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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Que humanos seremos, quando formos melhores humanos?

Blade Runner


Advertência: este texto é muito longo e chato e dá pano para mangas. Espero que se perceba. Se não se perceber, paciência: transformem o seu conteúdo num cavalo de batalha! Depois não digam que não avisei!

Cientistas britânicos descobriram o gene que permite que as folhas permaneçam verdes mesmo em tempo de seca. Este gene tanto poderá servir para criar um manto de relva verde sobre o deserto do Sahara, como para cultivar alfaces, em Agosto, nos campos alentejanos mais batidos pela brasa vespertina. Na prática, o que descobriram foi um gene que impede, ou, pelo menos, adia a seca.
O que agora se aplica ao espinafre, aplicar-se-á, mais ano, menos ano, a animais, e, posteriormente, aos seres humanos. Entrámos, há muito, numa era de engenharia genética sem retrocesso. A ovelha Dolly já passou à história. À ciência já não interessa falhar milhares de clones para chegar a uma ovelha clonada, porque o que agora interessa é falhar outros tantos milhares de clones humanos para chegar ao ser humano clonado, ultrapassando os erros cometidos na produção de Dolly.
Este progresso é inevitável, arrastando consigo uma infinidade de usos e abusos, exactamente como aconteceu com a energia atómica. São possíveis todos os cenários propostos pela ficção científica: sofrimentos, injustiças, aberrações, selecção e manipulação eugénica da espécie humana, criação de castas mais distantes e diferentes entre si do que as actuais... por outro lado, facilmente poderemos substituir um fígado ou uns pulmões danificados, uma perna, um cérebro, como quem muda os pneus carecas do Fiat. Os argumentos religiosos soçobrarão, porque ao Estado interessará produzir indivíduos mais fortes, capazes de trabalhar mais anos, sem gripes, sem infecções. Os animais serão não apenas, como até aqui, fonte de alimento, agasalho, e bestas de carga, mas, cumulativamente, incubadores dos órgãos de que precisamos. Hospedarão, na sua carne animal, consumíveis de carne humana. Uma estranha carne humana, eficaz, que ganhará forma e vida nas entranhas dos porcos e das ovelhas! Desenvolver-se-á, assim, uma outra indústria de sofrimento e morte animal, paralela à que já hoje existe, mas mais lucrativa.

A manipulação e controlo das funções físicas dos seres será total, e para isso contará pouco o que é hoje considerado humano, digno, aceitável. Será realmente possível produzir o super-homem e a super-mulher. Quem puder pagar um filho com determinadas características físicas e intelectuais, tê-lo-á. Já poderia tê-lo, neste momento - embora não seja lícito pagá-lo, é já possível produzi-lo.

Ocorre-me relacionar esta notícia com uma outra recente, embora nada pareça ligá-las por fora: a da menina americana, com nove anos, a quem os pais decidiram amputar os órgãos reprodutores, na tentativa de controlar a sua sexualidade, e, consequentemente, a sua qualidade de vida.
Julgo saber o que seja um cérebro sem um corpo inteiro viável. Stephen Hawking, por exemplo, é um desses casos. Ninguém tem dúvidas que Stephen Hawking é um ser humano. Contudo, não são a supremacia física ou o controle das funções do seu corpo que fazem dele humano, mas as suas capacidades cerebrais. Pergunto-me, o que será, então, um corpo humano funcional sem um cérebro viável, caso desta menina?


Stephen Hawking à data do seu primeiro casamento


Ao longo da História, os seres literalmente escondidos e aprisionados devido às suas profundas incapacidades mentais, terão podido conhecer a experiência humana?
Vivemos numa época que, sendo injusta, valoriza, pelo menos em determinadas zonas do planeta, os conceitos muito actuais da solidariedade, dos direitos humanos, do apoio social; há cem anos atrás, porém, os malucos eram malucos, portanto, amarrados, amordaçados, vendados, e fechados em jaulas ou em armários, pelos pais ou tutores, até resistirem. Não havia técnicos especializados para providenciarem desenvolvimento através da ocupação de tempos livres, em actividade diversas, e os familiares tinham de trabalhar nas fábricas e no campo, pelo que, quando estas criaturas morriam à mercê dos maus tratos, era um alívio para todos.

