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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O mal é humano

Jack Nicholson


O doce precisa de salgado e o salgado de doce. A minha mãe ensinou-me a temperar o arroz-doce com sal, e as favas guisadas com açúcar. Funciona, e aplica-se a tudo. À ficção, então, nem se fala. Penso nisto a propósito das personagens mais interessantes da história da ficção. Que interesse pode ter uma personagem boazinha? A madre Teresa de Calcutá, por exemplo? Como tornar interessante uma madre Teresa de Calcutá ficcional? Pelo silêncio. Calá-la. O silêncio permite subentender todas as vilezas e perversidades que temperam uma vida humana. Miná-la de dúvidas e angústias, seria outro caminho. Com um bocado de sorte suicidava-se na ponte 25 de Abril. Haveria história. Drama. A sua existência transcenderia a biologia.

Há uns anos, um santo padre que desejou salvar-me para si, dizia-me que o meu maior atractivo era o silêncio altivo, cheio de segredos. E eu explicava-lhe, "não é altivo, é vergonha". "Não parece, minha filha, não parece; quem te observe dirá que te encontras acima dos mortais", respondia-me, enquanto me procurava a deliciosa menina dos olhos. Sobre uma personagem calada tudo se pode imaginar. Não fala, porquê? Que traumas guarda? Viu o que não devia? Não desce ao mundo comezinho? A ninguém ocorrerá a hipótese mais plausível: é muda, tem uma voz feia, os dentes tortos; é tão tímida como um rabanete.

A irmã Lúcia, por exemplo, só tem salvação pela comédia. Transformá-la-ia num ex-libris do que sempre foi: fanática, burra como as casas. Não se faz mais nada com aquilo. Também a colocaria com gozo no centro de uma cena de terror, da qual seria o agente. O terror precisa de personagens normaizinhas, esperáveis, para a seguir se transformarem em monstros com ou sem escamas. O prazer que deve dar transformar uma irmã Lúcia num monstro que deita fogo da boca e tresanda a pecado! Eu até esfregaria as mãos!
Nada é inverosímil numa personagem má, porque a maldade humana é certa e infinita.

O mal resulta. Revemo-nos nele; o nosso mundo está lá. Um fulano piedoso, contudo, cheio de taras; a da limpeza é sempre hilariante. Estou sempre a lembrar-me da personagem interpretada pelo Jack Nicholson em Melhor É Impossível, uma das minhas comédias favoritas. O homem é mau, mas não, o homem até é um doce. Melhor, o homem é um querido, mas tem aqueles problemas de sociabilidade, logo, o homem é mau. Caramba, afinal o homem é bom ou mau? Ou um senhor muito simpático, dadivoso, honesto trabalhador e pai de família, que viola no banco da frente do carro, às terças e quintas, rapazes aos quais dá boleia à saída do emprego.
Depois lava as mãos, a boca, beija amorosamente o crucifixo que traz no porta-luvas, e reza 20 pais-nossos. Como resistir a personagens destas?

Mr. Bean e Charlot funcionam porque estão cheios de boas intenções, contudo falham. Querem ser certinhos, fazer o bem, mas asneiram e estragam tudo. Sempre. Entre o que eu sou e o que eles são a distância é curta. Quantas vezes me rio das coisas ridículas que digo ou faço, e me apanho a pensar que afinal já vi aquilo num Mr. Bean? Quantas vezes me sinto um Charlot no feminino?
Transformar uma personagem má numa boazinha, sem cair no ridículo, é difícil. Só uma mão virtuosa. Vinda do mal, ou chegada do nada, entrando virgem na acção, uma personagem adjuvante tem de ser endurecida, ou torna-se lamechas, e o lamechismo é insuportável. Aos bons, temos de retirar características humanas. Sim, é bom mas abdicou disto e daquilo. Para se ser verdadeiramente humano é preciso abdicar de quase toda a humanidade. Dizemos, "ele é bom para a humanidade, mas implacável com o cumprimento de regras", e, nesse caso, torna-se associal e ninguém o suporta. Logo, mau.

Os mauzinhos são fáceis. Para fazer um vilão basta deixá-lo deslizar. Chega lá sozinho se lhe dermos espaço, porque as personagens, como as pessoas, têm faro para a o erro, a corrupção e a desgraça. Não é que a maldade seja mais natural que a bondade: ela existe enquanto substância legítima, independente de juízos valorativos. E é mais interessante, mais rica, portanto mais ficcionável. Quanto aos nossos confrontos com a maldade na vida real, isso já é outro assunto. Ficção é ficção, conhaque é conhaque, e as misturas caem sempre mal.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...