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segunda-feira, agosto 22, 2005

A vida inteira

Conheci a Deolinda quando não passava de um patinho feio acabado de chegar de África, descalça, falando mal português, abandonada ao mundo pela política dos homens, e explorada pelos hábitos dos poderosos.
A Deolinda era doce. Calou-se a tudo, por instinto, fez o que lhe mandaram, estudou, cresceu, arranjou um trabalho público, de ajuda ao próximo, e teve uma filha lindíssima, a que chamou Mara.
Toda a gente conhece a história do patinho feio, mas eu já não me recordava e, por isso, a Mara, sete anos acabados de comemorar, foi procurar o seu livrinho com a história do patinho triste, porque queria ler-ma, já que não conseguia contar-ma. Bem, a Mara queria mostrar-me que já era capaz de ler, porque sabe que eu ensinei letras à mãe, quando ainda não passava de um patinho feio.
No final de cada página da história, e verdadeiramente condoída, eu exclamava,“coitadinho do patinho, mas ele é tão fofinho – não achas? - por que é que os outros o tratam mal?”
“Não sei”, respondia a Mara, olhando-me e sorrindo, concordando e avançando na história.
Conforme as páginas se iam voltando, todos os bichos e humanos, todos, todos, rejeitavam, pela sua excepcional fealdade, o meu belo patinho.
“Coitadinho, coitadinho”, ia repetindo a cada rejeição. “Eu gostaria dele mesmo que fosse feio, mas ele não é feio, pois não, Mara?” A Mara concordava e sorria, não, não era feio; ela gostava dele assim.
Mas, um dia, o patinho encontrou os belíssimos cisnes do lago: encolheu-se de vergonha, temeu ser visto e, de novo, humilhado, pelo que, sem coragem para enfrentar a rejeição, desejou a morte. Então, os cisnes disseram-lhe: “tu és belo. Olha-te no espelho das águas e vê como és belo. O patinho debruçou-se sobre as águas paradas do lago, e viu, no reflexo que devia ser o do seu próprio corpo, um belíssimo cisne.
Examinei a ilustração atentamente, levantei a cabeça, olhei em frente sem ver, como faço quando fico a pensar, fixando os olhos num ponto qualquer da vinha do avô da Mara, que me fitou, surpreendida. Eu tinha ficado séria, de repente, não comentara o final, e ela estava à espera.
“Então?”
Sorri para essa menina preciosa como todas as meninas.
“Compreendeste o final da história, Mara? Sabes quem é o patinho feio?”
”Sim, os cisnes gostam do patinho, mesmo sendo feio”, respondeu-me.
"Pois! Há sempre alguém que gosta de nós, mesmo quando não somos iguais, não é? Isso é bonito, Mara, não achas?"
A história do patinho feio crescerá com a Mara, transformar-se-á quando ela se transformar, e estará correcta a cada nova leitura.

O mundo perfeito, conheci-o com La Fontaine, Hans Christian Andersen, Dickens. O que li aos sete, não terá sido o que compreendi aos 12, mas permaneço fiel às histórias que fizeram de mim a Isabela. Acreditei nelas, e não tenho outra moral.
E enquanto pensava no patinho feio, e no que o transcende, e nos serve, a filha da patinha feia que me chegou às mãos em 1984, perguntou-me, infantil, mas tocada já pelo vírus do mundo perfeito, “Isabela, mas tu estás a chorar? Não ficaste contente?”

(...) Voou para a água e nadou em direcção aos magníficos cisnes. Estes viram-no e vieram ter com ele a toda a velocidade, agitando a plumagem.
—Vá, matem-me — disse o pobre patinho curvando a cabeça mesmo até à água enquanto esperava pelo fim.
Mas o que é que viu ele reflectido em baixo? Observou-se bem — já não era uma desajeitada ave feia e cinzenta. Era igual às orgulhosas aves brancas ali ao pé: era um cisne!
Não interessa nascer num terreiro de patos quando se sai de um ovo de cisne.
Sentiu-se feliz por ter sofrido tantas dificuldades, porque agora dava valor à sua boa sorte e ao lar que finalmente tinha encontrado. Os majestosos cisnes nadaram à sua volta e acariciaram-no com admiração com os bicos. Umas criancinhas apareceram no jardim e atiraram pão para a água e a mais pequenina gritou alegremente:
— Há mais um!
E as outras disseram, encantadas:
— E verdade, apareceu mais um cisne!
Bateram palmas e dançaram de contentamento; depois foram a correr contar aos pais. Deitaram mais pão e bolo para a água e todos disseram:
— O novo é o mais bonito de todos. Olhem que belo que é, aquele novo!
E os cisnes mais velhos curvaram as cabeças diante dele.
Ele sentia-se muito envergonhado e escondeu a cabeça debaixo de uma asa; não sabia o que fazer. Estava quase feliz de mais, porque um bom coração nunca é orgulhoso nem vaidoso. Lembrava-se dos tempos em que tinha sido perseguido e desprezado, e agora ouvia toda a gente dizer que era a mais bela de todas aquelas maravilhosas aves brancas. Os lilases curvaram os ramos até à água para o saudarem; o Sol enviou o seu calor amigo, e a jovem ave, com o coração cheio de alegria, agitou as penas, ergueu o pescoço esguio e exclamou:
— Nunca pensei que
alguma vez pudesse sentir tamanha felicidade quando era o patinho feio!
Hans Christian Andersen, O Patinho Feio

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...