Rita Ribeiro afirma na capa de uma revista Caras que decidiu eliminar as rugas, porque não suporta viver com a parte mais negativa de si. Incomoda-me a referência ao envelhecimento físico natural como "a parte mais negativa" de alguém.
Todos têm o supremo direito de agir sobre o seu corpo como lhes aprouver, modificando, rejuvenescendo, esculpindo. Hoje, intervém-se muito mais sobre o físico do que há 20, 30 anos atrás, não só porque os meios disponibilizados são quase infinitos, mas também porque o nível de vida melhorou. Abençoo muitas dessas intervenções que transcendem fins estéticos, melhorando a vida a tantos, eliminando fobias, traumas, restituindo o seu a seu dono. Outras, enfim... cada um faz do seu próprio corpo o que quiser; eu limito-me a interpretar motivações.
Desde sempre me lembro de ouvir as mulheres queixarem-se das rugas, e temê-las. Lembro-me de se vender muita banha da cobra para tal fim. Cremes milagrosos que, no máximo, hidratavam: os rostos das mulheres, e homens, que se besuntavam às escondidas, iam envelhecendo natural e alegremente. Indiferentes.
Quando era pequena parecia-me normal que uma pessoa de 50 anos fosse mais velha que uma de 40 - e é, não é?! As rugas e os cabelos brancos sempre tiveram lugar na minha ordem do mundo. Havia muita gente madura à minha volta. Quando fiz 10 anos os meus pais estavam a completar 50! O que me incomoda no envelhecimento não se relaciona com aspecto, mas com a perda de capacidades. Temo a fraqueza física, a falta de saúde, querer andar e não poder, precisar de ver e já não ter olhos. Isso sim! Assisti à lenta degradação física do meu pai. À sua revolta perante a impossibilidade de se locomover, de controlar os seus movimentos. À sua frustração perante essa impotência. Envelhecer como o meu pai envelheceu, e sem remédio, é um castigo que ninguém merece.
Mas o processo de envelhecimento natural não é a parte mais negativa de cada um de nós. Pelo contrário! Tenho pena de ter aniquilado muitos anos da minha vida por ser teimosa que nem uma viga de aço, e estupidamente orgulhosa, e não ceder por nenhum flanco; mas não lamento que os anos tenham passado por mim e tenham modificado o meu corpo, levando a frescura da minha juventude. Fui uma rapariga bonita, como todas as raparigas, mas não duvido que hoje sou melhor do que aos 20 anos, altura em que o mundo me pertencia. E o sonho, e a luxúria.
Não desejo voltar atrás por nenhum preço. Gosto da ideia de envelhecer, de saber que tenho um fim. A Terra é um lugar demasiado injusto e violento para se suportar uma existência eterna. Aceitar a inevitabilidade do envelhecimento talvez seja uma atitude mais saudável e realista; e estimá-lo, como se estima qualquer outra fase da vida. A juventude, o prazer imediato associado à beleza física, essas coisas todas juntas, não nos trazem felicidade suprema. O corpo é demasiado sensível, frágil e temporário para o hedonismo. Também não sei o que seja ser supremamente feliz. Nunca fui - senão uns ápices que não recordo. Esta vida, tal como a vivemos, não é favorável à proliferação de duradouros átomos de felicidade.
Hoje, enquanto folheava as páginas com fotos da aplicação de Botoina, ou qualquer produto aparentado, na testa de quarenta anos da Rita Ribeiro - não sei quantos tem - senti saudades do rosto muito enrugado da Isabel Ruth, do brilho muito intenso que aquele rosto tão cheio de pregas emitia.
* O menino de sua mãe, Fernando Pessoa