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sexta-feira, julho 11, 2008

Os campeões


No autocarro entre o Fogueteiro e o Casal do Marco.
Dois rapazes nos seus 18, sentados nos últimos bancos. Um baixote, de óculos antiquados, fora de moda: pobre. Parece um sapo a rir-se. Julga-se feio. Acho-lhe alguma piada. Outro mais alto, alourado falso, suado, calças rasgadas, um certo ar de sujo: pobre.
Julga-se bonito. Não tem piada alguma. O que se julga feio presta reverência ao que se julga bonito. Está tudo claramente esmiuçado na linguagem corporal que estabelecem.
Numa paragem entram duas meninas dos seus 15 anos.
Asseadinhas, arranjadinhas. Pobres. As duas muito bonitas, mas uma delas percebe-se que veio do Leste da Europa. Um louro branco, pele muito clara, olhos azuis, formato de rosto quadrado. Linda e diferente demais para os nossos padrões de beleza morena.
Os rapazes no último banco do autocarro começam a remexer-se; risinhos; ouço pouco; vejo mais. O que parece um sapo contente vai do lado da janela e provoca o colega. Diz-lhe algo do género, gostavas, não gostavas? O outro ri-se, quase boçal, afirmativo. O sapo não tem coragem, acha que para si não seria possível manjar tão rico, mas provoca o amigo, achas que conseguias? E o outro, oh, pá..., oh, pá..., e a sua expressão facial não engana; o que ele lhe responde é que, pá, aquilo marchava tudo. Mas ambos sabem que é demasiada areia para qualquer das camionetas.
O sapo distrai-se das miúdas, olha através da janela e começa a cantarolar um tema dos Queen: we are the champions... mas não sabe o resto da letra. O outro, o bonitão que não é bonito, sabe. Percebo que é uma música com cuja letra se identificam. O bonitão que não é bonito continua, and we will fight till the end... O outro entusiasma-se, repete, and we will fight till the end, mas calam-se, ambos, após o breve coro. Não sabem mais.
Olho-os de novo, porque o que vejo não me chega. O que significará para eles lutar até ao fim? Sentir-se-ão campeões de quê? Qual será a sua luta?

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Os que, como eu, têm a certeza de estar certos


Um leitor desmoralizado deixou um comentário sobremaneira expressivo e espontâneo num texto que aqui escrevi em Abril de 2005. Afirma o anónimo:

Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.
Comem e cospem no prato ordinárias.
Está provados q somos todos pessoas e tal como apregoas vcs querem dominar.
Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.

Analisemos os argumentos do falo claramente magoado: primeiro, havíamos de perder o direito a votar; segundo, devíamos voltar para a cozinha, embora duvide muito que de lá consigamos sair algum dia; terceiro, somos todos pessoas; quarto, queremos dominar. E que acto horrendo e merecedor de castigo cometeram as mulheres, ou seja, as ordinárias para merecer tais acusações? Comemos e cuspimos no prato!

Pergunto, inocente, mas se somos todos pessoas, como o leitor admite, por que motivo seriam as mulheres impedidas de votar, manteriam como seu território a cozinha, não desejariam aceder ao poder, e pretenderiam continuar a comer de um prato no qual, por gratidão ou medo, não poderiam cuspir?!
Quando tudo está perdido, porque já se perdeu, os nossos argumentos correm contra as nossas intenções, e traem-nos. Quando se perdeu a guerra, entregam-se as armas e faz-se recolhimento. E se houve uma guerra de sexos, os homens perderam-na. Resta-lhes a diplomacia. A negociação. A adaptação ao invasor. A miscigenação. Eu não queria ter de dizer isto, mas não é mau de todo assumi-lo. Perderam, ponto final, parágrafo, travessão. Vida nova.
Na sua essência, as emoções e acções de fundo do ser humano não se alteraram. Continuamos a amar, odiar, cobiçar, ousar, acobardar, maldizer, malfazer, benfazer, como nos tempos do Velho Testamento, mas o todo social tem realmente vindo a mudar ordens, posições estruturais estabelecidas de há muito, como a de “comer e calar”, “comer e não morder a mão do dono”.
No que diz respeito a questões de género, e feitas as devidas ressalvas, existe hoje mais equidade, sobretudo entre os homens mais novos, os quais assumiram uma partilha do mundo sem conflitos interiores. Dou pouco pelos homens de 50, mas aposto meia mão nos de 40, e ponho a esquerda no fogo pelos de 30. Os de 20 ainda não são contabilizáveis. Quanto à direita, preservo-a de acidentes.



