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terça-feira, maio 01, 2007

Jogo de damas II

Marco Paulo - Quarenta anos de amor eterno


O nosso amor era grande. Havia esperança, depois filhos, uma casa, votos sagrados, tudo como Deus quer. Quando estavas comigo, eu era toda a tua menina; quando estavas com ela, ela era tanto a tua mulher.

domingo, abril 29, 2007

Jogo das damas


O teu amor era grande. Tudo o que era meu te prendia a atenção. Tudo o que me interessava te interessava, sobretudo as minhas amigas, as do coração.

sexta-feira, abril 20, 2007

Eles comem tudo e não deixam nada

Coitado do senhor primeiro-ministro! Os exames ou trabalhos de licenciatura foram-lhe todos destruídos pela universidade sem quaisquer escrúpulos. Como se não bastasse, os serviços parlamentares deram sumiço aos documentos originais constantes do seu registo biográfico. Desapareceu tudo. Kaput! Que azar! Que perseguição maldita! Que coincidência fatal!
Espanta-me a falta de respeito com que neste país se tratam documentos relativos a um Secretário de Estado, a um deputado. Aposto que os meus registos profissinais, exames e outros, porcarias que não interessam ao Menino Jesus, estarão a criar bolor em arquivo morto, algures. Realmente, não há como ser-se um cidadão vulgar, e cumpridor, sem papel timbrado, para que a nossa inútil memória escrita perdure através dos séculos. Já os dados referentes a indivíduos com altos cargos em responsabilidade e honra, os quais interessaria conservar para efeitos biográficos, e elaboração da futura história económica e política, desaparecem sem rasto, sistematicamente. Corre-se o risco de nunca se vir a saber a verdade sobre o esforçado percurso de tão insignes personalidades.

domingo, abril 15, 2007

Dúvidas que são já certezas


Ninguém, nem mesmo a oposição, está interessado na queda do governo. É essa singela razão que garante o primeiro-ministro, saltando sobre a sua credibilidade justamente afectada. Os portugueses podem manifestar tendência para estimar e respeitar ditadorzinhos de loiça, mas dificilmente engolem contradições.
O exame do primeiro-ministro na RTP, quarta-feira passada, foi relativamente fácil. Os examinadores mostraram-se mais nervosos que o examinando: claramente intimidados. Suspirei pela Margarida Marante dos velhos tempos. Margarida Marante descarnaria qualquer rei que já andasse nu!
O primeiro-ministro, compreensivelmente, levava a lição decorada, bem treinada, sobretudo a matéria relativa aos advérbios de negação. Mas argumentar, negando, bastas vezes em exercício de perigosa contradição, não esclarece. Foi exactamente o que aconteceu. Se havia dúvidas, tornaram-se certezas. Lamentavelmente, para o primeiro-ministro, não existe agora justificação para uma segunda entrevista.
Pelo que posso observar, o governo perdeu os "professores", e, cumulativamente, a opinião pública.

domingo, abril 08, 2007

Finalmente, toda a verdade sobre a licenciatura de Aristóteles

Certidão de licenciatura de Aristóteles, onde pode ler-se, e passo a traduzir, "e atesto que Sua Excelência obteve 17 a Filosofia Esforçada, 18 a Análise Socrática, etc., etc.", datado de domingo, tantos do tantos do ano tal.


Aristóteles começou a filosofar muito cedo. Sonhava acabar o curso de Filosofia iniciado na Academia de Atenas, mas não tinha tempo. Vivia enfronhado em discussões com outros filósofos, comissões de Filosofia, eleições para cargos filosóficos, Deus saberia!
Aristóteles tinha desgosto. Embora ganhasse para despesas e desperdícios, não era doutor, e quando alguém o chamava por senhor Aristóteles, assim só, não lhe soava bem.
Numa helénica tarde de domingo, um amigo relativamente chegado lembrou-lhe a recente fundação de uma nova escola de Filosofia, ansiosa por reconhecimento. "O director é meu amigo, pá, e foi colega do meu pai, vais lá falar com ele: o gajo resolve-te isso."

