Mostrar mensagens com a etiqueta igreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta igreja. Mostrar todas as mensagens

sábado, setembro 06, 2008

A pecar na santa paz do Senhor


Jose Mantero, padre espanhol que afirma ser gay

Os homossexuais católicos ibéricos reúnem-se em Évora, no último fim-de-semana de Setembro. Durante o encontro decorrerão palestras, debates e orações. Esta iniciativa merece destaque entre todas as outras que juntam grupos homossexuais, porque, como se sabe, não existem homossexuais católicos, nem as hierarquias da Igreja têm a ver com isso, porque, como é óbvio também não existem padres homossexuais. Mais, a expressão do desejo só existe no contexto procriativo da família, essa sim, a célula sagrada da Igreja e da sociedade.
Os promotores deste encontro informaram as estruturas da Igreja, solicitando um sacerdote para prestação de serviço espiritual. Se o arcebispado de Évora recusar, o que penso virá a acontecer, o problema resolve-se da seguinte forma:
um padre espanhol que acompanha o grupo de Málaga poderá ministrar os serviços religiosos.
Não sei o que é que a Igreja Católica vai fazer com estes fiéis que agora se dizem homossexuais, mas que está aqui um lindo problema, está. Não os podem abençoar. Não podem dar-lhes a comungar o corpo de Cristo. Não os podem casar segundo a lei de Deus. Só se os exorcizarem, regando-os com muita água benta, na tentativa de lhes arrancarem aquele bicho das entranhas. Ah, que saudades dos tempos em que estavam todos arrumadinhos no quarto escuro a pecar clandestinamente e na santa paz do Senhor sem incomodar a ordem estabelecida.

domingo, março 16, 2008

Foi Domingo de Ramos



Gosto muito da igreja da minha freguesia, embora não a frequente. É um edifício recente, de interiores claros, sóbrios, minimalistas. Apetece-me muito rezar na minha igreja. Enchê-la dos pai-nossos e avé-marias que me esqueço de rezar em casa. De muitas preces belas que ouço a minha mãe murmurar pelas seis da tarde, e promessas, e dores e aspirações, mas para ser uma boa católica precisaria de esquecer que a minha igreja é católica, e que nela, alguns filhos de Deus, imaculados filhos de Deus, estão proscritos.
Hoje, a missa de Domingo de Ramos era campal. O padre trouxe os fiéis para o jardim, e, enquanto passeávamos os cães, líamos o jornal, íamos ao minimercado, escutávamos os améns e os cânticos entoados por mulheres e homens empunhando ramos de oliveira.
O padre da minha freguesia é um homem duro, de poucas palavras, diria arrogante. No dia em que enterrou o meu pai pronunciou umas palavras desapiedadas e breves sobre a vida eterna, e o sofrimento dos que ficam, não dos que partem. Aquilo tocou-me. Tentei agradecer-lhe, com lágrimas, mas o homem evitou-me, mostrou-se apressado, indisponível para receber a minha gratidão. Não me esqueci. Hoje, ele lá estava ao ar livre, com os seus fiéis, imitando uma igreja aberta. Como se aquele fosse um grupo aberto, um verdadeiro grupo aberto, e não um círculo fechado como um punho. Não me juntei a eles. Estava com as cadelas, e para as pessoas que adoram o Senhor, os animais não comem à mesa do sagrado. Andei.


domingo, agosto 19, 2007

Retórica de sacristia: as mulheres são demasiado bentas para o sacerdócio


D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã, hoje.

(...)
– Há quem defenda que a crise de vocações se resolvia com a ordenação sacerdotal das mulheres.


– Estou certo de que a ordenação das mulheres nunca acontecerá.

– Porquê?

– Não sei porque é que esse problema se há-de colocar. As mulheres são preciosas para a Igreja e têm um vastíssimo campo de trabalho, no qual têm dado mostras de grande capacidade. Contudo, essa questão teológica da ordenação não deve ser colocada. É que não há no Evangelho nada que nos permita trilhar esse caminho. Além de toda a tradição histórica da Igreja. Repare: os apóstolos foram ordenados por Cristo e Nossa Senhora não. No entanto, no plano do culto, Nossa Senhora está acima dos apóstolos. Isto para dizer que as mulheres não precisam de ser ordenadas para atingir o mais alto do Céu.

– Mas há alguma questão teológica de fundo que impeça a ordenação das mulheres?

