Um velho amigo garantiu-me que a Irmã Lúcia era uma dissimulada. Que forjara todo o culto mariano. Que as pessoas acreditam numa farsa. Insultou-a sem piedade. Não questionei a farsa, mas recordando o bestial queixo largo da pastora, respondi-lhe que Lúcia não me parecia ter inteligência para tanto.
Fizemos uma aposta. Eu deveria ler um certo livro sobre as memórias de Lúcia. Assim fiz, comprei na FNAC uma 11ª edição das Memórias da Irmã Lúcia, editado pelo Secretariado dos Pastorinhos em Fevereiro de 2006, e li tudo.
Isto aconteceu há um par de meses.
O meu pai nasceu prematuro, em 1924. Correndo o risco de morrer nos primeiros dias de vida, baptizaram-no à pressa na igreja matriz das Caldas da Rainha, tomando como padrinho o pároco que realizou a cerimónia, e, por madrinha, a Senhora de Fátima. Este facto permite-me confirmar que a fama da Senhora de Fátima tinha crescido a um ponto em que, sete anos após o seu aparecimento, apadrinhava baptismos de crianças cuja vida fraquejava.
Graças à sua madrinha, pelo menos ele o cria, o meu pai tornou-se forte, inteligente, cheio de vida, e, se exceptuarmos uma ou outra coisita duvidosa do ponto de vista do comportamento social, de que já aqui falei, sobretudo nos textos sobre África, foi um homem exemplar.
Toda a sua vida foi devoto a Nossa Senhora, deslocando-se a Fátima cada vez que vinha a Portugal. Se a vida lhe corria bem, a madrinha protegia-o; se lhe corria mal, a madrinha castigava-o de um qualquer pecado que deveria expiar em Fátima. Sempre lhe chamou a sua madrinha.
Quando o meu pai morreu, há seis anos, fui eu que lhe fechei na mão fria uma imagem muito bonita da Senhora, que a minha mãe tinha em casa, na mesa-de-cabeceira. "Para que ela o proteja", disse-me. Não questionei - eu nunca questionei a fé dos meus pais, mesmo quando recusei participar - e lembro-me de lha ter querido fechar na mão direita, que já não fechava. Apertei-lhe a mão grande e tisnada à volta da figura, com a minha, mas os dedos não se dobraram. A senhora não ficou, pois, totalmente encerrada no corpo do meu pai, como eu quis. Poderia ter fugido, se quisesse. Eu não sei se a Senhora existe, mas quis que algo, alguém protegesse o meu pai para sempre, já que eu não poderia fazê-lo mais - e fi-lo sempre mal.
Acreditar na Senhora é isto.
Ao longo da minha vida, e dos meus sucessivos períodos de fervor ou crise espiritual, tenho-me interrogado sobre os múltiplos segredos que envolvem os acontecimentos de Fátima, assunto pelo qual sou fascinada. A revelação dos segredos não explica o fenómeno. Adensa-o.
Não posso esconder que, embora esteja disposta a ouvir e considerar todas as teorias, estou convencida que, em 1917, aconteceu, de facto, naquela zona de Fátima, situada no triângulo da Bermudas português (Tomar-Fátima-Ourém), um fenómeno de natureza ainda desconhecida; é possível que os três pastores, entre outros, tenham sido suas testemunhas.
No entanto, milhares de questões nos meandros da história não fazem sentido. Lúcia, a sobrevivente, foi uma personagem crucial nisto tudo. Parece-me uma verdadeira madame de Merteuil à portuguesa, e pretendo dedicar alguma atenção a esta figura, em futuros postes. Conforme ia lendo as suas humildes e santas memórias, mais me convencia de que esta mulher manipulou mais do que uma santa deve, ou se atreve.
Amanhã, pretendo publicar e questionar, na medida do possível, as revelações contidas nos três segredos de Fátima.