Na segunda, logo de manhã, Aristóteles bateu à porta do director da Nova Escola:
- Senhor Professor, venho aqui por sugestão de...
- Senhor Aristóteles, não diga nada; ora sente-se, meu amigo, já me telefonaram, já me puseram ao corrente da sua situação. Que aborrecimento, realmente! Mas isto são só pró-formas, não se amofine. Com os miúdos é outra coisa: não têm experiência! Agora o senhor, uma pessoa com competências ganhas na labuta filosófica... não se justifica! Não imagina a estima que lhe tenho! Devo dizer-lhe, senhor Aristóteles, que para a nossa Escola é uma honra tê-lo cá. Pois, muito bem, vejamos, mostre-me a folhinha que aí traz... isto são pró-formas, já se sabe... Ah, mas já aqui tem um ror de cadeiras completas! E notas baixas, coitado! O que eles pedem na Academia! Que exagero! Para formar um Filósofo! Pois, muito bem, vejamos, isto resolve-se com umas dez... ora deixe cá ver... sete... bem, mais cinco cadeiras, seja. Uma delas há-de ser Chinês Técnico, que é do meu pelouro. O Chinês faz falta por causa da bibliografia. O Senhor Aristóteles fala chinês? Ah, óptimo, claro que isto é só um pró-forma, mas, se já fala, ajuda muito. As restantes, assim a olho, deixe cá ver o que hei-de dar-lhe, salvo seja: Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática... já estudou Sócrates a fundo, senhor Aristóteles? Pode ser complexo, mas não podemos iludir as basezinhas! E o projecto de dissertação, já se sabe! Que lhe parece?! Mas combina depois com o professor que lhe atribuirei. Na verdade, a Nova Escola é recente, e ainda não temos estrutura montada para o seu nível; mas também não é preciso, tudo se arranja, e para o senhor Aristóteles faz-se uma atençãozinha.


Aristóteles manuscrevendo com letra muito grande, e muito espaço entre linhas, uma página inteira de Chinês Técnico, a qual mandaria entregar ao senhor professor para obter aprovação na respectiva cadeira


Aristóteles saiu confiante. No dia seguinte,
haveria de falar com o professor - caso este não se encontrasse a acumular funções noutra escola qualquer - e logo se veria.
Na terça, encontrando o professor designado, Aristóteles pretendeu esclarecer os seus propósitos:
- Caro Professor, vim ter consigo a mando de...
- Oh, Senhor Aristóteles, pois já me informaram... pretende, então, concluir o seu curso na Nova Escola?! Fez muito bem em escolher-nos; não estamos aqui para cortar as pernas a ninguém, como na Academia. Diga-me o que manda o senhor director? Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática, projecto...
pró-formas! Senhor Aristóteles, o senhor, um Alto Secretário de uma conceituada Associação de Filosofia, acumulando já inúmeros cargos da mesma natureza, encontra-se versado nestes assuntos melhor que qualquer finalista! Coisas primárias para quem se treinou na filosofia da vida, como vossa excelência. O senhor está formadíssimo! Falta-lhe o canudinho, mas não será por entrave meu! A estima que lhe tenho! E não só, veja bem: tenho uma nora recém-formada em Direito que igual estima manifesta por vossa excelência. Ainda no outro dia a rapariga me disse, "o meu sonho era trabalhar na associação do senhor Aristóteles, auxiliando-o a concretizar os seus ideais filosóficos!" Ah, senhor Aristóteles, não quero dar-lhe trabalhos! Veja lá! Sendo assim... muito obrigado! Lá lhe direi! Resolvamos a questão das suas cadeiras: não compliquemos: o senhor Aristóteles terá já lido qualquer coisa sobre Filosofias Especiais? O índice?! ...chega, chega, pois muito bem! E Esforçadas? Já ouviu dizer que em alguns casos é preciso recorrer às Esforçadas?! Ah, já as aplica! Que limpeza, realmente! E, já agora, no que respeita a Análise Socrática... não ignorará que a filosofia de Sócrates praticamente destruiu o ... isso! Mas o que faço eu aqui?! O senhor é já doutor! Para elaborar dissertação é que vai ser pior, não é verdade?! Pois, muito trabalho na associação... compreendo... Façamos assim, senhor Aristóteles, não vale a pena estarmos com burocracias que, no seu caso, só atrapalham. Escreva qualquer coisa em Chinês Técnico, um pró-forma para o senhor director, que logo falaremos sobre a sua situação. Este caso é especial, bem se vê.


