Certos amigos dizem que eu também me dedico a escrever umas coisas tipo Bridget Jones, mas inteligente. Discordo totalmente. Ainda agora estive a rever um dos filmes da dita. Não há uma Bridget Jones inteligente e outra burra. Nós, as Bridget Jones, somos todas muito parecidas, com o seu quê de burro, como qualquer pessoa apaixonada. A mim também me fascinam as cuecas de gola alta, e consumir televisão enquanto como pistachios com as cadelas, ou bolo de chocolate. Sou absolutamente tontinha quando estou interessada por um homem. E quando não estou, também não se aproveita grande coisa. Há, como eu, um grupo de mulheres que se atrasou bastante no cumprimento das tradições familiares, ou que começou por desprezá-las, vindo a perceber mais tarde, casadas as amigas, e cheias de filhos rebeldes, mas integradas e respeitadas, que não havia grande salvação fora do esquema sacrossanto da família, pelo menos nas estruturas sociais conhecidas. De forma mais ou menos longínqua, nós, as Bridget Jones, ainda sonhamos ser salvas pelo amor dedicado de um homem parecido com o Colin Firth, mesmo que seja manco. Mas é um sonho vago. Eu, por exemplo, tenho quase a certeza que no lar de terceira idade onde acabarei os meus tempos, há-de estar o homem ideal, aquele que gostará de mim como sou, e não será um psicopata dissimulado, como a maior parte dos que conheci. Andámos perdidos, mas o lar de terceira idade reunir-nos-á, e depois é que vou conhecer as alegrias da relação pura. Agora, obviamente, não, porque os homens que me interessam estão todos casados, e não me apetece nada passar de mulher livre a amante escondida e dependente. Agora, obviamente, não, porque os homens que se interessam por mim, não me despertam a libido por motivos diversos, que incluem ter pêlos no nariz, para além de que sei-muito-bem que não suportaria o quotidiano de um casamento com peúgas para lavar e etc. Um homem com o qual fosse sumamente feliz, para mim, é assim um ideal. E um ideal, caros leitores, é como sonhar que nos vai sair o Euromilhões, e vamos deixar de trabalhar, e fazer viagens cheias de aventuras e com dinheiro para gastar em cocktails, num bar da praia, ao pôr-do-sol.
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domingo, janeiro 18, 2009
domingo, outubro 05, 2008
Um estilo de vida excessivamente cancerígeno
A certa altura dos relacionamentos as mulheres consideram reunidas as condições para começar a chagar a cabeça aos namorados com a ideia do casamento, do juntar trapinhos e estar sempre perto como Deus e o Diabo. E eles engasgam-se, encolhem-se todos, arranjam desculpas sobre não ser a altura certa, que estão aflitos com um projecto, pedem tempo para pensar, defendem-se, coitados, como qualquer animal à beira do perigo.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.
sábado, agosto 23, 2008
Mão à palmatória
Para quem observa os outros calada, torna-se claro que os homens podem abarrotar de defeitos, mas não precisam de uma causa para se juntarem ou apoiarem mutuamente. Para o bem, e também para o mal, existe união entre eles. Por outro lado, a maior parte das mulheres mantém relações superficiais, encontra-se sempre pronta a conjurar contra as outras, raramente apresenta espírito de grupo, quer no trabalho, quer fora dele, guardando o melhor de si para os namorados e maridos, que frequentemente agradeceriam que os deixassem em paz. Muitas, muitas mulheres detestam-se entre si, competindo num salve-se quem puder próprio de uma situação de guerra. E é, sim, ainda, a guerra dos destituídos de poder, que se aliam ao próprio carrasco, contra o semelhante, para garantir a melhor sobrevivência possível.
sexta-feira, agosto 22, 2008
Quanto ganham as mulheres?
Os homens portugueses ganham mais 25% do que as mulheres, realizando as mesmas tarefas. A notícia não constitui para mim qualquer novidade, mas faço questão que não passe em branco. É preciso lembrar que as mulheres têm muita luta para lutar antes de se afirmarem, um dia, iguais. A actual tendência para o apagamento das desigualdades, a negação dessa evidência, realizada pelas próprias mulheres, todas modernas, todas indiferentes às discriminações de que são alvo, tem contribuído bastante para uma regressão ao nível dos discursos e mentalidades.
