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segunda-feira, outubro 13, 2008

Outro suave milagre




Perto da casa da minha mãe havia um conjunto de casas velhas com arquitectura operária, típica desta zona de Almada, datando dos anos 20 do século passado. As casas estavam abandonadas, por fim, graças aos esforços de certos empreiteiros que conseguiram expulsar quem lá morava a custo de nada. A zona é privilegiada pela localização, fácil acesso e profusão de transportes. Interessa ao capital.

Ao redor das casas velhas desenvolveu-se vegetação de toda a espécie. As roseiras que por lá existiam tornaram-se selvagens, as trepadeiras continuaram a desenvolver-se, as figueiras a dar figos, os aloes vera engrossaram. De vez em quando gostava de me enfiar lá para trás com as cadelas. Era uma terra de ninguém com gatos e ratos e lagartixas. Metia um bocado de medo. Havia um certo sabor a pecado, a paraíso perdido, a uma solidão que me faz respirar fundo como se tivesse chegado a casa.
No final do Verão, os empreiteiros deram ordem para demolir as casas e vieram máquinas.
O interior de uma destas casas albergava ainda o recheio da última moradora, arruinado, é certo, mas era aí que os gatos vadios se abrigavam e as gatas pariam.
Nas casas velhas havia cerca de 12 gatos adultos, uma ninhada acabada de nascer e outra já crescidinha. Quando os homens vieram, pedimos-lhes que tivessem cuidado ao derrubar as paredes; que havia por lá bichinhos vadios que alimentávamos e estimávamos. O homem era novo. Um rapaz simpático que gostava de bichos e que nos disse logo que sim, que ia ter cuidado. Depois veio o capataz, um velho gordo e desbarrigado com verrugas no nariz. Disse-nos logo que não, com muito maus modos; que não podiam estar ali com cuidados e perda de tempo por causa de meia dúzia de gatos vadios. Que nós éramos mas era malucas.
Deixámo-nos estar.
A Teresinha, que teve uma embolia cerebral há seis meses, chorava. Eu agarrava-lhe a mão e pedia-lhe que não se enervasse. A Marília punha as mãos na cabeça. Os gatinhos, santo Deus! Vão morrer soterrados. Como é que podem salvar-se se aquilo cai tudo duma vez em cima deles. E o pó. Os gatinhos, meu Deus, que estavam todos no forro da casa. Se a gata conseguisse trazê-los cá para fora...
No outro dia, o rapaz da máquina veio cedo e começou os trabalhos. Foi demolindo lentamente. Alguns gatos saltaram. Vimo-los fugir. Outros assomavam, mas voltavam para dentro, com medo da máquina, do barulho. Conseguimos localizar e salvar a ninhada. Não vimos os gatos pequeninos que já andavam pelo seu pé. O rapaz manobrou a máquina como um santo, se é que isto se pode dizer da manobro de máquinas. O rapaz era um santo, e isto pode dizer-se, tenho a certeza.
Ao final do dia, as casas estavam no chão, e era necessário contabilizar mortos e feridos, o que só se poderia realizar à hora da comida. Os que estivessem vivos sairiam dos esconderijos e apareceriam debaixo da figueira maior, cheios de fome. Para nossa alegria, apareceram quase todos, menos uns pequeninos, que no dia seguinte, à luz do dia, localizámos no meio das pedras e do pó, em mau estado; quase não se ouviam os batimentos dos seus corações. Estavam a ficar longe, muito longe. Limpámo-los. Molhámo-los. Fizemos-lhe respiração boca-a-boca. Massajamos-lhes os tórax exactamente como se prestam os primeiros socorros a uma pessoa, e os gatinhos reanimaram-se. Tossiram. Respiraram com dificuldade, cansados, confusos, mas vivos. Tratámos deles com amor e arranjámos-lhes donos.
Nesse dia do final deste Verão achámos que tínhamos testemunhado um milagre e realizado outro. Ninguém nos tira esta ideia da cabeça.


Nota: os gatos vadios continuam todos por aqui. A nossa prioridade é esterilizar as gatas, o que é caro. Optamos por dar-lhes anticoncepcionais, o que também é caro, mas menos.
Os gatos vadios garantem-nos que uma parte do nosso mundo, nós não!, mas uma parte do nosso mundo permanece indomesticável.


segunda-feira, junho 16, 2008

Abriu só um olho

Comentário de Luís Graça ao poste "Toca-me":


"Uns vizinhos meus tinham um cão em casa. Quando o cão ia ao quintal dava-lhe para correr atrás dos gatos vadios. Os gatos vadios fugiam.

Dois meses depois fui à janela e vi o cão deitado no quintal, em plena escada de acesso ao terraço. Deitados ao lado dele, dois gatos. Todos a apanhar sol. Chegou mais um gato vadio, pé ante pé. Cheirou o focinho ao cão. O cão abriu um olho, levantou o focinho e tornou a deitar-se.

O gato deitou-se ao lado dele. Ficou a olhar em frente e a abanar o rabo."

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...