Aristóteles trocando impressões com o professor que lhe deu, salvo seja, quatro cadeiras no mesmo ano


Foi assim que, de pró-forma em pró-forma, após duas deslocações à Nova Escola, sete faxes, catorze chamadas telefónicas e três envios do estafeta da associação, Aristóteles, grande filósofo grego, cuja supremacia ideológica se estende aos nossos dias, logrou obter o almejado diploma de Filosofia, vitória que, anos antes, tanto prometera à mamã.

terça-feira, março 06, 2007

A verdade não é normal


Algumas mulheres têm bom sexo, outras arranjam mulher-a-dias. Raramente uma mulher consegue acumular as duas vantagens. A mim calhou-me a mulher-a-dias. Não é que eu não possa com o trabalho da casa, mas regras são regras, portanto venha de lá alguém que me passe a ferro a roupa difícil, os lençóis tipo saco, e me limpe a fundo a cozinha e a casa-de-banho.

Antigamente, eu era ingénua e dizia a verdade. Nos tempos em que eu era ingénua, as pessoas respondiam-me, “hum, hum”, e calavam-se. E desprezavam-me em silêncio, ou não. As pessoas não querem ouvir a verdade. É simples demais, não se encaixa nos moldes. A verdade não é normal. As minhas mulheres-a-dias, guardiãs da normalidade, sempre me fizeram muitas perguntas, porque não compreendiam a minha vida, não lhes entrava na cabeça que uma mulher como eu vivesse sozinha numa casa com dois quartos, uma sala enorme, sem marido, sem filhos. Que defeito terei eu?, perguntam-se. Por que não vou viver com a minha mãe, que sempre saía mais barato?, perguntam-se. Depois, o passatempo das minhas mulheres-a-dias é inventarem-me uma vida. Se tenho pontas de cigarro no cinzeiro, tive companhia, e foi homem. Se peço que me façam de lavado a cama do quarto onde não durmo, vou ter companhia, e quem será senão conquista recente. Se me encontram na caixa do supermercado, comprando uma garrafa de vinho, entre bróculos, iogurtes queijo e pêras, vou ter festa, existirá um eleito, e por aí fora.

Ontem, veio cá a casa, pela primeira vez, a minha nova mulher-a-dias, e eu resolvi mudar de estratégia. Sinto-me cansada de ser olhada como uma freak. Uma desajustada. Ou uma coitadinha, uma que não se arrumou, que não tem código de barras em sítio algum da pele.

As mulheres-a-dias fazem muitas perguntas. A partir do momento em que nos entram em casa acham que lhe pertencem tanto como o aspirador, que possuem direitos especiais sobre a intimidade de cada uma das paredes. Fazem comentários sobre a sujidade, o tipo de sujidade, e o nosso desmazelo. A minha mãe tem um método eficaz para evitar a censura das mulheres-a-dias: limpa a casa toda antes delas chegarem, para que não vão depois criticá-la por tê-la suja. Eu não vou tão longe. Se estou a pagar para me limparem o cotão debaixo da cama, então é porque tenho direito ao cotão debaixo da cama.

