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terça-feira, março 07, 2017

Esclarecimentos teológicos

Almoço de sexta-feira santa.

Mãe - O José Gabriel anda no Norte a mostrar as procissões.
Isabela - O José Gabriel?! Quem é o José Gabriel?
Mãe - ... aquele do programa da manhã... na televisão.
Isabela - Não sei...
M. - Aquilo é lindo no Norte. As festas, as procissões, e eles andam por lá a filmar tudo.
I. - (pensei, mas não disse, que precisava de uma profissão dessas - andar por todo o lado a filmar tudo) Hum, hum.
M. - Andam a filmar por todo o Portugal, mas o Norte é a parte mais bonita.
I. - Oh, mãe, por que é que se fazem procissões?
M. - O quê?!
I. - O que significam as procissões, as pessoas todas atrás do andor...
M. - São coisas muito antigas...
I. - Eu sei, mas o que é que significa?
M. - Sempre existiram, as procissões sempre existiram. É uma tradição sair o Corpo de Deus da igreja e andar com ele pelas ruas.
I. - Sim, mas por que não adoram o corpo de Deus na igreja? Porque não fazem o ritual lá dentro? É uma forma de espalhar a fé?
M. - Olha, é uma coisa muito antiga, sempre se fez assim, desde o tempo em que eu era pequena.
I. - Pronto, okay.

domingo, fevereiro 01, 2009

Está tudo mudado

Almoço de domingo com a minha mãe, que faz 86 anos dentro de alguns dias.

Mãe - Então, mas que confusão é essa com o Sócrates? Não sai das notícias!

Expliquei-lhe tudo. A minha versão.

Mãe - E dizem que ele, mesmo assim, vai ganhar as eleições.

Isabela - É possível; é muito possível. A maior parte dos eleitores vota PSD ou PS, e qual é a diferença, sinceramente? Os partidos mais pequenos, e de esquerda, juntos ou separados, não têm hipótese de mostrar o que valem.

M. - Bem, mas o que é preciso é que o Sócrates não tenha a maioria absoluta, para não pensar que é o rei, que manda e desmanda como bem lhe aprouver.

I. - Sim, isso é fundamental. Senão qualquer dia voltamos a viver como no tempo de Salazar. No tempo do Salazar não era assim?! Tudo caladinho, tudo cheio de medo?

M. - Era, ninguém piava, mas o Salazar tinha princípios morais, e nós não vivíamos melhor, não tínhamos tanto, como agora, éramos uns atrasadinhos, não sabíamos nada, eram só os bailes, e a igreja, mas éramos mais felizes.

I. - As pessoas nunca são felizes, mãe. Ou seja, todos somos muito mais felizes do que pensamos, mas não reconhecemos essa felicidade...

M. - Mas o Sócrates, agora, vai ter o voto dos homossexuais todos...

I. - Porquê, por causa do projecto-lei para o casamento dos homossexuais? Não sei!

M. - Pois, eles andam todos contentes, querem casar uns com os outros e adoptar e tudo (riu-se).

I. - Oh, mãe, a gente não se deve meter na vida dos outros. Se querem casar, por que não? O que temos nós a ver com isso? Deixemos os outros serem felizes à sua maneira. A mim alegra-me que os outros sejam felizes.

M. - Mas adoptar...

I. - Sim, por que não? Se forem pessoas boas, pessoas honestas, com bons princípios, o que os impede de adoptar e de serem excelentes pais ou mães? Mas não creio que seja por aí que o Sócrates ganhe votos.

(Não lhe disse que o Sócrates ganha votos por ser bonito.)

