
Por uma questão de negócios conheci recentemente uma rapariga da minha idade.
Encetámos logo grande conversa, porque a nós, raparigas, um negócio não nos impede de contarmos a vidinha toda umas às outras, enquanto assinamos papelada e pagamos taxas.
A minha recente amiga tem uma bebé de quatro meses. Uma bebé cor-de-rosa, de veludo, sorridente, enfim, uma bebé fascinante, confesso! Seduziu-me, a ponto de dar comigo a fazer gu-gu-da-da-ri-ti-ti...
Nunca fiz isto - nunca passo do sorriso amarelo! - e sei que é descer muito baixo, mas confesso...
Sim, é verdade, eu nunca tive grande espírito maternal. E este enunciado é já uma hipérbole: eu nunca suportei crianças! Eu não sei pegar numa ao colo!
Primeiro, pensei sempre em mim; se tinha disponibilidade mental para abdicar de uma vida pessoal e de um lazer que nunca me foram autorizados. A minha resposta interior foi sempre "não". Um rotundo, decisivo, absoluto "não".
Se pelos trinta, por meras questões de solidão, me passou pela cabeça a ideia de que seria agradável ter uma criança, pensei numa já crescida, aí pelos seis, sete, com a qual fosse possível estabelecer um diálogo, e, apenas, uma menina. Uma bonequinha que eu pudesse vestir e despir e dar banho e deitar e dizer muito mal sobre os homens e educar para o novo mundo, levando-a comigo para todas as acções feministas, ecologistas, culturais, etc. Vendo isto à distância, apercebo-me que, de novo, pensei em mim, não na criança!
Isto foi aí pelos 35, durante um ano, e, felizmente, passou-me!
Mas a semana passada, não sei porquê, a bebé da minha recente amiga trouxe-me o incómodo desejo de ter uma igual. De a cheirar, beijar, ter vontade de lhe comer os pés e as mãozinhas, abdicar de tudo por ela. Sobretudo a parte do "abdicar de tudo".
E isto é estranho, muito estranho. Espero que me passe rapidamente.