A recentíssima dona Luísa não escapa à tradição das mulheres-a-dias. Assim que enfiou o avental sentiu-se investida do poder legal de me interrogar. E começou o questionário que eu já esperava: “Vive aqui sozinha?”
"Não, não senhora, tenho marido, mas trabalha fora e só vem de mês a mês". Isto sossegou-a durante alguns minutos. Os maridos trabalharem fora é habitual. As mulheres esperarem-nos, também. Se há escassez de trabalho, é natural os maridos procurarem-no onde existe. A dona Luísa sempre teve o dela emigrado, criou a filha sozinha, sabe bem o que isso é.

Passado um bocado continuou, “Não tem filhos ou já saíram de casa?” Esclareci que ainda não tinha. “Ah, mas ainda quer ter?! Que idade é que tem?! Foi quando eu achei por bem rejuvenescer-me: 38!
“Ah, pois, ainda está muito a tempo! Agora têm-nos cada vez mais tarde. Depois dos 40 é que já é pior! Eu tenho 46, e já não posso – disse-me - e também já não tenho marido!”
“Então, mas onde é que o seu marido trabalha?!”
“Em Espanha!”, respondi-lhe.
"Em Espanha é longe, assim nunca mais consegue ter filhos! Você não vai lá?!" Disse que ia. “E quando vai fica onde?” Ela é esperta, e eu sou nova na profissão, por isso respondi, inadvertidamente, "na casa dele". “Ah, ele tem lá casa?! Então não são casados, pois não?!” Lembrei-me que não tinha aliança. Podia mentir, dizer que a aliança me provocava alergias, que tinha deixado de me servir, mas seria pouco convincente; eu queria uma vida plausível, vulgar. Ela pensaria que eu estava a mentir ou que tirava a aliança na ausência do macho, e era uma adúltera, e eu queria muito passar neste exame de mulher mais normal do universo, afastada do companheiro amantíssimo, mas aguardando-o fielmente; ser respeitável. Nunca fui uma mulher com direito a ser respeitada, como as outras, as casadas, e até as divorciadas, por isso é natural que alimente uma certa curiosidade. Nas circunstâncias em que me tinha colocado, seria preferível confessar que afinal não era bem casada, realmente!, que vivia maritalmente, pelo que lhe respondi que não, que efectivamente ainda não éramos casados. “Eu também não casei logo”, afirmou a dona Luísa, sossegando.

Respondi a mais umas curiosidades que manifestou, e mesmo não lhe perguntando nada da sua vida, fui ouvindo tudo o que me contava. Sinceramente, o seu percurso é demasiado vulgar para merecer um poste. Espero que o meu lhe tenha parecido igual. Acho que passei no crivo da normalidade. Acho que passei mais ou menos. Elas nunca me respeitarão verdadeiramente, porque eu não visto os fatos e as blusas das mulheres honestas, não me pareço com o que é suposto parecerem as mulheres da minha suposta condição, e não tenho naperons, e não falo de receitas e de novelas nem desse grande tema de preferência internacional, que é a vida dos outros. Sobretudo, porque não sou capaz de lhes falar arrogantemente, de cima para baixo, como até gostam. De maneira que, por muito que me esforce, nunca sinto uma aprovação incondicional.
Mas, ontem, admito, não fui mal. Ontem, iniciei-me na mentira, e gostei. Soube-me tão bem mentir! Enquanto mentia, sentia que me vingava de qualquer coisa que nunca terei sem alinhar no jogo de parecer ser, a partir do qual a vida normal se constrói. Que através da mentira era eu quem controlava, só eu, finalmente, vedando-lhes a possibilidade de me conhecerem, de me julgarem, de me olharem de lado, abanando as cabeças, julgando-me na exacta medida do preconceito sobre o qual assentam perfeitíssimas vidas normais. Senti que o meu jogo era melhor. O meu era jogo puro, não se confundia com o jogo real, inassumido, das suas vidas; o meu, apenas as imitava. Senti a adrenalina dos mentirosos, dos bluffers. Eu que fui ensinada a não mentir. Eu que sempre pensei que a mentira fosse má. Ontem, fiz o que estava certo. Menti. E ganhei.

