Mostrar mensagens com a etiqueta inocência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta inocência. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, julho 22, 2008

A inocência


Fotograma de Viagem em Itália, Roberto Rosselini, 1953


Moi et mon ami tivemos uma discussão a propósito do filme Viagem em Itália, de Rosselini, 1954. Não gostei. Datado. Lugares-comuns. Uma mulher e um homem que se detestam, que não comunicam, pior, que se agridem psicologicamente, percebendo-se que tudo aquilo vai acabar em reconciliação. Sem surpresas. Previsível. Um filme estúpido, afirmei.
Não suporto, na vida real nem na arte, a temática da mulher resignada a um casamento que não passa de um campo de batalha. São coisas que me transcendem. Se ao menos ela lhe espetasse um sólido ferro da cozinha no ombro, e o deixasse a esvair-se em sangue, e arranjasse um belo napolitano, e com ele tivesse uma aventura escaldante... podia ser que me conformasse.
Mon ami ficou para morrer. Que eu era taxativa, e burra. Ai, ai, quase lhe espetei eu um ferro no coração. Espèce de connard. Que não passava de um elitista presunçoso, convencidão, intelectual só das aparências, que considerava antes a marca, acima do produto. Só porque era um... Rosselini. Como se Rosselini fosse um Deus, e os filmes dos anos 50, a preto-e-branco, todos excelentes, porque são dos anos 50 e a preto e branco. Je lui ai accusé.

Mas ontem fomos ver o Panda do Kung Fu, da Walt Disney, e ambos viemos maravilhados, em total consonância opinativa.

Conclusão: devemos deixar para os adultos os filmes de adultos, e para as crianças os filmes das crianças.

terça-feira, junho 03, 2008

Selvagem

Colaboradoras, II Guerra Mundial, França, 1944 (ACME photo)


Acabei há umas semanas de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. O livro foi-me recomendado pelo amigo a quem há muitos anos dei a ler O País das Últimas Coisas.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.

É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


Peixinhos

Da série Conversas com a Minha Mãe.

Mãe - O Manuel Luís Goucha diz que a coisa de que mais gosta é de chocolate. Mas agora já não o pode comer. Quer ser elegante.
Isabela - Hum.
M. - Havias de o ver ontem naquele programa da... com uma camisa cheia de ramagens, e fios. O que ele gosta daquelas coisas. Parece...
I. - Amaricado?!
M. - Há quem diga que é "peixinho". Agora os homens são todos. Por isso é que não querem casar com as mulheres.
I. - Oh mãe, o Goucha não é "peixinho", já é peixão.
M. - Diz que até nas boas famílias há deles "peixinhos". Até doutores.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...