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domingo, dezembro 28, 2008

Monstros que a minha geração criou


A professora não gostou da brincadeira. O filme mostra-a ameaçando o aluno com falta disciplinar. Contudo, a simulação de um disparo com a pistola de plástico, e de socos, acompanhados da pergunta-ameaça, "então, dá positiva ou não dá?!" continua à sua frente e, quando se senta, nas suas costas. Ultrapassa a mera brincadeira, embora a professora se sinta impotente relativamente à situação. Pode marcar falta disciplinar, de facto, mas aquela é a última aula do período, o objectivo é apenas falar sobre classificações, fazer a auto-avaliação, sair mais cedo. Deveriam estar todos sentados nos seus lugares? Deveriam! Deveriam estar calados, ouvindo, para depois se pronunciarem? Deveriam! O que andam aqueles miúdos a fazer em pé, de volta da professora, gozando, numa atitude nada própria de uma sala de aula? O que pode um professor fazer, nos dias de hoje, perante uma situação de desrespeito grave, sozinho numa sala cheia de jovens que não possuem consciência do que seja isso do respeito, e à mercê de prováveis violências físicas ou verbais? Os professores já não geram medo, nem respeito, e a questão não está no não se darem ao respeito, mas no não conseguirem ser respeitados, porque já não se respeita ninguém. Essa é a lei.
Para estes miúdos dos bairro do Cerco ou da Quinta da Princesa ou das melhores escolas de Almada, tudo e todos devem servi-los, garantir o seu conforto, a sua predominância social e poder, que não dependem da cultura que adquiriram, mas da aparência que projectam.
Estes monstros foram criados pela minha geração.
A educação está mal, porque está seriamente doente fora da escola.


Outros monstros

Esmeralda e o pai afectivo

Outro monstro que entretanto se está criando: Esmeralda, a filha disputada entre pais afectivos e biológicos.
Ao mostrar-se feliz durante as actuais férias com o pai biológico, que deve mimá-la até aos limites do suportável, está a trair os pais afectivos, que entretanto a aguardam impacientes, desejando poder rapidamente mimá-la ultrapassando os outros, porque eles é que são os pais verdadeiros, eles é que são os melhores, e oferecem as melhores prendas. Duvido que esta criança tenha algum desejo não satisfeito. Na sua cabeça o mundo deve dividir-se entre quem cede muito e quem cede mais.

sábado, julho 26, 2008

Deseducação à hora do lanche


Quando chega o bom tempo gosto de ir ler para a esplanada. Levo comigo as cadelas, que se deitam no chão, ao lado da cadeira, ou debaixo dela, e ali ficam contemplando o movimento, pachorrentas, lambendo as patas ou dormitando à sombra enquanto leio. Numa mesa perto, há de vez em quando uma criança lanchando, cuja mãe incentiva a beber o leite apontando para as minhas cadelas e dizendo, olha os cães, se não bebes vêm os cães maus e bebem-te tudo, olha os cães. Levantou a cabeça, vês?!, já está a olhar para ti, se não te despachas...
Tenho pena da mãe, mas tenho muito mais pena da criança.

quarta-feira, maio 28, 2008

A inocência

(clicar para aumentar imagem)

No café do bairro, um miúdo da vizinhança, seis anos, equilibrava-se entre dois suportes de chapéus de sol, com uma pata sobre cada um. Os objectos eram de plástico, pouco pesados, portanto inseguros, pelo que balançavam largamente sob o seu peso. Imaginei o garoto estatelado no passeio, e, ao passar por ele, disse-lhe, maternal, tem cuidado, olha que assim vais cair!
Não me respondeu. Continuou. Está bem. Sabemos como é. Fomos miúdos e também não quisemos saber. Deixa-o. Enquanto me afastava, escutei a seguinte versão daquilo a que chamarei música ligeira, que o pirralho me dedicava, pó caralho, pó caralho, pó caralho, pó caralho.
O pai deixou-se estar a ler o jornal desportivo na mesa da esplanada.

domingo, abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Márcia olha-me com raiva

Observo com preocupação alguns adolescentes que foram crianças doces e se tornaram maus, hostis, agressivos. Não percebo o que lhes aconteceu. A educação falhou por escassez ou por excesso? Como é que se educa pela medida certa? Como é que uma mãe, ou um pai, sabe que é correcto dizer não num momento, e sim no outro? Cede-se? Não se cede? É a olho? Seguimos os livros? Posso educar a minha filha como a minha mãe me educou. Seria bastante mais fácil. De bofetada em bofetada, a miúda iria crescendo. Tenho a certeza.
O que determina que um adolescente seja uma pessoa respeitadora, confiante, educada, e, outro, um pequeno monstro de malvadez e má educação? Como posso eu saber no que se transformará a minha filha? Isto preocupa-me. Havia de sofrer muito, e sentir-me impotente e amarrada, se se transformasse numa Márcia.

terça-feira, dezembro 04, 2007

O terrorismo da geração-nada

Nunca gostei de desperdício e estrago. Nunca desenhei, na casca das árvores, corações atravessados por setas, nem sequer o meu nome nas mesas da escola. Por isso, dificilmente compreendo a febre de escrever nas paredes, com tinta em aerossol, o gatafunho do próprio nome, ou um nick, actividade que, no meu subúrbio, se denomina tagging.




