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domingo, novembro 23, 2008

O maior drama do mundo civilizado



O filme A Turma, ainda em exibição, veio despertar as consciências para o que é hoje a escola, e as opiniões sucedem-se na blogosfera. Pretendo comentar esta, não porque discorde, mas porque me parece importante clarificar alguns aspectos.

O saber não ocupa lugar, dizia-me o meu pai todos os dias. Não estou a exagerar: era todos os dias. O meu pai nunca foi um sábio, pouco frequentou a escola, mas tinha a convicção de que o saber não era demais. Não estava em questão se esse saber me era ou me iria ser útil, mas o facto de ser sabedoria, e de o valor universal da sabedoria não admitir discussão. O meu pai estava certo. Lamento tudo o que não aprendi por preguiça ou arrogância.

O que é a escola? O que foi a escola desde o tempo dos gregos, em que não se aprendia álgebra nem filosofia para fins profissionais?! Na minha opinião, a escola é o lugar onde nos mostram como se poderá chegar à sabedoria, mediante uma quantidade razoável de esforço e persistência; o docente revela-nos onde se encontram guardados os mistérios que ainda não conhecemos, todos os princípios gerais sobre o funcionamento do nosso mundo, e ajuda-nos a ler teorias eventualmente complexas, a pensá-las, tornando-as mais transparentes ao recriá-las através de metáforas e alegorias, para que possamos ver mais facilmente, ou seja, criar o percurso que nos levará ao saber. A escola não é um livro aberto, uma definição. A escola não serve para ensinar o que já é sabido. Ninguém vai à escola para aprender a dizer "bué da fixe". Já sabemos dizer "bué da fixe". No máximo, iremos à escola estudar o contexto de formação das gírias.

A capacidade de ver, ou seja, de saber, não é definível como algo objectivo cujo fim serve para aplicação directa em a ou b. Nem eu nem a maior parte dos leitores sabemos exactamente para que nos serviu uma série de saberes que aprendemos na escola. É muito provável que alguns desses conteúdos tenham apenas sido um belo pretexto para disciplinar, estruturar a nossa matéria intelectual. O poder da leitura, por exemplo, age no leitor muito para além da fruição imediata que lhe chega da identificação com a acção e as personagens. Ler é também treinar a capacidade linguística. O que uma criança leitora faz enquanto lê é equivalente, do ponto de vista do desenvolvimento das suas capacidades linguísticas, ao treino diário de um atleta. Quando mais corre, quanto mais aguenta, melhor correrá, mais correrá, a sua performance tornar-se-á excelente. Por outrao lado, não existe um pensamento especulativo, criativo e produtivo sem capacidades verbais. Verbalizar melhor não implica apenas comunicar melhor, mas pensar melhor. O pensamento precisa da linguagem. Por isso a treinamos, lendo, não apenas para descobrir, chegados à pagina 327, que Simão vai para o degredo, coitadinho, e morre, e Teresa também, e que já agora, Mariana se suicida. Claro que tudo isto é sumamente interessante, mas o mais interessante ainda, é que de morte em morte se vai formando a capacidade de pensar. E é disso que precisamos no mundo: de pessoas capazes de pensar abrangentemente. Esta é a função da escola: produzir esses agentes de pensamento. Para a seguir criarem, transformarem.



Que um aluno do 8º ano questione a utilidade do uso do modo conjuntivo porque no seu meio não o utiliza, é grave. Não é apenas grave para o professor, coitado, mas para a sociedade no seu conjunto. O uso do conjuntivo não é uma opção porque o aluno lá em casa nunca ouviu, porque no seu bairro não se fala. A única falha admissível, para um falante de uma língua materna como o francês ou o português, é desconhecer que nome dar à estrutura verbal chamada conjuntivo, ou não saber quais as características línguisticas do modo em questão, mas deter a competência para o usar em situações comuns de fala é uma obrigatoriedade; deveria ser uma capacidade adquirida antes de chegar à escola. Quando pela primeira vez na minha vida estudei o modo conjuntivo, limitei-me a reconhecer e a nomear um modo que já usava a cada três minutos. Aprendi falando e ouvindo falar, porque os meus pais, e aqueles que me estavam próximos, e que não eram sábios, conjugavam o conjuntivo, intuitivamente, como normais falantes de Português, língua materna. Assim falavam os seus pais e os seus avós. A língua muda, está muito certo, mas cuidado com aquilo que na língua muda. As alterações lexicais, ortográficas, e até as semânticas, são diárias, e não afectam o "esqueleto" da língua, mas uma alteração ao nível da ordem sintáctica, como por exemplo o mau uso do conjuntivo, pode muito bem corresponder a uma espécie de eliminação da vértebra L1 ou C3. E os problemas nas vértebras, bem como tudo o que me meta coluna vertebral, dói muito.

