O post de hoje, no Bandeira ao Vento, avivou-me a memória.
Quando era miúda, 7/12 anos, havia lá em casa uns livros com piadas ilustradas. O meu pai arranjava-os não sei onde, e eu, que não tinha autorização para sair, apreendia o mundo através dessas e doutras leituras. Era coisa inocente, que pouco amolgava a moral do regime: maridos cornudos, mulheres infiéis com amantes aparvoados ou vice-versa. As mulheres traídas eram gorduchas, com casacão largo e chapéu sobre a cara de cavalo; as amantes, para além das prateleiras bem largas e empoleiradas - não sei como conseguiam tal milagre gravitacional num tempo tão destituído de silicone! - pareciam estradas de serra, todas desenhadas em curva e contracurva. Os homens eram homens, portanto, feios, quer fossem maridos quer amantes.
Através desses livrinhos, com piadas inocentes, ligeiramente picantes, em alguns casos, assimilava não só o mundo da realidade matrimonial (casamentos monótonos e amantes), mas também, minudências linguísticas. Não creio que a escola me tenha dotado de capacidades verbais relevantes. O uso escrito que faço da língua materna, a única que, na verdade, amo, depende quase inteiramente do que aprendi, lendo. Ou seja, do que aprendi sem didáctica, sem pedagogia. Por tentativa e erro. Por aproximação, dedução, relação lógica. Processo muito curioso. Lento, eficaz.
Os referidos livrinhos de humor fascista, marcelista, se quiserem, contribuíram significativamente para o meu enriquecimento lexical, semântico, mesmo quando me equivocaram.
Quando era miúda, 7/12 anos, havia lá em casa uns livros com piadas ilustradas. O meu pai arranjava-os não sei onde, e eu, que não tinha autorização para sair, apreendia o mundo através dessas e doutras leituras. Era coisa inocente, que pouco amolgava a moral do regime: maridos cornudos, mulheres infiéis com amantes aparvoados ou vice-versa. As mulheres traídas eram gorduchas, com casacão largo e chapéu sobre a cara de cavalo; as amantes, para além das prateleiras bem largas e empoleiradas - não sei como conseguiam tal milagre gravitacional num tempo tão destituído de silicone! - pareciam estradas de serra, todas desenhadas em curva e contracurva. Os homens eram homens, portanto, feios, quer fossem maridos quer amantes.
Através desses livrinhos, com piadas inocentes, ligeiramente picantes, em alguns casos, assimilava não só o mundo da realidade matrimonial (casamentos monótonos e amantes), mas também, minudências linguísticas. Não creio que a escola me tenha dotado de capacidades verbais relevantes. O uso escrito que faço da língua materna, a única que, na verdade, amo, depende quase inteiramente do que aprendi, lendo. Ou seja, do que aprendi sem didáctica, sem pedagogia. Por tentativa e erro. Por aproximação, dedução, relação lógica. Processo muito curioso. Lento, eficaz.
Os referidos livrinhos de humor fascista, marcelista, se quiserem, contribuíram significativamente para o meu enriquecimento lexical, semântico, mesmo quando me equivocaram.
Foi através deles que, pela primeira vez, me vi confrontada com um estranho vocábulo: míope! A piada recorrente era a seguinte: um quadro legendado: o marido chega a casa, abre a porta do quarto, depara-se com a mulher e respectivo amante no rebolanço, contudo permanece impávido e sereno, de mão na maçaneta e olhos mortos, pequeninos. Em legenda, a mulher diz ao amante algo desta índole, “não te preocupes - ele sempre foi míope”!
Durante muito tempo, imaginei que míope significava estúpido, tolo, ignorante, maluco. Era a minha leitura. O contexto permitia-o.
Durante muito tempo, imaginei que míope significava estúpido, tolo, ignorante, maluco. Era a minha leitura. O contexto permitia-o.
Ao fazer 10 anos, alguém insistiu que eu não via bem, que o meu pai tinha de levar-me ao oftalmologista. Lembro-me bem do consultório, na Baixa; não a de Lisboa, outra - moderno, todo cheio de maquinetas, na penumbra de umas cortinas pesadas, excepcionalmente fresco para a canícula exterior.
O oftalmologista famoso observou-me em silêncio e, no final, anunciou ao meu pai, levantando a cabeça do tampo da secretária, gravemente, “ela é muito míope, e é de nascença!”.
Fiquei colada à cadeira. O meu mundo ruiu ali. Poucas vezes na vida um diagnóstico me arrasou tanto. Senti tanta vergonha: era míope! Como iria ser a minha vida a partir dali? Poderia continuar a ir à escola? E a vergonha que era para o meu pai! Uma filha míope, que desgosto! Logo eu! Era preciso ter azar.
Nesse dia, para meu sossego, clarificaram-me a semântica do vocábulo. Podia ficar descansada: não era maluca.
Bem, pelo menos, nessa altura, ainda não era.