecto de desejo para os outros, e as mulheres, claro, têm a culpa. Aposto que ao longo da vida culpou de leviandade e lúxuria todas as mulheres bonitas que desejou, tendo acabado por casar com uma mais ou menos ,que engordou depois do parto, tal e qual como as outras, e a quem pode agora chamar gorda à vontade. É uma mulher só dele. Nenhum outro homem a deseja.

Isto fez-me lembrar um vizinho da minha mãe, no princípio dos anos 80: tinha obrigado a mulher a deixar de trabalhar para que não houvesse homens a mirá-la na rua e a encostar-se a ela nos transportes públicos.
Há muito anos que chamo a tudo isto doença mental.

quinta-feira, julho 31, 2008

Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros


O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.

Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.

No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.

Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.

Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?



terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


quarta-feira, janeiro 09, 2008

Não posso, querido, que agora estou na palhaçada

Brigitte Bardot e Jane Birkin apanhadas com a cabeça descoberta


As judias ortodoxas têm uma sorte que não cabe às cristãs. Podem enrolar-se livremente umas com as outras, sem restrições, porque lesbianismo não é pecado. Trata-se, apenas, de duas moças na palhaçada, portanto, nota zero em preocupação.
Estava ali um marido a queixar-se bastante num documentário do canal Odisseia. A mulher arranjou uma amante, não lhe liga uma uva, já não lhe lava as peúgas, e o homem, coitado, quer divorciar-se, naturalmente, mas o rabi não vê motivo. "Deixa as miúdas divertirem-se", alega o responsável religioso, acrescentando que "nada consta nos livros sagrados". Qual é o problema? Pecado é não trazerem a cabeça devidamente coberta.
Eu, que em tempos perdi, por uma unha negra, a inscrição no Clube das Periquitas Desengaioladas, acho tudo isto uma delícia ímpar.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Só o casamento me tornaria uma senhora

No Central, onde me delicio a ler o Correio da Manhã, o senhor Gonçalo, para aí 28 anos, empregado de mesa, solteiro sem namorada, disse-me:
- Menina, se já leu o jornal, passe ali aquele senhor que está à espera.
Olhei. O senhor era o Bruno, um miúdo meu vizinho que brincava com o Pantufa, e entrou há uns anos para engenharia. Tem para aí 23 anos. Consta que dá explicações de Matemática.
Eles, a quem assoei o ranho com lencinhos às flores, já são todos senhores. Eu é que ainda sou uma menina.

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


quarta-feira, maio 30, 2007

Façam-no os homens, desde que paguem as mulheres

No Paquistão, um conselho tribal ordenou que a mulher do abusador de uma menina de 8 anos, deveria ser violada pelo pai da criança molestada. Os irmãos do violador ofereceram ao pai queixoso as suas quatro filhas em casamento, mas este não aceitou a proposta.
As mulheres pagam sempre: quer não tenham cão quer tenham sido mordidas.

no El País


quinta-feira, maio 24, 2007

Como os artistas plásticos realizam grandes obras

Enquanto Maria Teresa me hace una sopinha de grão-de-bico bem caliente, a ver se acabo aqui los cinzentos-névoa-horror, en el canto inferior izquierdo desta obra-maestra, que versa um grande bombardeamento durante la Guerra Civil.

Como as artistas plásticas realizam grandes obras

Se conseguir ver-me livre do Diogo, despachando, en lo mismo pacote, todo lo narcisismo y obsesiones, fico sem cuecas e peúgas para lavar e coser, acabam-se os cozinhados para apurar, e ainda evito los hijos de las otras, que me hão-de doer. No tenendo que lo aturar, talvez consiga fechar-me no atelier, e concentrar-me en la textura cromática del corazón de sangre que a figura sentada tem golpeado en el pecho.

sábado, fevereiro 24, 2007

Adoração aos gajos

Para alguns homens, o feminismo bom é o feminismo sossegadinho, suavezinho, delicado. Sobretudo, calado. Que não se perceba. O feminismo "eu já sou independente, já somos todas independentérrimas, e adoramos gajos!"
Para alguns homens, a feminista ideal é a que aborda as maravilhas da liberdade sexual, na vertente "vale tudo, inclusivé tirar olhos", ao estilo Marta Crawford; ao estilo "adoro gajos".
Igualmente, a feminista ideal, tal como a mulher ideal, não questionará as idiossincrasias da sexualidade masculina, nem pensará nisso. A queca masculina é sagrada, mesmo quando não passa da punhetada. A feminista ideal adorará os gajos, exteriorizando a
ideia socialmente correcta de que eles são, hoje, tão diferentes, que até ajudam em casa! Certo, de vez em quando até lavam a louça, e arrumam-na. E até dão banho aos filhos. Alguns admitem também adorar gajos, mas eu admiro essa rara gente que admite!
A feminista ideal é a que já não é, ou a que nunca foi. A que defende serem, as mulheres, as piores inimigas umas das outras, porque as mulheres só são fiéis aos gajos, só adoram gajos. Claro que não sei se escrever estas coisas será mau feminismo! Não quero ser má feminista! Gosto sempre de pedir autorização antes de emitir opiniões! Como sou uma mulher tenho tantas hesitações!

