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terça-feira, dezembro 20, 2005

Isto não interessa nem ao Menino Jesus!

Ele sofria de excesso de expressão.
A minha mãe dava-lhe um empurrão, afastava-o, dizia-lhe, “és uma criança; não tens tino nenhum”.
Eu ria-me, muito feliz, porque o meu pai tinha chegado a casa, abraçara-me, beijara-me repenicadamente e, de seguida, atacara a minha mãe, sem sorte.
“Não cresces”, dizia-lhe ela. E eu ria-me, e pensava que todos os homens eram calorosos, e, todas as mulheres, contidas e tímidas.
Eu não era homem nem mulher. Fui, durante bastante tempo, uma menina assexuada, identificada com a figura do pai. Mesmo quando, conscientemente, me apercebi do desejo do meu corpo, e não lhe chamava desejo, nem nada, porque não sabia o que era, e assustava-me, via-me como uma pessoa igual ao meu pai: alguém que ri, beija, fala e ama sem medo, chora, grita, emociona-se, irrita-se, enraivece-se, diz, diz o que pensa, arrisca, põe à prova, com indizível prazer, todos os sentidos.
Isto era o meu pai, e confesso que o procurei nos homens que conheci. Não voltei a encontrá-lo.
O meu pai também era irascível, violento, teimoso, orgulhoso. Mesmo assim: as qualidades ultrapassavam largamente os defeitos de personalidade.
Tenho dias em que sinto graves saudades do meu pai. Queria senti-lo chegar, agora, abraçar-me, beijar-me; dizer-me “trouxe aqui um petisco, põe a mesa".
O meu pai adorava a minha mãe. Vice-versa, já não sei. Garanto que ela o respeitava, lhe obedecia, fazia tudo por ele, como por um pai, um irmão de sangue. Não sei como um casamento de conveniência poude resultar tão bem. A minha mãe refreava-lhe os ímpetos mais sublimes e os mais terríveis, como hoje mos refreia.
O meu pai sabia dar-se, entregar-se mesmo, confiar cegamente. Para o meu pai todos eram bons, dadivosos, e ninguém mentia.
Tinha tanto prazer em viver: comer, beber, ver, ouvir, cheirar, tactear... foder. Já escrevi isto noutro lado. O meu pai adorava foder; não tem nada de mal. Com a minha mãe, sim, mas com as outras - a minha mãe lá fazia o sacrifício, adicionalmente! Nisso, tenho encontrado o meu pai, com facilidade, em todos os homens: foder a torto e a direito, trair sem escrúpulos. Ó, que fácil!
Quando encontro um homem que recusa trair, apaixono-me por ele. Esse é que devia ser meu. Mas é exactamente pelos mesmos motivos que o quero, que não pode pertencer-me.
Não compreendo os homens. Desarmam-me.
Eu tive demasiado homem: um homem inteiro. Amei-o. Aprendi com ele a ser uma pessoa. Os meus principais valores, os melhores, aprendi-os com ele, mesmo quando não os seguiu. Porque o meu pai dava-se ao luxo de ser incoerente, de falhar.
Não compreendo os homens: o meu pai nunca me respondeu “sim”, apenas, após um longo discurso de dúvidas e perguntas. Dialogava, apanhava cada fio da meada, queria saber, responder, discutir. O meu pai não me dizia “não sei”, “não pensei nisso”, “o que é que isso interessa”. O meu pai falava. Extraordinário, não é? Um homem capaz de falar, de se explicar, de dizer o que quer, ou o que prefere evitar. Sem nada na manga. Sem antecipar: “se eu disser isto, ela vai pensar que, portanto, é melhor avançar já esta ideia neutra, desinteressada..."
Descontando as amantes temporárias, a minha mãe teve o melhor dos homens. E não sabe bem. Valoriza apenas um facto, “o teu pai, que Deus lá o tenha, nunca me bateu”; porque a minha mãe é de um tempo em que seria vulgar um homem bater-lhe. Ela teria aceite.
A mim, o meu pai bateu-me, forte e feio. E, no entanto, eu amei-o. Amo-o.
Que belas tareias!
Uma sova esquece-se, a indiferença não. O meu pai batia-me de manhã, mas abraçava-me à noite.
(E se eu faço isso - se bato de manhã e abraço à noite?)

