As minhas avós continuaram a usar lenço na cabeça quando saíram do campo para a cidade. Nos anos 70, no Ribatejo, era assim. Agora, não sei, mas não me surpreenderia que a dona Emília, de Cabeceiras de Basto, que nada deve ao conceito de fashion, procurasse, no mercado local, o melhor lenço de cachemira para levar ao casamento da sobrinha.
Frequentemente, considerei “antigas” as mulheres que usavam lenço na cabeça; agora, percebo que não eram mais “antigas” que outras, alegadamente modernas, que nunca o usaram. Um lenço nem sempre faz uma cabeça.
Um lenço, uma gravata, um tailleur, um fato escuro são convenções culturais de bem parecer, a partir dos quais alguns tiram ilações comportamentais que nada me dizem. Não gosto de lenços nem de gravatas nem de tailleurs nem de fatos escuros, mas não me lembraria de mandar alguém tirá-los para trabalhar ou conviver comigo. Não me cabe, nem à sociedade, impedir os indivíduos de vestirem a roupa que lhes agrada, com que se sentem bem. Considero o conceito de casual Friday, nas empresas, tão carregado de estúpido autoritarismo como o de formal Monday. Interessa o que se faz, não o que se aparenta; não me ponham a escrever banalidades destas, por amor de Deus!
Já trabalhei e convivi com pessoas portadoras de toda a espécie de indumentária e objectos decorativos, alguns bastante distractivos. Preciso que o outro seja competente, me mostre a cara, dialogue, e me respeite, o que nem sempre é fácil, mesmo com roupa inquestionável pelo Ocidente. Mas é o que basta.
Ora, se não me incomoda partilhar o espaço de trabalho, ou outro, com alguém de chapéu, de lenço, de véu, de calças ou saias, em estilos diversos, por que me importaria que uma colega vestisse uma hijab, uma shayla ou um chador? Já vi roupa bastante insultuosa para as mulheres nas passerelas de grandes criadores de alta, baixa e média costura, e ninguém reclamou.
Desde sempre, na Europa do Mediterrâneo, as mulheres usaram lenço. Em zonas interiores de Portugal, nas beiras, no Norte, em Trás-os-Montes, as mulheres envergaram durante muito tempo um trágico chador negro. Pelo frio? Sim, pelo frio, mas por detrás dos lenços, véus e mantos estão tradições culturais de origem religiosa que se perdem nos tempos. A nossa cultura continua imbuída de sentidos religiosos bem ortodoxos, persistentes, à nossa volta, os quais não reconhecemos, sequer. Mas estão lá, destituídos do seu sentido original, e legitimados.
Frequentemente, considerei “antigas” as mulheres que usavam lenço na cabeça; agora, percebo que não eram mais “antigas” que outras, alegadamente modernas, que nunca o usaram. Um lenço nem sempre faz uma cabeça.
Um lenço, uma gravata, um tailleur, um fato escuro são convenções culturais de bem parecer, a partir dos quais alguns tiram ilações comportamentais que nada me dizem. Não gosto de lenços nem de gravatas nem de tailleurs nem de fatos escuros, mas não me lembraria de mandar alguém tirá-los para trabalhar ou conviver comigo. Não me cabe, nem à sociedade, impedir os indivíduos de vestirem a roupa que lhes agrada, com que se sentem bem. Considero o conceito de casual Friday, nas empresas, tão carregado de estúpido autoritarismo como o de formal Monday. Interessa o que se faz, não o que se aparenta; não me ponham a escrever banalidades destas, por amor de Deus!
Já trabalhei e convivi com pessoas portadoras de toda a espécie de indumentária e objectos decorativos, alguns bastante distractivos. Preciso que o outro seja competente, me mostre a cara, dialogue, e me respeite, o que nem sempre é fácil, mesmo com roupa inquestionável pelo Ocidente. Mas é o que basta.
Ora, se não me incomoda partilhar o espaço de trabalho, ou outro, com alguém de chapéu, de lenço, de véu, de calças ou saias, em estilos diversos, por que me importaria que uma colega vestisse uma hijab, uma shayla ou um chador? Já vi roupa bastante insultuosa para as mulheres nas passerelas de grandes criadores de alta, baixa e média costura, e ninguém reclamou.
Desde sempre, na Europa do Mediterrâneo, as mulheres usaram lenço. Em zonas interiores de Portugal, nas beiras, no Norte, em Trás-os-Montes, as mulheres envergaram durante muito tempo um trágico chador negro. Pelo frio? Sim, pelo frio, mas por detrás dos lenços, véus e mantos estão tradições culturais de origem religiosa que se perdem nos tempos. A nossa cultura continua imbuída de sentidos religiosos bem ortodoxos, persistentes, à nossa volta, os quais não reconhecemos, sequer. Mas estão lá, destituídos do seu sentido original, e legitimados.