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

terça-feira, janeiro 09, 2007

Sindroma do marido reformado


Jovens liberais eufóricos apregoam, nestes dias tão destituídos de memória, o regresso das mulheres ao sossego do lar, para tratar das crianças e dos assuntos domésticos, com vista a optimizar os rendimentos do agregado, mantendo intactos os valores tradicionais da família tão em desagregação, dizem eles. Alegam que já vergam a mola horas mais que suficientes, mal dormem, mal comem, ganhando mais que bastante para sustentar a casa e consumos acessórios. Ora, exactamente a este propósito, sobrevoemos por minutos a dose de realidade empírica que me foi oferecida, ontem, por um documentário que passou na tv cabo.

As japonesas com 20 anos em 1960, altura em que casaram e constituíram família, permanecendo em casa, como era devido, vendo partir o marido para trabalhos com os quais contraíram segundo casamento, e de que começam a reformar-se, desenvolveram uma doença depressiva: o chamado sindroma do marido reformado.
Eu, que sou especialista em catálogos de doenças depressivas, e em várias línguas, nunca tinha ouvido falar nesta: sindroma do marido reformado!
Educadas tradicionalmente para a submissão ao marido, para terem e criarem os seus filhos, cuidarem da sua casa, roupa e alimentação, estas mulheres habituaram-se, durante mais de 40 anos, a uma estranha relação conjugal, a que continuaram a chamar casamento, mas que se tratou, de facto, de uma relação empresarial gerida eficazmente, da qual ambos eram escravos, de uma forma ou de outra.
Os maridos estiveram quatro décadas de passagem pela família, embora a liderassem. Dormiam e saíam, a correr, sem férias, sem folgas. Não existiam laços afectivos, nem diálogo. Nem tempo nem predisposição. De nenhuma das partes. Alguém consegue imaginar japoneses, mesmo japoneses com tempo, a dialogarem sobre sentimentos, a manifestarem-nos?!
Habituaram-se, pois, a viver uma vida semi-celibatária, sem outros afectos. O marido vinha a casa, de vez em quando, e não ocupava muito espaço. Era um estranho, mas um estranho que não estava presente, ou, se estava, se tratava correctamente, para rapidamente desaparecer com a mesma correcção. Hoje, a perspectiva do regresso a casa dos maridos, leva-as a colocarem a hipótese do suicídio, a pedir-lhes que adiem a reforma, e a procurarem, em desespero, a ajuda da psicoterapia. Não suportam a ideia de viver com aquele estranho. Não resistem ao stress, à depressão, ao medo que tal ideia lhes causa. Não sabem dialogar com o estranho. Sentem dores de estômago, subida da tensão arterial, ficam gravemente doentes. No Japão há milhares de casos.



O sindroma do marido reformado é consequência de uma estrutura social baseada da divisão rígida das tarefas, na separação dos sexos de acordo com tais obrigações.
Não existe apenas o sofrimento da esposa, porque o marido, um desgraçado que trabalha a 300 quilómetros para garantir a subsistência da família, não só não é feliz, como, na maior parte dos casos, nem sabe que é indesejado. Vai sendo poupado ao seu próprio estatuto de visita obrigatória e indesejável, o qual desconhece, e só vem a descobrir quando, finalmente, é confrontado com a doença da mulher. Sofrem todos em nome de uma tradição que é, na prática, uma inútil escravidão voluntária. Serve ninguém. Ambos os cônjuges são fiéis a um modelo de honra que não os honrou, porque não respeitou a inteireza das suas vidas, porque não os realizou como indivíduos nem como par.

Conheço um caso muito semelhante: uma amiga da família recomeça a tomar Prozac sempre que o marido regressa, semestralmente, da plataforma petrolífera onde trabalha; encharca-se de calmantes e vitaminas enquanto aguarda ansiosamente pela sua partida, sorrindo, limpando cuidadosamente o pó aos cantos da casa, que ele pensa pertencer-lhe, mas que, na verdade, e por justo usocapião, lhe pertence a ela e aos filhos. Ele não passa de um intruso tolerado. As férias do marido implicam fazer-lhe sala, como a uma visita de cerimónia, durante as 24 horas do dia; e a minha amiga não suporta o stress, a tensão de ser uma fada do lar só para ele ver, porque julga ser o que ele espera dela. Já nem sabe. Já passou tanto tempo. E quando casaram era assim.
Emagrece, anda irascível. Assim que o deposita no avião, vêmo-la sorrir outra vez, sentir-se feliz, livre para estar em casa sozinha a ler, a bordar, ocupar-se dos filhos, do trabalho da casa. Para poder ser quem se habituou a ser – uma mulher celibatária - e viver sem medo.

