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domingo, dezembro 28, 2008

Monstros que a minha geração criou


A professora não gostou da brincadeira. O filme mostra-a ameaçando o aluno com falta disciplinar. Contudo, a simulação de um disparo com a pistola de plástico, e de socos, acompanhados da pergunta-ameaça, "então, dá positiva ou não dá?!" continua à sua frente e, quando se senta, nas suas costas. Ultrapassa a mera brincadeira, embora a professora se sinta impotente relativamente à situação. Pode marcar falta disciplinar, de facto, mas aquela é a última aula do período, o objectivo é apenas falar sobre classificações, fazer a auto-avaliação, sair mais cedo. Deveriam estar todos sentados nos seus lugares? Deveriam! Deveriam estar calados, ouvindo, para depois se pronunciarem? Deveriam! O que andam aqueles miúdos a fazer em pé, de volta da professora, gozando, numa atitude nada própria de uma sala de aula? O que pode um professor fazer, nos dias de hoje, perante uma situação de desrespeito grave, sozinho numa sala cheia de jovens que não possuem consciência do que seja isso do respeito, e à mercê de prováveis violências físicas ou verbais? Os professores já não geram medo, nem respeito, e a questão não está no não se darem ao respeito, mas no não conseguirem ser respeitados, porque já não se respeita ninguém. Essa é a lei.
Para estes miúdos dos bairro do Cerco ou da Quinta da Princesa ou das melhores escolas de Almada, tudo e todos devem servi-los, garantir o seu conforto, a sua predominância social e poder, que não dependem da cultura que adquiriram, mas da aparência que projectam.
Estes monstros foram criados pela minha geração.
A educação está mal, porque está seriamente doente fora da escola.


domingo, novembro 23, 2008

O maior drama do mundo civilizado



O filme A Turma, ainda em exibição, veio despertar as consciências para o que é hoje a escola, e as opiniões sucedem-se na blogosfera. Pretendo comentar esta, não porque discorde, mas porque me parece importante clarificar alguns aspectos.

O saber não ocupa lugar, dizia-me o meu pai todos os dias. Não estou a exagerar: era todos os dias. O meu pai nunca foi um sábio, pouco frequentou a escola, mas tinha a convicção de que o saber não era demais. Não estava em questão se esse saber me era ou me iria ser útil, mas o facto de ser sabedoria, e de o valor universal da sabedoria não admitir discussão. O meu pai estava certo. Lamento tudo o que não aprendi por preguiça ou arrogância.

O que é a escola? O que foi a escola desde o tempo dos gregos, em que não se aprendia álgebra nem filosofia para fins profissionais?! Na minha opinião, a escola é o lugar onde nos mostram como se poderá chegar à sabedoria, mediante uma quantidade razoável de esforço e persistência; o docente revela-nos onde se encontram guardados os mistérios que ainda não conhecemos, todos os princípios gerais sobre o funcionamento do nosso mundo, e ajuda-nos a ler teorias eventualmente complexas, a pensá-las, tornando-as mais transparentes ao recriá-las através de metáforas e alegorias, para que possamos ver mais facilmente, ou seja, criar o percurso que nos levará ao saber. A escola não é um livro aberto, uma definição. A escola não serve para ensinar o que já é sabido. Ninguém vai à escola para aprender a dizer "bué da fixe". Já sabemos dizer "bué da fixe". No máximo, iremos à escola estudar o contexto de formação das gírias.

A capacidade de ver, ou seja, de saber, não é definível como algo objectivo cujo fim serve para aplicação directa em a ou b. Nem eu nem a maior parte dos leitores sabemos exactamente para que nos serviu uma série de saberes que aprendemos na escola. É muito provável que alguns desses conteúdos tenham apenas sido um belo pretexto para disciplinar, estruturar a nossa matéria intelectual. O poder da leitura, por exemplo, age no leitor muito para além da fruição imediata que lhe chega da identificação com a acção e as personagens. Ler é também treinar a capacidade linguística. O que uma criança leitora faz enquanto lê é equivalente, do ponto de vista do desenvolvimento das suas capacidades linguísticas, ao treino diário de um atleta. Quando mais corre, quanto mais aguenta, melhor correrá, mais correrá, a sua performance tornar-se-á excelente. Por outrao lado, não existe um pensamento especulativo, criativo e produtivo sem capacidades verbais. Verbalizar melhor não implica apenas comunicar melhor, mas pensar melhor. O pensamento precisa da linguagem. Por isso a treinamos, lendo, não apenas para descobrir, chegados à pagina 327, que Simão vai para o degredo, coitadinho, e morre, e Teresa também, e que já agora, Mariana se suicida. Claro que tudo isto é sumamente interessante, mas o mais interessante ainda, é que de morte em morte se vai formando a capacidade de pensar. E é disso que precisamos no mundo: de pessoas capazes de pensar abrangentemente. Esta é a função da escola: produzir esses agentes de pensamento. Para a seguir criarem, transformarem.