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Portanto, não posso compreender que, à Europa, e ao Ocidente, em geral, incomode tanto a indumentária das muçulmanas religiosas. São culpadas por ser muçulmanas. Abertamente, ninguém o dirá. Mas, sim, no fundozinho é essa a culpa que lhes atribuem. Oficialmente, afirmarão pretender libertá-las do jugo islâmico. Que compreendam a sua subjugação e a recusem. Esse é o argumento. Contudo, o paradoxo está em que proibir a uma muçulmana uma indumentária cultural, não a liberta, aprisiona-a. Veda-lhe a educação, o trabalho e a evolução como cidadã e pessoa. Mantém-na prisioneira da sua cultura - se é que ela se sente aprisionada, porque temos de encarar que muitas muçulmanas desejem continuar a usar as roupas tradicionais, tal como a dona Emília, de Cabeceiras de Basto, não pensa abandonar o lenço de cabeça. Nem eu, as calças de ganga.
O que nos interessa que alguém trabalhe de shayla? Não aceitámos e legitimámos dezenas de estilos, alguns bastante agressivos - diariamente à nossa frente?!
Rejeitar uma muçulmana porque se veste como uma muçulmana é pura expressão de xenofobia, misoginia e colonialismo, combinados, simultâneos. O problema não está no véu, mas na intenção mais ou menos consciente de controlar uma cultura através da humilhação às mulheres que lhe pertencem. Terei muito contra o poder dos islâmicos ortodoxos no que respeita às mulheres e aos homens, à sociedade em geral, mas o problema não é a roupa que vestem.
E já agora, a ninguém incomoda a indumentária dos homens muçulmanos? Ainda bem! A mim, a indumentária também não me incomoda nada.
Nota: agradeço ao leitor(a) que me indicou, indirectamente, o texto de Joana Amaral Dias, sobre o mesmo assunto.
Este texto já estava escrito e não pretende ser um comentário ao de JoanaAD. Não partilho a sua opinião em relação ao uso de burqa ou niqab. Cobrir o rosto dessa forma representa, mais do que ameaça de segurança, uma recusa permanente da identidade, e isso parece-me intolerável do ponto de vista civil.
Dificilmente consigo encaixar social e profissionalmente uma pessoa destituída, ou ensinada a destituir-se da sua identidade. Uma burka ou uma niqab exclui uma mulher do espaço público, porque lhe rouba o rosto. Não imagino uma professora sem rosto, uma deputada sem rosto, uma advogada sem rosto. Não imagino ninguém sem rosto, a menos que não o tenha, realmente.
A burqa esconde um ser privado de luz, e o valor simbólico de tal realidade incomoda-me muito.
No entanto, também não posso aceitar que alguém seja multado por sair à rua vestido dessa forma. Quem paga a factura social de tais penalizações são as mulheres, não quem as domina. E tudo isso gera ódio e guetização.
Incomodando-me, não ficando indiferente, prefiro continuar a encontrar muçulmanas de burqa nas ruas do Miratejo, do que sabê-las fechadas em casa, porque não sairão à rua vestidas de outra forma.
O que nos interessa que alguém trabalhe de shayla? Não aceitámos e legitimámos dezenas de estilos, alguns bastante agressivos - diariamente à nossa frente?!
Rejeitar uma muçulmana porque se veste como uma muçulmana é pura expressão de xenofobia, misoginia e colonialismo, combinados, simultâneos. O problema não está no véu, mas na intenção mais ou menos consciente de controlar uma cultura através da humilhação às mulheres que lhe pertencem. Terei muito contra o poder dos islâmicos ortodoxos no que respeita às mulheres e aos homens, à sociedade em geral, mas o problema não é a roupa que vestem.
E já agora, a ninguém incomoda a indumentária dos homens muçulmanos? Ainda bem! A mim, a indumentária também não me incomoda nada.
Nota: agradeço ao leitor(a) que me indicou, indirectamente, o texto de Joana Amaral Dias, sobre o mesmo assunto.
Este texto já estava escrito e não pretende ser um comentário ao de JoanaAD. Não partilho a sua opinião em relação ao uso de burqa ou niqab. Cobrir o rosto dessa forma representa, mais do que ameaça de segurança, uma recusa permanente da identidade, e isso parece-me intolerável do ponto de vista civil.
Dificilmente consigo encaixar social e profissionalmente uma pessoa destituída, ou ensinada a destituir-se da sua identidade. Uma burka ou uma niqab exclui uma mulher do espaço público, porque lhe rouba o rosto. Não imagino uma professora sem rosto, uma deputada sem rosto, uma advogada sem rosto. Não imagino ninguém sem rosto, a menos que não o tenha, realmente.
A burqa esconde um ser privado de luz, e o valor simbólico de tal realidade incomoda-me muito.
No entanto, também não posso aceitar que alguém seja multado por sair à rua vestido dessa forma. Quem paga a factura social de tais penalizações são as mulheres, não quem as domina. E tudo isso gera ódio e guetização.
Incomodando-me, não ficando indiferente, prefiro continuar a encontrar muçulmanas de burqa nas ruas do Miratejo, do que sabê-las fechadas em casa, porque não sairão à rua vestidas de outra forma.