A distância relativamente ao objecto de análise é, por vezes, condição essencial para o compreender com clareza.
Não tenho grandes dúvidas que o terreno, no valor de 300 mil euros, pertencente ao senhor António Martins, o qual faleceu sem ter deixado testamento, pertence por igual, ou percentualmente aos seus herdeiros, que o dividirão a gosto ou contragosto. Mas outros bens existem cujo valor e posse não se podem reger pelos artigos e alíneas do regime legal das heranças normais. Refiro-me a bens culturais e científicos, de valor universal, dificilmente quantificável, tal a sua importância histórica.
Tem havido, nas últimas semanas, basta discussão sobre o leilão dos bens de Fernando Pessoa, respectivos valores, interessados, e eventuais duplas vendas que a família do poeta parece ter realizado - ameaçando, agora, ter mais lotes para leilão. Acho graça à família Pessoa! Isto de se ser herdeiro de Pessoa é uma bela árvore das patacas! E que herdeiros? Os filhos? Netos? Não! Sobrinhos e primos afastados de uma família a quem Fernando Pessoa se fartou de envergonhar com o seu comportamento pouco dado ao trabalho e às coisas normais de uma vida decente de homem do Estado Novo.
O Fernandinho é poeta! Como se alguém comesse da poesia! São, pois, os herdeiros desta família, igual às outras famílias, que vêm agora reclamar dinheiro pelos manuscritos, rabiscos, capas de livros, folhetins de cordel, correspondência, sola velha de um sapato do tio, primo, cunhado afastado, objectos que não são e nunca foram sua pertença, apenas estiveram à sua guarda. Pague-se-lhes a guarda! Mas o que sobrou de Fernando Pessoa, seja o que for que sobrou, pertence em primeira instância ao mundo, e em segunda, porque o mundo é muito grande e disperso, ao Estado Português, que tem a obrigação de reunir, tratar e continuar a estudar esse espólio. Portanto, aos primos e sobrinhos que conheceram tão bem o tio, como eu, e pelos mesmos meios, não cabe dinheiro algum. Usarem-lhe o apelido considera-se crédito suficiente. Para mim o negócio é simples: leilão?!, qual leilão?!, nacionalização de todos os bens de Fernando Pessoa, já, e sem apelo. Quem suporta oportunistas?!