Este progresso é inevitável, arrastando consigo uma infinidade de usos e abusos, exactamente como aconteceu com a energia atómica. São possíveis todos os cenários propostos pela ficção científica: sofrimentos, injustiças, aberrações, selecção e manipulação eugénica da espécie humana, criação de castas mais distantes e diferentes entre si do que as actuais... por outro lado, facilmente poderemos substituir um fígado ou uns pulmões danificados, uma perna, um cérebro, como quem muda os pneus carecas do Fiat. Os argumentos religiosos soçobrarão, porque ao Estado interessará produzir indivíduos mais fortes, capazes de trabalhar mais anos, sem gripes, sem infecções. Os animais serão não apenas, como até aqui, fonte de alimento, agasalho, e bestas de carga, mas, cumulativamente, incubadores dos órgãos de que precisamos. Hospedarão, na sua carne animal, consumíveis de carne humana. Uma estranha carne humana, eficaz, que ganhará forma e vida nas entranhas dos porcos e das ovelhas! Desenvolver-se-á, assim, uma outra indústria de sofrimento e morte animal, paralela à que já hoje existe, mas mais lucrativa.
A manipulação e controlo das funções físicas dos seres será total, e para isso contará pouco o que é hoje considerado humano, digno, aceitável. Será realmente possível produzir o super-homem e a super-mulher. Quem puder pagar um filho com determinadas características físicas e intelectuais, tê-lo-á. Já poderia tê-lo, neste momento - embora não seja lícito pagá-lo, é já possível produzi-lo.
Ocorre-me relacionar esta notícia com uma outra recente, embora nada pareça ligá-las por fora: a da menina americana, com nove anos, a quem os pais decidiram amputar os órgãos reprodutores, na tentativa de controlar a sua sexualidade, e, consequentemente, a sua qualidade de vida.
Julgo saber o que seja um cérebro sem um corpo inteiro viável. Stephen Hawking, por exemplo, é um desses casos. Ninguém tem dúvidas que Stephen Hawking é um ser humano. Contudo, não são a supremacia física ou o controle das funções do seu corpo que fazem dele humano, mas as suas capacidades cerebrais. Pergunto-me, o que será, então, um corpo humano funcional sem um cérebro viável, caso desta menina?
Stephen Hawking à data do seu primeiro casamento
Vivemos numa época que, sendo injusta, valoriza, pelo menos em determinadas zonas do planeta, os conceitos muito actuais da solidariedade, dos direitos humanos, do apoio social; há cem anos atrás, porém, os malucos eram malucos, portanto, amarrados, amordaçados, vendados, e fechados em jaulas ou em armários, pelos pais ou tutores, até resistirem. Não havia técnicos especializados para providenciarem desenvolvimento através da ocupação de tempos livres, em actividade diversas, e os familiares tinham de trabalhar nas fábricas e no campo, pelo que, quando estas criaturas morriam à mercê dos maus tratos, era um alívio para todos.
A verdade crua é cruel, mas é a verdade: um corpo com capacidades cerebrais muito reduzidas, é um ser legítimo, embora privado de livre arbítrio; é alguém para amar e ser amado, mas é também, e que isto se torne bem claro, alguém que precisa de protecção permanente, adicional, durante toda a sua vida. Que não se autonomiza, não se responsabiliza nunca.
Gostaria de relatar o caso de um homem meu vizinho, a fazer 50 anos, o qual sofre de paralisia cerebral.
Chamar-lhe-ei António. Sempre o conheci uma criança, pela mão da mãe, que pouco pode trazê-lo à rua: ele embaraça-nos. Moro nesta zona há 23 anos, e há 23 anos que o António vai de manhã para o centro de convívio, e regressa à tardinha; a mãe vai levá-lo e pô-lo à carrinha, e pelo percurso ele vai apontando e dizendo, dificilmente “... cãozinho; ...menina; ...passarinho”.
O António é uma criança com corpo de homem, e irreprimível desejo humano; privado de discernimento sobre o que é socialmente aceitável, qualquer mulher é um alvo. Quando nos encontramos, no curto percurso que faz com a mãe até à carrinha, ou regressado dela, o António apanha-me, abraça-me e lambuza-me, perante a nossa impotência. Nenhuma de nós tem força para impedir os enormes, fortíssimos abraços do António. Eu não sou a única vítima das suas pulsões sexuais, das quais me desembaraço o melhor que consigo, tentando acalmá-lo, e desproblematizando a questão perante a mãe, que se desfaz em desculpas. Da janela apercebo-me que isto acontece com outras vizinhas. O António quer beijinhos, muitos beijinhos e abraços, porque o António tem 50 anos e o seu corpo é sexuado e insatisfeito. Sofre intensas crises de natureza sexual, tornando-se muito agressivo, e difícil de controlar, mesmo em casa. Pelo que conheço da situação, sei que se os pais do António tivessem podido amputá-lo da sua sexualidade, tê-lo-iam feito para bem de todos.
A dignidade humana também deveria passar pela protecção contra o sofrimento inútil, quando é causado pela impossibilidade de acesso à satisfação de uma necessidade socialmente vedada.
Manipular as funções de um corpo para lhe causar maior bem-estar será algo tão censurável? Manipulá-lo para seu conforto, como se amputa uma parte do corpo cuja doença nos poderá ser fatal? O António, bem como os seus familiares, teriam uma vida melhor, se o seu quotidiano não fosse dominado pela necessidade sexual. Isto pode dar vontade de rir a quem seja alheio ao caso, mas não tem graça alguma: o António tenta violar as mulheres que existem em sua casa, as que aí vão, as da família; no entanto, o António, que tem 50 anos, mal fala, mal anda, e tem uma idade real de dois anos.
Quando se nasce como esta menina americana, ou como o António, será relevante o acesso à reprodução, ou convém protegê-los dela? É que o mais certo, em muitos casos, é tornarem-se suas vítimas; alguns serão abusados sexualmente, mudamente, uma vida inteira.
A dignidade humana poderá, em casos especiais, passar pela inibição do que é hoje intrínseco à natureza humana.
É neste ponto que sugiro que se retome a primeira questão deste texto: a manipulação genética alterará os actuais conceitos de Humanidade, uma vez que a natureza dessa humanidade se transformará numa miscigenação de sucesso entre supergenes, sem quaisquer pruridos relativamente à sua proveniência. Os mais humanos serão os mais resistentes. Os mais ou melhor miscigenados através da manipulação científica e tecnológica; os mais andróides.
Não sei se serão tempos melhores. Tenho a ideia que se vai ganhar muito em ciência, em performance conducente à produtividade, e perder em quase tudo o que hoje nos liga a uma certa ideia de humanidade ainda associada à sensibilidade, à criatividade. Penso que seja um tempo de vitória sobre a fragilidade da nossa natureza física. Não haverá, no entanto, menos solidão nem menos ódio nem menos dor. Pelo contrário. As pessoas também não serão verdadeiramente melhores nem mais bonitas. Perdurarão, contudo, conformadamente.
Relembro o look, a estética andróide que se passeia pela moda, pelas diversas manifestações da arte; não se tornou já uma tendência óbvia na cultura ocidental?
A extracção do útero e ovários, que só poderiam trazer infelicidade a uma eterna menina-bebé, incomoda-nos. Ao mesmo tempo, pergunto-me, a quantas décadas estaremos do primeiro Terminator, construído numa liga perfeita de carne e metal e vidro?