Tento compreender o leitor desmoralizado. Viver numa sociedade tão alterada, em que as mulheres não só já não comem no prato, como, se comem, se dão ao luxo de cuspir nele, deve ser violento todos os dias. Incompreensível. Gera raiva, sim.
Alterar formas de encarar e interagir com o mundo é um trabalho demasiado árduo para se realizar dentro de uma geração madura. Por exemplo, ensinar as pessoas a separar os lixos tem sido complexo: ainda há 20 anos vazávamos os baldes directamente no contentor!
Para alguns de nós, o manuseamento de euros em substituição dos escudos ainda acarreta complicações. Quanto valem 140 mil euros, assim de repente?
Também não queremos estudar, obrigar-nos a compreender a nova filosofia linguística introduzida pela TLEBS.
Odiamos quaisquer mudanças de hábitos, porque nos desestruturam, obrigando-nos a planear novas movimentações. Mas tomemos uma criança de 7 anos, acabada de entrar para a escola, que nunca conheceu outra forma de tratar o lixo senão a actual, e que nunca viu a cor a um escudo; para ela, o mundo já mudou, e mudou sem dor. Ela saberá fazer a separação dos lixos, contar euros e classificar um nome comum concreto como contável, animado e não humano, naturalmente.

Ver o mundo como o vêem os outros, os que não são eu... que desafio, que impossibilidade!
Tentar pensar como um machista, um racista, um xenófobo, um defensor do não no referendo ao aborto. Como esses que têm, como eu, igual certeza de estarem certos.



Um exercício em contexto doméstico: passava a ferro, e lembrei-me que a maior parte dos meus amigos e amigas não o faz. A minha sueca não compreende tal hábito. Ora, se tudo se amachucará a seguir, para quê engomar? Outros, limitam-se a dobrar a roupa o mais direita possível, à saída do arame ou da máquina, e assumem os vincos. Eu, que detesto perder tempo com as afazeres domésticos, podia proceder da mesma forma. Por que não faço? Que benefício podem trazer ao mundo, mas a mim, sobretudo, um lençol e uma toalha bem engomados? Pensando bem, faço-o porque não posso deixar de o fazer. Faço-o porque gosto de sentir o cheiro da roupa passada a ferro, porque gosto de ver e sentir as dobras vincadas no algodão dos lençóis. Faço-o porque cresci num mundo em que se engomava com ferro a carvão, e havia vapores, pesos, cores, dores. Havia montanhas de roupa em açafates, e havia obrigações. Passar a ferro era algo importante. Roupa mal passada indiciava uma pessoa desleixada. Isso, essa memória, esse condicionamento, estão em mim. Fizeram-me. Sofreria insónias se me atrevesse a arrumar, numa gaveta, uma peça de roupa por passar. Os outros, os que não pensam como eu, sofreriam insónias se tivessem de passar a ferro montanhas de roupa, como eu. Não me compreenderão. Chamar-me-ão obsessiva. Pela minha parte, compreendo-os racionalmente, mas sou incapaz de agir em conformidade. E, quando vou às suas casas, aceito a roupa não engomada com certo desgosto, como se me dessem peças de segunda. Roupa mole, que horror!
Quem é o leitor desmoralizado que deseja negar-nos o voto e garantir o regresso à cozinha? É bom homem? Se calhar é! Eu já amei pessoas com quem tive sérias divergências ideológicas.
Quem são, afinal, aqueles que nós não somos? Iguais do outro lado? O outro lado do espelho? Vêem o que não vemos? Estão tão certos como nós? Mais certos? Menos? É nisto que se joga o equílibrio entre as esferas?


sábado, outubro 28, 2006

Um Novo Mundo I






Patty Smith

Recusar o olhar dos outro. O olhar judicativo do café, do consultório. O olhar "tu não és igual, tu não és modelar, tu não tens um carro cinza-prateado!"
Recusar a forma que, ao outro, molda o acto de olhar. Realizar apenas o que é certo para os meus olhos muito imperfeitos, bicudos, lavados.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Os que vivem por nós

O que é terrível nos outros, o seu rosto censurável, o recanto mais questionável, enfim, o podre, cheira mal enquanto os seres reais não se transformam em personagens. "Ficcionados" são já carácteres densos, complexos, fascinantes.
Oh, se fôssemos tão livres quanto eles, se tivéssemos tido as suas vidas!

A minha prima afastada, lá do alto da sua filosofia pura, costuma dizer que amamos as "personagens" malucas, as que se drogam e suicidam, as que se destroem e dizem palavrões no palco, as que devem dinheiro, as que andam nuas na rua, e bebem e partem objectos de milhares de dólares e dão porrada e levam-na, e fazem curas de desintoxicação e têm recaídas, porque "fazem tudo o que nós queríamos, mas não somos capazes".
Porque "vivem, em nosso lugar, o que não temos coragem de viver".