– Há, devido à linha de conduta traçada pelo Evangelho e que tem sido respeitada ao longo de dois mil anos de História. E não me parece que essa questão venha algum dia a ser resolvida. Eu sou a favor da mulher. Fui, enquanto reitor da Pontifícia Universidade Urbaniana, o primeiro a admitir uma mulher como professora de uma universidade do Papa. Mas o caso da ordenação sacerdotal é diferente e penso que, por impedimento dogmático, as mulheres nunca receberão o sacramento da Ordem.
(...)

domingo, maio 13, 2007

Hermenêutica (não autorizada) dos segredos de Fátima

Primeira parte do segredo

Texto manuscrito das memórias de Lúcia


Não me interessa questionar a autenticidade das aparições. Primeiro, porque estou convencida de que os pastores terão mesmo visto ou ouvido algo na Cova da Iria. Não interessa o quê. Acordemos que foi algo. Segundo, porque para reinterpretar segredos tenho que lhes atribuir uma origem.

O primeiro segredo oferece aos pastores uma visão do Inferno, e eis como no-lo descreve Lúcia (o texto respeita a sua ortografia):

(...) Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fôgo que parcia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fôgo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronziadas com forma humana, que flutuavam no incêndio leva­das pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nu­vens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dôr e desespero que horrorizava e fazia estre­mecer de pavor. Os demónios destinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transpa­rentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa bôa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promeça de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Parece-me uma revelação pouco original e em perfeita consonância com outras tradições gnósticas. Muito embora, à época, a missa fosse em Latim, as crianças escutavam relatos do Inferno feitos por familiares mais velhos, pelos contadores de histórias da bíblia ou, com sorte, contemplariam imagens sagradas nos livros da igreja, na catequese. A imagética relacionada com o Inferno não seria, portanto, novidade para o seu imaginário: a sopa de fogo eterno, os demónios, as almas dos condenados em sofrimento perpétuo.

Poderiam tê-lo inventado, mas admitamos que não, que foi real. A visão foi impressionante, terrífica conta Lúcia. Admito que uma visão, que por definição é no dolby digital das coisas etéreas, será deveras impressionante. Eu também já tinha ouvido falar muito do Vietnam, mas tal Inferno só me impressionou a sério quando o vi no Apocalypse Now.


Convenhamos: uma entidade divina não desceria ao mundo para assustar criancinhas cujos pecados não iriam muito além de diabruras com caudas das lagartixas. Portanto, esta visão parece-me cumprir a função das esculturas de demónios nas gárgulas e colunas das igrejas góticas: a de amedrontar crentes, para melhor os subjugar à oração e manutenção da estrutura eclesiástica. Assusta-se primeiro, pede-se depois. Segundo Lúcia, foi exactamente isto que aconteceu:


A conhecida gárgula da igreja de Notre Dame, em Paris

Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:
- Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer establecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

Rezar para salvar as almas dos pecadores parece-me bem. O que estranho neste discurso é o anúncio, feito pela própria Senhora, sobre a delegação de poderes, como salvadora de almas, que Deus nela deposita.
Seguem-se os segredos anexos ao da inicial visão do Inferno:


A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra peor.
Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Considerando que se estava em 1917, a previsão relativa ao final da guerra em curso (1914-1918) não será grande surpresa, mas duvido que criancinhas analfabetas da Cova da Iria tivessem acesso a informação que lhes permitisse opinar ou inventar sobre a questão. A guerra acabaria mais dia, menos dia, porque, a bem ou a mal, sobretudo a mal, todas as guerras acabam; mas, em 1917, situar o início de uma outra guerra no papado seguinte, parece-me informação bastante precisa e credível.

A II Guerra Mundial começa sob Pio XII, e não Pio XI. Contudo, Lúcia argumenta que o que deu origem à guerra teve lugar durante a vigência de Pio XI, falecido exactamente em 1939 (Lúcia refere-se à anexação da Áustria, em 1938).

Não sei se a Irmã, naquela época, vivendo em recolhimento, teria acesso a informações relevantes sobre política mundial, mas vou acreditar que sim: dou o benefício da dúvida: imaginemos que a madre superiora leria, ao domingo, após o almoço, um jornal autorizado, ou um folheto da igreja com umas breves devidamente censuradas, o que justificaria os conhecimentos e explicações de Lúcia.

