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sexta-feira, setembro 12, 2008

A meteorologia do amor



Consigo escutar o vento na foto de Cartier-Bresson que ilustra o texto aqui publicado anteontem. Faz um frio de rachar, e a atmosfera carregada de humidade, de gotas de água salgada, cheira a mar batido. Rodeados pela intrepidez da natureza invernal, sentindo-a, contudo imunes a ela, os amantes sorriem. Sorririam se nevasse, se chovesse, se a temperatura baixasse para níveis insuportáveis. Desejam estar juntos e esse desejo suplanta a necessidade de conforto. O conforto é estarem juntos, sejam as condições o que forem.
Reconhecemos estes sentimentos desde o tempo em que vivemos um amor. Éramos novos e não tínhamos casa exactamente nossa onde os beijos, os afagos inocentes, depois adiantados, pudessem esconder-se. Deambulávamos pelos locais mais ou menos desertos. No Inverno, na praia gelada, fazíamos amor na areia, sentindo-a húmida debaixo de nós. Enregelávamos. Constipávamo-nos. A Costa da Caparica era um lugar muito apropriado para o amor. As praias mais afastadas estavam desertas. Mas também me lembro do vento cortante que fazia sempre em Cacilhas, enquanto nos aninhávamos num canto do cais dos cacilheiros para nos enrolarmos em beijos, no calor dos peitos quase afogados. Ainda passo por lá e sei apontar os cantinhos onde beijei os beijos mais afogueados, ao final da tarde, pela noite fora. Já não existe um café mesmo à saída dos barcos, onde nos recolhíamos da chuva. Era um café antiquado, com poucas mesas, muito frequentado por namorados. Na Cruz de Pau havia um outro café, junto à Estrada Nacional, que também procurávamos para fugir à chuva. Ainda existe. Tinha uns pastéis de bacalhau muito abatatados, e os mil-folhas eram de terceira qualidade. Por outro lado, o nosso porta-moedas tinha o dinheiro contadinho. Passo aí todos os dias. Para lá chegarmos tínhamos de nos ir abrigando das bátegas por debaixo das varandas da rua principal, a que desce até à Amora. Ficávamos tão encharcados no Inverno. Não tínhamos um lugar nosso. Éramos apaixonados que ocupavam o espaço público, viandantes.
A minha memória do amor é feita de molduras de frio, de chuva, de dificuldade.
Tive outras pseudo-amores depois desse amor. Menos difíceis, mais rodeados dos devidos equipamentos favoráveis à intimidade, mas não guardei memórias. Já nem me lembro do nome deles. O que aconteceu e onde e como, sei lá dizer! Mas o frio, o vento, e a chuva do amor autêntico perduraram na minha memória e nos meus sentidos até hoje.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...