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terça-feira, março 07, 2017

Roupa em 2ª mão

Foto: Yuki Onodera


Tenho muita roupa que me está larga ou apertada ou que já não uso. Debato-me com duas hipóteses, doá-la à Humana, fundação que financia projectos de desenvolvimento em África, através da venda de peças em 2ª mão, ou tentar negociá-la numa loja em Lisboa, ainda não sei qual. Aceito indicações. Talvez opte por uma solução mista, que consistirá em doar uma parte e vender outra.
Estou a escrever isto porque enquanto seleccionava as peças de que quero desfazer-me, deparei-me com t-shirts dos anos 80, blusas e túnicas que a minha mãe me fez quando ainda podia. Já não as uso, mas não sou capaz de me ver livre delas. Estive quase, mas ao olhar para os costurados da minha mãe, desisti. Seria como deitar fora uma parte da minha vida, e mesmo considerando que seja bom isso de se deitar fora partes inteiras da vida, estas não quero. Tenho-lhes demasiado afecto. Estou presa por vício a essa juventude, a esse amor dedicado. Há uma t-shirt de riscas vermelhas que nem me fica particularmente bem, mas que usei muito; vivi muitos dias com ela no corpo, e não consigo...
Há trapos que vou ter de carregar sempre comigo, e que alguém, um dia, deitará fora por mim ou venderá a bom preço para uma loja vintage.

Descendo a avenida do gimnodesportivo

Na condução em cidade estamos sempre a parar em semáforos e bichas, e costumo manter o pé a jeito sobre a embraiagem, preparada para arrancar, em ponto, ou meio ponto. Mas depois lembro-me que o meu pai também tinha este hábito, e que a minha mãe passava a vida a ralhar-lhe, dizendo, é assim que rebentas com as embraiagens todas, e então tiro o pé.
Considero esta impossibilidade de nos libertarmos de lembranças aparentemente insignificantes do passado, simultaneamente engraçada, comovente e trágica. A minha mãe já não se deve lembrar. O meu pai não ligava ao assunto. Se calhar até não se rebentam embraiagens assim. Mas na minha memória há uma embraiagem prestes a ser destruída mediante a pressão do meu pé, e isso existe em mim como uma ferida ou uma bofetada que não posso compreender.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Monologue

Escultura: Kiki Smith, Born, 2002


Escuto um cd que me ofereceram há uma boa dúzia de anos. A última vez que o ouvi vivia numa casa cheia de luz e ar numa outra cidade. Nessa casa tinha plantado roseiras carregadas de flores, e gerânios gordos como cachos de uvas. Entre os vasos, escondiam-se pequenos sapos que com o passar dos meses se tornavam grandes. Amava os meus sapos, e só nunca os beijei porque me saltavam das mãos. De inverno hibernavam nas cavidades dos tijolos sobrantes da construção. Muitos pardalinhos procuravam a frescura do meu jardim e nele se abrigavam da selva de sol. A Micas abocanhou um deles numa manhã de Primavera. Era um serzinho pardo, minúsculo, cujas últimas batidas cardíacas aconteceram na palma da minha mão ao tentar protegê-lo. O estertor do passarinho, o sopro de vida terminado, que é igual para todos. Um ser humano, um pássaro, um porco morrem todos de igual forma. Há um momento de luta, instintivo, anterior ainda à percepção da chegada da morte, e depois uma desistência total, um estertor, um silêncio imóvel, o fim.

Uma música evoca, assim, um outro tempo em que me sentia muito infeliz, embalada por muitas ilusões, contudo absolutamente capaz de lhes sobreviver. Escuto hoje a mesma música e pergunto-me como fui capaz de viver essa aventura, de levá-la ao seu fim natural.
A música não mudou. Eu, sim, embora continue a viver numa casa cheia de sol e de ar, num outro lugar.