Tagging significa etiquetagem, e uma etiqueta é, por definição, um símbolo de identificação. A tag deve considerar-se, portanto, o anúncio de alguém. Quem deixa uma etiqueta em algo reclama a sua posse. Como é lógico, não ponho etiquetas com o meu nome nas malas dos meus companheiros de viagem, apenas nas minhas. Porém, muitos jovens deixam as suas etiquetas [tags] em paredes de edifícios, contentores de lixo e de reciclagem, cabines telefónicas, postos de iluminação pública, caixas multibanco, degraus de escadas, toldos, portões, esculturas, caixas da electricidade, gás e telefones, paragens de autocarro, às vezes nos próprios autocarros. No Verão passado reparei que não existiam, em Paris, carrinhas de transporte comercial que não estivessem completamente grafitadas com tags. Se existiam, não as vi.

No momento em que o tagger desenha o seu nome sobre uma superfície, declara pertença sobre o objecto grafitado; "este caixote do lixo e este lugar são meus", pensamos nós. Encaramo-lo como declaração de posse e, consequentemente, afirmação de um poder que assenta sobre a insegurança que gera. Um bairro com tags ganha o aspecto desordeiro próprio dos territórios pertencentes a um clã, e não a uma uma comunidade que vive junta, mas independente. A tag parece, assim, constituir uma poderosa afirmação de identidade marginal sem princípios que não os do máfia criminosa. Transmite-nos a impressão de que poderemos ser atacados com uma faca ou um pitbull na primeira esquina. Neste aspecto, a tag reveste uma muito eficaz forma de terrorismo.

Como desejei que o meu hóspede alemão de ontem não tivesse reparado nas horríveis pinturas que mancham as paredes do meu bairro! Mas reparou. A
disseminada tag desfeia lugares sobre os quais houve uma tentativa de ordenação urbana, caso da minha rua, e tranforma-os em território aparente inseguro e perigoso. Percebi que foi essa a impressão com que o meu amigo ficou da zona: um subúrbio perigoso!, o que rigorosamente não corresponde à verdade. "Aqui, à noite, não há jovens fazendo distúrbios?", perguntou-me. Expliquei-lhe que vivo num bairro habitado pela classe média-baixa. Ninguém me parece especialmente rico nem especialmente pobre. As pessoas saem de manhã para o trabalho e regressam ao final da tarde, vivem, têm filhos despenteados, mal mas dispendiosamente vestidos, que vão à escola, bebem cervejas, fumam charros e ouvem música inaudível, como qualquer outro jovem. Quem se ocupa, então, da grafitagem das referidas tags? Sem sombra de dúvida, os filhos dos meus vizinhos, pelo que é impossível não me interrogar sobre a tão grande necessidade de inscrição que sentem estes jovens possuidores de computadores pessoais, leitores de mp3, telemóveis topo de gama, roupa de marca, grandes consumidores de bifes, batatas fritas e fast food.

Quando passeio as cadelas atravesso zonas cheias de tags e perco tempo a analisá-las. Normalmente são horríveis. Mal desenhadas. É uma grafitagem gratuita; parece não haver qualquer mensagem a transmitir. Quem as escreveu não possui caligrafia bem definida, e mal sabe desenhar símbolos sobre papel, a esferográfica, quanto mais na parede, e com spray. A legendagem é insignificante: abreviaturas, palavras em inglês incompreensível, vocábulos muito street, como merda, fuck, the boss, qualquer-coisa rules e nicks, muitos nicks, sobrepostos. Abundam nos lugares mais escuros, nomeadamente nas traseiras de prédios. É, portanto, algo que é feito às escondidas, a medo. Quem os faz, fá-los pouco seguro, vigiando os passantes. Quem o faz sente não pertencer a este território, embora viva nele. Mais do que reclamar a sua posse sobre o lugar, parece desejar que o lugar o possua. Ver-se espelhado.