Quanto ao aparecimento de uma grande luz anunciadora da II Grande Guerra, Lúcia associa-a a uma invulgar aurora boreal ocorrida em Janeiro de de 1938. Seja.

A revelação sobre o início da II Guerra Mundial, datada com tal precisão, seria profeticamente consistente se as memórias de Lúcia não tivessem começado a ser escritas, por ordem do Bispo de Leiria, apenas em 1935.

Na primeira memória, exactamente a de 35, Lúcia descreve os primos, as circunstâncias das suas vidas, personalidades e mortes, e algumas consequências da primeira aparição, não revelando quaisquer segredos, os quais só aborda nas memórias seguintes, que datam de 1937 e 1941 (terceira e quarta memórias) - tornadas públicas alguns anos após a sua redacção.

Portanto, a revelação do segredo relativo à II Guerra Mundial numa altura em que já seria possível prevê-la (1937), embora não invalide a profecia, enfraquece-a. A existirem cartas ou documentos redigidos por Lúcia antes destas datas, e respeitantes a esta profecia, convinha que a Igreja os revelasse. Creio existirem, porque Lúcia afirma, no início das memórias, não saber porque lhe encomendam tais escritos, uma vez que a informação neles contida foi antes revelada. Se foi revelada, foi registada por ela ou por alguém em seu nome.
Na introdução das memórias que li, existe informação sobre outros documentos e cartas de Lúcia, os quais seriam menos extensos e importantes.



Segunda parte do segredo


Irmã Lúcia de Jesus

No segundo segredo, que é efectivamente o terceiro, a Senhora pede a consagração da Rússia à fé católica. Eis as palavras que a memória de Lúcia registou:

Para a impedir [a II Guerra Mundial - que não impediu] virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sufrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será consedido ao mundo algum tempo de paz.

Ora, o meu problema, no que respeita a este segredo, advém do facto de acreditar que entidades divinas não só não falam a linguagem dos mortais como desprezam a política mesquinha dos humanos.

Nossa Senhora interessada em questões de política de Leste? Deus e Nossa Senhora conferenciando, e considerando os ateus comunistas como perigosos? Vejamos, não lhes interessaria converter também os fanáticos árabes e chineses? E os negros animistas? Por que motivo só os russos?

A politização do discurso sagrado não convence quem tenha aprendido os mais elementares rudimentos do pensamento, mesmo que a fé seja grande. É que há a fé, mas há também uma lógica do discurso sagrado - que alguma terá.

Nisto, não é possível esquecer que politizar o sagrado foi especialidade da Igreja durante toda a sua existência. Tanto e tão bem como, hoje, o Islão.

A comunhão reparadora dos primeiros sábados, também referida no texto, gerará posteriores conversas entre Lúcia e o Menino Jesus, que lhe aparece no convento de Tuy, dez anos depois, com o objectivo de negociar formas conducentes à realização da comunhão sabatina para quem trabalhasse e não pudesse ir à igreja nesse dia. Portanto, em 1926, o Menino apareceu-lhe,

e Lúcia apresentou-lhe a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:

- Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

Ela perguntou:
- Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?
Jesus respondeu:
- Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a 1ª ocasião que tiverem de se confessar”.

Não pretendo que pareça má-vontade da minha parte, mas este diálogo aparenta mais semelhanças com um processo de negociações para aprovação de uma Lei do que com uma comunicação com o altíssimo.
E era Jesus! Posso jurar que a presidenta da minha empresa não desceria tantos degraus para me autorizar uma falta importante e justificável.


Terceira parte do segredo

Quanto à última parte do segredo, o mais simbólico e enigmático, o Vaticano apressou-se a associá-lo ao assassinato do Santo Padre, e elegeu o atentado da Praça de São Pedro como símbolo da crise de valores cristãos.
Conheçamos as palavras de Nossa Senhora, segundo Lúcia:

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: "algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma gran­de Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontra­va pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morren­do uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias clas­ses e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproxi­mavam de Deus.

(clique sobre a imagem para aumentá-la)


A interpretação foi feita pelo Vaticano, que perguntou a Lúcia se concordava. Esta, rapidamente confirmou a simbologia atribuída ao segredo. Mas Lúcia escreveu sempre porque lho pediram, e iniciava os seus escritos com declarações de obediência e humildade. Esclarece que as redige a pedido de outrem, e não por vontade própria.