A verdade crua é cruel, mas é a verdade: um corpo com capacidades cerebrais muito reduzidas, é um ser legítimo, embora privado de livre arbítrio; é alguém para amar e ser amado, mas é também, e que isto se torne bem claro, alguém que precisa de protecção permanente, adicional, durante toda a sua vida. Que não se autonomiza, não se responsabiliza nunca.

Gostaria de relatar o caso de um homem meu vizinho, a fazer 50 anos, o qual sofre de paralisia cerebral.
Chamar-lhe-ei António. Sempre o conheci uma criança, pela mão da mãe, que pouco pode trazê-lo à rua: ele embaraça-nos. Moro nesta zona há 23 anos, e há 23 anos que o António vai de manhã para o centro de convívio, e regressa à tardinha; a mãe vai levá-lo e pô-lo à carrinha, e pelo percurso ele vai apontando e dizendo, dificilmente “... cãozinho; ...menina; ...passarinho”.
O António é uma criança com corpo de homem, e irreprimível desejo humano; privado de discernimento sobre o que é socialmente aceitável, qualquer mulher é um alvo. Quando nos encontramos, no curto percurso que faz com a mãe até à carrinha, ou regressado dela, o António apanha-me, abraça-me e lambuza-me, perante a nossa impotência. Nenhuma de nós tem força para impedir os enormes, fortíssimos abraços do António. Eu não sou a única vítima das suas pulsões sexuais, das quais me desembaraço o melhor que consigo, tentando acalmá-lo, e desproblematizando a questão perante a mãe, que se desfaz em desculpas. Da janela apercebo-me que isto acontece com outras vizinhas. O António quer beijinhos, muitos beijinhos e abraços, porque o António tem 50 anos e o seu corpo é sexuado e insatisfeito. Sofre intensas crises de natureza sexual, tornando-se muito agressivo, e difícil de controlar, mesmo em casa. Pelo que conheço da situação, sei que se os pais do António tivessem podido amputá-lo da sua sexualidade, tê-lo-iam feito para bem de todos.
A dignidade humana também deveria passar pela protecção contra o sofrimento inútil, quando é causado pela impossibilidade de acesso à satisfação de uma necessidade socialmente vedada.

Manipular as funções de um corpo para lhe causar maior bem-estar será algo tão censurável? Manipulá-lo para seu conforto, como se amputa uma parte do corpo cuja doença nos poderá ser fatal? O António, bem como os seus familiares, teriam uma vida melhor, se o seu quotidiano não fosse dominado pela necessidade sexual. Isto pode dar vontade de rir a quem seja alheio ao caso, mas não tem graça alguma: o António tenta violar as mulheres que existem em sua casa, as que aí vão, as da família; no entanto, o António, que tem 50 anos, mal fala, mal anda, e tem uma idade real de dois anos.
Quando se nasce como esta menina americana, ou como o António, será relevante o acesso à reprodução, ou convém protegê-los dela? É que o mais certo, em muitos casos, é tornarem-se suas vítimas; alguns serão abusados sexualmente, mudamente, uma vida inteira.

A dignidade humana poderá, em casos especiais, passar pela inibição do que é hoje intrínseco à natureza humana.
É neste ponto que sugiro que se retome a primeira questão deste texto: a manipulação genética alterará os actuais conceitos de Humanidade, uma vez que a natureza dessa humanidade se transformará numa miscigenação de sucesso entre supergenes, sem quaisquer pruridos relativamente à sua proveniência. Os mais humanos serão os mais resistentes. Os mais ou melhor miscigenados através da manipulação científica e tecnológica; os mais andróides.
Não sei se serão tempos melhores. Tenho a ideia que se vai ganhar muito em ciência, em performance conducente à produtividade, e perder em quase tudo o que hoje nos liga a uma certa ideia de humanidade ainda associada à sensibilidade, à criatividade. Penso que seja um tempo de vitória sobre a fragilidade da nossa natureza física. Não haverá, no entanto, menos solidão nem menos ódio nem menos dor. Pelo contrário. As pessoas também não serão verdadeiramente melhores nem mais bonitas. Perdurarão, contudo, conformadamente.
Relembro o look, a estética andróide que se passeia pela moda, pelas diversas manifestações da arte; não se tornou já uma tendência óbvia na cultura ocidental?

