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segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


quinta-feira, maio 24, 2007

Como os artistas plásticos realizam grandes obras

Enquanto Maria Teresa me hace una sopinha de grão-de-bico bem caliente, a ver se acabo aqui los cinzentos-névoa-horror, en el canto inferior izquierdo desta obra-maestra, que versa um grande bombardeamento durante la Guerra Civil.

Como as artistas plásticas realizam grandes obras

Se conseguir ver-me livre do Diogo, despachando, en lo mismo pacote, todo lo narcisismo y obsesiones, fico sem cuecas e peúgas para lavar e coser, acabam-se os cozinhados para apurar, e ainda evito los hijos de las otras, que me hão-de doer. No tenendo que lo aturar, talvez consiga fechar-me no atelier, e concentrar-me en la textura cromática del corazón de sangre que a figura sentada tem golpeado en el pecho.

sábado, julho 08, 2006

Não quero mulheres para decoração


Não sei se vamos ganhar à selecção alemã, e, sinceramente, importa-me pouco. É provável, mas se não ganharmos, jogaremos bem, e os alemães igualmente. Não há pressão para a vitória; podemos dar-nos a luxos de qualidade. Jogar com arte; sem guerra. Sem nervos. Será apenas desporto limpo.

Não sei quem inventou esta ideia de que a competição era saudável e produtiva, mas estou certa de que alguém me informará na caixa de comentários.
Não produzo em competição. Não me interessa; perco gosto no que faço.

Há uns tempos, o Karloos, do Licenciosidades, fez-me chegar um texto publicado no Diário Económico, penso eu, que defendia, sobre as mulheres, a ideia que acabei de enunciar: um estudo, realizado não sei onde, revelou que detestamos competição, e, numa situação de trabalho em que nos seja exigida grande agressividade, produzimos menos ou erramos mais - em contrapartida, inseridas em contextos livres de stress, que requeiram calma e concentração, apresentamos melhores resultados, ou mais criativos. Claro que o referido artigo se servia de um estudo para defesa de uma "teoria cara à opus dei", segundo a qual a existência de escolas separadas por sexo biológico seria o néctar dos deuses para a pedagogia.

Fixemos esta expressão que pretendo usar muitas vezes: "teoria(s) cara(s) à opus dei". Agora fixemos outra, que usarei menos, mas sobre a qual deve ficar claro que todo o meu discurso assenta: "estou-me a cagar de alto para as teorias caras à opus dei", e aconselho que façam todos eles(as) um comboiozinho"!


Grace Slick, 1967

Há mulheres que adoram competir, e homens que só querem que os deixem em paz e sossego; por isso é que estar vivo, viver com os outros, é inesperado. Surpreende. É uma experiência de brutal riqueza. É bom. Por isso, devemos ter cuidado com estudos segundo os quais as mulheres isto, e os homens aquilo. Eu, por exemplo, não consigo concentrar-me em muitas tarefas ao mesmo tempo, mas tenho um sentido de orientação quase canino, distinção que está muito na moda fazer entre mais-valias femininas e masculinas, e algumas existirão - para o bem.

Mas vamos à paridade, porque tendo começado com a cereja do futebol, e da competição, é a esta, a do fundo do cesto, que pretendo chegar: a paridade na política, ou noutra área qualquer, não mudará nada enquanto as mulheres copiarem comportamentos políticos do discurso hegemónico. Não se pensa muito nisto, mas todos copiamos, involuntariamente, discursos ditos bons, legítimos, tradicionais, sem nos perguntarmos se se adequam, se são justos ao mundo que temos; se alguma vez se adequaram; se alguma vez foram (eu copio!).

A política hegemónica não serve mulheres nem homens. Já o provou. É como continuarmos a fazer base de sopa com batata, mudando apenas o tamanho ou a variedadedo tubérculo, porque aprendemos assim, e é assim, ponto final. É possível fazer sopa de outra forma. Melhor sopa.

A paridade na política só fará diferença na fracção de tempo em que transcendermos as lições dos grandes mestres, e nos for ridículo ser tão eficientes como a actual ministra da educação ou a deputada Zita Seabra. Como elas, não, obrigada.

Aquilo que a entrada das mulheres no mundo da política poderá trazer ao mundo interessa tanto mais quanto mais diferentes forem os seus discursos do dos actuais políticos.
Não levemos para a política, nem para a economia (eu poderia lá distingui-las!), o que já lá está e, manifestamente, não nos serve: a demagogia, a agressividade generalizada e a competição cega, sem ética. Levemos as lições das mestras e mestres que nos ensinaram a pensar fora dos moldes de gesso que enformam a estrutura. Levemos, acima de tudo, o pensamento que produzimos sozinhas(os) a partir das lições das mestras e mestres.


