
Um leitor desmoralizado deixou um comentário sobremaneira expressivo e espontâneo num texto que aqui escrevi em Abril de 2005. Afirma o anónimo:
Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.
Comem e cospem no prato ordinárias.
Está provados q somos todos pessoas e tal como apregoas vcs querem dominar.
Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.
Analisemos os argumentos do falo claramente magoado: primeiro, havíamos de perder o direito a votar; segundo, devíamos voltar para a cozinha, embora duvide muito que de lá consigamos sair algum dia; terceiro, somos todos pessoas; quarto, queremos dominar. E que acto horrendo e merecedor de castigo cometeram as mulheres, ou seja, as ordinárias para merecer tais acusações? Comemos e cuspimos no prato!
Pergunto, inocente, mas se somos todos pessoas, como o leitor admite, por que motivo seriam as mulheres impedidas de votar, manteriam como seu território a cozinha, não desejariam aceder ao poder, e pretenderiam continuar a comer de um prato no qual, por gratidão ou medo, não poderiam cuspir?!
Quando tudo está perdido, porque já se perdeu, os nossos argumentos correm contra as nossas intenções, e traem-nos. Quando se perdeu a guerra, entregam-se as armas e faz-se recolhimento. E se houve uma guerra de sexos, os homens perderam-na. Resta-lhes a diplomacia. A negociação. A adaptação ao invasor. A miscigenação. Eu não queria ter de dizer isto, mas não é mau de todo assumi-lo. Perderam, ponto final, parágrafo, travessão. Vida nova.
Na sua essência, as emoções e acções de fundo do ser humano não se alteraram. Continuamos a amar, odiar, cobiçar, ousar, acobardar, maldizer, malfazer, benfazer, como nos tempos do Velho Testamento, mas o todo social tem realmente vindo a mudar ordens, posições estruturais estabelecidas de há muito, como a de “comer e calar”, “comer e não morder a mão do dono”.
No que diz respeito a questões de género, e feitas as devidas ressalvas, existe hoje mais equidade, sobretudo entre os homens mais novos, os quais assumiram uma partilha do mundo sem conflitos interiores. Dou pouco pelos homens de 50, mas aposto meia mão nos de 40, e ponho a esquerda no fogo pelos de 30. Os de 20 ainda não são contabilizáveis. Quanto à direita, preservo-a de acidentes.

Tento compreender o leitor desmoralizado. Viver numa sociedade tão alterada, em que as mulheres não só já não comem no prato, como, se comem, se dão ao luxo de cuspir nele, deve ser violento todos os dias. Incompreensível. Gera raiva, sim.
Alterar formas de encarar e interagir com o mundo é um trabalho demasiado árduo para se realizar dentro de uma geração madura. Por exemplo, ensinar as pessoas a separar os lixos tem sido complexo: ainda há 20 anos vazávamos os baldes directamente no contentor!
Para alguns de nós, o manuseamento de euros em substituição dos escudos ainda acarreta complicações. Quanto valem 140 mil euros, assim de repente?
Também não queremos estudar, obrigar-nos a compreender a nova filosofia linguística introduzida pela TLEBS.
Odiamos quaisquer mudanças de hábitos, porque nos desestruturam, obrigando-nos a planear novas movimentações. Mas tomemos uma criança de 7 anos, acabada de entrar para a escola, que nunca conheceu outra forma de tratar o lixo senão a actual, e que nunca viu a cor a um escudo; para ela, o mundo já mudou, e mudou sem dor. Ela saberá fazer a separação dos lixos, contar euros e classificar um nome comum concreto como contável, animado e não humano, naturalmente.
Ver o mundo como o vêem os outros, os que não são eu... que desafio, que impossibilidade! Tentar pensar como um machista, um racista, um xenófobo, um defensor do não no referendo ao aborto. Como esses que têm, como eu, igual certeza de estarem certos.
Um exercício em contexto doméstico: passava a ferro, e lembrei-me que a maior parte dos meus amigos e amigas não o faz. A minha sueca não compreende tal hábito. Ora, se tudo se amachucará a seguir, para quê engomar? Outros, limitam-se a dobrar a roupa o mais direita possível, à saída do arame ou da máquina, e assumem os vincos. Eu, que detesto perder tempo com as afazeres domésticos, podia proceder da mesma forma. Por que não faço? Que benefício podem trazer ao mundo, mas a mim, sobretudo, um lençol e uma toalha bem engomados? Pensando bem, faço-o porque não posso deixar de o fazer. Faço-o porque gosto de sentir o cheiro da roupa passada a ferro, porque gosto de ver e sentir as dobras vincadas no algodão dos lençóis. Faço-o porque cresci num mundo em que se engomava com ferro a carvão, e havia vapores, pesos, cores, dores. Havia montanhas de roupa em açafates, e havia obrigações. Passar a ferro era algo importante. Roupa mal passada indiciava uma pessoa desleixada. Isso, essa memória, esse condicionamento, estão em mim. Fizeram-me. Sofreria insónias se me atrevesse a arrumar, numa gaveta, uma peça de roupa por passar. Os outros, os que não pensam como eu, sofreriam insónias se tivessem de passar a ferro montanhas de roupa, como eu. Não me compreenderão. Chamar-me-ão obsessiva. Pela minha parte, compreendo-os racionalmente, mas sou incapaz de agir em conformidade. E, quando vou às suas casas, aceito a roupa não engomada com certo desgosto, como se me dessem peças de segunda. Roupa mole, que horror!
Quem é o leitor desmoralizado que deseja negar-nos o voto e garantir o regresso à cozinha? É bom homem? Se calhar é! Eu já amei pessoas com quem tive sérias divergências ideológicas.
Quem são, afinal, aqueles que nós não somos? Iguais do outro lado? O outro lado do espelho? Vêem o que não vemos? Estão tão certos como nós? Mais certos? Menos? É nisto que se joga o equílibrio entre as esferas?