domingo, março 04, 2007

Os humanos não-humanos


As inscrições impressas nos pacotes de açúcar que nos colocam nos pires de café são cultura de massas, e a mensagem costuma ser fácil, permitindo identificação e reconhecimento imediatos. É a regra. Alguns trazem anedotas bacocas sobre maridos, mulheres e pares de cornos a rasar o chão, outros, perguntas de história do tempo em que eu andava na primária, coisas do género, "em que ano Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil"? Infelizmente, os pacotes de açúcar não ensinam grande coisa, porque seria um excelente meio para divulgação de mensagens construtivas.
Ontem, porém, colocaram-me, no pires, um pacotinho de açúcar, embalado pelos cafés Chaves de Ouro, contendo o texto do artigo 16º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Uma mensagem realmente interessante. E li, "Todos têm o direito de casar e de constituir família. No casamento, ambos os cônjuges têm direitos iguais."
Os pacotinhos de café são cultura de massas, repito, portanto, espera-se que o senhor Zé e a dona Eugénia leiam a mensagem e pensem, "pois, sim senhor, tá certo, casamento, família, iguais: Genita, qué que tu vais fazer pó jantar?!"; isto poderá ser assim tal e qual, mesmo que o senhor Zé assente a mão na dona Eugénia apenas porque sim, e ela consinta, porque até é mulher e, pronto, é fraca, ou seja, beta, porque parece que agora está na moda classificar os homens e mulheres como alfas e betas, tal como cães e lobos, sendo que há, portanto, fêmeas alfa, nas quais eu me incluo sem privilégio, como me escrevia um leitor, no outro dia, e as beta, lote a que pertencerá a dona Eugénia. E, de repente, ocorre-me que há fêmeas exactamente como eu, que foram à escola, que leram livros, e que continuam a levar porrada e a sujeitar-se a situações inenarráveis. E, também, que o senhor Zé a a dona Eugénia, em muitos, muitos casos perpetuaram-se no Tiago Bruno e na Cátia Vanessa, que eu bem os vejo.
Voltando ao acúcar, e juro não saber de onde vem tanto texto à volta de um pacote de seis por cinco, com apenas seis a oito gramas de conteúdo, o artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que nele inscreveram não se aplica ao nosso país, e deveria, portanto, ser feita uma ressalva - em muito países, excepto em Portugal, etc. Porque em Portugal, nem todos têm o direito ao casamento: gays e lésbicas estão impedidos de o fazer. Porque em Portugal, nem todos têm o direito de constituir família: gays, lésbicas, mulheres e homens celibatários não têm acesso à procriação medicamente assistida. No caso dos gays e lésbicas, o acesso continua vedado à adopção. Nos casos que conheço de mulheres e homens solteiros candidatos à adopção, aceitaram ficar com crianças consideradas menos adoptáveis, ou seja, os restos, os rejeitados pelos casais, os meninos e meninas com deficiências psicomotoras.
Portanto, algo entra aqui em contradição: ou em Portugal não se aplicam as normas da Declaração Universal dos Direitos Humanos (e não!), porque estamos acima disso, porque somos melhores, porque temos as nossas tradições, e, nelas, gays, lésbicas e celibatários(as) não são humanos, ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos está errada do primeiro ao último parágrafo, e, portanto, gays, lésbicas e celibários não são humanos.