Foto de Dennis Stock

Quero uma política que alie cabeça e coração. Quero concentração, qualidade, criatividade, seriedade, diálogo fecundo. Não é rentável? Vamos morrer de fome? Não: não mais do que já morremos todos os dias; será difícil consumir mais, desperdiçar mais - o que Donald Trump gasta num dia daria para alimentar a população inteira da Somália durante 15 dias. O que se gasta num mundial de futebol chegaria para construir escolas em toda a África subsariana, e administrar, a todas as grávidas seropositivas, o antídoto que permitiria aos seus filhos nascerem livres da SIDA.
Precisamos de apertar o cinto? Apertemo-lo a quem ainda tem furos, não aos que já o trazem à volta do pescoço.
Sejamos então inflexíveis, mas para que se invertam os discursos, todo o pensamento; porque a crise mundial é a crise do pensamento, dos valores sociais e humanos.

É possível que precisemos de regressar às origens. Se calhar, vamos ter de voltar a andar a pé, arranjar umas bicicletas, abdicar do shopping center - se calhar, vai ser bom. Se calhar, vamos ter de nos deitar mais cedo para poupar energia. Não sei, mas, se calhar, é provável que tenhamos de abdicar de muito, muito mesmo, e ir trabalhar com um filho a mamar em cada teta, atados à volta do corpo com faixas de algodão. Se calhar vamos comer couve e nabo cozidos. Se calhar. E talvez seja bom.

Quero mulheres nos parlamentos, nos governos, nas empresas, mas quero mulheres com o peito e a garganta transparentes de um lado ao outro. Não quero caçadoras, servidoras, não as quero a pensar como têm pensado os homens e as mulheres.
Quero mulheres diferentes, que me façam homens diferentes, e quero homens diferentes, empenhados connosco, em verdadeira igualdade, na recriação de um sistema diferente.
Isso seria mudar.
Mas quero paridade, apesar de tudo, seja em que circunstâncias forem. Começar por algum lado, mas começar. Um passo seguido de outro, mas passos.
Não quero é mulheres para decoração. Isso acabou.


segunda-feira, junho 05, 2006

A Lei da Paridade foi vetada para que as mulheres não se sentissem coitadinhas

A Lei da Paridade foi vetada pelo senhor Presidente da República como forma de garantir a democracia, com os seguintes argumentos:

1) Há zonas do interior, envelhecidas e menos escolarizadas, onde não seria possível encontrar 1/3 de mulheres candidatas a listas; a existir, tal obrigação legal poderia redundar num empobrecimento político.
Os malabarismos pré-eleitorais que nesses mesmos lugares se realizam, recrutando candidatos de outros concelhos, mas que por acaso têm ali casa de férias, ou aí nasceram, ou a mulher, ou pararam por lá uma vez para beber uma bica, não contam. Malabarismos aplicam-se só aos homens. Não é o sistema que não funciona no interior, as mulheres é que não são suficientes para alimentar o sistema.

2) A paridade não deve ser conseguida através de mecanismos "sancionatórios e proibicionistas", os quais colocariam a mulher num estatuto de menoridade, como se elas não fossem capazes, por mérito próprio.
Ora deixa-me cá ver se compreendo melhor: não se legaliza a paridade para que as mulheres não se sintam inferiores porque algo assegura o acesso igual. Por outras palavras, se permanecer tudo com carácter aleatório, cada partido escolhendo, livremente, incluir 1% de mulheres, ou 3o ou 70, ficamos todas mais felizes porque não nos transmitem uma mensagem de inferioridade: a de que somos umas coitadinhas que não conseguem lá chegar sozinhas. Isso seria uma terrível descriminação! Porque nós temos mérito, claro que temos mérito - não temos é lugar, mas com o tempo havemos de conseguir...
As pessoas não precisam de leis de apoio e incentivo por serem coitadinhas, mas porque é justo que existam, e porque a Lei tem o poder e a obrigação de empurrar as reformas sociais benéficas para a sociedade. Há casos em que a sociedade muda tão rapidamente que a lei tem de se adaptar; há outros em que as tradições sociais travam, a tal ponto, a evolução de processos, que cabe à mesma Lei promover mudança. Estou a lembrar-me da introdução de quotas, para acesso à universidade, de indivíduos portadores de deficiência, e dos incentivos às empresas que empregam profissionais deficientes. E os negros? Estará suficientemente generalizada a consciência de que um negro ou uma negra licenciados têm mais dificuldade em aceder ao emprego privado que concorrentes brancos em igualdade de circuntâncias? Olha, agora a Isabela endoideceu! Queria quotas para os negros e para os indianos e chineses e o resto?! Eles que vão trabalhar para a terra deles - que quase sempre é esta!