A extracção do útero e ovários, que só poderiam trazer infelicidade a uma eterna menina-bebé, incomoda-nos. Ao mesmo tempo, pergunto-me, a quantas décadas estaremos do primeiro Terminator, construído numa liga perfeita de carne e metal e vidro?



segunda-feira, maio 22, 2006

A outra vida I

Era de carne como os rapazes


Foto de Jan Saudek, Returnig Home, 1977


Não comecei por pensar em mim como uma mulher.
Era de carne, havia coisas que me faltavam, outras que me faziam rir, e não tinha querer. Era de carne, via e ouvia, e saíam de mim, sem intenção, sem culpa, juízos espontâneos. Isto é melhor ou pior que aquilo. Podia controlar o que a minha boca dizia, não o que sentia, o que me aparecia como um pensamento. Acreditava sentir com o peito, porque as emoções tiravam-me a respiração e era nesse lugar do corpo que sentia a lâmina fria rasando os pulmões.
Era uma pequena pessoa de carne, não um animal, porque a mim não me podiam matar para comer, embora pudessem fazer-me tudo o que quisessem. Eu não tinha querer.
Nada me distinguia dos rapazes, a não ser o facto de esconderem um pedaço frágil de carne num sítio onde eu tinha nada, e de lhes sair por aí o xixi. Não os olhei como meus diferentes. Para mim, eram tão diferentes como um amputado de guerra, como as pessoas com o bócio muito inchado: não eram como eu, mas éramos feitos do mesmo. Eram tão diferentes com um negro, um chinês, ou um monhé que, tendo peles diferentes, também eram de carne, exactamente como eu; e, porém, tal como eu, também não tinham, em grau dependente da escuridão da pele, direito a querer.
O mundo não nos era explicado. Diziam-nos, “és uma menina, aquele é um menino”; podíamos brincar juntos até ao princípio da adolescência; chamavam-nos namorados se éramos os melhores amigos, mas não acontecia sentirmo-nos diferentes nem namorados. Nas lutas corpo-a-corpo eles tinham mais força, e para os vencer obrigava-me a conhecê-los bem, antecipá-los e planear estratégias, fintar.

Não me servia a mim, mas ao meu marido

Aprendi sozinha o que isso significava, essa diferença da força física, ao mesmo tempo que percebi que homens e mulheres casados vestiam de maneira diferente e exerciam papéis e poderes distintos. Depois, a minha mãe começou a dizer que uma menina não fazia isto e aquilo. Tudo o que era bom aprender não me servia a mim, mas ao meu marido; um dia, quando casasse, teria de saber tudo para o servir. Teria de aprender a coser para passajar a roupa do meu marido e a dos meus filhos. Teria de aprender a cozinhar para o meu marido e para os meus filhos. Teria de aprender a limpar a casa do meu marido e dos meus filhos. A roupa, a comida, a casa de todos, não a minha, por mim ou para mim. O meu futuro não seria meu, mas do meu marido e filhos. O meu tempo haveria de acabar muito antes da minha morte e a minha vida pertenceria apenas aos outros. Estava certinho!
Havia, por outro lado, um determinado conjunto de coisas que não poderia fazer para conseguir arranjar marido: andar despenteada, descalça, suja e rasgada, subir às árvores, brincar com os animais, estar estendida à sombra, na relva, ler. A minha mãe deixou-me ler porque nesses momentos me tinha controlada. Enquanto lia estava quieta, não lhe dava preocupações. Sabia onde estava
A minha mãe até me ensinou a passar cera no chão, de joelhos, e a seguir, a dar-lhe lustro com uma metade de coco e um pano de lã. Era para fazer brilhar a casa do meu marido e dos meus filhos. Durante muitos anos pensei que o meu destino seria aparecer-me, aos 18, um noivo muito lindo que me desposaria no meio de flores brancas, e que havia de gostar de mim, porque seria impossível não gostar do que eu era; lembro-me de uma fantasia em que nos zangávamos, mas eu recompunha tudo porque era muito boazinha, ia dar-lhe beijinhos, e ele sorria outra vez.
Nunca pensei ser possível tornar-me dona de mim, viver livre. Estava certa que ia passar das mãos de um homem para outro. O tal futuro rapaz, que não podia ser negro nem china nem monhé, havia de me ver na rua, em casa de familiares ou amigos, ou numa festa de debutantes à qual a minha mãe haveria de me mandar com um vestido decente, feito por ela em casa. Depois, o rapaz seguir-me-ia, para saber onde morava, ou perguntava a alguém. Far-me-ia a corte de longe. Haveria de me perguntar o nome, de dizer que era bonita, de pedir autorização para me namorar, primeiro a mim, depois ao meu pai, embora não estivesse a ver o meu pai conceder diamante tão valioso tão cedo nem por pouco; seguir-se–ia o pedido oficial de casamento, sem a minha presença, mas eu haveria de ser chamada no final para concordar com os termos do enlace. Depois, os preparativos do casamento, o dia do casamento, a lua-de-mel. A seguir, era o novo mundo. Sabia menos sobre o novo mundo do que Colombo sabia sobre a América, quando lá chegou.