Que um aluno do 8º ano questione a utilidade do uso do modo conjuntivo porque no seu meio não o utiliza, é grave. Não é apenas grave para o professor, coitado, mas para a sociedade no seu conjunto. O uso do conjuntivo não é uma opção porque o aluno lá em casa nunca ouviu, porque no seu bairro não se fala. A única falha admissível, para um falante de uma língua materna como o francês ou o português, é desconhecer que nome dar à estrutura verbal chamada conjuntivo, ou não saber quais as características línguisticas do modo em questão, mas deter a competência para o usar em situações comuns de fala é uma obrigatoriedade; deveria ser uma capacidade adquirida antes de chegar à escola. Quando pela primeira vez na minha vida estudei o modo conjuntivo, limitei-me a reconhecer e a nomear um modo que já usava a cada três minutos. Aprendi falando e ouvindo falar, porque os meus pais, e aqueles que me estavam próximos, e que não eram sábios, conjugavam o conjuntivo, intuitivamente, como normais falantes de Português, língua materna. Assim falavam os seus pais e os seus avós. A língua muda, está muito certo, mas cuidado com aquilo que na língua muda. As alterações lexicais, ortográficas, e até as semânticas, são diárias, e não afectam o "esqueleto" da língua, mas uma alteração ao nível da ordem sintáctica, como por exemplo o mau uso do conjuntivo, pode muito bem corresponder a uma espécie de eliminação da vértebra L1 ou C3. E os problemas nas vértebras, bem como tudo o que me meta coluna vertebral, dói muito.

Creio que o que estaria em causa, ao aceitar-se que um aluno não teria que conhecer o conjuntivo e saber usá-lo, seria uma amputação linguística com as consequências ao nível do pensamento. Seria aceitar igualmente uma amputação do pensamento. E isso tem acontecido. Estes alunos são a prova.



Se os alunos de hoje não reconhecem o conjuntivo e não o usam, é porque os seus pais também perderam essa capacidade de falar, logo pensar. Ou seja, os portugueses não sabem falar a sua língua; a ignorância linguística chegou a um ponto tal que não só a língua se degradou, como, consequentemente, se degradaram a identidade e outros valores fundamentais, sendo que um deles foi pensar-se que era possível viver sem esforço, sem disciplina.

Não é obrigação da escola adaptar-se à ignorância nem à preguiça nem à facilidade enquanto forma de vida, mas ensinar o conjuntivo a quem não o sabe, independentemente de o quererem usar, embora, eu, muito sinceramente, não esteja neste momento a ver a alternativa sintáctica a um "a minha mãe não quer que eu faça". Será que devemos dizer, "a minha mãe não quer que eu fazer"?! Estaremos a brincar ao linguajar dos bebés?!

Um dos objectivos nos quais assentou o actual modelo de ensino, obtendo total sucesso, teve a ver com o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos. Creio que nunca os alunos tiveram tanto espírito crítico como nos dias de hoje, o que é óptimo quando se critica com argumentos, com base num discurso reflectido e bem articulado.

A escola de hoje, não vale a pena tapar o sol com a peneira, é um espaço de constante questionamento dos saberes, e isso é perfeitamente legítimo e desejável, desde que se baseie numa atitude de construção, desde que se cumpram as regras do debate; mas o questionamento gratuíto, só porque sim, porque não nos apetece, não tem estrada por onde caminhar, porque não lhe cabe resposta neste contexto. É para outro lugar.
Quando o professor do filme A Turma responde à aluna que a decisão sobre usar ou não um nível de língua cuidado depende da intuição, talvez faça mais do que o que lhe é pedido. Não se encontra de facto a responder a uma dúvida linguística, mas ao questionar de uma ordem do mundo: a língua tal como é falada por quem a fala correctamente, ou seja, segundo os alunos daquela turma, os burgueses; eu, por exemplo. O que a aluna lhe está a dizer é "eu não sou capaz de falar dessa forma, nem quero aprender, porque essa é a linguagem dos integrados, e eu não sou um deles." O que ela questiona é toda uma identidade. Um mundo. Porque a língua é isso: a identidade a que o uso do pensamento nos habilita, e em todas as suas acepções. Esse inábil questionar do mundo pode refectir-se na escola, mas cabe-lhe resolver-se fora dela, porque a escola obrigatória não pode ser um campo de batalha sem graves consequências para a qualidade das aprendizagens, nem os professores são soldados habilitados para tal combate.