Voltemos à Lei da protecção da maternidade e da paternidade. Tem sido sucessivamente melhorada porque é justo fazê-lo? Ou inferioriza as mulheres e os homens? Foi atribuído estatuto de menoridade aos homens, a partir do momento em que passaram a ter de gozar os dias de licença de paternidade? E as mulheres, teriam tido direito a licença de parto e redução do horário de trabalho, durante a amamentação, se a Lei não as tornasse obrigatórias? As empresas privadas despediriam e cessariam contratos a mulheres grávidas se a Lei não o proibisse?
O impacto social da aprovação de uma Lei da Paridade, mesmo com menor percentagem de participação mínima, teria sido importante, não apenas para a política, mas para a sociedade em geral. Seria uma mensagem de legitimação que chegaria a outras áreas da vida económica, profissional, associativa, e por aí fora. Seria aquilo a que, em psicologia, se designa como reforço positivo: geraria motivação para que mulheres potencialmente interessadas na vida politíca, e para ela capacitadas, ou com vontade de aprender - exactamente como os homens - a ela fossem chamadas. Mas as forças invisíveis do costume, mais interessadas em que as mulheres regressem ao lar para tratar dos filhos e dos afazeres domésticos, largando postos de trabalho que poderiam ser ocupados por varões menos qualificados, no desemprego, e manipularam exemplar e sombriamente, como é hábito. É que as mulheres, quando saem da vida activa para se ocuparem dos filhos, não vão para o desemprego, e isso dá um jeitaço. Nada de modernices!

quarta-feira, abril 05, 2006

Projectos de paridade

Amigas minhas defendem que a introdução de quotas para acesso das mulheres a cargos políticos é um insulto. Não partilho essa opinião. Cabe aos legisladores, ao parlamento, influenciar mudanças sociais que constituam mais-valias para o progresso.
Creio que precisamos mesmo das quotas para que a voz política das mulheres seja efectivamente considerada em tarefas que transcendam a educação, a família, a cultura, e a assistência social. A questão vai mais longe: para que as mulheres percebam que a sua voz tem valor! Que são pares. Se calhar precisamos das quotas para lhes mostrar que, em política, podem fazer mais do que passar Pronto nas bancadas da Assembleia da República ou trazer bicas aos senhores ministros.
Nos países bálticos, cuja realidade conheço razoavelmente bem, as mulheres acederam à política quando entrou em vigor o sistema da quotas, o qual não se tornou ainda obsoleto, por estranho que pareça; mantém-se em todos os departamentos, de todos as empresas, públicas ou privadas; continua a ser obrigatória, anualmente, a apresentação dos ordinários planos de actividade, bem como dos respectivos projectos de paridade.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Ministras

A ministra das pescas norueguesa veio cá por causa do bacalhau. A ministra das pescas. Não era a ministra da educação, nem da saúde, nem da cultura, nem a dos assuntos sociais ou da família, mas a das pescas.
Gostava muito de ter uma ministra nas pescas, e outra na agricultura, e assim. Gostava muito de ter uma ministra na defesa.

sábado, fevereiro 18, 2006

"Não há rapazes maus"