M. - Bem, lá em Espanha, onde está o teu amigo, eles já podem casar e adoptar.

I. - Pois já. E o Gil e o Artur, que tu conheces, também casaram em França.

M. - Pois é. Isto está tudo mudado (riu-se).

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Vida familiar

A minha mãe está sempre a dizer-me, tu és terrível, saíste bem ao teu pai, és terrível, que eu não sou assim. E diz-me isto sempre que pode.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Atada com correntes de um ferro muito resistente

Foto: Julia Margaret Cameron, Generations (Family Circle), 1865

No restaurante chinês, entre uma massa chau-min com gambas:

Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Isabela - É o Sócrates e a vida, de forma geral.
M. - Tens de aguentar.
I. (com lágrimas nos olhos) - Não aguento. Estou farta. Não aguento mesmo. A vida é muito triste.
M. - Então e os outros?! Pensas que para os outros é melhor?!
I. (engolindo as lágrimas) -A tristeza dos outros não me alegra.
M. - Mas a vida é assim, filha.
I. (a serena choradeira em curso) - Só queria largar tudo, arranjar trabalho em Moçambique, numa multinacional, ganhar bem para pôr cá dinheiro, vir a Portugal de seis em seis meses, pedir à Marília que tomasse conta de ti...
M. - Não. Não podes.
I. - Não posso porquê?
M. - Ela não vinha tomar conta de mim.
I. - Vinha, vinha, se eu lhe pedisse e pagasse.
M.- Moçambique já não é o que era. Pensas uma coisa e é outra. Agora há lá muitos assaltos. Olha, a tua madrinha que veio de lá há pouco tempo...
I. - A minha madrinha é uma racista, que queria continuar a tratar os pretos como os tratava no tempo do colonialismo, esperas que ela diga o quê?!
M. (silêncio...) Mas tens as cadelas.
I. - Levava as cadelas.
M. - Não podes.
I. - Mas porquê, mãe, porquê?
M. - Eu ia sentir muito a tua falta.
(Silêncio.)
I. - Então, a D. Lucinda já foi operada às cataratas?

sábado, agosto 09, 2008

As prostitutas andavam decentes


Foto: Anónimo, Nude Hiding her Face, Alemanha, 1920


A caminho de Alfarim com a minha mãe.

- Oh, mãe, e se fôssemos à praia do Meco?
- (ri-se) Só se fosse vestida.
- Não, nuazinhas.
- Nuazinhas andam elas todas nas outras praias, que bem as vejo na televisão. É um fiozinho a tapar o rabo e uma coisinha que só esconde o bico das mamas. Com a anca toda destapada... eu quer-me parecer que os homens já nem ligam.
- (rio-me) Ah, pois não. Antigamente é que era uma vergonha andar nu, não era, mãe?
- Antigamente, os homens ficavam malucos quando viam um bocadinho da perna. Olha, lá em Alcobaça havia as mulheres da casa amarela, as prostitutas; elas andavam decentes, mas nós sabíamos que eram prostitutas porque traziam menos de metade dos joelhos à mostra. Só uma coisinha de nada. Os homens iam esperá-las. Ficavam doidos com elas por causa dos joelhos.

quinta-feira, maio 22, 2008

O Corpo de Deus

Foto Tomatello (Malea)

