
Há dois tipos de homens disponíveis no mercado heterossexual: os bons, com bom ar, lavadinhos, simpáticos, compreensivos, tolerantes, fiéis, que aceitam, sem questões, dividir tarefas domésticas, e tratam bem as companheiras, e os maus, porcos, brutos, egoístas, ciumentos, fodilhões do que quer que mexa, agressivos, maltratando todas, excepto as mães, essas santas (a mãe destes é sempre mais santa que a dos outros, não sei porquê).
As mulheres consideram adoráveis os homens bons: são uns queridos, e portanto dedicam-lhes afecto, embora não tanto como estes desejariam; por outro lado, casam e procriam com os maus, num fenómeno que poderei classificar como "sindroma da salvação do mundo".
Sobre os homens maus já se disse tudo: são maus, uns cabrões diplomados, e elas sabem, mas querem-nos a qualquer preço. Hão-de mudá-los, um dia. Dão-lhes imensa luta, normalmente a vida inteira, pelo que têm muito tempo para desenvolver por eles insanas paixões fatais. Vigiam-lhes as carteiras, os telemóveis, desconfiam de todas as vizinhas solteiras com que partilham o elevador, fazem-lhes esperas às amantes, essas putas que os desencaminham, porque eles, coitados, não são responsáveis; são elas, elas, as outras...
Aos homens maus, as mulheres querem pertencer até ao tutano, enfiarem-se por eles dentro, de todas as maneiras, fundirem-se-lhes nas peles curtidas de filhos-da-puta, cozinharem-lhes arrozinho-doce e canjinha que não merecem, comendo elas o pão que o Inferno amassou, lavarem-lhes as cuecas, anularem-se em desmesura, aturando-lhes as taras e psicoses, e arranjando, deles, um par de crianças malcriadas, destinadas à inevitável divisão judicial do poder paternal.
Enquanto descrevo as outras faço os possíveis por ignorar a quantidade de homens bons que se fascinaram por mim ao longo dos tempos, e que me teriam amado de forma realista e boa, os quais desdenhei só porque, e juro que me custa dizer isto!, eram bons, e sinceros, e decentes.