As mulheres não são vítimas dos homens.
Os homens são as vítimas uns dos outros, e de um processo de aculturação no qual as mulheres têm participado como agente activo. Mantendo essa cultura. Defendendo-a contra todas as tentativas de mudança.
Como disse, ontem, citando outro autor, a Professora Teresa Joaquim, na Livraria Bucholz, no lançamento do 2º caderno de Filosofia das Ciências, Ciência e Género - Quatro Textos de Quatro Mulheres (Londa Schiebinger, Evelyn Fox Keller, Donna Haraway e Hilary Rose), há mulheres que são escravas, há mulheres que têm escravos.
A educação dos rapazes, no mundo em que vivi, e hoje, ainda, em determinados espaços culturais, geográficos ou marcados por questões de classe, era de uma violência muito superior à das raparigas. Os rapazes eram educados para viver sem emoções, sem lágrimas. Os rapazes eram educados para ver a mulher como o outro que eles não poderiam imitar sem descer vários degraus numa escala de importância, de poder. A educação dos rapazes era cruel. "Se choras és uma menina. Um homem não chora. Só as mulheres choram; tu não és uma mulher, nem queres ser, porque os homens são fortes."
Resultado: eu, que sou mulher, sei chorar, eu posso chorar - e nisso me curo. Posso lamentar-me. E nisso me curo.
O meu melhor amigo é vítima e carrasco, para si: não sabe chorar. Não sabe. E se souber, se isso acontecer num segundo incontrolável, fa-lo-á em segredo, como se praticasse um vício secreto. Eu choro na rua. Eu choro. Eu pude brincar com bonecas e com carrinhos. O meu amigo não pôde brincar com bonecas. Porquê? O que há de errado, nas bonecas, para um rapaz? Eu posso usar calças e saias, sapatos altos ou baixos, maquilhar-me ou não me maquilhar... O meu amigo, não. Se não quer ser ridicularizado, usará calças, sapato de homem e nenhuma maquilhagem. Enfim, colocará um cremezito hidratante, se for muito moderno, muito mesmo. E ridicularizará todos os homens que usarem saia, e educará o seu filho para não brincar com bonecas. É sua vítima; é seu carrasco. Perpetua esta ordem perversa, injusta, assente em papéis que deviam ser livres.
Os homens eram obrigados a ir à tropa, eram obrigados a aprender a matar. Eu não. Os homens foram extraordinárias vítimas de um sistema que os devorava, que os ensinou a devorar-se mutuamente, que criou e diabolizou a mulher, o negro, o da cultura e religião e prática sexual "diferentes" como o outro; o "outro-inferior". Vítimas da sua Lei. Nenhuma mulher é vítima sozinha. A violência doméstica dos homens sobre as mulheres, ou vice-versa, é exercida por umas vítimas sobre outras.
Somos também o outro que o sistema condena. Somos sempre o outro. Somo-lo em segredo, se for preciso. Tornamo-nos esquizofrénicos para poder ser, à vontade, tudo o que não nos é autorizado ser. E as saunas masculinas, os quartos escuros de melhor frequência na capital, todos os dias se enchem de heterossexuais do sexo masculino (70% dos frequentadores), que a seguir marcham para o snack da rua beber bejecas enquanto chamam paneleiros aos do brinquinho, aos que agora andam a comprar hidratante!

Se eu queria ter sido um homem? Nunca. Nunca compreendi como é que um homens conseguiam sê-lo. Suportá-lo. Ser um homem foi, no tempo da minha infância e adolescência, violentíssimo. Ainda é. Aqui, na minha rua. Todos os dias.

A paridade, a igualdade (não são conceitos iguais!) não é uma realidade assente fundo nas estruturas sociais e políticas da sociedade ocidental - não apenas na cultura lusitana. Sim, parece justo que todos tenhamos as mesmas oportunidades, mas, ao nível dos discursos quotidianos, permanecem todos os estereótipos sobre quem dirige. A comunicação social mostra-no-lo todos os dias. Uma mulher que engravide, que tenha filhos, e que seja, simultaneamente, um alto quadro numa instituição financeira, pode não voltar a ser promovida, porque é mãe. Um homem que tenha um filho é suplementarmente promovido, exactamente porque é pai e, por isso, precisa de ganhar mais dinheiro - tem um filho para criar!
Esta ordem e coisas é tão injusta para as mulheres como para os homens. Quanto mais não fosse, porque aquilo que, numa dada sociedade, serve para discriminar grupos, afecta não apenas esse grupo mas o conjunto social - inclusive os próprios agentes de discriminação.

Somos o que aprendemos a ser. Somos o papel que nos ensinaram. É difícil rebentar as grades dessa prisão. Implica um salto por dentro. Um rasgo. Uma ruptura.

É necessário estudar, para compreender, os mecanismos que constroem os comportamentos tradicionalmente masculinos. As mulheres despertaram há muito. Podem educar-se até ao esgotamento, mas enquanto os homens não despertarem, igualmente, não há mudança eficaz, profunda: ou seja, não há mudança, apenas alteração de comportamentos à superfície; apenas o politicamente correcto!
É possível educar novos rapazes, novas raparigas. Recomeçar. O mundo perfeito tem de se reconstruir nesse chão.
Isto não é uma utopia.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O tempo das mulheres

