
O filme A Turma, ainda em exibição, veio despertar as consciências para o que é hoje a escola, e as opiniões sucedem-se na blogosfera. Pretendo comentar esta, não porque discorde, mas porque me parece importante clarificar alguns aspectos.
O saber não ocupa lugar, dizia-me o meu pai todos os dias. Não estou a exagerar: era todos os dias. O meu pai nunca foi um sábio, pouco frequentou a escola, mas tinha a convicção de que o saber não era demais. Não estava em questão se esse saber me era ou me iria ser útil, mas o facto de ser sabedoria, e de o valor universal da sabedoria não admitir discussão. O meu pai estava certo. Lamento tudo o que não aprendi por preguiça ou arrogância.
O que é a escola? O que foi a escola desde o tempo dos gregos, em que não se aprendia álgebra nem filosofia para fins profissionais?! Na minha opinião, a escola é o lugar onde nos mostram como se poderá chegar à sabedoria, mediante uma quantidade razoável de esforço e persistência; o docente revela-nos onde se encontram guardados os mistérios que ainda não conhecemos, todos os princípios gerais sobre o funcionamento do nosso mundo, e ajuda-nos a ler teorias eventualmente complexas, a pensá-las, tornando-as mais transparentes ao recriá-las através de metáforas e alegorias, para que possamos ver mais facilmente, ou seja, criar o percurso que nos levará ao saber. A escola não é um livro aberto, uma definição. A escola não serve para ensinar o que já é sabido. Ninguém vai à escola para aprender a dizer "bué da fixe". Já sabemos dizer "bué da fixe". No máximo, iremos à escola estudar o contexto de formação das gírias.
A capacidade de ver, ou seja, de saber, não é definível como algo objectivo cujo fim serve para aplicação directa em a ou b. Nem eu nem a maior parte dos leitores sabemos exactamente para que nos serviu uma série de saberes que aprendemos na escola. É muito provável que alguns desses conteúdos tenham apenas sido um belo pretexto para disciplinar, estruturar a nossa matéria intelectual. O poder da leitura, por exemplo, age no leitor muito para além da fruição imediata que lhe chega da identificação com a acção e as personagens. Ler é também treinar a capacidade linguística. O que uma criança leitora faz enquanto lê é equivalente, do ponto de vista do desenvolvimento das suas capacidades linguísticas, ao treino diário de um atleta. Quando mais corre, quanto mais aguenta, melhor correrá, mais correrá, a sua performance tornar-se-á excelente. Por outrao lado, não existe um pensamento especulativo, criativo e produtivo sem capacidades verbais. Verbalizar melhor não implica apenas comunicar melhor, mas pensar melhor. O pensamento precisa da linguagem. Por isso a treinamos, lendo, não apenas para descobrir, chegados à pagina 327, que Simão vai para o degredo, coitadinho, e morre, e Teresa também, e que já agora, Mariana se suicida. Claro que tudo isto é sumamente interessante, mas o mais interessante ainda, é que de morte em morte se vai formando a capacidade de pensar. E é disso que precisamos no mundo: de pessoas capazes de pensar abrangentemente. Esta é a função da escola: produzir esses agentes de pensamento. Para a seguir criarem, transformarem.

Que um aluno do 8º ano questione a utilidade do uso do modo conjuntivo porque no seu meio não o utiliza, é grave. Não é apenas grave para o professor, coitado, mas para a sociedade no seu conjunto. O uso do conjuntivo não é uma opção porque o aluno lá em casa nunca ouviu, porque no seu bairro não se fala. A única falha admissível, para um falante de uma língua materna como o francês ou o português, é desconhecer que nome dar à estrutura verbal chamada conjuntivo, ou não saber quais as características línguisticas do modo em questão, mas deter a competência para o usar em situações comuns de fala é uma obrigatoriedade; deveria ser uma capacidade adquirida antes de chegar à escola. Quando pela primeira vez na minha vida estudei o modo conjuntivo, limitei-me a reconhecer e a nomear um modo que já usava a cada três minutos. Aprendi falando e ouvindo falar, porque os meus pais, e aqueles que me estavam próximos, e que não eram sábios, conjugavam o conjuntivo, intuitivamente, como normais falantes de Português, língua materna. Assim falavam os seus pais e os seus avós. A língua muda, está muito certo, mas cuidado com aquilo que na língua muda. As alterações lexicais, ortográficas, e até as semânticas, são diárias, e não afectam o "esqueleto" da língua, mas uma alteração ao nível da ordem sintáctica, como por exemplo o mau uso do conjuntivo, pode muito bem corresponder a uma espécie de eliminação da vértebra L1 ou C3. E os problemas nas vértebras, bem como tudo o que me meta coluna vertebral, dói muito.
