Arrecadação de uma fábrica de parafusos. Vassouras, pás e esfregonas encostadas às paredes; baldes e detergentes espalhados pelo chão. Penumbra. Uma operária desaustinada e pujante de vitalidade, em período ovulatório, submete colega do sexo masculino contra uma das paredes livres, toda escarranchada nele.
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
(Debatendo-se sensual e mansamente.) Isabela...
Isabela
(Esfregando a boca no seu peito.) Não digas nada, querido.
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Não é isso, linda, é que eu...
Isabela
(Levantando a cabeça.) Aproveita o momento. Olha que à meia-noite volto a transformar-me em abóbora. (Colocando o indicador direito no mamilo esquerdo.) Estás a ver que até já começam a aparecer as pevides?!
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Mas preciso de te dizer que...
Isabela
Oh, por favor, não fales; deixa-me ter a ilusão afrodisíaca de estar a corromper um homem inteligente.
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Ouve-me, é que eu sou...
Isabela
Oh, filho, eu sei, és casado. E muito amigo da tua mulher, embora se tenha acabado a paixão e não tenham sexo há mais de 12 anos, e só estejam juntos por causa das crianças e da casa, que é dela.
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
(Visivelmente entusiasmado, movimenta as pernas e derruba alguns baldes de limpeza.) Não, não...
Isabela
Querido, deixa isso e aproveita-te de mim toda inteirinha.
Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Oh, Isabela, enquanto não me largares os pulsos não posso; além disso, sou míope, e quando me estavas a morder o pescoço, e me lambeste a cara, arrastaste-me uma lente de contacto... está a brilhar em cima da tua mama... se pudesses dar-me dois minutinhos só para ir pô-la outra vez...