sexta-feira, setembro 12, 2008

A meteorologia do amor



Consigo escutar o vento na foto de Cartier-Bresson que ilustra o texto aqui publicado anteontem. Faz um frio de rachar, e a atmosfera carregada de humidade, de gotas de água salgada, cheira a mar batido. Rodeados pela intrepidez da natureza invernal, sentindo-a, contudo imunes a ela, os amantes sorriem. Sorririam se nevasse, se chovesse, se a temperatura baixasse para níveis insuportáveis. Desejam estar juntos e esse desejo suplanta a necessidade de conforto. O conforto é estarem juntos, sejam as condições o que forem.
Reconhecemos estes sentimentos desde o tempo em que vivemos um amor. Éramos novos e não tínhamos casa exactamente nossa onde os beijos, os afagos inocentes, depois adiantados, pudessem esconder-se. Deambulávamos pelos locais mais ou menos desertos. No Inverno, na praia gelada, fazíamos amor na areia, sentindo-a húmida debaixo de nós. Enregelávamos. Constipávamo-nos. A Costa da Caparica era um lugar muito apropriado para o amor. As praias mais afastadas estavam desertas. Mas também me lembro do vento cortante que fazia sempre em Cacilhas, enquanto nos aninhávamos num canto do cais dos cacilheiros para nos enrolarmos em beijos, no calor dos peitos quase afogados. Ainda passo por lá e sei apontar os cantinhos onde beijei os beijos mais afogueados, ao final da tarde, pela noite fora. Já não existe um café mesmo à saída dos barcos, onde nos recolhíamos da chuva. Era um café antiquado, com poucas mesas, muito frequentado por namorados. Na Cruz de Pau havia um outro café, junto à Estrada Nacional, que também procurávamos para fugir à chuva. Ainda existe. Tinha uns pastéis de bacalhau muito abatatados, e os mil-folhas eram de terceira qualidade. Por outro lado, o nosso porta-moedas tinha o dinheiro contadinho. Passo aí todos os dias. Para lá chegarmos tínhamos de nos ir abrigando das bátegas por debaixo das varandas da rua principal, a que desce até à Amora. Ficávamos tão encharcados no Inverno. Não tínhamos um lugar nosso. Éramos apaixonados que ocupavam o espaço público, viandantes.
A minha memória do amor é feita de molduras de frio, de chuva, de dificuldade.
Tive outras pseudo-amores depois desse amor. Menos difíceis, mais rodeados dos devidos equipamentos favoráveis à intimidade, mas não guardei memórias. Já nem me lembro do nome deles. O que aconteceu e onde e como, sei lá dizer! Mas o frio, o vento, e a chuva do amor autêntico perduraram na minha memória e nos meus sentidos até hoje.

sexta-feira, abril 04, 2008

Algumas cartas que queimei




Encontrei uma carta escrita pelo meu pai à minha avó, na Metrópole, datada de 17-07-1973, Cidade Salazar, nome que a certa altura deram à Matola. Estava na caixa de fotografias, juntamente com umas que vieram de casa da minha avó. Relatava-lhe ele o meu insucesso no exame da 4ª classe.
Eu já ando há muito tempo para escrever mas a disposição tem sido pouca, 1º porque a Isabela estava muito atrasada para o exame e tive que ser eu a puxar por ela todos os dias e a todas as horas que tivesse livres. O que ele queria dizer, era que tinha sido ele a dar-me enxertos de porrada diários, depois de jantar, e que a minha capacidade de aprendizagem em questões aritméticas teimava em resistir ao seu excelente método da bofetada, até porque todo o meu corpo estava concentrado no cálculo da relação peso-velocidade da próxima bofetada e respectivo impacto. E continuava, porque isto é a Rainha das Mandrionas, mas tanto apertei com a coisa, que estraguei tudo, ela sabia, e sabe o suficiente. Mentira, não sabia a ponta dum corno em aritmética; a D. Adelaide, minha professora, chamava-me burra com b grande. Mas na altura do exame, caras novas, ela muito nervosa, muito recomendada que tinha de fazer tudo, resultado, chumbou logo no ditado. Mentira, que infâmia, como é que ele pôde escrever isto à minha avó?, por que não admitiu a verdade?, que eu nunca dei um erro, e chumbei na aritmética, senhores, na aritmética. Já não teve apelo, e por acaso era aquilo em que ela era melhor. Paciência mais um ano de sacrifício. Mais um ano de sacrifício para mim, que continuei a não conseguir aprender Matemática segundo o eficaz método da bofetada, exemplarmente levado a cabo pelo meu pai e suas incontroláveis manápulas. Eu era malhadiça.
Li esta carta com um grande sorriso. Era a voz do meu pai. As desculpas do meu pai. Pareceu-me ouvi-lo falar, naquele momento.
Lembrei-me que já nada resta das cartas que eu e os meus pais trocámos entre 1975 e 1984, fase em que estivemos separados, eles em Moçambique, trabalhando para comprar uma casa, um carro, pouca coisa, mas digna; eu cá.
Talvez possa ainda haver uma ou outra espalhada por qualquer gaveta em casa da minha mãe, ou no sótão. Perdida. Não sei. Lembro-me que por volta de 1985, 86, queimei todas as que encontrei, num acesso de raiva, numa afirmação de revolta e liberdade face ao que eles eram, representavam, e esperavam de mim. Foi um auto de fé de que não tirei qualquer benefício. Primeiro, porque as cartas também ardem mal, e tornou-se uma má experiência de fogo, fumo, sujidade e cheiro, depois, porque não obtive satisfação do acto. Não me tornei mais livre nem me pacifiquei, senão muitos anos depois. Para além disso, não confessei tê-lo feito. Não sei se me perguntaram por essas cartas, se lhes sentiram a falta. Não me lembro. Eu sinto-lhes a falta. Gostaria, hoje, de poder ler tais palavras cheias de angústia e esperança que lhes dirigi, e que me dirigiram. Quando vens?, está quase! Ao queimar esse passado, e sei que queria queimá-lo, eliminei a possibilidade de reconhecer, factualmente, episódios dessa época. Tudo o que hoje sei é uma reconstrução, um esforço de memória. E arrependo-me muito.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...