Ele sofria de excesso de expressão.
A minha mãe dava-lhe um empurrão, afastava-o, dizia-lhe, “és uma criança; não tens tino nenhum”.
Eu ria-me, muito feliz, porque o meu pai tinha chegado a casa, abraçara-me, beijara-me repenicadamente e, de seguida, atacara a minha mãe, sem sorte.
“Não cresces”, dizia-lhe ela. E eu ria-me, e pensava que todos os homens eram calorosos, e, todas as mulheres, contidas e tímidas.
Eu não era homem nem mulher. Fui, durante bastante tempo, uma menina assexuada, identificada com a figura do pai. Mesmo quando, conscientemente, me apercebi do desejo do meu corpo, e não lhe chamava desejo, nem nada, porque não sabia o que era, e assustava-me, via-me como uma pessoa igual ao meu pai: alguém que ri, beija, fala e ama sem medo, chora, grita, emociona-se, irrita-se, enraivece-se, diz, diz o que pensa, arrisca, põe à prova, com indizível prazer, todos os sentidos.
Isto era o meu pai, e confesso que o procurei nos homens que conheci. Não voltei a encontrá-lo.
O meu pai também era irascível, violento, teimoso, orgulhoso. Mesmo assim: as qualidades ultrapassavam largamente os defeitos de personalidade.
Tenho dias em que sinto graves saudades do meu pai. Queria senti-lo chegar, agora, abraçar-me, beijar-me; dizer-me “trouxe aqui um petisco, põe a mesa".
O meu pai adorava a minha mãe. Vice-versa, já não sei. Garanto que ela o respeitava, lhe obedecia, fazia tudo por ele, como por um pai, um irmão de sangue. Não sei como um casamento de conveniência poude resultar tão bem. A minha mãe refreava-lhe os ímpetos mais sublimes e os mais terríveis, como hoje mos refreia.
O meu pai sabia dar-se, entregar-se mesmo, confiar cegamente. Para o meu pai todos eram bons, dadivosos, e ninguém mentia.
Tinha tanto prazer em viver: comer, beber, ver, ouvir, cheirar, tactear... foder. Já escrevi isto noutro lado. O meu pai adorava foder; não tem nada de mal. Com a minha mãe, sim, mas com as outras - a minha mãe lá fazia o sacrifício, adicionalmente! Nisso, tenho encontrado o meu pai, com facilidade, em todos os homens: foder a torto e a direito, trair sem escrúpulos. Ó, que fácil!
Quando encontro um homem que recusa trair, apaixono-me por ele. Esse é que devia ser meu. Mas é exactamente pelos mesmos motivos que o quero, que não pode pertencer-me.
Não compreendo os homens. Desarmam-me.
Eu tive demasiado homem: um homem inteiro. Amei-o. Aprendi com ele a ser uma pessoa. Os meus principais valores, os melhores, aprendi-os com ele, mesmo quando não os seguiu. Porque o meu pai dava-se ao luxo de ser incoerente, de falhar.
Não compreendo os homens: o meu pai nunca me respondeu “sim”, apenas, após um longo discurso de dúvidas e perguntas. Dialogava, apanhava cada fio da meada, queria saber, responder, discutir. O meu pai não me dizia “não sei”, “não pensei nisso”, “o que é que isso interessa”. O meu pai falava. Extraordinário, não é? Um homem capaz de falar, de se explicar, de dizer o que quer, ou o que prefere evitar. Sem nada na manga. Sem antecipar: “se eu disser isto, ela vai pensar que, portanto, é melhor avançar já esta ideia neutra, desinteressada..."
Descontando as amantes temporárias, a minha mãe teve o melhor dos homens. E não sabe bem. Valoriza apenas um facto, “o teu pai, que Deus lá o tenha, nunca me bateu”; porque a minha mãe é de um tempo em que seria vulgar um homem bater-lhe. Ela teria aceite.
A mim, o meu pai bateu-me, forte e feio. E, no entanto, eu amei-o. Amo-o.
Que belas tareias! Uma sova esquece-se, a indiferença não. O meu pai batia-me de manhã, mas abraçava-me à noite.
(E se eu faço isso - se bato de manhã e abraço à noite?)
Não quero fazer o elogio da porrada, mas às vezes apetecia-me levar uma valente sova, como as do meu pai, e retribuir, porque à falta do mais apertado dos abraços...