As capacidade reprodutiva do casamento, de per si.


Foto de Jordi Moll

Observava o mundo com fome de compreender o que não estava autorizada a viver, o que não poderia alcançar. Observava-o para compreender a mecânica das pessoas. O que diziam e faziam? Com quem? O que valorizavam e desvalorizavam? Observar não garantia mais nada. Podia nunca compreender, porque não havia com quem falar das coisas que juntavam e separavam um ser humano de outro, no geral, ou, especificamente, os homens e mulheres. Não existia essa linguagem. Nem esse discurso. A mulheres falavam clandestinamente sobre partos e hábitos dos homens, mas, também, entre elas, faziam segredo do que verdadeiramente pensavam. Porque uma mulher espontânea, sincera, seria alvo da chacota das outras. A conversa das mulheres sobre os homens obedecia a requisitos que passavam, primeiro, pela lamentação, e, depois, pela ironia. Que os homens não prestavam...; excepto eles, toda nós sabíamos.
A observação da realidade levou-me a deduzir, por volta dos 8 anos, que a reprodução era consequência directa do casamento religioso. O padre casava os noivos e, nesse momento, Deus instalava na barriga das mulheres um filho, que crescia até à altura em que as aquelas começarim a sofrer muito e teriam de ser internadas para lhes abrirem as barrigas e tirarem o bebé.


O palavrão da gravidez


Foto de Baciar

O cinema e a literatura nunca me esclareceram esta dúvida, até muito tarde. Não conseguia estabelecer relação entre um homem e uma mulher deitados na cama aos beijos e uma gravidez. Nem me passou pela cabeça. Nos livros, a eufemística era perfeita: a heroína ficava de esperanças e tornava-se mais linda com a felicidade, irradiando luz, passando a ser mais respeitada e a gozar estatuto diferente. A seguir, a heroína daria à luz um novo ser, não explicavam como, apenas que outras mulheres a circundavam, e suor e água quente e sangue e dor, e que, tantas vezes, era um martírio sério, e entrava esse deus do mundo, o homem, o pai, nervoso e orgulhoso do filho dele que a mulher lhe dera, e o levantaria ao colo.
Quando aos 11 anos compreendi que o vocábulo gravidez não era um palavrão, e disse à minha mãe que a Guida estava grávida, recebi um enorme bofetão, “isso não se diz: diz-se: está de bebé”. Vejo o seu rosto irritado, Estávamos sentadas na parte de trás de um jipe que não era nosso. Fechou a cara, zangada comigo, decepcionada com a educação que, afinal, não tinha conseguido dar-me. Eu tinha dito “grávida”. Deve ter sido neste meu deslize sobre o conhecimento do sexo, que a minha mãe compreendeu que seria difícil "encaminhar-me"; passou a dizer que eu era de gancho, que tinha mau feitio, que era tal e qual o meu pai e tinha de ser dobrada. Viu-me pela primeira vez com um ser sexualizado e deve ter-se assustado. A minha mãe teve medo de mim. Tinha uma concorrente em casa. Uma outra mulher que crescia, que já era menstruada. Estava na hora de me mandarem para a metrópole. Sei, hoje, que a minha mãe me mandou para a metrópole porque nasci mulher. Se tivesse sido homem ter-me-ia deixado ficar para os proteger. Mas eu desprotegia-os. A minha feminilidade desprotegia-os. Expunha-os ao perigo de serem brancos. Por isso era necessário afastar-me depressa, e desproteger-me. A minha melhor educação seria essa. Cumprir-se-iam dois objectivos: a sua protecção e liberdade de movimentos, a minha desprotecção que havia de me ensinar a ser como uma mulher é, como uma mulher sabe que tem de ser para conseguir sobreviver.
A minha mãe escolheu entre regressar comigo ou permanecer em África a calçar as peúgas ao meu pai, que já era crescido. Deve ter sido um dilema que viveu sozinha: mas escolheu, e afastou da sua casa uma mulher de carne, menstruada, que podia ocupar, no coração do marido, o excessivo amor do pai fascinado pela beleza e frescura da sua obra mais perfeita.
Por isso, embora não tenha começado por me pensar como uma mulher, acabei por descobrir, sozinha, que uma mulher era, para o mundo, uma ameaça de carne, de pensamento e desejo, assente na linguagem com que percebia e comunicava com o mundo.
Eu, que não tinha começado por me pensar como nada, era um ser humano classificado e arrumado num grupo mais fraco e sem voz. Ninguém tinha determinado que assim fosse. Já não se lembravam. Era assim.
Tudo começou aqui. Não ter compreendido.