Creio que o que estaria em causa, ao aceitar-se que um aluno não teria que conhecer o conjuntivo e saber usá-lo, seria uma amputação linguística com as consequências ao nível do pensamento. Seria aceitar igualmente uma amputação do pensamento. E isso tem acontecido. Estes alunos são a prova.

Se os alunos de hoje não reconhecem o conjuntivo e não o usam, é porque os seus pais também perderam essa capacidade de falar, logo pensar. Ou seja, os portugueses não sabem falar a sua língua; a ignorância linguística chegou a um ponto tal que não só a língua se degradou, como, consequentemente, se degradaram a identidade e outros valores fundamentais, sendo que um deles foi pensar-se que era possível viver sem esforço, sem disciplina.
Não é obrigação da escola adaptar-se à ignorância nem à preguiça nem à facilidade enquanto forma de vida, mas ensinar o conjuntivo a quem não o sabe, independentemente de o quererem usar, embora, eu, muito sinceramente, não esteja neste momento a ver a alternativa sintáctica a um "a minha mãe não quer que eu faça". Será que devemos dizer, "a minha mãe não quer que eu fazer"?! Estaremos a brincar ao linguajar dos bebés?!
Um dos objectivos nos quais assentou o actual modelo de ensino, obtendo total sucesso, teve a ver com o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos. Creio que nunca os alunos tiveram tanto espírito crítico como nos dias de hoje, o que é óptimo quando se critica com argumentos, com base num discurso reflectido e bem articulado.
A escola de hoje, não vale a pena tapar o sol com a peneira, é um espaço de constante questionamento dos saberes, e isso é perfeitamente legítimo e desejável, desde que se baseie numa atitude de construção, desde que se cumpram as regras do debate; mas o questionamento gratuíto, só porque sim, porque não nos apetece, não tem estrada por onde caminhar, porque não lhe cabe resposta neste contexto. É para outro lugar.
Quando o professor do filme A Turma responde à aluna que a decisão sobre usar ou não um nível de língua cuidado depende da intuição, talvez faça mais do que o que lhe é pedido. Não se encontra de facto a responder a uma dúvida linguística, mas ao questionar de uma ordem do mundo: a língua tal como é falada por quem a fala correctamente, ou seja, segundo os alunos daquela turma, os burgueses; eu, por exemplo. O que a aluna lhe está a dizer é "eu não sou capaz de falar dessa forma, nem quero aprender, porque essa é a linguagem dos integrados, e eu não sou um deles." O que ela questiona é toda uma identidade. Um mundo. Porque a língua é isso: a identidade a que o uso do pensamento nos habilita, e em todas as suas acepções. Esse inábil questionar do mundo pode refectir-se na escola, mas cabe-lhe resolver-se fora dela, porque a escola obrigatória não pode ser um campo de batalha sem graves consequências para a qualidade das aprendizagens, nem os professores são soldados habilitados para tal combate.
Qualquer pessoa com valores devidamente formados sabe se pode usar com o interlocutor x a expressão "bué da fixe". Todos temos uma intuição sobre as relações de poder que permitem o uso de tal expressão. E essa aluna, à sua maneira, também a tem. Mantenho, pois, que a sua dúvida não é linguística, não é escolar, ou sê-lo-á apenas na medida em que as dúvidas existenciais são escolares. O problema principal que se põe na aula do professor deste filme é sobretudo um problema de valores. Aqueles rapazes e raparigas não sabem o que é falar bem ou falar mal como não sabem o que é pensar bem e mal. Falam. Pensam. Sentem qualquer coisa. Qualquer coisa que não está bem mas que não compreendem, como uma doença não diagnosticada. E nisso não se distinguem de um cão que ladra. Imitem sons, mas perderam o direito ao benefício do uso de uma língua, tal como perderem o poder que isso confere. São jovens destituídos de poder e de valores, num ciclo vicioso, o qual, como escreve a autora do poste que comento, não cabe à escola resolver. Os princípios da escola não se lhes aplicam. Podem ser integrados numa turma de currículos alternativos, o que lhes dará a eles, e à sociedade, a ilusão de estarem minimamente escolarizados; apenas frequentaram a escola, não a usaram. E eles têm a intuição disso. Têm-na, e é essa enorme frustração que trazem para a escola. Não poderem, não serem capazes de se tornar iguais aos que falam e decidem. Penso que esta perda de linguagem, de pensamento, de identidade, é um dos maiores dramas do mundo civilizado.