Qualquer pessoa com valores devidamente formados sabe se pode usar com o interlocutor x a expressão "bué da fixe". Todos temos uma intuição sobre as relações de poder que permitem o uso de tal expressão. E essa aluna, à sua maneira, também a tem. Mantenho, pois, que a sua dúvida não é linguística, não é escolar, ou sê-lo-á apenas na medida em que as dúvidas existenciais são escolares. O problema principal que se põe na aula do professor deste filme é sobretudo um problema de valores. Aqueles rapazes e raparigas não sabem o que é falar bem ou falar mal como não sabem o que é pensar bem e mal. Falam. Pensam. Sentem qualquer coisa. Qualquer coisa que não está bem mas que não compreendem, como uma doença não diagnosticada. E nisso não se distinguem de um cão que ladra. Imitem sons, mas perderam o direito ao benefício do uso de uma língua, tal como perderem o poder que isso confere. São jovens destituídos de poder e de valores, num ciclo vicioso, o qual, como escreve a autora do poste que comento, não cabe à escola resolver. Os princípios da escola não se lhes aplicam. Podem ser integrados numa turma de currículos alternativos, o que lhes dará a eles, e à sociedade, a ilusão de estarem minimamente escolarizados; apenas frequentaram a escola, não a usaram. E eles têm a intuição disso. Têm-na, e é essa enorme frustração que trazem para a escola. Não poderem, não serem capazes de se tornar iguais aos que falam e decidem. Penso que esta perda de linguagem, de pensamento, de identidade, é um dos maiores dramas do mundo civilizado.


domingo, novembro 09, 2008

A escola, o Inferno



Encontra-se em exibição, com assinalável sucesso, o filme A Turma, de Laurent Cantet, versando os temas quentes da escola dos nossos dias: uma insolência que consiste em considerar a ignorância legítima, sem argumentos, apenas porque é chato estudar, desafiando de forma desconcertante a utilidade do saber. Uma insolência confundida com diálogo, onde não existe sequer capacidade para o diálogo, apenas um desrespeito soez.
O filme é fraquinho, com personagens estereotipadas, como o professor bonzinho e sensível, o professor inflexível e racional, o director carrancudo e formal, as professoras preocupadas com os problemas docentes dos colegas, por quem podem ter um eventual fraquinho, e os alunos problemáticos, todos imigrantes.
Contudo, como disse, o filme vende. Tenho uma teoria: todas as pessoas sentem uma certa nostalgia da escola, de onde saíram e onde não regressaram. Sentir saudades da escola é uma forma de nos mantermos ligados à nossa juventude e a esse tempo bom em que éramos apenas limitadamente responsáveis. Ainda não tínhamos de ser adultos nem de levar com todo este lixo social e profissional que aguentamos todos os dias. Há uma certa aura de inocência e de liberdade ligada a esses tempos. Por isso, todos têm opiniões sobre a escola, como pais ou como observadores. Todos lá queriam estar para mudar, para fazer melhor, para transformar todos aqueles rapazes e raparigas perdidos para o ensino em Clubes de Poetas Vivos.
Mas a escola real tornou-se um lugar deprimente onde ninguém é livre. Já não há lugar para os bons professores, aqueles que entusiasmavam uma turma sem quadros interactivos, apenas com a voz, um texto, o quadro negro, um pau de giz. Estamos na era da aula em power point, com uniformização dos procedimentos. O bom professor é o que aguenta 12 horas de trabalho, que os power points dão trabalho, não mija fora do buraco, aguenta as bocas dos alunos que consideram a matéria uma merda, e até lhes perguntam, então e por que acham V. Exas. que é uma merda? Vamos dialogar. Os senhores não pensam, recusam pensar, não reconhecem o valor do pensamento, mas estou disposto a ouvi-los, façam favor de me sujar com a vossa opinião de rebeldes sem causa. Façam o favor de me insultar mais um bocadinho, porque é para isso que aqui estou.
A escola tornou-se um lugar em que ensinar se transformou no que há de mais secundário. Importante é preencher papéis com planificações e objectivos que visam cumprir formalidades, e realizar reuniões para aferir critérios e competências e objectivos irrealistas, eduquês, eduquês para arquivo, porque no fundo, no fundo, no fundo, toda a gente na escola sabe que quer os alunos aprendam, quer não aprendam, são para passar. Todos os crimes são sem castigo.
Os nostálgicos da escola não haveriam de querer saber o Inferno em que esta se tornou.