Portanto, regresso aos valores tradicionais, caros jovens desmemoriados?! Divisão das tarefas de acordo com supostas competências adstritas a um sexo?! Aqui vos deixo a experiência da vida real! Não tentem fazer isto sozinhos em casa!

segunda-feira, agosto 14, 2006

A libertação da mulher (de Leiria para cima)

Gostaria de encarecidamente pedir aos senhores e senhoras donas de hotéis, pensões e albergarias e quartos para alugar, de Leiria para cima, que não continuem a perguntar-me pelo meu meu marido cada vez que peço um single. É que se peço um single, é porque estou single, não há marido a quem dar as chaves do quarto; não há marido para ir arrumar o carro na garagem, não; não há marido que ainda vem para cima com as malas, não. Não foi o meu marido que veio a conduzir e deve estar cansado. não. Eu sou o meu marido.
E, sim, é verdade, não posso esconder que não tenho aliança de casada nem de comprometida, nem prima, nem filho... 40 anos... só há duas hipóteses, ou sou agende da judiciária em serviço à paisana, investigando um caso cabeludo de negócios nortenhos fraudulentos ou...

domingo, junho 18, 2006

O meu corpo que não foi meu

Para a Susana

Os homens não falam entre si. Falam pouco, só mesmo antes de estoirarem. Os homens não conhecem os homens. Por esse motivo, não podem crer que as meninas de 10 anos sejam alvo de assédio sexual grosseiro, violação, até, pelos seus amigalhaços. Não acreditam ou não querem acreditar ou são cúmplices, porque nós sabemos que os homens se protegem mutuamente.

Algumas mulheres ainda percebem as outras segundo uma visão masculizada do mundo. Exercem sobre elas o mesmo poder, por delegação inconsciente. Responsabilizam a puta da amante do marido, que o desencaminhou, não o marido; criticam a vizinha que se divorciou 3 vezes e casou 4 – uma vadia; juram a pés juntos que as mulheres, elas próprias, são umas víboras que se traem umas às outras na luta pelos homens. Não gostam de trabalhar com mulheres, porque são galinhas, intriguistas, conversadoras, superficiais e incompetentes.

Outras mulheres começaram a falar sobre si; cresceram, envelheceram, tiveram filhos, querem viver mais. Têm 40 anos e querem arrumar a casa. Deitar fora o lixo. É natural. Essas mulheres têm trazido para o espaço público a história do bas fonds institucionalizado da violação psicológica e física de que as fizeram culpadas.

Os homens, quando confrontados com relatos do assédio que sofremos toda a infância e adolescência, sem sabermos como nos defender, envergonhadas, caladas, perguntam-nos o que andávamos a fazer nesses lugares que não nos pertenciam – defendem que há lugares só para homens nos quais as mulheres não devem sonhar, ousar entrar.
Portanto, se vamos ao café, e no café há homens!, se formos alvo de violação física ou psicológica, a culpa é nossa. Não temos de que nos queixar. Não são os violadores que procedem mal, nós é que não devíamos aproximar-nos. Contemporizam: os homens são uns brincalhões, dizem umas frases picantes, mas que importância tem isso? É só brincadeira. Nós é que temos a responsabilidade de ter orelhas moucas; as mulheres sérias têm orelhas moucas, portanto eles estão desresponsabilizados.




Quando nos disseram aos 12, aos 13, aos 16, aos 19, etc., etc., «ai, anda cá, que coninha tão bem desenhada, o que tu precisavas era de um par de colhões bem pretos todos metidos lá dentro», e nos chocavam e corrompiam, era tudo só brincadeira. Se eu chegasse a casa a contar isto, ter-me-iam dito, “as mulheres sérias têm orelhas moucas”.
Estas brincadeiras afectaram a nossa relação com os outros, com os homens, connosco, a vida inteira; levaram-nos a ser injustas com gente que não merecia, encheram-nos de medo, posicionaram-nos numa plataforma destituída de poder, de resposta, de vontade.
Entretanto, outros homens, noutros sítios, diziam as mesmas grosserias às filhas dos que nos molestavam - as culpadas éramos nós, e as suas filhas.
À violência autorizada no espaço público, precedia a que havia de ocorrer no doméstico.
As mulheres começavam a ser abusadas em crianças. Quando casavam e eram mães, o abuso era já tradição.
Semelhante estrutura de poder paralelo e clandestino teve longo sucesso enquanto conseguiram fazer-nos sentir culpadas do seu opróbrio - enquanto não confidenciámos sobre as misérias de que nos culpavam. Não falávamos da intimidade. Do sexo. Das coisas más e vergonhosas. Todas já tinham feito, mas não diziam com quem. Não falávamos sobre violação, sobre falta de prazer, porque estávamos isoladas umas das outras, e dos outros, por barreiras de pudor e de estigmatização. Porque não era possível admitir violação e falta de prazer. A violação só acontecia às vadias sôfregas que não se sabiam preservar. Nós não éramos vadias. Sabíamos que os homens abusavam das mulheres, que tínhamos de fugir deles, portanto a culpa era nossa. Quanto ao prazer, se os homens diziam que nos tinham dado prazer, se eles achavam...
Depois começámos a falar. Nos anos 90, acho, começámos a falar. E descobrimos que todas vivemos o mesmo, caladinhas. As irmãs dos violadores também foram violadas permanecendo caladas.




