Todos os dias saio à rua com o mesmo manto. Inverno ou Verão. Quem não me conhecer não acreditará.
É um longo manto de boa tecelagem, confeccionado em diferentes texturas e cores, acrescentado ao longo dos anos e todo bordado a pedraria. Profusas hematites espalhadas a todo comprimento. Turquesas e opalas razoavelmente distribuídas. Cornalina e jaspe, uns poucos. Olho-de-tigre, citrino e ametistas ocasionais. Os acrescentos periódicos foram-lhe conferindo um aspecto patchwork um tanto hippie. Não é um luxuoso manto de azevinho como usam os reis nos contos populares. Arrasta pelo chão sujeito aos elementos. Molha-se. Suja-se. Às vezes rompe-se. Mas eu enxugo-o, lavo-o, remendo-o. É um belo manto indestrutível. Até ver.
Certos dias, ao fim da tarde, volto-me para trás e contemplo o meu manto. Sorrio o meu sorriso íntimo, meditativo, profundo, triste. Reconheço os acrescentos, os remendos, mas não tenho qualquer explicação para o desenho que se foi formando nem para a forma como a pedraria se distribuiu. Encolho os ombros. Emito um som de desilusão e conformismo. Não sei se gosto do meu manto. Parece-me confuso, demasiado longo e pesado. Mas é o meu manto. Não posso trocá-lo nem dá-lo nem cortá-lo, seleccionando apenas as zonas com melhor aspecto. Um manto, pelo menos o meu, deve manter-se intacto. De todas as coisas que possuo, nenhuma é tão pessoal, tão minha como este manto.
É um longo manto de boa tecelagem, confeccionado em diferentes texturas e cores, acrescentado ao longo dos anos e todo bordado a pedraria. Profusas hematites espalhadas a todo comprimento. Turquesas e opalas razoavelmente distribuídas. Cornalina e jaspe, uns poucos. Olho-de-tigre, citrino e ametistas ocasionais. Os acrescentos periódicos foram-lhe conferindo um aspecto patchwork um tanto hippie. Não é um luxuoso manto de azevinho como usam os reis nos contos populares. Arrasta pelo chão sujeito aos elementos. Molha-se. Suja-se. Às vezes rompe-se. Mas eu enxugo-o, lavo-o, remendo-o. É um belo manto indestrutível. Até ver.
Certos dias, ao fim da tarde, volto-me para trás e contemplo o meu manto. Sorrio o meu sorriso íntimo, meditativo, profundo, triste. Reconheço os acrescentos, os remendos, mas não tenho qualquer explicação para o desenho que se foi formando nem para a forma como a pedraria se distribuiu. Encolho os ombros. Emito um som de desilusão e conformismo. Não sei se gosto do meu manto. Parece-me confuso, demasiado longo e pesado. Mas é o meu manto. Não posso trocá-lo nem dá-lo nem cortá-lo, seleccionando apenas as zonas com melhor aspecto. Um manto, pelo menos o meu, deve manter-se intacto. De todas as coisas que possuo, nenhuma é tão pessoal, tão minha como este manto.