Afinal, o bispo branco da revelação será João Paulo II ou tratar-se-á da morte simbólica da Igreja?
Este segredo só foi revelado na passagem do segundo milénio. Estou em crer que as estruturas não saberiam o que lhe fazer, como explicá-lo. A tentativa de assassinato de João Paulo II deu muito jeito.
Na verdade, a Igreja perdeu poder, tem vindo a perder poder, e os homens de branco, e todos os seus seguidores, têm vindo a ser destituídos; destruídos.
É
bem provável que o terceiro segredo, na prática o quarto, o qual a Igreja relaciona com a tentativa de assassinato do Papa por alguém sem comprovadas ligações ao comunismo, ou sequer à Rússia, seja a única profecia aceitável; a que terá sofrido menos intervenção no pós-aparição.
Talvez o último segredo anuncie o declínio de uma cultura eclesiástica falsamente sagrada que cobriu de cadáveres o chão que pisou. Mas, nesse caso, não faria sentido que o enviado divino de 1917 pertencesse ao panteão iconográfico católico. Nossa Senhora? E se a Senhora que apareceu na Cova da Iria, não fosse nossa nem senhora? É uma bela questão, não é?!

Este texto baseia-se na leitura de Memórias da Irmã Lúcia, 11ª ed., 2006, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima.
Optei por não incluir notas, quando me refiro às declarações de Lúcia, por se tratar de uma leitura sem fins científicos. No entanto, as notas referentes às páginas onde recolhi informação poderão vir existir, ou poderei fornecer essa indicação, caso exista interesse.
No que respeita ao texto dos segredos, baseei-me na parte final do livro (páginas 191 a 232).


Próximo episódio (assim que tiver tempo): como conseguiu Lúcia matar os primos à fome.

domingo, abril 29, 2007

As beatas da minha rua


Ouço sem querer as conversas das beatas que passam por mim a caminho da missa das onze, sozinhas ou em grupo, ruminando, enojando-se das cadelas, tendo muito medo que lhes esfacelem a cara e uma orelha; "os cães que se caguem" ou "merda para os cães" dizem, comentam com as outras, muito indignadas, todas enfarpeladas com fato de saia e casaco, e sapato de bico; e continuam devassando a vida da Almerinda, que é uma porca, e a da Angelina, por quem fizeram tudo e nada receberam, e o Eduardo, que não larga o vício, e os filhos já vão pelo mesmo caminho; os costumes das próprias famílias, uma chusma de mal agradecidos. Tudo está mal, tudo é mau e sujo e vicioso excepto o senhor padre, tão lavadinho, e o corpo de Cristo que se regalam de receber no seu.
Dou comigo a pensar que Deus Nosso Senhor havia de preferir que as beatas não frequentassem à missa, e que fossem umas reais porcas, umas incorrigíveis ingratas, umas viciadas e viciosas sem remissão, enfim, umas perdidas, como aquelas em cuja casaca vão tesourando a caminho da missa. Deus haveria de preferir que fossem cadelas como as minhas, que tanto as enojam. Se fossem cadelas, Deus abençoá-las-ia mesmo sem oração, por não haver nelas mancha de pecado. Haviam de roubar uns ossos do caixote do lixo, mijar no tapete de vez em quando, havia de ser uma luta para as meter na banheira, tirando isso, umas santas!
Mas o pior seria o senhor padre, que não aceitaria abençoar cães, nem pregar para eles nem dar-lhes a comunhão, por não estar habituado a pastorear rebanho tão puro. Contudo, se o senhor padre pregasse para os cães, oh, haveria de pregar muito mais certo!

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Como me puseram a andar da igreja em 5 minutos


Tenho uma igreja toda em pedra rústica, ocre, tal e qual uma casa de turismo de habitação, mesmo à beirinha do meu prédio. Por fora, ninguém dá um tostão pelo edifício, mas o interior é sóbrio, equilibrado, de muito bom gosto. Embora seja um lugar bonito, nunca lá vou. Tantas vezes me apeteceria sentar num local sossegado, e rezar, mas a igreja está quase sempre fechada, e não posso compreender que uma igreja feche a maior parte do dia.
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!

sexta-feira, setembro 01, 2006

A minha civilização

O papa João Paulo II absolveu Galileu Galilei da heresia de que foi acusado, ao defender que a Terra não era o centro do nosso sistema planetário.

Bento XVI, o 16º abençoado, prepara-se para discutir a teoria da evolução com antigos alunos.

Grave!