Não quero fazer o elogio da porrada, mas às vezes apetecia-me levar uma valente sova, como as do meu pai, e retribuir, porque à falta do mais apertado dos abraços...


Foto - J. Saudek, Hungry for your touch, 1971

sábado, dezembro 10, 2005

Maravilhas da criação!

No princípio da adolescência coleccionei folhas com publicidade a perfumes e artigos de beleza, rasgadas às revistas femininas - por um único motivo: o rosto sublime das mulheres, as fotos magnifícas dos mais belos rostos do mundo.
Coleccionava perfeição, a maravilha da criação. Elas eram irresistíveis; eu não lhes resistia.
Tive vergonha da minha colecção durante muito tempo. Não queria que ninguém pudesse descobrir que admirava, horas a fio, essa questionável colecção de fotos das mais delicadas e hipnóticas mulheres do mundo. Brilhantes. Suaves. Doces. Selvagens. Tentadoras. Sempre maravilhosas.

Ingrid Bergman

Hoje, as mais belas mulheres do mundo, para os outros, não o são para mim. Os seus rostos não irradiam luz, a maior parte dos corpos são excessivamente masculinos, ou tornados andróginos pela magreza. A magreza excessiva torna os corpos iguais e, por isso, um corpo muito magro é inevitavelmente assexuado. Não possui beleza, apenas body art.

Portugal Fashion

Antigamente as mulheres não tinham os meios de que hoje dispomos para ser mais bonitas. Alguns existiam:
muita maquilhagem forte, mas não como hoje, anti-alérgica, adequada a tipos de pele, cremes que resolvem tudo, químicos eficazes, simultaneamente inofensivos.
Lembro-me que Jean Harlow, Marlene Dietrich e Greta Garbo, louríssimas, queimavam os cabelos com líxivia para os manterem dourados, luminosos: destruíram cedo o couro cabeludo. Mas enquanto durou, foram deusas!



Marlene Dietrich

Mas mais belas que hoje? Sabiam, sem dúvida, valorizar bem o que tinham; sabiam deixar-se fotografar. Havia um valor sagrado: ser feminina, ser bonita, mesmo dentro de um fato de homem, com o cabelo cortado. Havia olhos, bocas, gestos, ancas, seios, pernas. Havia um rosto e um corpo de mulher. Que não podia pertencer senão a uma mulher.
Portanto, mais belas, não, mas praticantes de uma "Ordem Feminina de Beleza" que resultou magnificamente. Que resultará sempre.

Marlene Dietrich

O unisexo anulou esse conceito. Mas não existe um corpo unisexo; não é desejável, não tem utilidade. O hedonismo procura rostos e corpos absolutamente iguais, fabricados em série como parafusos. Esses corpos desvalorizam-se, e a moda revela-o, ao negar o corpo que expõe em excesso ou que desfeia. As modelos são excessivamente magras. Não exibem, de fact, um corpo, mas constituem um cabide adequado a uma roupa que não queremos vestir, que é igual para todos os corpos.
Hoje em dia, uma mulher com um normal corpo de viola pode encontrar roupa que lhe sirva, mas se as calças e as saias não forem de tecido elástico, fazem rugas, refegos, foles. Serve na anca, mas sobra na cintura; serve no peito, mas a cintura está demasiado descaída.
Nós não somos direitas. Enfim, se exíbissemos a magreza das modelos talvez fôssemos direitas.