Surpreendeu-me que esta diferença salarial, a nível europeu, fosse de quase 16 por cento. É excessivo para a realidade que julgava conhecer. Não se trata de mais uma questão portuguesa isolada no contexto europeu, mas de uma fragilidade, entre tantas outras, nomeadamente racistas e xenófobas das culturas europeias, e isso, claro, preocupa-me. Seria muito mais fácil lutar apenas contra as idiossincracias das culturas latinóides.
quinta-feira, julho 31, 2008
Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros
O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.
Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.
No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.
Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.
Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.
Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.
No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.
Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.
Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?
sexta-feira, julho 04, 2008
Mamonas assassinas
Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.
As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?
(Continua amanhã, ou isso.)
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.
As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?
(Continua amanhã, ou isso.)
sexta-feira, junho 06, 2008
Olhem que não sou muito dada ao línque!
Um texto excelente, de Sofia Loureiro dos Santos, que subscrevo integralmente, desmascarando os mecanismos sociais que hoje se vão afinando para confinar as mulheres, subtilmente, ao milenar papel doméstico e reprodutor, porque parece que sai mais barato tê-las em casa, e a criançada leva mais nalgada castigadora.
terça-feira, abril 22, 2008
As minhas amigas
Tiveram maridos e filhos, e eu invejo-lhes a riqueza e a normalidade que me foram negadas (que me neguei). Têm tudo e ainda se queixam.
Permaneço solteira e sem prisões, e elas invejam-me a autonomia e liberdade que mantive (a que tive de me adaptar). Acham-me cool e dizem que não tenho de que me queixar.
Permaneço solteira e sem prisões, e elas invejam-me a autonomia e liberdade que mantive (a que tive de me adaptar). Acham-me cool e dizem que não tenho de que me queixar.
terça-feira, abril 01, 2008
Quando eu casar
A vida de uma solteirona é esgotante: a depilação, as madeixas no cabelo, a pedicura e manicura, o baton, as blusas que nos caem melhor, porque a gente sabe lá quem encontra, quem passa por nós, e é preciso estar sempre relativamente apresentável. Quando me casar, juro, quando me casar, arranjo um par de filhos mimosos ao meu marido, e uma hipoteca em comum, e a esteticista perde-me o norte; acabaram-se a depilação, as madeixas, os perfumes. Vai ser assim. Eles habituam-se facilmente, e depois até gostam. Tenho cá uma inveja às casadas!
quinta-feira, março 13, 2008
Isabela vai à médica de família
Fui à médica de família porque não ando a sentir o antidepressivo. E disse-lhe, doutora, é como se não andasse a tomar nada. Não me sinto melhor nem pior. Os dias correm bem ou mal, nuns rio, noutros choro, mas não sinto o antidepressivo, veja-me lá a dosagem se faz favor.
E desabafei. Melhor, não me controlei: o que ele me tem feito; as horas a que chega a casa; as manchas nas cuecas; que não o excito; que tem uma miúda. Que tem uma miúda, santo Deus, uma miúda! E quem sou eu na vida dele, afinal? O que vem fazer a minha casa? Contei-lhe, claro; tudo. Desde que a minha prima afastada foi viver para Roma, o meu maior interlocutor é a máquina de lavar roupa. Até isto lhe contei. Caramba, ela é médica; estudou para ouvir e aliviar a dor. Não são apenas os nomes dos ossinhos. As emoções doem como o reumatismo. Sinto-me um trapo usado e deitado fora... esteve longe durante anos e agora não o excito, que sou uma amiga... que respeita muito. Que tem uma miúda! E eu perguntei-lhe, andas metido na cama com miúdas?! Respondeu-me que para ter sexo com quem quisesse não precisava de ir para a cama, bastava-lhe um vão de escada.
E ela, que é médica, que estudou ciência, fisiologia, as emoções... atenção, não sou eu a falar, que me baseio só no que ouço dizer, e penso, e intuo; que acredito no invisível e incognoscível; foi ela, que é médica, disse-me, Isabela, convença-se, os nossos homens não prestam. Foi ela: os nossos homens não prestam. É médica. Estudou ciência. Fisiologia. Hormonas. E reforçou-me a dosagem do antidepressivo.
