No supermercado onde normalmente me abasteço, a carne de frango está a 1,75 euros. Se descontarmos ao preço final os custos de abate e transporte, concluímos que a vida de um frango valerá cerca de 50 cêntimos, ou seja, o preço da bica.
Os humanos dão grande valor às suas vidas, que consideram sem preço, mas se a maior parte das vidas humanas fosse taxável segundo valores realistas, com critérios assentes, por exemplo, na bondade das acções e dos sentimentos ou na capacidade produtiva, facilmente se perceberia que a existência do senhor Luís vale menos que a de uma barata de cozinha. É que não existe mal numa barata de cozinha, enquanto que no senhor Luís...
Desconheço o momento primevo da história da humanidade e do pensamento em que se atribuiu preço a contado à vida não-humana, mas foi um erro; toda a filosofia sobre comércio de animais está errada, e nós vivemos e compactuamos, convictamente, com um mundo profundamente errado.
A utilidade dos animais não reside na possibilidade de se tornarem alimento, como diz o Senhor no Velho Testamento. Os animais não racionais partilham a vida na terra com outros animais, entre os quais estamos nós. Se a racionalidade nos tivesse tornado realmente inteligentes, não os chacinávamos para manter a vida. Porque nenhuma vida consciente se pode manter inteira e limpa baseada na iniquidade. Ter perdido a inocência carrega-nos de uma responsabilidade maior relativamente ao mundo e aos seres que nele habitam. É uma responsabilidade que nos cabe só a nós e que não depende do livre arbítrio. É uma obrigação: aos humanos cabe proteger os seres mais fracos, e não explorá-los, dizimá-los.
No que respeita ao valor da vida, há um ponto em que os ateus e os crentes concordam: tenha ela sido um acaso ou resultado de uma intenção divina, a sua essência contém uma inexplicável "dimensão superior" que pode ser sentida, nomeadamente, através do normal desejo de manter uma vida longa e saudável. Esta "dimensão superior" é comum aos seres humanos e não humanos. É por isso que a vida de um frango não é menos importante que a de uma pessoa, por muito que a marquem a 1,75 euros.