Creio que o que estaria em causa, ao aceitar-se que um aluno não teria que conhecer o conjuntivo e saber usá-lo, seria uma amputação linguística com as consequências ao nível do pensamento. Seria aceitar igualmente uma amputação do pensamento. E isso tem acontecido. Estes alunos são a prova.



Se os alunos de hoje não reconhecem o conjuntivo e não o usam, é porque os seus pais também perderam essa capacidade de falar, logo pensar. Ou seja, os portugueses não sabem falar a sua língua; a ignorância linguística chegou a um ponto tal que não só a língua se degradou, como, consequentemente, se degradaram a identidade e outros valores fundamentais, sendo que um deles foi pensar-se que era possível viver sem esforço, sem disciplina.

Não é obrigação da escola adaptar-se à ignorância nem à preguiça nem à facilidade enquanto forma de vida, mas ensinar o conjuntivo a quem não o sabe, independentemente de o quererem usar, embora, eu, muito sinceramente, não esteja neste momento a ver a alternativa sintáctica a um "a minha mãe não quer que eu faça". Será que devemos dizer, "a minha mãe não quer que eu fazer"?! Estaremos a brincar ao linguajar dos bebés?!

Um dos objectivos nos quais assentou o actual modelo de ensino, obtendo total sucesso, teve a ver com o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos. Creio que nunca os alunos tiveram tanto espírito crítico como nos dias de hoje, o que é óptimo quando se critica com argumentos, com base num discurso reflectido e bem articulado.

A escola de hoje, não vale a pena tapar o sol com a peneira, é um espaço de constante questionamento dos saberes, e isso é perfeitamente legítimo e desejável, desde que se baseie numa atitude de construção, desde que se cumpram as regras do debate; mas o questionamento gratuíto, só porque sim, porque não nos apetece, não tem estrada por onde caminhar, porque não lhe cabe resposta neste contexto. É para outro lugar.
Quando o professor do filme A Turma responde à aluna que a decisão sobre usar ou não um nível de língua cuidado depende da intuição, talvez faça mais do que o que lhe é pedido. Não se encontra de facto a responder a uma dúvida linguística, mas ao questionar de uma ordem do mundo: a língua tal como é falada por quem a fala correctamente, ou seja, segundo os alunos daquela turma, os burgueses; eu, por exemplo. O que a aluna lhe está a dizer é "eu não sou capaz de falar dessa forma, nem quero aprender, porque essa é a linguagem dos integrados, e eu não sou um deles." O que ela questiona é toda uma identidade. Um mundo. Porque a língua é isso: a identidade a que o uso do pensamento nos habilita, e em todas as suas acepções. Esse inábil questionar do mundo pode refectir-se na escola, mas cabe-lhe resolver-se fora dela, porque a escola obrigatória não pode ser um campo de batalha sem graves consequências para a qualidade das aprendizagens, nem os professores são soldados habilitados para tal combate.

Qualquer pessoa com valores devidamente formados sabe se pode usar com o interlocutor x a expressão "bué da fixe". Todos temos uma intuição sobre as relações de poder que permitem o uso de tal expressão. E essa aluna, à sua maneira, também a tem. Mantenho, pois, que a sua dúvida não é linguística, não é escolar, ou sê-lo-á apenas na medida em que as dúvidas existenciais são escolares. O problema principal que se põe na aula do professor deste filme é sobretudo um problema de valores. Aqueles rapazes e raparigas não sabem o que é falar bem ou falar mal como não sabem o que é pensar bem e mal. Falam. Pensam. Sentem qualquer coisa. Qualquer coisa que não está bem mas que não compreendem, como uma doença não diagnosticada. E nisso não se distinguem de um cão que ladra. Imitem sons, mas perderam o direito ao benefício do uso de uma língua, tal como perderem o poder que isso confere. São jovens destituídos de poder e de valores, num ciclo vicioso, o qual, como escreve a autora do poste que comento, não cabe à escola resolver. Os princípios da escola não se lhes aplicam. Podem ser integrados numa turma de currículos alternativos, o que lhes dará a eles, e à sociedade, a ilusão de estarem minimamente escolarizados; apenas frequentaram a escola, não a usaram. E eles têm a intuição disso. Têm-na, e é essa enorme frustração que trazem para a escola. Não poderem, não serem capazes de se tornar iguais aos que falam e decidem. Penso que esta perda de linguagem, de pensamento, de identidade, é um dos maiores dramas do mundo civilizado.