A minha mãe dava-lhe um empurrão, afastava-o, dizia-lhe, “és uma criança; não tens tino nenhum”.
Eu ria-me, muito feliz, porque o meu pai tinha chegado a casa, abraçara-me, beijara-me repenicadamente e, de seguida, atacara a minha mãe, sem sorte.
“Não cresces”, dizia-lhe ela. E eu ria-me, e pensava que todos os homens eram calorosos, e, todas as mulheres, contidas e tímidas.
Eu não era homem nem mulher. Fui, durante bastante tempo, uma menina assexuada, identificada com a figura do pai. Mesmo quando, conscientemente, me apercebi do desejo do meu corpo, e não lhe chamava desejo, nem nada, porque não sabia o que era, e assustava-me, via-me como uma pessoa igual ao meu pai: alguém que ri, beija, fala e ama sem medo, chora, grita, emociona-se, irrita-se, enraivece-se, diz, diz o que pensa, arrisca, põe à prova, com indizível prazer, todos os sentidos.
Isto era o meu pai, e confesso que o procurei nos homens que conheci. Não voltei a encontrá-lo.
O meu pai também era irascível, violento, teimoso, orgulhoso. Mesmo assim: as qualidades ultrapassavam largamente os defeitos de personalidade.
Tenho dias em que sinto graves saudades do meu pai. Queria senti-lo chegar, agora, abraçar-me, beijar-me; dizer-me “trouxe aqui um petisco, põe a mesa".
O meu pai adorava a minha mãe. Vice-versa, já não sei. Garanto que ela o respeitava, lhe obedecia, fazia tudo por ele, como por um pai, um irmão de sangue. Não sei como um casamento de conveniência poude resultar tão bem. A minha mãe refreava-lhe os ímpetos mais sublimes e os mais terríveis, como hoje mos refreia.
O meu pai sabia dar-se, entregar-se mesmo, confiar cegamente. Para o meu pai todos eram bons, dadivosos, e ninguém mentia.
Tinha tanto prazer em viver: comer, beber, ver, ouvir, cheirar, tactear... foder. Já escrevi isto noutro lado. O meu pai adorava foder; não tem nada de mal. Com a minha mãe, sim, mas com as outras - a minha mãe lá fazia o sacrifício, adicionalmente! Nisso, tenho encontrado o meu pai, com facilidade, em todos os homens: foder a torto e a direito, trair sem escrúpulos. Ó, que fácil!
Quando encontro um homem que recusa trair, apaixono-me por ele. Esse é que devia ser meu. Mas é exactamente pelos mesmos motivos que o quero, que não pode pertencer-me.
Não compreendo os homens. Desarmam-me.
Eu tive demasiado homem: um homem inteiro. Amei-o. Aprendi com ele a ser uma pessoa. Os meus principais valores, os melhores, aprendi-os com ele, mesmo quando não os seguiu. Porque o meu pai dava-se ao luxo de ser incoerente, de falhar.
Não compreendo os homens: o meu pai nunca me respondeu “sim”, apenas, após um longo discurso de dúvidas e perguntas. Dialogava, apanhava cada fio da meada, queria saber, responder, discutir. O meu pai não me dizia “não sei”, “não pensei nisso”, “o que é que isso interessa”. O meu pai falava. Extraordinário, não é? Um homem capaz de falar, de se explicar, de dizer o que quer, ou o que prefere evitar. Sem nada na manga. Sem antecipar: “se eu disser isto, ela vai pensar que, portanto, é melhor avançar já esta ideia neutra, desinteressada..."
Descontando as amantes temporárias, a minha mãe teve o melhor dos homens. E não sabe bem. Valoriza apenas um facto, “o teu pai, que Deus lá o tenha, nunca me bateu”; porque a minha mãe é de um tempo em que seria vulgar um homem bater-lhe. Ela teria aceite.
A mim, o meu pai bateu-me, forte e feio. E, no entanto, eu amei-o. Amo-o.
Que belas tareias! Uma sova esquece-se, a indiferença não. O meu pai batia-me de manhã, mas abraçava-me à noite.
(E se eu faço isso - se bato de manhã e abraço à noite?)
Não quero fazer o elogio da porrada, mas às vezes apetecia-me levar uma valente sova, como as do meu pai, e retribuir, porque à falta do mais apertado dos abraços...
Foto - J. Saudek, Hungry for your touch, 1971