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre perder a inocência

Foto de Charles Campbell, Golden Grasses

O que será um especialista internacional em liderança? Um professor de gestores? Um filósofo do trabalho? Dará acções de formação? Conferências?
Acabei de ler que o rapaz de caracóis louros, rebelde, anarca, fã de Jim Morrison, cronicamente depressivo, que há 20 anos me enviava cartas e poemas de amor e morte, escritos com o próprio sangue, com quem adorei andar enrolada, meia dúzia de tardes invernis, nas dunas de Tróia, ao frio, vento e chuva, sem que nunca nos tenhamos incomodado, porque éramos inocentes, e não tínhamos dinheiro e estávamos apaixonados... se transformou num famoso especialista em liderança empresarial.
Li o nome. Vi a foto. É ele.
Deve ganhar muito dinheiro. Deve ter assistente pessoal. Um escritório com sala de reuniões. Usa fato e gravata azuis – nada de calças de ganga esfarrapadas, com inscrições a esferográfica, isso está claro. Nada de charros, penso. Tem boa cara; ar saudável. Deve estar feliz, e isso é bom.
Apesar de tudo, sinto-me traída pelo presente. Pelo tempo. Tinha memórias românticas, e estimava-as. Sem que perceba, esta alteração da sua imagem perturba essa memória. Afinal, onde está o meu herói desajustado ao mundo, inconformado? E eu, que mudei tão pouco, que continuo tão igual ao que fui? Como é que me veria? Serei eu a rebelde, a anarca, cronicamente depressiva, a inadaptada? Ele cresceu; eu não?

terça-feira, abril 25, 2006

Malefícios do 25 de Abril III

As pessoas terem esquecido a véspera tão indolormente como o sol enruga a pele.
Muita people não saber ca diferença entre o 24 e o 25 não foi que "depois ouve uma ganda guerra... dass ... mas treminô com a polícia a dar bué da cravos aos kotas, pa se meterem mansos."
Eu começar a ter cada vez mais dificuldade em distinguir antes e depois.

Malefícios do 25 de Abril II

O camarão de Moçambique vender-se a 36,95€ - isto no Jumbo!
E nem sequer ser fresco com a patinhas a dar, a dar.

Malefícios do 25 de Abril I

As bandas de subúrbio que as câmaras contratam para animar a noite, chocalhando, até às duas e meia da manhã, letras como "ei people, bora mamar no nipple", sem que se possa chamar a polícia devido a desacatos na rua e barulho fora de horas.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O futuro, a médio prazo

Ontem recebi correspondência da minha habitual agência de viagens.
Enviaram-me catálogos de todos os packs disponíveis para as férias de Verão, bem como formas de pagamento e promoções. É só telefonar e mandar o cheque.
Sei lá eu onde quero ir nas férias de Agosto, se quero ir a algum lado, se vai haver dinheiro... Parece-me que hoje se programa tudo com muita antecedência. Antigamente era "vamos"; "okay, vamos amanhã"; "está bem, então vamos depois-de-amanhã, e logo se vê quando voltamos".