quinta-feira, agosto 07, 2008

Casos da vida - Dany e Vanessa


Sinais exteriores de riqueza


Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.

quinta-feira, julho 10, 2008

Extrema solidão



Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.

quarta-feira, abril 23, 2008

O mundo perdido

Abril, por Dhao Ge, 2002

O mundo está a ser atravessado por triliões de quilómetros de estradas transitáveis e intransitáveis, e triliões de quilómetros de chão livre, sem estradas ou caminhos, porque o mundo é grande como um planeta selvagem, mas ninguém está plantado no mundo. Estão todos a trabalhar em fábricas de embalagens de plástico e escritórios de import-export, enquanto o mundo floresce e murcha, floresce e murcha.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Cadáver adiado

Nova Iorque, vista do céu

Nova Iorque cheirou muito mal, anteontem à tarde, e o metro foi evacuado, bem como algumas escolas.
Dizem as autoridades tratar-se de uma fuga de gás. Não me custa a crer; é cada vez mais difícil dissimular a putrefacção do mundo.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Os que vivem por nós

O que é terrível nos outros, o seu rosto censurável, o recanto mais questionável, enfim, o podre, cheira mal enquanto os seres reais não se transformam em personagens. "Ficcionados" são já carácteres densos, complexos, fascinantes.
Oh, se fôssemos tão livres quanto eles, se tivéssemos tido as suas vidas!

A minha prima afastada, lá do alto da sua filosofia pura, costuma dizer que amamos as "personagens" malucas, as que se drogam e suicidam, as que se destroem e dizem palavrões no palco, as que devem dinheiro, as que andam nuas na rua, e bebem e partem objectos de milhares de dólares e dão porrada e levam-na, e fazem curas de desintoxicação e têm recaídas, porque "fazem tudo o que nós queríamos, mas não somos capazes".
Porque "vivem, em nosso lugar, o que não temos coragem de viver".

quarta-feira, maio 31, 2006

Abraça-me e beija-me

(III da série "O que me comove")


Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.


Jan Saudek, The Shelter, 1963

Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me fixamente e sorriu. É uma menina tão linda e doce! Eu sorri, perguntei-lhe o nome, e apaixonámo-nos à primeira vista. Sou uma menina grande e, ela, uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro, mas não tive tempo para reparar.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:

- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.

sábado, abril 29, 2006

Os falhados

Os bêbados e as bêbadas. Os caloteiros e as mulheres promíscuas. Os que não têm disciplina, e se esquecem e dormem até tarde. Os que se masturbam à falta de parceiro ou porque gozam mais. Os que masturbam os outros e esse é o seu prazer. Os que são enrabados e os que enrabam. Os que são pequenos e, às vezes, gordos. Aqueles que não aguentam. Fracos. Os míopes, os canhotos, os carecas, as mulheres de barba. Os que caíram e mesmo os que nunca se levantaram. Que não têm dentes nem vergonha nem escrúpulos. Que se atrasam muito tempo, ou nem vão. Os que chulam e os que são chulados. Os que se descontrolam e dizem palavrões. Irracionais, inoportunos. Esses que falham todas as oportunidades. Que aparecem quando não devem e só para fazer asneira. Que podendo ter feito, não fizeram, nem se lamentam. Os que nunca foram ou tiveram coisa alguma, e que na véspera da morte valiam menos que o copo riscado do último vinho. A Camille Claudel e o Fernando Pessoa. Esses e outros que tais.


sexta-feira, março 10, 2006

Festival de pancada III

Olá, sou o Nuno, vim aqui à praia de Paço de Arcos só para vos dizer que curto bués música e desporto. Pá, o amor é tudo para mim, tenho uma carinha laroca, e sei que com estes cabelos compridos e os labiozinhos assim, deixo qualquer quarentinha com crises de insónia uma semana inteira. Quanto ao que canto, quem é que vai reparar no que canto? Não sei quê "adeus", não é?