Portanto, uma rapariga sozinha a pé numa estrada era uma puta. Se um carro parasse e dele saísse alguém para nos violar, nós estávamos a pedi-las. Uma mulher decente não andava sozinha. Aos 13 anos éramos meninas irresponsáveis que não podiam sair à rua, mas seríamos, paradoxalmente, mulheres se fôssemos alvo de violação física ou psicológica. Éramos as culpadas da nossa própria violação. Tínhamos a responsabilidade de ser já umas mulheres e saber que não nos podíamos expor a riscos.
Os violadores ofereciam-nos rebuçados porque éramos crianças, mas queriam foder-nos porque éramos mulheres.
Consigo lembrar-me de um senhor de 50 anos, rico e idóneo, que me oferecia bonecas à frente dos meus pais, mas, na sua ausência, me sentava ao seu colinho, afastando-me as cuequinhas para o lado e segurando-me com força para não fugir, enquanto me perguntava como ia a escola. Os meus pais confiavam muito nesse senhor e na respectiva esposa, e até me deixavam à sua guarda quando iam à Joanesburgo. Eram meus padrinhos.
Denunciava o meu padrinho aos meus pais? Com que palavras? A minha madrinha entrava no escritório, via-me sentada no colinho do marido, enquanto este me abraçava com ternura e me falava carinhosamente sobre assuntos decentes - e entalava o respectivo pénis na minha racha... E a minha madrinha sorria e dizia, “adoras a miúda” ou então “o teu padrinho é babado por ti”. Era, de facto, muito babado.




Só depois dos 40 anos consegui ter uma conversa suficientemente aberta com outra mulher a ponto de poder perguntar-lhe, “mas tu já fizeste isto e aquilo?” E ela respondeu. “E gostas?” “Como sentes o orgasmo, como sabes que vai acontecer?” E ela respondeu.
Nunca falei de sexo com as minhas amigas. Falávamos de namorados, não do que fazíamos com eles. Durante muitos anos pensei que tinha uma deficiência qualquer, porque os orgasmos me eram tão difíceis. Hoje ouço-nos descrever as mesmas experiências, sintomas e bloqueios. No momento do sexo, olhávamos o nosso corpo com os olhos dele, com o julgamento dos olhos dele sobre o objecto fodível. Durante o sexo vigiávamos os nossos gestos e gemidos para que correspondessem ao que eles viam nos filmes e revistas pornográficas. Queríamos ser aquele produto que eles valorizavam entre si. Não podíamos abandonar-nos, esquecer, ser só o prazer do corpo. Aquilo não era sexo, para nós, era uma coreografia para o prazer deles. Copiávamos a imagem de mulher que nos traziam o cinema e as revistas.
Éramos objectos deles, para eles. Desejávamos para nós corpos que não existem, que são montados de outros corpos; gestos impossíveis...
Lembro-me de um namorado me ter descrito certa prática que sonhava ter comigo. Explicou quais seriam as posições, por onde é que a minha mão teria de passar para segurar o seu pénis, e de onde apareceria a sua tocando os meus genitais. Deixei-o falar; depois, disse-lhe apenas, “isso é impossível pelas leis da física, da biologia. Para fazermos isso cada um de nós precisava de ter braços meio metro mais longos.” Garantiu-me que não, que tinha visto num filme.
Lembro-me que os mesmos homens que publicamente me gozavam por ter o rabo grande, ou a barriga proeminente, tiravam prazer privado do meu corpo, adorando esse rabo e barriga. Publicamente havia que obedecer a um discurso que não tinha reflexo na vida privada. Adoravam o meu corpo na cama. Mas nunca o admitiriam em público.
Levei anos a compreender isto. A pensar a ditadura dos discursos. Dos códigos sexuais aceites, que não correspondem ao desejo do desejo.