E ela, que é médica, que estudou ciência, fisiologia, as emoções... atenção, não sou eu a falar, que me baseio só no que ouço dizer, e penso, e intuo; que acredito no invisível e incognoscível; foi ela, que é médica, disse-me, Isabela, convença-se, os nossos homens não prestam. Foi ela: os nossos homens não prestam. É médica. Estudou ciência. Fisiologia. Hormonas. E reforçou-me a dosagem do antidepressivo.
domingo, fevereiro 17, 2008
Infértil
No lugar do quarto onde pensei colocar o berço do meu filho, muito junto a mim, perto da cabeceira, pus as camas das cadelas. Uns açafates de verga forrados a mantas que eu própria crochetei, aproveitando restos de lã de há 20 anos. Umas alcofas, como a minha mãe lhe chama. As camas das minhas cadelas parecem-se com a alcofa na qual passei os meus primeiros meses de vida, mas sem rendinhas. Ouço-as respirar a noite inteira. Não choram e não tem crises de dentes, apenas mijam frequentemente fora do bacio. Ralho-lhes só um bocadinho. E limpo. Fazem-me aqueles olhinhos piedosos. Cedo.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
terça-feira, janeiro 15, 2008
Querida, vou trocar-te por outra
No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
O que eu gosto de bichas
Ponham o braço no ar todos os outros que estiverem habituados a rentabilizar a marcha lenta da Estrada Nacional 10, entre Corroios e o Fogueteiro, às oito da manhã, lavando e colocando as lentes de contacto, depois o creme hidratante, mais a base unificante, o rimel, o baton de cieiro, e por cima o gloss, acabando a pentear-se, e a levantar uns fios de cabelo com gel, sempre ao volante, sempre a circular.
terça-feira, dezembro 18, 2007
Uma botija de água quente para cada mulher
Isabela - (chateada) Faz-me festinhas nos corredores e chama-me o seu amorzinho querido...
Amiga - O que é que queres mais?
I. - Mas ele é casado...
A. - Como é que sabes? Tem aliança?
I. - Não, mas não avança. Achas normal um homem fazer-te tantas festinhas, meter-te a mãozinha na cintura, dizer-te um ror de palavras doces, e não avançar?
A.- (rindo) Pois.
I. - Não avança porque não pode, percebes?! Tem o rabo preso. Tenho a certeza que é casado.
A.- Pois.
I. - Havias de ver o carro dele. É uma daquelas carrinhas monovolume. Só pelo tamanho da carrinha deduzo que tenha uns cinco filhos.
A.- Oh, pá, deixa lá. Pelo menos tens alguém que te faça festinhas.
I. - Deixa lá, não. Já viste o azar que tenho?! Só putos ou casadões.
A.- Eu, que sou casada, não tenho quem me chame o seu amorzinho querido.
I. - Falas de alto, porque quando chegas à cama tens quem te aqueça os pés.
A.- (rindo) Isabela, tu desculpa, mas não é nada que não resolvas com uma botija de água quente, com a vantagem de que não te ressona aos ouvidos.
Amiga - O que é que queres mais?
I. - Mas ele é casado...
A. - Como é que sabes? Tem aliança?
I. - Não, mas não avança. Achas normal um homem fazer-te tantas festinhas, meter-te a mãozinha na cintura, dizer-te um ror de palavras doces, e não avançar?
A.- (rindo) Pois.
I. - Não avança porque não pode, percebes?! Tem o rabo preso. Tenho a certeza que é casado.
A.- Pois.
I. - Havias de ver o carro dele. É uma daquelas carrinhas monovolume. Só pelo tamanho da carrinha deduzo que tenha uns cinco filhos.
A.- Oh, pá, deixa lá. Pelo menos tens alguém que te faça festinhas.
I. - Deixa lá, não. Já viste o azar que tenho?! Só putos ou casadões.
A.- Eu, que sou casada, não tenho quem me chame o seu amorzinho querido.
I. - Falas de alto, porque quando chegas à cama tens quem te aqueça os pés.
A.- (rindo) Isabela, tu desculpa, mas não é nada que não resolvas com uma botija de água quente, com a vantagem de que não te ressona aos ouvidos.
domingo, dezembro 16, 2007
Os homens de que elas gostam
Há dois tipos de homens disponíveis no mercado heterossexual: os bons, com bom ar, lavadinhos, simpáticos, compreensivos, tolerantes, fiéis, que aceitam, sem questões, dividir tarefas domésticas, e tratam bem as companheiras, e os maus, porcos, brutos, egoístas, ciumentos, fodilhões do que quer que mexa, agressivos, maltratando todas, excepto as mães, essas santas (a mãe destes é sempre mais santa que a dos outros, não sei porquê).