Oh, mãe, que feriado é este hoje?
Hoje é um feriado muito importante! Antigamente, neste dia, fazíamos farnéis e íamos todos para Chiqueda, para os Olhos de Água.
Porquê?
Juntávamo-nos todos e comíamos, bebíamos, conversávamos, molhávamos os pés na água que nascia nas pedras. Era uma alegria.
Era uma nascente perto de Alcobaça? Eram as termas?
Não, as termas são para o lado da Nazaré, aquilo era para os lados de Chiqueda; já lá fomos contigo uma vez, quando o teu pai ainda era vivo. Agora já não é o mesmo. Antigamente era campo, só campo. Íamos a pé, todos em grupo. Da Rua do Castelo lá ainda era um estirão. A água vinha das pedras, víamo-la brotar, fresquinha. Antigamente, nesta altura, já era Verão, não era este tempo de chuva.
Sim, é verdade, fui lá convosco e com o primo, e era um rego de água suja. Mas lembras-te de ser a nascente de um rio, de um afluente?
Não sei. Era uma mina. A água nascia no meio das pedras.
Se era um feriado religioso, por que iam para o campo?
Era muito respeitado. Nesse dia não se fazia nada, como na sexta-feira santa. Nesse dia nem os passarinhos iam aos ninhos.
Nem os passarinhos iam aos ninhos?!
Não iam aos ninhos. Os passarinhos não davam comida aos filhos acabados de nascer.
Oh, mãe, coitadinhos dos passarinhos, isso não pode ser. Nem os passarinhos iam aos ninhos! As coisas que os padres vos metiam na cabeça! Isso é que é um sacrilégio!
Não eram os padres, eram as pessoas, dizia-se. A tua avó tinha experiência. Olha que num dia de corpo de Deus andou a apanhar favas para ao dia seguinte vender na praça; apanhou uma sacada cheia, fava linda, fresca, daquela que ainda não enegreceu no olho. No dia seguinte, quando foi para vendê-la na praça, estava toda negra, como nódoas.
Se calhar porque enegreceram naturalmente...
Não, a tua avó sabia; tinha muita fé. Isto nunca lhe tinha acontecido, e ela fazia-o muitas vezes.
Mas eu não percebo o que é isso do feriado do corpo de Deus.
É o corpo de Deus.
Oh, mãe, mas que corpo de Deus? O que quer isso dizer?
...
É o corpo de Jesus? De Cristo?
Sim.
É o corpo do Cristo morto?
Sim. Há terras onde fazem procissões muito bonitas. Olha, nos Açores...
Mas procissões com o corpo de Cristo deitado morto?
Sim, o corpo de Cristo. Cristo não morreu na cruz?!
Ok.
...
Mas significa o quê? Que Cristo foi ter com o Pai e se tornou Deus juntamente com ele?
Não sei, era uma data muito sagrada, muito respeitada. É o Corpo de Deus.
Mãe, vocês antigamente não procuravam compreender os motivos das coisas em que acreditavam? Não perguntavam?
Não. Toda a gente acreditava. Não se perguntava nada. Era tradição. Acreditava-se e pronto. Não interessa saber os motivos. O que conta é acreditar.

segunda-feira, abril 21, 2008

Máximas e sentenças da minha prima afastada II

Sobre a auto-suficiência do meu celibato e certas queixas de solidão:

Tu não precisas de homem nenhum, já tens a tua mãe e as cadelas, e chegam-te bem.


sexta-feira, abril 11, 2008

As quatro avós do meu amor


A minha prima afastada telefonou-me de Roma para dizer que tinha sonhado comigo.
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."

domingo, março 30, 2008

Uma história sem moral

O professor, ele é professor de música na escola, foi sair com uma professora e viu o pai. O pai agora é um pedinte, um sem-abrigo, mas antes era professor universitário, só que morreu-lhe a mulher, começou a beber, e desgraçou-se. Os miúdos da escola falam com ele sentados no muro; dá-lhes conselhos muito bons; é um homem que fala muito bem, porque, está-se a ver, foi professor universitário e sabe discursar; os miúdos às vezes até lhe trazem coisas de casa, ou levam-no com eles para comer com as mães e pais. Gostam muito dele.
O professor que viu o pai, quer dizer, pensou que o viu, e até disse à professora, parece que está ali o meu pai, foi a correr atrás dele, mas o velho escondeu-se atrás de uma árvore, e ele ficou sem saber se era mesmo o pai. Agora é que isso se vai desenvolver melhor.
Este foi o reconto do episódio de Morangos com Açucar de ontem, segundo a minha mãe, à hora de almoço. Escuto estes relatos sorrindo. Ela sente-se feliz, e, por arrasto, também eu. Bendita telenovela.


quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A louca e a fascista

Eu e a minha mãe nunca nos entendemos como anjos com anjos devido a uma ligeira diferença morfossintáctica, que configura, no entanto, uma absoluta diferença semântica no que respeita à forma de se encarar e viver as relações sociais. Eu defendo que só se perde o que fica por dizer; ela jura que o que fica por dizer nunca perde. Ora, isto são mundos diferentes. Ela considera-me desequilibrada, com o coração na boca, e crê que não hei-de sobreviver sozinha, quando ela morrer, e repete-o muita vez, quando eu morrer, quando eu morrer. Eu acho que a minha mãe, na plenitude da sua boa educação, é o exemplo perfeito da escrava do fascismo, e mesmo que pudesse viver sem ele, não saberia como. É possível que ambas tenhamos razão.

domingo, novembro 18, 2007

De como a minha mãe enganou o meu pai durante 38 anos


Toda a vida ouvi a minha mãe queixar-se do custo de vida. O pão estava caro, bem como os grelos e o peixe. "Sabes quanto me custou este molho de agriões? Dois escudos. Isto não são agriões; isto é fogo." O dinheiro nunca chegava. Era a conversa à mesa, ao jantar, já na recuada década de 60. "Mas precisas de mais dinheiro para esta semana?", perguntava-lhe o meu pai. Precisava. Precisava sempre. Mesmo comprando do mais barato, o dinheiro nunca chegava.
Só por volta dos 10, 11 anos percebi para onde ia parte do dinheiro que o meu pai lhe entregava para governo da casa, o qual ela alegava ser insuficiente: economizava-o para nós. Para comprar tecidos para os nossos vestidos, para as calças do meu pai, e para as prendas do Natal. Para os nossos ganchinhos. Literalmente para as nossas coisinhas: uma bandolete para mim, uma bisnaga de creme Tokalon para o seu rosto. Escondia o dinheiro num frasco ou numa lata, em sítios onde o meu pai não tocasse, o que era fácil: o meu pai era um grande macho: não tocava em nada. Quando conseguia que lhe desse dinheiro contado para uns sapatos de que eu precisava, podia então comprar-mos, e mais umas calças. Chegadas a casa, mentia-lhe de novo, afirmando que tinha conseguido um desconto especial, que comprara as duas peças pelo preço de uma. O meu pai alegrava-se por ter arranjado esposa tão poupada, e engolia as mentiras, radiante. Os homens são fáceis de enganar, é uma constatação bastamente documentada.
Mais velha, assisti, calada e divertida, e até ajudei, às mentiras que a minha mãe pregava ao meu pai. Regressávamos das compras, e ela avisava-me: "vamos dizer-lhe que isto custou x". Sempre o dobro. O meu pai nunca deve ter ouvido um preço certo, enquanto viveu connosco. O custo de vida esteve sempre, para ele, muito sobreavaliado. Fui-me rindo em surdina, e nunca me desmanchei. Ao longo dos anos verifiquei que as outras mulheres faziam o mesmo. As que trabalhavam fora de casa também mentiam nos preços aos maridos, conseguindo guardar, incógnito, algum dinheiro para os filhos, e um mínimo de purpurina. Primas, mães de amigas. Sem nunca comunicarem sobre este assunto, todas procediam da mesma forma. Era uma forma de sobrevivência. Um ridículo, mas justo pagamento que se atribuíam pelo trabalho não considerado que desenvolviam em casa. Uma gorjeta.
Lembrei-me disto porque a minha mãe passa a vida a queixar-se-me sobre o dinheiro. Que é pouco. A reforma é baixa. Mas, quando menos espero, pergunta-me, "precisas de dinheiro?", e mete-me 10 euros na mala, para tomar um café. Claro que isto, meus amigos, não tem preço.



terça-feira, novembro 13, 2007

O melhor resumo da lenda de São Martinho

Ao fim da tarde do dia de São Martinho, comendo castanhas, acompanhada pela minha mãe:

- Mãe, conheces a lenda de São Martinho?
- Conheço.
- Conta lá.
- São Martinho era... olha... era um homem!

sábado, outubro 20, 2007

Laços muito apertados

Da série Conversas com a minha mãe

Isabela - Queres pintar as unhas?
Mãe - Não pinto as unhas desde que era nova.
I. - Não sejas exagerada. Não te lembras. Acho que chegaste a pintar as unhas em Moçambique.
M. - Talvez. Não me lembro.
I.- Queres que cor?
M. - Da cor das unhas.
I. - E as minhas? Vê lá se gostas das minhas? Queres esta cor?
M. - Hum. Pode ser. Ficamos a parecer irmãs gémeas.
I. - Mas nós somos mais que irmãs gémeas.