A liberdade sexual dos homens e das mulheres há-de passar pela negação de códigos que transformam o sexo e o corpo numa ditadura estética. A liberdade sexual dos homens e das mulheres não banalizará a prática, mas desenvolverá um discurso limpo, livre sobre o prazer. Quando temos prazer ou não? E porquê? O que é o prazer? Só há prazer com orgasmo? Há quanto tempo não fazemos amor, quando não o fazemos? Por que motivo temos vergonha de admitir que durante sete anos da nossa existência não tivemos sexo, e nos masturbávamos de seis em seis meses, só para ver se aquilo ainda funcionava? Por que motivo a presunção de sexo e de prazer sexual valoriza socialmente os indivíduos? Porque motivo a presunção de sexo não valoriza a rapariga solteira, apenas o rapaz?

Vivemos o corpo e o desejo que o patriarcado de homens e mulheres, aliados enquanto senhores e serviçais fiéis, nos permitiram ter. Portanto, não tivemos corpo nem desejo. Não nos pertenceu.
A nossa vivência do sexo, tensa, acidentada, deve ao roubo desse corpo, desse desejo. Enforcámo-lo.
Estou aqui para pedir contas. Quero tudo o que roubaram. Quero garantir que as minhas filhas e as filhas dos outros não serão roubadas. Que os rapazes não serão ensinados a roubar pelas mães roubadas.

domingo, abril 09, 2006

O que penso sobre o argumento de ordem natural

Ao longo da longa história as sociedades têm-se organizado heterogeneamente com base em diferentes estruturas culturais, as quais vão adaptando às necessidades. Ou não, o que costuma ser fatal. Não nos deve espantar, portanto, que diversas sociedades tenham guardado para as mulheres a tarefa da caça, da pesca e o manejo de armas, com esse fim. Aconteceu na bacia do Amazonas, em África, na Oceânia; esta estrutura do tecido social, para nós ainda atípica, terá acontecido um pouco por todo o planeta. Há de tudo. Há sociedades em que o incesto pai-filhos é uma prática destituída de gravidade, por não se considerar que as crianças sejam filhas dos respectivos pais, mas apenas da família da mãe. Interessante.
A cultura europeia, porém, boa herdeira da ideografia greco-latina, uma entre tantas, remete a fêmea das classes altas para reclusão doméstica, e continua presa aos ideais de separação de funções de acordo com uma ordem natural dos sexos, situando as mulheres num patamar de irracionalidade aberrante. As mulheres devem ou não devem fazer algo porque é ou não é próprio da sua natureza. O ideário greco-latino marca-nos impressionantemente, impondo ao conhecimento paredes de uma teimosa opacidade. Continuamos a viver segundo esses moldes do pensamento.
Se a caça seria tarefa dos homens, e só dos homens, e esse é o motivo que explica por que eles sabem alegadamente orientar-se melhor que nós; se a caça exigia destreza e força, e esse é motivo porque naturalmente lhe coube a tarefa, pergunto-me se teria importado muito às negras que em criança via de enxada na mão, vergadas sobre o solo, lavrando-o para a plantação de amendoim, com a criança bem amarrada ao peito ou às costas, chupando-lhes a teta enquanto trabalhavam e suavam em bica, pegarem no arco e na flecha para irem caçar a impala, com a cria colada a elas como uma mochila Eastpack, mamando sofregamente enquanto desentranhavam e desmembravam a peça para a transportarem para casa? Estou em crer que lhes seria igual. Melhor, que teriam preferido.

Mulheres medievais caçando

Mudemos de cultura, porque a alimentação carnívora não as explica a todas. E nas culturas onde não se come carne, nomeadamente na Índia, onde se fundou a religião budista? Nessa zona os homens orientar-se-ão melhor que as mulheres com base nas capacidades desenvolvidas durante a caça ao cogumelo? As mulheres não têm músculo para o cogumelo? O que explicará a cultura patriarcal na Índia?
Parece-me que divisão de tarefas e aptidões de acordo com o argumento da natureza deixa, pois, muito a desejar.

terça-feira, março 21, 2006

Estado Novo (segunda parte): o silêncio

Não faço a menor ideia do que é que ele diz nas sessões da Opus Dei nem nas noitadas no clube sado-maso nem ao senhor prior, todos os domingos, mas, na empresa, o que ele até diz é que não sobrevivem os maiores, mas os que se adaptam. Por outras palavras, não os bons, mas os mansos, os caladinhos.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Têm lá um lindo sistema!