sábado, março 03, 2007

Ao amor

Taj Mahal

Em tempos acreditei no amor e na bondade, julgando que, algures no tempo, esses sentimentos com que pude identificar-me, através da arte, nomeadamente da literatura e do cinema, existiriam para mim, como, supostamente, para os outros. Mas eu mudei. Os anos passaram e precisei de mudar, lenta, reticentemente. Adaptei-me, para não morrer. Hoje, não me causa admiração que as pessoas se odeiem, se traiam, se maltratem, se agridam. Acostumei-me a essa ordem tão natural de coisas. O que me espanta, nos dias de hoje, é que alguém ainda se ame, que se manifeste amor, ou as suas réstias, por actos ou palavras, apesar de tudo. Espantam-me os beijos, os abraços que ainda se oferecem; as saudades que parecem sinceras. As declarações de amor deixam-me estupefacta. No cinema dão-me vontade de rir. Não tenho paciência para as mentiras da ficção e menos, ainda, para as da realidade. Eu não acredito no amor. Há muito tempo que não acredito no amor. E se acreditei, por esses momentos estive enganada.

domingo, novembro 12, 2006

Gramática tradicional

Não sabiam o teu nome. Para te foderem não era preciso. Chegava-lhes o conhecimento de alguns verbos de movimento na sua forma reflexa.
Decidiste inventar um, caso perguntassem, utilitariamente. Dava jeito um conjunto de sílabas, ao menos uma inicial pela qual pudesses ser chamada, ou para gravarem na memória dos telefones; tudo sem correrem o risco de te habituarem mal (à doçura de um nome).
Tu não tinhas nome. Eras uma mulher fodível, e isso, para o mundo... chega.


segunda-feira, maio 22, 2006

Excelência da mentira

A verdade perdeu audiência. Não acompanhou os tempos, tal como o teatro e o circo. A verdade é chata, faz-nos bocejar. Os textos são incompreensíveis e as encenações agonizam. Sobrevive alimentada por subsídios estatais, e o Estado tende a morrer. Os agentes funerários têm os instrumentos já preparados para o embalsamamento. Por motivos históricos convém que exista pelo menos um exemplar estatal num museu qualquer, devidamente envidraçado, para que um dia, os nossos filhos possam, ao menos, observar externamente esse organismo tão estranho, e encolher-se todos, com nojo ou medo ao bicho.
Adaptemo-nos, pois, aos que apresentam maior possibilidade de sucesso, aos que assistirão de borla ao apocalipse, instalados na penthouse do melhor hotel de luxo.
Peço que me mintam, sobretudo no amor, usando palavras que ainda não conheça, ou as velhas, mas em novas combinações sintácticas e semânticas. Peço que usem a linguagem criativamente, alterando os contextos paralinguísticos, se necessário. Mintam artisticamente, pensando na excelência da mentira como fonte de lucro. Quero poder dizer de uma mentira, “aquilo é um Turner”. “Estou a ver ali um Picasso”.
Desejo que os artistas-mentirosos sejam provocadores, incómodos, que inovem por áreas nunca antes pensadas. A mentira tornou-se um objecto plástico, falta apenas a intenção criativa, falta o olhar parental, amoroso do artista sobre a sua criação.



Turner, Shade and Darkness - Evening of the Deluge, 1843


Já não me engano. Sei encarar uma mentira e pensar “isto é arte”, como no cinema penso, “isto não está a acontecer, é uma simulação, é arte”. Quero poder dizer a alguém, “por favor, conta-me só a mentira, só a mentira, mesmo que te seja fácil demais, porque estou cansada dos jogos da verdade!”
Só quero a mentira, até porque se encontrar a verdade receio não poder reconhecê-la; passou muito tempo! Pensaria, “este rapaz mente tão bem que quase parece verdade”. Escavaria pelos seus olhos dentro, com os meus, e se vislumbrasse um só filão de verdade havia de me maravilhar com a perfeição ilusionista do mentiroso. Ali estava um que podia transformar a mentira em verdade a um nível tão profundo!” Seria impossível não me apaixonar por um ser capaz de transformar a mentira no maior e melhor espectáculo do mundo, suplantando a grandiosidade escatológica do saudoso circo romano. A verdade seria, então, o produto imaterial, original, inimitável alcançado pelo génio da mentira.