Em suma, o unisexo não serve corpos reais, corpos com barrigas, rabos, pernas redondas e uma cintura de viola.
O unisexo não serve as mulheres porque não valoriza o que têm de mais belo: uma alteridade física que as distingue, particulariza, que conta com as suas especificidades, e não só as respeita como valoriza.
Como valorizar uma barriga e torná-la sensual? Como transformar um anafado par de nádegas numa visão divina, sem que pareça ordinário?

Portugal Fashion

Antigamente, elas não eram mais bonitas, mas cultivavam uma beleza clássica que reconhecemos e, de imediato, veneramos, assim que a vislumbramos. Não falha. Uma mulher pode ser gira, sensual, mas bonita... quando afirmamos que uma mulher é bonita, estamos perante uma verdadeira beleza clássica ou o exercício esforcado por consegui-la.
A beleza é clássica.
E, se repararmos nessas mulhereres incrivelmente viciantes, elas são cumulativamente doces, suaves, aspirando a nada mais que a mais simples beleza. Elas são um pouco Marilyn Monroe.


Laetitia Casta

As mulheres queriam ser bonitas para agradar aos homens?
Sim, mas agora já não!
Não?! Mas é possível que uma mulher heterossexual, normal, ainda não destruída pelas quecas eventuais e sem significado do sábado à noite não queira agradar aos homens?
Umas às outras, sim; a nós, ao vazio das quatro paredes, mas aos homens, caramba!
Tenho muita pena, mas não quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigas. A um jantar de amigas chego limpinha e decente.
Quero ir pavonear-me linda para um jantar de amigos e sentir que olham para mim como uma “maravilha da criação”, que apreciam o que vêem e o desejam e sonham comigo. Quero que sobre mim pouse esse olhar “és uma maravilha da criação”, esse olhar que só um homem a sério sabe oferecer, mesmo que não passe disso, e a maravilha nunca se torne de carne, não se dispa, nunca: seja só a Deusa. Meu Deus, os homens que passam por nós e com os olhos nos dizem, "valeu a pena ter chegado aqui para me cruzar contigo!"; "és a coisinha mais linda"; "és uma maravilha, a maravilha da criação".

Greta Garbo


Brigitte Bardot


Anita Ekberg


Para mim, ser feminista é isto: ser independente, malhar nos homens, com eles ao lado, concordantes, enquanto simultaneamente lhes digo "a seguir a mim, és a segunda maravilha da criação”.
E sem eles, sejamos realistas, este mundo não teria a menor hipótese de, ocasionalmente, se tornar deliciosamente perfeito.


terça-feira, maio 31, 2005

Novas matrículas

Eu também tenho uma história de matrículas: quando era pequena, aí pelos sete, correu o boato - nunca cheguei a saber se era verdade! - que quem conseguisse reunir numa folha, umas a seguir às outras, com esferográfica Bic, 1000 matrículas de carro ganhava um brinde qualquer da Coca-Cola! Uma bicicleta, acho.
Eu cá, ia para a esquina da avenida 24 de Julho com outra qualquer, que não me lembro, mas que ficava mesmo junto à Mesquita e às Finanças e à Escola Especial, recolher dados das chapas verdadeiras, isto se a minha mãe me deixava, o que era raro; se não deixava, fazia como os outros, inventava: MLF-32-25; MIH-04-78; MEP-43-10... mas nunca cheguei às 1000, não sei porquê. Se calhar porque, aos sete, mil é um número muito grande.
Passava tardes nisto.
A verdade é que nunca tive bicicleta.
A verdade é que nem sei andar de bicicleta.

sexta-feira, abril 01, 2005

Descoberta do mundo


1. O pessegueiro carregado de pêssegos, nas traseiras da casa do meu avô materno. Contemplava-o, pela primeira vez; inspirava o odor que envolvia toda a árvore, dela se exalava. Não podia colher frutos.
Nessa altura já sabia que existia Sol, mas só me lembrava do seu nome quando o via chegar do Oriente. O Sol!

2. A primeira vez que usei óculos descobri que o céu era azul; e que o mundo era exageradamente nítido. E que os meus olhos tinham cor.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...