Começo a recear que após tantos séculos de doce prevaricação, a igreja católica ainda nos venha com conversetas sobre o onanismo não ser, afinal, um pecado mortal, ou, até mesmo, o desperdício de esperma para fins não reprodutivos!

Que piada é que a função terá depois? Não nos roubem as poucas actividades recreativas a que nos podemos dedicar gratuitamente, e que mantêm a sedutora aura do "ai, estou a portar-me tão mal!"

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Reflexões sobre a proximidade física post mortem

O senhor bispo auxiliar de Lisboa, Carlos Azevedo, afirmou, no Domingo, em entrevista ao programa Diga lá Excelência, da Rádio Renascença, que, no que respeita ao facto de a irmãzinha Lúcia ficar sepultada juntos dos priminhos, antes da sua canonização, o acto justifica-se por se tratar de "permitir a proximidade física a quem esteve unido numa experiência espiritual profunda".
Isto deixou-me muito preocupada, porque não sei quem foram, em vida, aqueles ao lado de quem o meu paizinho está enterrado. Que saiba, não viveram, em conjunto, qualquer experiência espiritual profunda, a não ser a do sopro de vida individual, independente, mas simultâneo. A verdade é que as campas ao lado da do meu pai nunca têm flores. Nem nos Finados, nem no Natal, nem na Páscoa. Nunca. Os homens terão sido rejeitados pela família? Foram criminosos? Um tem um nome estrangeiro, do qual muito desconfio. Porque se isto da proximidade física na cova é importante, então temos de fazer muitos levantamentos ali ao cemitério do Feijó, já que a minha querida prima D., e o marido, B, que viveram casados 60 anos, estão enterrados em extremidades opostas do referido cemitério. E, então, está tudo mal, porque esses viveram mesmo, uma experiência espiritual profunda.
Bem, mas, se calhar, como uns anos antes de morrer se tornaram Testemunhas de Jeová, talvez não tenha tanta importância!

quarta-feira, junho 29, 2005

Os católicos


Segundo notícia publicada na edição de hoje do Diário de Notícias:

Os senhores bispos pensam que a Educação Sexual nas escolas vai desencaminhar a juventude. Há quanto tempo os senhores bispos não vão às escolas?
No tempo em que os senhores bispos andavam na escola ou no seminariozinho, e a palavra sexo era impronunciável, não se lhes excitava a imaginação?
Colocar sob controle dos Encarregados de Educação a escolha dos professores da disciplina, seria divertido. Gostava de ver a fila de candidatos aguardando a entrevista com os representantes das Associações de Pais para ver testada a idoneidade moral. “O senhor é casado? Não? Então e mantém relações sexuais fora do casamento? Ah, não! Bem!”
Enquanto isso, os putos, no pátio, comentariam as candidatas, “Eh, pá, caralho, moca-me bem a loura grossa! Foda-se, chupava-lhe os ossos”, e, em simultâneo, movimentando a pélvis, mimariam segurar, com a esquerda, a anca traseira da senhora, aplicando palmadas com a direita. Isto se não fossem canhotos, que agora há muitos, todos sobredotados.
Os pais querem lá saber da escola (90% dos pais não pôe lá os pés)! Uma amiga minha, Directora de Turma, num ano lectivo inteiro, recebeu dois Encarregados de Educação!
Quando os senhores bispos escrevem a famigerada cartinha que considera fulano de tal, licenciado em História de Arte, e sem emprego, adequado para candidatura às funções de professor de Educação e Moral Religiosa Católica, conhecem realmente quem estão a indicar? Conto uma história ilustrativa: o ano passado, a tal amiga teve um colega, professor de Moral, louro, de olhos azuis, bonitão. Era das Matemáticas. O rapaz arranjou namorada, a qual, por sua vez, tinha outro namorado, o oficial, que não podia largar assim de um momento para o outro; a família, os bens já adquiridos em comum... Mas o professor de Moral lá a ia namorando, e contava os pormenores à minha amiga, embora ela dispensasse. Ora um dia, em plena travessia do pátio, entre pavilhões, num intervalo, o louro da Moral, veio de mansinho, agarrou-a bem pela cintura, detendo-a, encostou-se-lhe bem por trás e disse-lhe, “estás a sentir isto: foi o que lhe fiz a ela ontem.”
Este jovem louro pode ensinar moral católica? Cá para mim, sim.
E Educação Sexual? Para o senhor bispo, não, "esse devasso".

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...