quarta-feira, maio 03, 2006

Vida intelectual

Uma vai buscar um livro de culinária. Lê. A outra pega num volume encadernado sobre como fabricar jóias a partir de materiais recicláveis, e não lê. É pretexto para se sentar e conversar, enquanto passa os dedos pela capa e os olhos, de raspão, pelas ilustrações brilhantes.
São novas. Estão velhas. Têm medo e vergonha. Calam-se e estão gastas, cansadas, insatisfeitas e conformadas. A maior parte das pessoas traz a vida inteira a cair-lhe da cara, nos lábios, nos olhos. Calar não esconde o que julgam poder esconder.
A primeira procura receitas de beringela. Explica devagar como se prepara. Tira-se a parte negra, corta-se aos bocados... a outra nunca comeu essas modernices... beringela. Foi ao psiquiatra, mas o homem deve estar maluco. Receitou-lhe um novo antidepressivo que pode ter efeitos secundários sobre o fígado, e ela já teve hepatite! Ele devia saber. Monologa cinco minutos sobre o assunto. Telefona ao médico, ó doutor, ontem, receitou-me aqui um sepsil ou gepsil, isso... e é o seguinte: fui à farmácia aviá-lo, mas isto faz-me mal ao fígado, doutor ... sim... doutor, vejá lá, porque eu já não tenho um fígado. Não... pronto, está bem.. se posso, então! Desliga. Afinal posso, esclarece. Espero que não esteja enganado, senão ainda me dá alguma coisa. Mas uma pessoa toma tantos medicamentos que quando morrer nem o corpo se consegue corromper; ela não diz corromper, não se lembra da palavra; ironiza: se calhar vou ser cano..., ai... cano quê? A outra responde, canonizada. Isso, é assim que se chega a santa. A outra sorri placidamente enquanto estuda a beringela. Iniciam breve conversa sobre santas cujos corpos permanecem incorruptos. É dos genes, concluem.
Voltam às receitas. Ontem, a primeira fez sopa de alface. Estava boa. A segunda diz que a sua é sempre do mesmo: feijão verde, cenoura e couve-flor. A primeira faz arroz de tudo, até de favas. A segunda come sempre dieta. Falam mais baixo, de algo íntimo que não devo ouvir; levantam-se, vão ao bar. Que alívio!

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre perder a inocência

Foto de Charles Campbell, Golden Grasses

O que será um especialista internacional em liderança? Um professor de gestores? Um filósofo do trabalho? Dará acções de formação? Conferências?
Acabei de ler que o rapaz de caracóis louros, rebelde, anarca, fã de Jim Morrison, cronicamente depressivo, que há 20 anos me enviava cartas e poemas de amor e morte, escritos com o próprio sangue, com quem adorei andar enrolada, meia dúzia de tardes invernis, nas dunas de Tróia, ao frio, vento e chuva, sem que nunca nos tenhamos incomodado, porque éramos inocentes, e não tínhamos dinheiro e estávamos apaixonados... se transformou num famoso especialista em liderança empresarial.
Li o nome. Vi a foto. É ele.
Deve ganhar muito dinheiro. Deve ter assistente pessoal. Um escritório com sala de reuniões. Usa fato e gravata azuis – nada de calças de ganga esfarrapadas, com inscrições a esferográfica, isso está claro. Nada de charros, penso. Tem boa cara; ar saudável. Deve estar feliz, e isso é bom.
Apesar de tudo, sinto-me traída pelo presente. Pelo tempo. Tinha memórias românticas, e estimava-as. Sem que perceba, esta alteração da sua imagem perturba essa memória. Afinal, onde está o meu herói desajustado ao mundo, inconformado? E eu, que mudei tão pouco, que continuo tão igual ao que fui? Como é que me veria? Serei eu a rebelde, a anarca, cronicamente depressiva, a inadaptada? Ele cresceu; eu não?

quarta-feira, junho 29, 2005

Olhar os olhos dos outros

Este texto foi-me enviado por uma leitora do blog. Escrevia-me ela que esta experiência estava, de alguma forma, relacionada com o mundo perfeito. Obrigada, Alma. Gosto tanto da alma tua história!
Uma história, com moral: na rua que faz esquina com esta onde ainda vivo, há uma espécie de clube desportivo da zona, dá-me ideia que é um sítio onde as pessoas da freguesia se juntam para jogar às cartas e falar de futebol. Sempre à porta, todos os dias, está um homem, nem novo, nem velho, que anda mal e precisa de muletas, gordo e despenteado, que praticamente vive na beira daquela porta. Desde Fevereiro, não houve dia em que eu não passasse ali e não o visse. Irritava-me. Achava-me controlada por ele. Desviava sempre os olhos, como se ele não existisse, e atravessava a estrada para o outro lado, antes de chegar à dita porta. Mesmo enquanto atravessava a estrada, não virava o rosto o suficiente para o ver. Ou seja, quase que preferia ser atropelada por não ver bem a estrada, a virar-me e dar-lhe o gosto de me ver a cara. Isto, todos os dias, umas vezes carregada, outras vezes com o pão, dezenas ou centenas de vezes.
Há dois dias, quando voltava a passar naquele sítio, dei de caras com ele. De repente, como se pensasse para mim mesma ("eu vou estar fora desta rua daqui por alguns dias, por isso, porque não?), acabei por lhe dizer "olá". Sem grandes euforias ou sorrisos, apenas um olá, a olhar bem para os olhos dele. Não foi só falar-lhe, eu olhei-o nos olhos, pela primeira vez! Hoje, quando passei lá, ele estava a falar com umas velhotas. Quando me viu, do outro lado da estrada, soltou-me um grande "olá, como estás?", com o maior sorriso desdentado que se possa imaginar, levantando a muleta no ar para dar mais força ao cumprimento, e havia uma satisfação tal, uma sensação de amizade tão grande, que quase me fez vir lágrimas aos olhos.
Moral?
Alma

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...