As mulheres consideram adoráveis os homens bons: são uns queridos, e portanto dedicam-lhes afecto, embora não tanto como estes desejariam; por outro lado, casam e procriam com os maus, num fenómeno que poderei classificar como "sindroma da salvação do mundo".
Sobre os homens maus já se disse tudo: são maus, uns cabrões diplomados, e elas sabem, mas querem-nos a qualquer preço. Hão-de mudá-los, um dia. Dão-lhes imensa luta, normalmente a vida inteira, pelo que têm muito tempo para desenvolver por eles insanas paixões fatais. Vigiam-lhes as carteiras, os telemóveis, desconfiam de todas as vizinhas solteiras com que partilham o elevador, fazem-lhes esperas às amantes, essas putas que os desencaminham, porque eles, coitados, não são responsáveis; são elas, elas, as outras...
Aos homens maus, as mulheres querem pertencer até ao tutano, enfiarem-se por eles dentro, de todas as maneiras, fundirem-se-lhes nas peles curtidas de filhos-da-puta, cozinharem-lhes arrozinho-doce e canjinha que não merecem, comendo elas o pão que o Inferno amassou, lavarem-lhes as cuecas, anularem-se em desmesura, aturando-lhes as taras e psicoses, e arranjando, deles, um par de crianças malcriadas, destinadas à inevitável divisão judicial do poder paternal.
Enquanto descrevo as outras faço os possíveis por ignorar a quantidade de homens bons que se fascinaram por mim ao longo dos tempos, e que me teriam amado de forma realista e boa, os quais desdenhei só porque, e juro que me custa dizer isto!, eram bons, e sinceros, e decentes.
As mulheres consideram adoráveis os homens bons: são uns queridos, e portanto dedicam-lhes afecto, embora não tanto como estes desejariam; por outro lado, casam e procriam com os maus, num fenómeno que poderei classificar como "sindroma da salvação do mundo".
Sobre os homens maus já se disse tudo: são maus, uns cabrões diplomados, e elas sabem, mas querem-nos a qualquer preço. Hão-de mudá-los, um dia. Dão-lhes imensa luta, normalmente a vida inteira, pelo que têm muito tempo para desenvolver por eles insanas paixões fatais. Vigiam-lhes as carteiras, os telemóveis, desconfiam de todas as vizinhas solteiras com que partilham o elevador, fazem-lhes esperas às amantes, essas putas que os desencaminham, porque eles, coitados, não são responsáveis; são elas, elas, as outras...
Aos homens maus, as mulheres querem pertencer até ao tutano, enfiarem-se por eles dentro, de todas as maneiras, fundirem-se-lhes nas peles curtidas de filhos-da-puta, cozinharem-lhes arrozinho-doce e canjinha que não merecem, comendo elas o pão que o Inferno amassou, lavarem-lhes as cuecas, anularem-se em desmesura, aturando-lhes as taras e psicoses, e arranjando, deles, um par de crianças malcriadas, destinadas à inevitável divisão judicial do poder paternal.
Enquanto descrevo as outras faço os possíveis por ignorar a quantidade de homens bons que se fascinaram por mim ao longo dos tempos, e que me teriam amado de forma realista e boa, os quais desdenhei só porque, e juro que me custa dizer isto!, eram bons, e sinceros, e decentes.
domingo, dezembro 09, 2007
Os que têm vergonha de ser feministas
Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm vindo a substituir os que consistiam no tráfico de droga. A maioria das vítimas são mulheres oriundas dos países da ex-URSS, África e Brasil, usadas como matéria-prima no mercado da prostituição ocidental.
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Lançar a rede
Isabela - Estou.
Alguém do outro lado - ...
Isabela - Sim...
Candidato casado, de certeza - ...olá. Estás boa?
I. - Sim... mas quem fala?
I. - Ah, Vítor Hugo, olá. Mas como tens o meu número de telemóvel? (nunca lho dei, juro.)
C.C.D.C. - Quando queremos muito uma coisa, conseguimo-la...