Há bocado fui aos saldos. Comprei umas meias de rede preta baratíssimas.
Passei pela montra da Presselinha, e os meus olhos leram, sozinhos, o título de uma obra que aí se destacava. Quando a informação chegou ao cérebro, dei um passo atrás para confirmar a ilusão óptica. Não era. O livro intitulava-se mesmo O que fazer depois de morrer.

Quer parecer-me que existe, nos dias de hoje, planificação excessiva, e demasiado antecipada, dos tempos de lazer.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Houve um tempo sem cobardia

Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!

quarta-feira, dezembro 28, 2005

O fim do mundo, tal como o conhecíamos

Já cá tínhamos o "robotcop gay", eis que chega agora o cowboy gay.
Refiro-me ao último filme de Ang Lee, Brokeback Mountain, vencedor, este ano, dos mais interessantes prémios de cinema, pelos festivais Europa fora.



Espero a estreia há dois meses; penso que se seguirá ao ano novo - filmes destes nunca estreiam no Natal: o Ministério da Saúde proíbe-o e as distribuidoras respeitam: não chegam, já, as urgências hospitalares a, comumente, abarrotar, nesta época, de avós consumidos pelas consequências gástricas e intestinais do bacalhau, do perú e dos fritos mais os vinhos, quanto mais pelos AVC´s, pelas paragens cardíacas que um filme destes causaria em pleno idílio familiar natalício!
Os cowboys gays, valha-nos Deus! Não sei se o meu pai, amante do western, do Tesouro da Sierra Madre, de Liberty Valance, de El Dorado, depois de confiar anos de escalpes e assaltos a carruagens aos índios mais mal encarados, vinganças justas protagonizadas por um Clint Eastwood crispado, por um Yul Breyner magnético, cigarros da espera mordidos ao canto da boca por John Wayne, meninas raptadas por índios e feitas índias, indios raptados por ianques e feitos ianques, e o largo sorriso-trinitá do Trinitá, o Cowboy Insolente, sobreviveria a um filme de cowboys que preferem abandonar a parafernália bélica, as armas, cartuchos e esporas, para se rebolarem que nem uns loucos pelo meio dos rochedos do Grand Canyon, perdidos de amor e beijos na boca, entre outros pormenores.


El Dorado

Ai, Viriato, ao que tu escapaste! Homens a deixarem em casa as respectivas esposas e prole, para se irem esfregar uns nos outros lá para o meio do oeste selvagem - os mais selvagens impulsos! Ai, Viriato, bem te dizia a tua mãezinha: no fim-do-mundo havíamos de ver tudo às avessas. E cá está!

Ru Henriques Coimbra, o delicioso colunista gay que o Expresso, felizmente, sustenta em terras californianas, para gozo da nossa leitura, já nos avisou: jamais Bush voltará a posar com o seu tradicional fato rancheiro, após a estreia de Brokeback Mountain nos Estados Unidos. Mal posso esperar.
Também já tínhamos um presidente negro, na famosa série televisiva 24 horas. Precisamos, agora, para continuar a mudar o mundo, de um presidente gay branco, seguido de um presidente gay negro. Depois talvez possamos passar à fase das presidentas: Hillary Clinton, presidenta branca, hetero; seguida de Condoleeza Rice, presidenta negra, lésbica, entretanto incompatibilizada com os conservadores. A ordem poderá será outra, mas os negros e gays ficarão para último, isso a gente sabe.
Estarei a ir longe demais ao afirmar que, no dia em que os Estados Unidos forem governados por uma democrata, negra, lésbica, poderemos morrer sossegados que isto já levou a volta que urgia? Nós, os/as feministas, nós os/as activistas de todas as paridades?
Se estiver, esteja. Que alguém vá longe demais.
Cause, I too, have a dream...



Liberty Valance

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Este cabelo está uma miséria!

Estou a precisar tanto de ir ao cabeleireiro!
Mas eu gostava era de conjugar o cabeleireiro e a palpadela na coxa. "Ó menina Isabela, está aqui com umas pontas espigadas...", e truflas, manápula bem aberta e bem assente na nádega. Mas não, eles apalpam-se uns aos outros nos intervalos das clientas, ou então põem-nos feias ou então são mulheres que nunca fazem o que pedimos.
Oh, a vida não é bela!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...