Vamos usar linguagem de leigo: segundo dados do Censo de 2001, a percentagem de população portuguesa do sexo feminino, ultrapassa a do sexo masculino. Nós somos mais.
Em idade activa, há mais mulheres, sobretudo em cursos superiores, terminando-os com maior índice de sucesso. Estudamos mais e melhor, trabalhamos que nos fartamos, e bem. A maior parte dos quadros técnicos superiores da administração pública são femininos. Isto são factos. Não temos grande jeito para os pistons, é verdade; o macaco para levantar o carro pode tornar-se, nas nossas mãos, uma arma perigosa, mas esta cabecinha funciona bem oleada, a 200 à hora, com a segurança máxima.
Eu, quando tenho que ir ao médico, ao dentista, ao advogado, ao polícia, ao juíz, ao professor, ao ministro, escolho sempe a médica, a dentista, a advogada, a polícia, a juíza, a professora. Sei que me vão tratar eficiente, profissonalmente, sem que no final da sessão me dêem o tradicional puxãozinho na bochecha, "minha rica, ligue sempre que precisar, e mesmo que não precise!"
Toda a gente sabe isto: somos boas! É provável que até sejamos melhores, mas como isto não vai a concurso, não caminhemos por terreno incorrectamente pantanoso. Fiquemo-nos, apenas, com esta nebulosa dúvida pairando sobre os" nossos" ancestrais medos mediterrânicos.
A jornalista Fátima Campos Ferreira convidou cinco homens para debater o estado da economia. Cinco homens. Como sempre. Homens. Três, cinco, sete. Neste exacto momento. Na RTP 1. Porque em Portugal não há mulheres economistas, porque em Portugal as mulheres não se interessam pela situação económica, política, cultural do País, porque em Portugal queremos deixar a política e os carros nas mãos dos homens.
Grande mentira; nas mãos dos homens só queremos deixar os carros, porque são realmente uma chatice, e eles gostam - mas juro que se me ensinarem a mudar o óleo e os farolins e a substituir as borrachas dos limpa- párabrisas, e os pneus, juro!, eu aprendo com gosto e faço.
Uma das últimas vezes que se me esvaziou um pneu, foi uma menina que parou para me ajudar. Para me ajudar, quer dizer, para fazer o trabalho todo. Falámos sobre o assunto e ela motivou-me: disse que "nós temos de lhes mostrar que não precisamos deles para nada". E eu acrescentei, "pois é, tem razão, os grandes cabrões, pensam que precisamos deles para alguma coisa, estão lixados!" E ambas rangemos os dentes de irmandande satisfeita.
Mas por que motivo Fátima Campos Ferreira convida Miguel Beleza e não Manuela Ferreira Leite?
Há muito tempo que as mulheres, excepto as do CDS-PP, que toda a gente sabe que não é um partido sério, nem sequer um partido, mostraram que sabem fazer política e que a fazem com maior honestidade. Gosto da Manuela Ferreira Leite, gosto da Leonor Beleza, da Ana Gomes. Porquê? Porque dizem verdadeiramente o que pensam, dizem-no independentemente da cor partidária a que se filiaram. Dizem-no à bruta, sem medo, sem paninhos quentes. E agrada-me esse confronto.

O futuro político está nas mãos dos/as kamikazes por conta própria, desses/as tais que não pagam os favores que devem, mordendo, de alguma forma, a mão ao "dono". Dos que têm vontade própria e se esqueceram de distinguir esquerda e direita. Porque já não existe essa dicotomia: há, sim, homens e mulheres formados num caldo de muitas ideias que é preciso ensaiar. Homens e mulheres menos cinzentos, mais informais, que sorriem, que dizem a verdade.


Ana Gomes


Pedro Mexia é talvez um dos mais recentes exemplos deste apartidarismo inconsciente e salutar. O Pedro começou por se declarar de direita, e é provável que o mantenha sempre. É-me indiferente. O Pedro tornou-se, sem querer, um opinion maker de esquerda. O Pedro pensa, frequentemente, à esquerda, e estou a vê-lo manter um diálogo interessantíssimo com o Miguel Portas ou a Joana Amaral. Porque gente inteligente, de mente aberta, não pertence à direita nem à esquerda, mas ao que é justo, necessário e urgente realizar para obter movimentos de mudança, de inovação, criação.

Sou muito optimista em relação ao futuro. Espero por essas mulheres, que aí estão, prontas para trabalhar e mudar, todas as que a Fátima Campos Ferreira não convidou para o debate; espero pela caixa de Pandora que têm guardada. E eu bendigo essa caixa não perdida, apenas oculta, por milénios, no peito, na garganta, nas mãos, no cérebro das mulheres, esperando que lhes fossem restituídos corpo, pensamento, voz. E foram. As mulheres restituíram-se ao que sempre lhes pertenceu, naturalmente.
E este é o tempo das mulheres - que querem os homens, para, juntos, mudarem simultaneamente, os pneus, e o mundo. E tudo o mais que houver que mudar.

Eu pertenço a essas mulheres.

Publicado também em O Eleito.

sexta-feira, abril 22, 2005

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