I. - (risinho amarelo) Pois... (A aliança é o único sinal de casado que este candidato não traz.)
C.C.D.C. - Queridinha, hoje andei à tua procura e nada... esperei até há uma e meia, mas não te vi.
I.- Estou doente. Não fui.
C.C.D.C. - Então, amorzinho?
I. - Gripe. Cheia de febre. Afónica.
C.C.D.C.- Fazes bem. Olha, linda, como já deves ter reparado a minha vida não é aquilo. Tenho uma fábrica de parafusos só minha, e agora estamos a pensar fabricar peças de tamanho grande, pelo que pensei em ti. De todas as pessoas lá da fábrica, és a que me parece ter o perfil mais adequado. (Sou a única cujos olhos ele atravessa com os seus, deve ser isso.) Estás interessada?
I. - Ah, Vítor Hugo, falamos melhor sobre isso amanhã. Pode ser?
C.C.D.C.- Pode, queridinha, pode. Trata de ti, minha linda. Amanhã almoças comigo e quero-te fina.
I. - Sim. Tchau. Até amanhã.
(A minha fábrica emprega quase 200 operários, e eu sou a escolhida para os biscates. Que sorte!
Claro que enquanto escrevo este poste ele esfrega as mãos, antecipando o pitéu reboludo, carente, e frágil que fará o especial favor de consolar às meias-horas, no sossego da fábrica particular.
Mas o pitéu é velho e, infelizmente, sabido!)
C.C.D.C. - Quando queremos muito uma coisa, conseguimo-la...
I. - (risinho amarelo) Pois... (A aliança é o único sinal de casado que este candidato não traz.)
C.C.D.C. - Queridinha, hoje andei à tua procura e nada... esperei até há uma e meia, mas não te vi.
I.- Estou doente. Não fui.
C.C.D.C. - Então, amorzinho?
I. - Gripe. Cheia de febre. Afónica.
C.C.D.C.- Fazes bem. Olha, linda, como já deves ter reparado a minha vida não é aquilo. Tenho uma fábrica de parafusos só minha, e agora estamos a pensar fabricar peças de tamanho grande, pelo que pensei em ti. De todas as pessoas lá da fábrica, és a que me parece ter o perfil mais adequado. (Sou a única cujos olhos ele atravessa com os seus, deve ser isso.) Estás interessada?
I. - Ah, Vítor Hugo, falamos melhor sobre isso amanhã. Pode ser?
C.C.D.C.- Pode, queridinha, pode. Trata de ti, minha linda. Amanhã almoças comigo e quero-te fina.
I. - Sim. Tchau. Até amanhã.
(A minha fábrica emprega quase 200 operários, e eu sou a escolhida para os biscates. Que sorte!
Claro que enquanto escrevo este poste ele esfrega as mãos, antecipando o pitéu reboludo, carente, e frágil que fará o especial favor de consolar às meias-horas, no sossego da fábrica particular.
Mas o pitéu é velho e, infelizmente, sabido!)
domingo, novembro 25, 2007
Loura nº 7
Sempre fui uma gabada, lustrosa e naturalíssima loura-acinzentada. Antigamente, nas cabeleireiras, as empregadas chamavam-se umas às outras, "Oh Carla Sofia, anda cá ver o tom desta senhora.... ah, é tal e qual o 7B da Vitacor, já viste?!, mas mais natural... É natural, não é?! Ah! Que sorte! Cátia Vanessa, olha-me este cabelo! Querias, não querias?!" Nos últimos 44 anos tem sido assim; que posso fazer contra a perfeição genética resultante do mais rafeiro cruzamento de genes da Estremadura?!
Esporadicamente, nos últimos anos, senti-me uma loura nº 8, pelo que experimentei, e gostei. Em alturas críticas fui uma nº 9. Abusei tanto! É óbvio que nunca se é demasiado loura nem demasiado morena ou ruiva, desde que nos sintamos equilibradamente etéreas. Mas, ultimamente ando com os pés muito enterrados na terra, pelo que ontem, sentindo já saudades de mim, pedi à cabeleira que me pintasse o cabelo de louro-acinzentado. "A sua cor natural?", perguntou a senhora. "Sim, a minha exacta cor natural".