terça-feira, outubro 09, 2007

Grandes campanhas falhadas II


Todos leram nos jornais que o Ministério da Educação tem estado a oferecer computadores portáteis, bem como respectiva placa para banda larga, aos alunos do secundário que beneficiam do escalão 1 da Acção Social Escolar (ASE), ou seja, aqueles cujo rendimento do agregado familiar é tão baixo que não chega para pagar a conta da electricidade doméstica. Os alunos do escalão 2, cujos familiares conseguem pagar a electricidade de vez em quando, mas que mandaram desligar o telefone, beneficiam de um desconto bastante vantajoso. Os restantes alunos sem benefícios sociais podem obter o mesmo portátil pelo valor inicial de 150 euros, mediante contrato de fidelização com uma empresa de telecomunicações, e por módica quantia. Grande negócio. Para todos: empresa, governo, e, por último, os alunos.

Eu estudei sem computador. Batia os trabalhos à máquina e requisitava livros na biblioteca. O computador, o acesso à net e os downloads não me beneficiaram. Não tenho nada contra a internet. Já nem vivo sem ela. Bem usada é útil a todos. Mas acordemos que o sucesso escolar não depende da posse de um portátil pessoal, em nenhum nível de ensino. Pelo contrário, conheço alunos, alguns são da minha família, cujos pais precisaram de lhes vedar o acesso ao computador para que começassem a tirar uma ou outra positiva de vez em quando.
Creio que a fabulosa campanha "1 aluno, 1 computador" se transformará, no final do ano lectivo, em "a cada aluno o seu chumbo". O barato sai sempre caro.

domingo, setembro 23, 2007

As salas de aula das escolas públicas



O Ministério da Educação considera que a DECO não tem competência para avaliar as condições ambientais nas salas de aula das escolas públicas, nomeadamente temperatura, circulação de ar e humidade.
Embora compreenda os fundamentos da reacção de Maria de Lurdes Rodrigues, uma vez que o seu ministério é veículo da maior parte das acções de propaganda do governo que integra, considero-a inteiramente responsável pelos ataques discriminatórios que são hoje feitos à escola pública por parte dos lobbies privados - os quais poderão estar na origem do estudo da DECO, ou não.
Maria de Lurdes Rodrigues criou a injusta má imagem que hoje a sociedade tem da escola pública, e dos seus agentes, e pagou-a com dinheiro dos nossos bolsos.
Pela minha parte, não matricularia um filho meu numa escola privada mesmo que a pudesse pagar, e talvez pudesse. Nenhuma escola privada pode garantir melhor educação que uma escola pública, e o motivo é muito simples: o ensino nas escolas privadas continua a ser mantido, em grande parte, por "perninhas" de uma ou duas turmas que os professores das escolas públicas aí fazem com o objectivo de alcançar mais uns tostões. O que as escolas privadas têm, é alunos cujos pais podem pagar melhores explicadores, melhor material e todo um suporte educativo que alguns dos que estão nas escolas públicas nunca conheceram e nunca poderão oferecer aos seus próprios filhos.
As escolas privadas não têm de fazer médias com meninos que vêm do bairro da lata; com meninos que só comem quando comem na escola; com meninos cujos pais saem de casa para o trabalho à hora a que eles entram, e que ainda não chegaram quando toca o despertador de manhã, e que nem sequer lá estão para lhes lavar a roupa, passá-la, dar-lhes o pequeno-almoço e beijá-los. Por este motivo, e só este, as médias das escolas públicas não podem competir com as das escolas privadas.
Agora, quanto às condições ambientais nas salas de aulas das escolas públicas, cada um de nós, que aí tem filhos, sobrinhos, afilhados e vizinhos reconhece que a DECO não errou. Cada um de nós sabe que mesmo nas melhores escolas públicas do país, os alunos permanecem com os quispos vestidos nas salas, onde a temperatura média rondará os 12/14º, no Sul, todo o Inverno, e que em Maio dificilmente aí respiram, transpirando hormonas até à náusea colectiva. É um facto que qualquer jornalista poderá constatar em entrevistas aos estudantes à saída dos portões das escolas. E o ministério sabe-o muito bem.

(Muitas professoras e professores lêem O Mundo Perfeito. Gostaria de lhes pedir que aqui se manifestassem relativamente às condições das salas de aula nas quais leccionam.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...