Tenho uma igreja toda em pedra rústica, ocre, tal e qual uma casa de turismo de habitação, mesmo à beirinha do meu prédio. Por fora, ninguém dá um tostão pelo edifício, mas o interior é sóbrio, equilibrado, de muito bom gosto. Embora seja um lugar bonito, nunca lá vou. Tantas vezes me apeteceria sentar num local sossegado, e rezar, mas a igreja está quase sempre fechada, e não posso compreender que uma igreja feche a maior parte do dia.
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!