Da vida das filhas únicas (e solteironas) III

A filha

Filha, tu não és bem gorda; és uma mulher desenxovalhada, é o que é!


Da vida das filhas únicas (e solteironas) II

Os óculos

Isabela, estás a ver os meus óculos?! (mostra-me uns óculos com as hastes quase na vertical, todos tortos). Sentei-me em cima deles na banqueta da casa-de-banho. O que é que queres, não os vi! Não tinha óculos!

Como preciso de os ter quando me levares ao oftalmologista a semana que vem, por causa daquele medicamento que me receitou o reumatologista onde me levaste a semana passada, que ele não sabe se as vistas aguentam, tens de levar os meus óculos lá acima ao oculista para os endireitar, que eu preciso deles com muita urgência. E é que também não consigo ver a televisão.

Da vida das filhas únicas (e solteironas) I

A dentadura

Isabela, vem aqui depressa procurar-me a dentadura. Não me lembro onde é que a deixei, e se as cadelas a encontram, comem-na.

terça-feira, outubro 16, 2007

Desmanchos



Da série Conversas com a Minha Mãe


Mãe
- A minha avó era muito má. Rogava pragas à minha mãe.
Isabela - A tua avó rogava pragas à tua mãe?!
M. - Rogava. Zangava-se com o filho, e quem pagava era a minha mãe.
I. - Era fresca.
M. - E caíam. Rogou uma praga à minha mãe em como ela haveria de ter tantos filhos que nem os distinguisse uns dos outros. E a minha mãe, coitada, era uns fora, outros dentro.
I. - Fez muitos abortos?
M. - Ora... era quase todos os meses na Adénia. A Adénia vivia daquilo. Era especialista. Toda a gente lá ia. Era uma mulher gorda, baixa. Lembro-me dela. Tinha sete filhas. Andavam todas aperaltadas.
I. - Era parteira.
M.- Não, mas sabia. Tinha um moinho, mas pouca gente lá ia moer. A freguesia era para os desmanchos. Sabes lá os que foram por aquele rio Baça abaixo!
I. - Mas sabia dar anestesias.
M. (com indignação) - Não. Antigamente não se davam anestesias.
I. - Sem anestesia?! As mulheres eram raspadas sem anestesia?
M. - Sim. A sangue-frio.
I. (fazendo uma grande careta) - Não me contes mais nada.
M. - As mulheres antigamente sofriam muito. Sabes lá!
I. - E as mulheres não ficavam doentes, não ganhavam infecções?
M. - Nas mãos da Adénia, não. Ela sabia daquilo. Era muito conhecida. Chegou a ir presa. Mas ia presa e depois punham-na cá fora outra vez.
I. - Se calhar também fazia abortos às mulheres dos juízes.
M. (rindo) - Pois. Era a todas.


segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


Peixinhos

Da série Conversas com a Minha Mãe.

Mãe - O Manuel Luís Goucha diz que a coisa de que mais gosta é de chocolate. Mas agora já não o pode comer. Quer ser elegante.
Isabela - Hum.
M. - Havias de o ver ontem naquele programa da... com uma camisa cheia de ramagens, e fios. O que ele gosta daquelas coisas. Parece...
I. - Amaricado?!
M. - Há quem diga que é "peixinho". Agora os homens são todos. Por isso é que não querem casar com as mulheres.
I. - Oh mãe, o Goucha não é "peixinho", já é peixão.
M. - Diz que até nas boas famílias há deles "peixinhos". Até doutores.

terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...