O Governo japonês admite que a taxa de natalidade atingiu níveis baixíssimos e muito perigosos para a economia, pelo que aconselha os patrões a estimular os empregados a não ficarem a dormir no emprego, mas a irem para casa deitar-se com as respectivas, saindo mais cedo às terças, ou seja, logo às 20 horas, por ser dia do casal e poderem, assim, gozá-lo com a esposa.
E também aconselham os homens a olhar para as esposas nos olhos enquanto falam com as ditas, e a chamá-las pelo seus verdadeiros nomes próprios quando precisam que lhes tragam algo, evitando emitir grunhidos ininteligíveis, como habitualmente
Parece que as japonesas andam pelos cabelos, e escolhem, cada vez mais, viver sozinhas, não gerando filhos, até porque trabalham igualmente que nem umas escravas, e não têm disponibilidade mental para a filharada, nem quem as ajude nisso.
Isto tudo para aumentar a taxa da natalidade, evitando a extinção da raça.
Não sei se os espermatozóides japoneses vão aguentar tanta pressão familiar. Se calhar, suicidam-se.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Safo foi bailarina


Safo de Lesbos, poetisa grega, século VI a.C.

Uma cama larga, partilhada com mais do que uma mulher de diferentes características físicas, que não só fazem amor entre si, como se entregam activamente, para total consolo, ao desejo viril: eis uma fantasia erótica masculina muito frequente, copiosamente reencenada pelo negócio da pornografia.

Desde que aí não esteja a sua, os homens não se sentem tradicionalmente ameaçados pelo sexo entre mulheres. A ideia é-lhes prazenteira. O envolvimento sexual mútuo não torna as mulheres lésbicas: a recusa do macho é que as torna fufas.

Os prazeres sáficos não constituem sexo sério, mas meras brincadeiras que desenvolvemos, umas com outras, enquanto não chega um homem para nos satisfazer capazmente.



Tamara de Lempicka, Duas Amigas, 1923

O imaginário tradicional associa sexo e supremo prazer sexual ao falo erecto. Um bom desempenho implica, culturalmente, mesmo no caso dos homossexuais masculinos, a penetração realizada pelo falo.
O prazer, e o poder do prazer, dependem, portanto, do macho.
Numa cultura fálica não é a entrega e a partilha do desejo que se relevam, mas a realidade de uma posse física conseguida pela penetração. Possuir é penetrar: “eu entro em ti, eu lavro-te, logo, és a minha terra”. Não é uma ideia destituída de qualquer poesia, mas ignora, displicentemente, o corpo total enquanto zona erógena.
É precisamente a questão da posse pelo falo, que, no caso da homossexualidade masculina, incomoda tanto. Por isso se valorizam negativamente expressões como “pega de empurrão”, ou designações como “o rabeta”...
No contexto religioso, enquanto a homossexualidade masculina foi e é, ainda, impiedosamente condenada, a feminina, considerada um vício, tolera-se; rezados uns Padre-nossos, absolve-se. Não é coisa muito importante. Case-se a rapariga!



Estátua de Príapo, Pompeia

Numa relação homossexual masculina incomoda que a estratificação do poder se estabeleça entre dois homens, possuidor e possuído, sendo que o possuído personifica a fêmea; portanto, o mais fraco, o mais ridicularizado.
As mulheres podem beijar-se, roçar-se, manipular-se, mas nunca, porque destituídas de um falo natural orgânico, possuir-se. Proporcionam-se excitação, não o prazer rigoroso do falo. As mulheres permanecem, assim, simbolicamente roubadas do poder.

O prazer sáfico é decorativo, distrai. As fêmeas são, regra geral, agradáveis aos olhos: redondas, macias, suaves. Assim, a brutalidade associada à prática sexual entre dois homens opõe-se à suavidade do contacto físico entre mulheres. Os homens são brutais, as mulheres entregam-se a coreografias excitantes. Um bailado.

Contudo, quando abordo este assunto, gosto de lembrar que é possível dar e receber beijos mais poderosos, mais envolventes que a ordinária penetração.




Catherine Deneuve e Susan Sarandon em The Hunger

(Miguel Marujo, cumpro o prometido a 31 de Dezembro, que, entretanto, me cobraste!)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Da iniciativa no ritual de cortejamento

Conheço pessoas verdadeiramente convencionais. Eu não sou muito.
Temendo a parcialidade da minha visão, ao avaliar o mundo no qual vivemos, procuro fundar-me mais no que observo, do que no que sinto. Mas o que sinto e observo produzem uma liga indestrinçável, pelo que desconfio da validade do meu discurso.
É possível, todavia, confiar nessa liga indestrinçável. Isso. Pelo menos.

O que conto vem a propósito do sentimento de rejeição que podemos sofrer ao abordar outro, sem sucesso; dos códigos de abordagem; do que nos foi ensinado sobre a quem cabia abordar e ser abordado

Aconteceu-me viver o final dos anos 70, princípio de 80, numa zona rural. Era adolescente.
Nos bailes da sede, ao sábado à noite, encostavam-se as cadeiras de pau às paredes livres da sala; a seguir, vinha o conjunto com as músicas da ordem, sobretudo os slows, que a gente gostava era dos slows: depois vinham as meninas solteiras com as mães, as irmãs, as tias; depois, chegavam os rapazes, sozinhos, cada um na sua mota, ou a pé. Os mais ricos tinham uns mini-Morris, e os muito ricos, Fiat 127.
As meninas, e respectivos paus-de-cabeleira, ocupavam as cadeiras; os rapazes iam para o bar, de onde se via a pista, beber minis e trincar amendoins, bem como, discutir entre si, quem dançava com quem.

