Eu sobrevivi à maquiavélica direcção de José António Saraiva, escritor, futuro Nobel da Literatura. Não foi fácil. Andei anos com um nó na garganta.
Ora, moro neste bairro há 22 anos, com um intervalo de 7 em que estive emigrada no Alentejo por causa dum part time que lá me arranjaram, mas mantive sempre cá a casinha e o cartão de eleitor, e nunca, nunca, nunca, esclareça-se isto bem, nunca, em duas décadas vi alguém do bairro a ler o Expresso no café.
Aqui, as pessoas lêem o Correio da Manhã e A Bola. Antigamente, o Avante, mas agora os tempos mudaram um bocado. Os intelectuais da zona arriscam um Diário de Notícias, com um bocado de vergonha, verdade seja dita, mas, caramba, existe ou não livre arbítrio? Ler o JL na rua é que já seria provocação, isso reconheço, mas o DN, vá lá.
Toda a gente me conhece; até me cumprimentam,"olá, vizinha, então como vai a mãezinha?", mas quando querem falar sobre mim, uns com os outros, dizem, "aquela das cadelas", ou então, "a maluca do Expresso". Ou só "a maluca". Ninguém se engana.
Hoje fui comprar o Expresso eram umas 10h30. Cedo, portanto. O Expresso sobra sempre no quiosque. O homem tem Expressos até ao sábado seguinte.
Hoje, não havia. Abri a boca de espanto; senti uma momentânea baixa de tensão arterial. Demorei uns segundos a recuperar, e perguntei depois ao senhor Tó Mané, "não enviaram? Ainda não chegou?". "Não, vizinha, já foram todos?" "Já foram todos?! Às 10 e meia já foram todos?! " "Sabe, é que hoje trazia a bandeira!" "A portuguesa?!" "Então qual é que havia de ser, dona Isabela?!" "Ahhhh..."
Quando consegui voltar a mim, comprei o Diário de Notícias. Há sempre muitos. O senhor Tó Mané entregou-me o jornal juntamente com um cachecol a verde e vermelho apresentando uma maiúscula inscrição: PORTUGAL. Era brinde. Devolvi-lho, rapidamente.
Portanto, hoje, no meu bairro, uma quantidade razoável de vizinhos comprou, pelo preço do Expresso, uma bandeira nacional. Se calhar duas. Poucos lerão o jornal, mas, hoje, a rua estará mais enfeitada. Apetece-me olhar à volta e bater às portas das bandeiras novas pedindo emprestado o jormalinho.
O que interessa o pão desde que tenhamos circo?