domingo, maio 07, 2006

Verdade

Foto de Gregory Colbert


Excluindo o sol, a nudez e o parto, o silêncio, o cheiro das árvores, dos arbustos de jasmim e de arruda, e o das trepadeiras de rosas e de estrume fresco, quase tudo o que vi, ouvi e percebi foi mentira.

quinta-feira, março 09, 2006

Mensagem numa garrafa, 11


As pedrinhas calcinadas do deserto, onde juraste que faríamos amor e filhos tão doces, e que hoje vendes igual à freguesa que se segue; e mais as conchas grandes recolhidas na praia dos cães, onde fizemos o que não esperou pelo deserto, guardo-as muito, e com elas hei-de encher a boca com que te mentes, e mentes, como se apenas a mentira pudesse levar-te o ar aos pulmões.

sábado, fevereiro 04, 2006

O real e a palavra

A palavra fabrica a realidade. O real existe no silêncio, mas é a palavra que o exprime e torna perceptível. Uma existência privada do usufruto verbal, enquanto emissora ou receptora, não possui acesso a um mundo inteligível. Não o compreende, não pode recebê-lo, não pode devolver o pensamento criando novas realidades.

A palavra é a coisa, mesmo na ausência do objecto. A palavra é a terra. Frutifica, constrói. A palavra é o fogo. Trespassa, esmaga, destrói. Não precisamos de bombas para matar, basta-nos a palavra. Digo “bomba”, e morrem setenta pessoas. A última arma inventada é de todas mais simples, e os custos de produção são nulos: a linguagem verbal.

A este propósito, uma história que contei, há dias, numa caixa de comentários de outro blog: tive, em tempos, na mão esquerda, uma cicatriz que a atravessava na diagonal. Um rasgo escuro sobre a pele. Um salpico de óleo a ferver, enquanto fritava rissóis. Perguntavam-me, com frequência, o que tinha sido. Um dia, farta da enfadonha história real, “estava a fritar rissóis...” resolvi brincar com o assunto, e inventei um contexto que me pareceu inverosímil. Gosto de gente feliz ao meu redor.
“Quando era criança, acompanhando o meu pai numa caçada aos cudos, em Manjacaze, fomos subitamente atacados por um tigre esfomeado, que vigiava a mesma manada. Fui a presa seleccionada, por ser a mais frágil, mas a fera, antes de cair abatida por um tiro de espingarda, alcançou-me, ainda, derrubando-me com uma patada que me rasgou a mão. Esta é a marca!”
Disse isto com ar normal, e sem drama, não me ri. Um humorista não se ri das piadas que conta, ou a anedota não resulta. Quando acabei a história, e pude apreciar o silêncio dos ouvintes, não tive coragem de me desmentir. Não por mim, mas porque seria decepcionante. Admiravam-me.
A partir desse dia tornei-me uma pessoa respeitada. A cicatriz feita pelo óleo quente dos rissóis tornou-me alguém. Eu tinha enfrentado a morte e sobrevivido.
O meu pai foi realmente uma vez, que me lembre, à caça de cudos, perto do Xai-Xai. Não chegou a disparar a arma. Mulheres e crianças ficaram nos carros. Os homens regressaram de mãos vazias. Nunca vi um tigre na vida, a não ser no Jardim Zoológico.
Infelizmente, com o tempo, a mancha desapareceu.



domingo, setembro 11, 2005

Grades de vidro

Como viverias o tempo se não me apertasses os pulsos com as tuas mãos e não me lançasses contra o muro de pedra da tua incompletude para me gritares ao ouvido tudo o queres e podes e calas?

domingo, abril 17, 2005

Idealismo



No mundo perfeito não se agredia, fugindo.
No mundo perfeito seria possível compreender o que motiva uma agressão; por que se atira com uma porta na cara de alguém.
Pior que o estrondo, a violência de uma porta batida, é não saber por que a batem.
Costumam acusar-me de idealismo! No mundo perfeito, o idealismo não constituiria motivo de acusação!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...