Esporadicamente, nos últimos anos, senti-me uma loura nº 8, pelo que experimentei, e gostei. Em alturas críticas fui uma nº 9. Abusei tanto! É óbvio que nunca se é demasiado loura nem demasiado morena ou ruiva, desde que nos sintamos equilibradamente etéreas. Mas, ultimamente ando com os pés muito enterrados na terra, pelo que ontem, sentindo já saudades de mim, pedi à cabeleira que me pintasse o cabelo de louro-acinzentado. "A sua cor natural?", perguntou a senhora. "Sim, a minha exacta cor natural".
quinta-feira, novembro 08, 2007
Bué d'amigas
"Ninguém me deixa tão húmida". Eis o que uma morena de cabelos compridos diz a outra de cabelos curtos, mais velha. A cena está quente. "Vamos para casa?", pergunta uma delas.
Enquadramento seguinte: uma casa com grandes janelas sem cortinas, toda virada para o mar; deve ser em Santa Mónica, Califórnia, ou coisa assim. Ambas vestem confortável lingerie preta, pelo que não percebo por que sentem tanta dificuldade em desapertá-la. Para um primeiro encontro não está nada mal.
Não sei se as lésbicas vêem muito a L Word. Os homens heterossexuais não perdem um episódio: entusiasma-os imenso o enredo cheio de mulheres de todos os estilos, despindo-se umas às outras e engalfinhando-se sem pudores. E os diálogos. A atenção que eles fixam nos diálogos! Até se pelam!
A mim, L Word [péssimo título] recorda-me umas sitcoms que passavam na tv no início dos anos 90, com jovens amigos que habitavam os mesmos bairros californianos ou nova-iorquinos, partilhando casas, cafés, camas, vivendo triângulos amorosos, às vezes hexágonos, criando e solucionando conflitos e problemas existenciais mais ou menos complexos; uns drogavam-se, outros eram betos; uns queriam mudar de vida, outros não; eram parvos, ou muito cool; adoeciam, curavam-se; engravidavam, abortavam, raramente tinham filhos... eram bué de modernos, e nós queríamos ser como eles. Alguém se lembra disto?
A L Word não é muito mais que uma série de amigos que são amigas e arfam muito. Constato, neste nomento, na RTP2:
"É verdade que nunca fizeste isto?"
(gemidos)
"Quero que te venhas", diz-lhe a de cabelo curto, como se estivesse ao quilómetro 35 da maratona.
"Meu Deus, meu Deus", responde a de cabelo comprido já a pisar a meta.
Enquadramento seguinte: uma casa com grandes janelas sem cortinas, toda virada para o mar; deve ser em Santa Mónica, Califórnia, ou coisa assim. Ambas vestem confortável lingerie preta, pelo que não percebo por que sentem tanta dificuldade em desapertá-la. Para um primeiro encontro não está nada mal.
Não sei se as lésbicas vêem muito a L Word. Os homens heterossexuais não perdem um episódio: entusiasma-os imenso o enredo cheio de mulheres de todos os estilos, despindo-se umas às outras e engalfinhando-se sem pudores. E os diálogos. A atenção que eles fixam nos diálogos! Até se pelam!
A mim, L Word [péssimo título] recorda-me umas sitcoms que passavam na tv no início dos anos 90, com jovens amigos que habitavam os mesmos bairros californianos ou nova-iorquinos, partilhando casas, cafés, camas, vivendo triângulos amorosos, às vezes hexágonos, criando e solucionando conflitos e problemas existenciais mais ou menos complexos; uns drogavam-se, outros eram betos; uns queriam mudar de vida, outros não; eram parvos, ou muito cool; adoeciam, curavam-se; engravidavam, abortavam, raramente tinham filhos... eram bué de modernos, e nós queríamos ser como eles. Alguém se lembra disto?
A L Word não é muito mais que uma série de amigos que são amigas e arfam muito. Constato, neste nomento, na RTP2:
"É verdade que nunca fizeste isto?"
(gemidos)
"Quero que te venhas", diz-lhe a de cabelo curto, como se estivesse ao quilómetro 35 da maratona.
"Meu Deus, meu Deus", responde a de cabelo comprido já a pisar a meta.
segunda-feira, outubro 22, 2007
Diz-me o que entendes por liberdade sexual
A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...