Festival de Pancada II

Hi, sou a Marey, tenho treinado imenso a língua para vir ao festival, fiz 65 horas de avião. Não faço a menor ideia do que estou a cantar, nem vocês, e nem sequer sei cantar, mas pronto, o que interessa é que o teu coração vote no meu.

Festival de pancada I

Olá, sou o Bernardo, venho desta cidade maravilhosa que é o Entroncamento; estou aqui para vos apresentar uma canção cuja letra não tem sentido algum, mas não interessa, porque rima, e também não tenho muito jeito para as melodias, mas faço umas colagens de trechos ouvidos nas baladas de sucesso de Robbie Williams, e até canto um bocadinho em inglês para perceberem o contéudo.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Os meninos que matam

Os meninos nascem puros.
Alguns crescem muito depressa, e são já mais velhos do que o mundo, no momento em que matam. Mesmo esses meninos nascem puros.
Os meninos que nasceram puros, os de ontem, aprenderam o culto ao mal, e à morte; é a ideologia que conhecem, livremente difundida pela música, pelos jogos, pelos cinema que consomem, os livros que lêem, enfim, pela cultura que lhes chega: querem matar velhinhas, em vez de as ajudar a atravessar a rua. Querem matar e violar todos os que não forem como eles. E todos os que eles deveriam ser. Os meninos que nasceram puros e matam, querem matar-se, mas ainda não sabem.




Houve um tempo em que foi possível chegar aos meninos e ser deles, e eles nossos. Éramos puros. Todos.
Hoje, os meninos puros sujaram-se. Sujaram-se pelo desamor, que nasceu do desamor, que nasceu do desamor. E o que é isso, o amor? Serve para quê, isso, esse empecilho, o amor! Os meninos que nasceram puros deixaram de acreditar. Nunca viram o amor. Esse empecilho. Os meninos que nasceram puros sujaram-se ao ficar cegos para os outros.





"O que fazes se encontrares uma carteira na rua com dinheiro?" "Tiro o dinheiro e deixo-a lá ficar." "E não entregas à polícia?" "Até posso entregar, mas sem o dinheiro." "Mas não achas que devias entregar a carteira com o dinheiro?" "Não, se não tirar eu o dinheiro, tiram os polícias."

Os meninos que nasceram puros atiram pedras aos negros, aos ciganos. Os meninos que nasceram puros vão ao cu às colegas adolescentes, porque no cu é que é cool. É que é. Os meninos que nasceram puros esmagam a cara do colega bichona, porque é bichona, e formam gangs para roubar tudo o que possa ser vendido no mercado paralelo.

Em Madrid, há um mês atrás, adolescentes imolaram pelo fogo uma sem-abrigo que se protegia do frio na entrada de um banco, onde se encontravam as caixas atm. Esses meninos também nasceram puros.





São puros estes meninos, no fundo, e talvez ainda pudessem recuperar-se, na escola, as carências profundas de uma inexistente educação familiar; mas, paradoxalmente, não nas escolas como elas estão, não em turmas de 30 alunos, com aulas de 90 minutos, não nos moldes em que a escola hoje existe. Porque estes meninos, que normalmente se encontram sinalizados, deviam poder ter professores em regime individual. Professores tutores responsáveis por aulas em formato diferente, grupos de 2 ou 3 e não mais. Uma atenção constante agindo sobre as alterações dos comportamentos. Mas o mesmo Estado que custeia a prisão e as casas de correcção onde vão parar, não custeia vagas para professores-tutores. Não são necessários. Estão melhor no desemprego.





Por isso é que os meninos, que nascem puros, podem tão livre, tão fácil e impunemente criar, com as suas mãos, o horror, a vileza, a degradação máxima. A mesma a que estão condenados enquanto o sistema educativo se fundar numa politica economicista.
A escola de hoje chama-se demagogia. Hiipocrisia.

Os meninos puros que se envileceram, são produto da hipocrisia política que os envileceu, criando assim os seus legítimos cancros, os seus clientes para castigo exemplar.

Fotos de Anne Geddes

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...