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quinta-feira, setembro 25, 2008

Um negrinho com o pé boto


Já me estava destinado. Vinha a caminho. Afinal eu merecia, alguém tinha decidido.
Era um menino negro muito leve e franzino, com o pé direito boto. Era meu filho. Peguei nele ao colo, era de espuma. Tinha um ar sério. Nunca se ria. Beijei-lhe o pé torto, beijei-lhe os braços e as pernas, e dei graças a Deus por esse filho tão perfeito e esperado. Amar é servir por vontade. Ah, que prazer cumprir esse dever!


terça-feira, maio 20, 2008

Monólogo da maternidade



Podias ter vindo de dentro de mim.
Quase que cabes dentro da minha barriga.
(Muito encostadinha a mim, ligeiro movimento muscular pedindo-me que continue a massajar-lhe a barriga.)
Se tivesses nascido de mim... podia ter sido inseminação artificial... nascias pequenina como uma cachorrinha, como quando te vi, e vinhas toda embrulhada no meu líquido amniótico, e punham-te sobre o meu peito enquanto diziam, tem aqui uma bela menina, e eu beijava-te, e achava-te linda, embora fosses feiazita, atordoada e de olhos fechados, e havia de te chamar, logo, assim que olhasse para ti, Morena, a minha Moreninha. Moninha.
...
(Tremura, tipo coice, na perna esquerda, pedindo que continue a fazer-lhe festinhas.)
Não gosto menos de ti por não teres saído de mim, mas podias ter saído. Havia de ser bonito sermos do mesmo sangue, e isso.
...
É pena seres mijona, e carraçuda, e disfuncional! Por que não te portas bem como a Miquinhas? O que vais tu fazer para a obra para chegares de lá com as patas cheias de cimento? E chamei-te duas vezes, olhaste para mim e fizeste de conta que eu era uma parede. Antigamente não eras assim.
A Miquinhas é uma cadela normal, vem quando a chamo, e não se enfia debaixo da cama como tu. O que há de tão fascinante debaixo da cama, não me dizes?! Mesmo que a Miquinhas tenha a mania de trazer porcarias da rua, olha que ser mijona é bem pior.
(Ligeiro movimento de pernas a lembrar-me que continue a sessão de festas na barriga.)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Márcia olha-me com raiva

Observo com preocupação alguns adolescentes que foram crianças doces e se tornaram maus, hostis, agressivos. Não percebo o que lhes aconteceu. A educação falhou por escassez ou por excesso? Como é que se educa pela medida certa? Como é que uma mãe, ou um pai, sabe que é correcto dizer não num momento, e sim no outro? Cede-se? Não se cede? É a olho? Seguimos os livros? Posso educar a minha filha como a minha mãe me educou. Seria bastante mais fácil. De bofetada em bofetada, a miúda iria crescendo. Tenho a certeza.
O que determina que um adolescente seja uma pessoa respeitadora, confiante, educada, e, outro, um pequeno monstro de malvadez e má educação? Como posso eu saber no que se transformará a minha filha? Isto preocupa-me. Havia de sofrer muito, e sentir-me impotente e amarrada, se se transformasse numa Márcia.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