Por fim, chegavam os casais novos, ainda bailantes.
As mães e tias, ou as feias, nunca se levantavam das cadeiras, a não ser para procurar donzelas desaparecidas, nos intervalos. As donzelas propícias ao desaparecimento, levantavam-se do assento por três motivos: casa-de-banho/xi-xi/risco nos olhos+rímel; aventura ao bar, área de homens, a pretexto de um carioca de limão ou de café, mas, sobretudo, para verificar se o rapaz do seu interesse tinha chegado; no momento em que era convidada para dançar.
Os rapazes nunca se sentavam nas cadeiras: encostavam-se onde podiam.
Que me lembre, existiam duas formas de uma rapariga ser convidada: a corajosa e a cobarde.
A corajosa implicava que o rapaz caminhasse até junto da menina e respectiva famelga, sujeitando-se a todos os olhares da sala, perguntando-lhe, enquanto dobrava ligeiramente a espinha, se queria dançar. A cobarde consistia num gesto feito de longe, com o indicador voltado para baixo, esboçando um gesto circular ou, para cima, desenhando uma breve linha que sugeria ligação entre convidador e convidada. Nestes casos, o rapaz expunha-se menos. Eram convites de resposta incerta, feitos a medo, para salvaguarda do gozo dos amigos, de todos; era um gesto sub-reptício, ligeiro, mas nós sabíamos. Fixávamos o magote de rapazes, aparentando olhar vago, mas alertas ao menor sinal. Nenhuma rapariga queria ficar sentada. Era, igualmente, uma rejeição que nos envergonhava: porque ninguém nos desejava.
Para qualquer dos convites, havia uma única forma de aceitar: assentir com um rápido baixar-levantar de cabeça, aprumar o corpo, disponibilizando a mão, o braço e a cintura. Negávamos, abanando-a, apenas.



Estava absolutamente fora de cogitação uma rapariga convidar um rapaz. Seria muito mal falada no domingo, o resto da semana. Fulana seria uma maluca. Uma doida. Nunca me lembro de tal ter acontecido.
Se tínhamos interesse por um rapaz, escondíamo-lo. Os códigos de cortejamento eram rígidos; se uma rapariga sorria a um rapaz, estava a dar-lhe confiança, logo, gostava dele, logo, o rapaz podia avançar com paleio. Com paleio e mais nada. Enfim, uns encostos, uns apertanços valentes, nos slows, a ponto de lhes sentirmos os pénis erectos sob a roupa; umas mãozinhas na cintura, por debaixo do casaco, disfarçadas; se havia escuridão na sala, um beijo meio roubado, por eles, mesmo que o desejássemos mais que à comida da semana.
Agora sorrio, se penso nisto, mas, na altura, era sério. Sofríamos.

Tive dois namorados de baile, e fui muito mal vista: o primeiro foi o Fanã do meio - alcunha da família; ele era o filho do meio. Os Fanã eram pobres, e todos gozavam comigo. O Fanã do meio era atarracado, mas muito bonito. Já tinha saído da escola, e trabalhava numa oficina de bicicletas.
Eu tinha casado com o Fanã.

Depois tive o Bisonho. Não me lembro do nome dele, mas era bisonho, um bocado feio, e trabalhava na fábrica de vidro. O Bisonho tinha uma Famel, e era alto e espadaúdo. Remediado, mas mais velho que o Fanã; já nos seus vinte; e avisaram-me muito para que não me desgraçasse.
Eu, tudo o que queria, era desgraçar-me. Eu e as outras. Mas, claro, isto não se confessava. Os malabarismos horários que realizei só para conseguir que o Bisonho me encontrasse no caminho, quando vinha da fábrica, e parasse, e me namorasse.
Eu tinha casado com o Bisonho.


Brigitte Bardot

Havia uma ordem ritual: o rapaz desejava e solicitava a rapariga. A rapariga era objecto de desejo e, em consequência, solicitada.
Admito que os rapazes experimentassem sentimentos de rejeição, que se sentissem humilhados, quando os negávamos. Imagino que nos dias seguintes, no café do centro, fossem mofados, “então convidaste a prima da Mané e não tiveste sorte, hein?!” Ou pior, muito pior.
Não havia razão. Nunca houve. Mas admito.

Já me senti rejeitada. Não foi agradável, mas não fiquei traumatizada para o resto da vida social.