O mito do amor maternal instantâneo


O amor maternal instantâneo é um dos grandes mitos sagrados associados à maternidade. Prefiro trocá-lo pela realidade da preocupação e desespero maternais a partir do momento em que uma criança atravessa o colo do útero e emerge para sofrer décadas de penoso purgatório, se tiver sorte.
Há umas semanas, no hospital de Torres Vedras, uma enfermeira desmotivada, e eu até posso compreender, trocou duas crianças. As mães tiveram alta, levaram os bebés para casa, e só uma delas, muitas horas mais tarde, estranhou que o seu filho tivesse o nome de outra mulher na pulseirinha que o identificava. Reparou melhor, e a criança pareceu-lhe mais magra. Voltou à maternidade, pedindo a troca do artigo; parece que teve sorte, que ainda estava nos prazos estipulados pela Lei.
Ora, penso cá comigo, enquanto mães e bebés tiveram visitas na maternidade, quem não terá cedido à tentação de comparar recém-nascidos e progenitores?! "Ah, é tal e qual o queixo do pai; ah, tem o nariz todo da mãe; ah, parece a avó Maria Emília!"
Tais atribuições de parecenças nos primeiros dias de vida parecem-me bastante irrealistas. Qual queixo e qual nariz?! Os recém-nascidos não passam de um naco de carne vermelhusca e engelhada! São todos iguais. Está bem, uns têm mais cabelos, outros menos, uns são mais compridos ou mais pesados, de resto, eu gostava de ver uma mãe ou um pai à procura do filho da sua carne e do seu sangue num berçário sem nomes, sem referências.
O que é espontâneo relativamente a um recém-nascido é o sentimento de propriedade e de merecimento. "Eu quis ter isto, isto custou-me a ter, isto é meu!" A minha mãe, que teve comigo um parto especialmente difícil, não me amou no momento seguinte ao nascimento. Percebo-o pelas perguntas que lhe faço. Amou-me depois. Mas o meu pai, o meu pai levou ao extremo a sua decepção com a minha vinda. Recusou ir buscar-me à maternidade, porque eu não era um rapaz! Sempre admirei no meu pai a sua total incapacidade para fingir e para fazer fretes! E isto não é ironia.


quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

sábado, dezembro 24, 2005

Nossa Senhora do Século XXI

Toda contente, de férias no Brasil, onde vai parir esta noite, com cesariana marcada, depois de se ter feito inseminar artificialmente num banco de esperma espanhol: o banco, porque o esperma é, providencialmente, de origem desconhecida.






Fotos de Elfi Kaut

terça-feira, dezembro 20, 2005

Outro da série "Tunga, toma lá!"


Jan Saudek, The Love, 1973

Uma Senhora do Leite.

O jmnk chamou-me a atenção para outras Senhoras do Leite.
Nosso ser não evaporamos na lida insana!

domingo, abril 17, 2005

O instinto maternal



Por uma questão de negócios conheci recentemente uma rapariga da minha idade.
Encetámos logo grande conversa, porque a nós, raparigas, um negócio não nos impede de contarmos a vidinha toda umas às outras, enquanto assinamos papelada e pagamos taxas.
A minha recente amiga tem uma bebé de quatro meses. Uma bebé cor-de-rosa, de veludo, sorridente, enfim, uma bebé fascinante, confesso! Seduziu-me, a ponto de dar comigo a fazer gu-gu-da-da-ri-ti-ti...
Nunca fiz isto - nunca passo do sorriso amarelo! - e sei que é descer muito baixo, mas confesso...

Sim, é verdade, eu nunca tive grande espírito maternal. E este enunciado é já uma hipérbole: eu nunca suportei crianças! Eu não sei pegar numa ao colo!
Primeiro, pensei sempre em mim; se tinha disponibilidade mental para abdicar de uma vida pessoal e de um lazer que nunca me foram autorizados. A minha resposta interior foi sempre "não". Um rotundo, decisivo, absoluto "não".
Se pelos trinta, por meras questões de solidão, me passou pela cabeça a ideia de que seria agradável ter uma criança, pensei numa já crescida, aí pelos seis, sete, com a qual fosse possível estabelecer um diálogo, e, apenas, uma menina. Uma bonequinha que eu pudesse vestir e despir e dar banho e deitar e dizer muito mal sobre os homens e educar para o novo mundo, levando-a comigo para todas as acções feministas, ecologistas, culturais, etc. Vendo isto à distância, apercebo-me que, de novo, pensei em mim, não na criança!
Isto foi aí pelos 35, durante um ano, e, felizmente, passou-me!

Mas a semana passada, não sei porquê, a bebé da minha recente amiga trouxe-me o incómodo desejo de ter uma igual. De a cheirar, beijar, ter vontade de lhe comer os pés e as mãozinhas, abdicar de tudo por ela. Sobretudo a parte do "abdicar de tudo".
E isto é estranho, muito estranho. Espero que me passe rapidamente.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...