Não gostamos de ser rejeitados, contudo avança-se. Quem é que não foi preterido em público, por um ou outro motivo? O que pensámos? Querem, querem; não querem...
Embora tenha, voluntariamente, quebrado a ordem ritual, já mais velha, na cidade, onde o anonimato nos liberta, havia alguma beleza naquilo: ser eu o objecto de desejo. Querer mas não facilitar. Esperar. Manobrar. Foi sempre melhor quando o ritual se cumpriu; quando houve tempo para ser seduzida, iludida...
Não me custa manifestar interesse por alguém, tomar a iniciativa, explicar-me, ser eu a cortejar. Não sinto vergonha. E a rejeição não afecta a minha auto-estima por longo tempo. Mas é tão bom quando o outro cumpre o ritual. Quando o outro anda de roda de mim, me cerca e eu quero ser cercada. Posso caçar, mas gosto tanto de me passar por caçada.
Mas nada disto tem que ser à noite, num bar. Não me refiro a engates, porque não domino o assunto. Não me interesso por alguém apenas porque é deslumbrante.
Interesso-me devagar. Descubro que estou interessada. Depois... posso não consigo esperar muito.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Mulheres fatais, 1

O imaginário sexual masculino deseja e teme, em simultâneo, as mulheres fatais.
Estas achincalham e ameaçam o poder, na medida em que não se sentem constrangidas pelas regras.
Ora, o poder é assunto caro aos homens, por vezes titubeantes entre os direitos e as obrigações que o mesmo lhes atribui.
As mulheres fatais, subvertendo as normas, assumem-no e exercem-no, e, assim, ameaçam a construção social; o que as torna temíveis; mas dá-se que, o mesmo exercício de poder que as torna temíveis, as faz desejadas, já que o imaginário masculino anseia frequente, secreta e inconscientemente, ser desapossado do poder que a cultura lhe atribuiu como natural! Ou, pelo menos, partilhá-lo!

As mulheres fatais conseguiram a atenção do cânone que construiu a História na sua qualidade de devoradoras de homens; mulheres belíssimas, ou nem por isso, que, por algum motivo, se diz terem destruído a vida a grandes homens da arte, do pensamento, da ciência.
A História desvaloriza o facto de, coincidentemente, serem todas, ou quase todas, cultas, talentosas, extraordinárias; frequentemente mais cultas, talentosas e extraordinárias que os vultos cujas vidas acusam de ter destruído.
Por outro lado, valorizam-se-lhes os atributos sexuais, remetendo-as para práticas encaradas contra naturam ou, no mínimo, reveladoras de comportamentos dissolutos: lesbianismo, bissexualidade, poligamia, ninfomania, prostituição. Quando nada disto se aplica, atribui-se-lhes uma patologia mental e arruma-se o caso. Raramente se lhes concede o que as tornou únicas: o seu génio artístico ou científico, a sua excelência.

Vejamos alguns nomes: Mata-Hari, seduzia homens para conseguir segredos e fazer espionagem; Simone de Beauvoir; bissexual, recebia meninas e meninos em casa e, nos intervalos, criava uma literatura feminista; Virgínia Woolf, lésbica recalcada e escritora; Anais Nin, lésbica praticante e escritora; Isabelle Eberhardt, vestia-se como homem, frequentava bordéis, sexualidade inclassificável, escritora, Frida Kahlo, bissexual e pintora; Margaret Mead, casou demasiadas vezes, bissexual de certeza, lésbica provavelmente, antropóloga; Camille Claudel, maluca, desequilibrada total e escultora; irmãs Bronte, obsessivas, desequilibradas parciais, solteironas recalcadas, as que casaram fizeram-no sem amor, escritoras; Lou Andreas Salomé, devoradora de homens com vida dissoluta, escritora, pensadora; Marie Curie, costumes dissolutos após a morte do marido, arrogante, cientista; Isadora Duncan, ninfomaníaca, louca e bailarina; Carson McCullers, bissexual mais a tender para o lésbico, escritora; Marilyn Monroe, desequilibrada e burra, actriz; Marguerite Yourcenar, lésbica total e escritora; Marguerite Duras, ia a tudo, escritora; Clarice Lispector, maluca e escritora; Sílvia Plath, maluca e escritora; Alma Mahler, devoradora de homens e compositora.
E nem me abalanço a mencionar a nossa Carlota Joaquina que parece que era feia que nem um bode, má que nem uma cobra, que dormia com a criadagem toda, da cozinha à cavalariça, e maltratava o pobre do rei, coitadinho, impondo-se às suas decisões, a velhaca!

Dá vontade de rir, não dá? Parece caricatura, não parece?

A História não se limitou a ignorar as mulheres, como, quando as lembrou, as tratou mal e parcialmente!
E o que sabemos da História é o que a História escreveu!


Isadora Duncan

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...