Admitamos que uma assinatura nos inscreve em algo. Temos direito a uma assinatura num bilhete de identidade porque pertencemos a um país, e não porque o país nos pertence. Através da tag, os meus jovens vizinhos reclamam pertença ao mundo, exactamente como quem preenche uma ficha de inscrição para sócio da sociedade filarmónica. "Quero que me admitam no mundo", escrevem, e assinam por baixo, sem saber o que querem. Não é de estranhar que aqueles que trouxemos ao mundo, mas sentem nada poder esperar dele, que em nada acreditam, porque nada lhes oferecemos para acreditar, e que nada esperam, reclamem espaço, identidade, existência. As odiosas tags do meu território dizem-me "eu sou daqui".
Quando Os Delfins cantaram que mais do que a um país, família ou geração pertencíamos só a nós e a mais ninguém, não poderiam ter imaginado as consequências perniciosas de tal filosofia. Cada vez que uma tag é grafitada, o que os jovens do meu bairro reclamam é a simples posse da superfície, e de todos nós, sobre si. Sentiram-na pouco: a posse, e todos precisamos de ser de algo, ser de alguém, e de conhecer os limites dessa pertença, para depois sermos selvagens, sermos nós. Tagging é apenas isso: a geração-nada deseja qualquer coisa. Por exemplo, pertencer. Para eles é já tarde: cresceram num vazio de pertença a ideias, a regras, a obrigações. Não estão filiados nem se filiarão. Não podem aceitar agora o que mais desejam. A tagging é o seu terrorismo inconsciente. E se pensarmos bem, merecemo-lo.


quinta-feira, novembro 08, 2007

Dá-lhes


Impossível ignorar o Correio da Manhã. Deve ser o único jornal do mundo onde se podem ler frases de retinto jornalismo, recolhidas na fonte, e transcritas ipsis verbis, das quais esta é um bom exemplo: "A filha do senhor José Mourinho disse que o jovem teria proferido algumas palavras insultuosas para com o pai. Já o Pedro assegurou que não disse aquilo que a Matilde diz que ele disse." Isto é poesia informativa.

Mas vamos ao facto: Mourinho anda à porta das escolas privadas aqui do distrito dando coças em miúdos malcriados. Imagine-se que parava frente aos portões das escolas públicas, locais onde a violência atinge proporções épicas, aí pelas 18h30. Seria um massacre.
Boa, Zeca. Finalmente, um justiceiro como deve ser. Um Robin Wood da educação. Um gajo com eles no sítio, e inteiros. É caso para se admitir: bendita testosterona.
Obviamente, estou com Mourinho. Alguém tem de explicar aos miúdos deste país, e de preferência com cinco dedos, o que significa um "atina-te", ou, como se dizia há muitos anos atrás, "o respeitinho é lindo". Os pais não sabem o que fazer deles, muito menos os professores, portanto venha o Mourinho pôr ordem nas escolas como se fossem clubes de futebol.
Quero o Mourinho a reescrever o estatuto do aluno recentemente aprovado na Assembleia da República. Tenho a certeza que um clone de Mourinho à porta de cada escola valeria por duas brigadas da Escola Segura. Um clone do Mourinho em cada agregado familiar com prole garantiria melhor pedagogia que dois progenitores graduados em ciências da educação. O ministério da educação para Mourinho, e já, e nem sequer estou a brincar.




segunda-feira, maio 07, 2007

Fui um saco de pancada, e sobrevivi.

(Clicar para aumentar)

Quando era menina andava descalça, quase nua, e suja de tudo o que atravessava. Quando era ainda uma pequenina leopardo-fêmea, beijava o focinho do Piloto, o cão sarnoso e escanzelado dos pretos que tinham a palhota do cajueiro, do outro lado da rua. Beijava esse, e outros, todos os cães, e comia terra com caca de galinha, entre outras liberdades que a família moderna não autoriza.
Era uma menina naturalmente saudável. Recordo que fui três vezes ao hospital onde nasci, sempre porque o meu pai me bateu e magoou.
Uma bofetada do meu pai deixava-me a sangrar do nariz, copiosamente, e um puxão seu no meu braço lesionava-me músculos e tendões. Era um homem enorme, e não controlava a força, mas o meu pai não era um monstro; não tinha qualquer prazer em bater-me - ficava doente! - mas, antigamente, os pais educavam à bofetada, tão certa como o pão de cada dia, em casa e na escola. Eu fui um saco de pancada, e sobrevivi. Apesar de tudo, entre as crianças da época fui particularmente poupada. Era frequente rapazes e raparigas apanharem com o cavalo marinho, sobretudo os rapazes. Os meus pais faziam-me chegar notícias sobre filhos martirizados dessa forma, e resultava. Eu tinha medo do cavalo marinho, oh, se tinha, embora não houvesse nenhum lá em casa! Mas as notícias eram eloquentes, "O Vitinho levou ontem com o cavalo marinho, porque saiu sem autorização do pai, e não foi à escola porque nem se consegue mexer!". "A Nídia apanhou. O pai tosou-a com o cinto, e vai ficar fechada em casa todo o mês, porque começou a namorar sem autorização." As raparigas apanhavam por desobediência na escolha de namorados, ou por se darem aos calores muito cedo. Os rapazes, por respirarem para o lado esquerdo quando lhes tinham dito que o fizessem para o direito. Apanhavam violentamente, todos. Os pais possuíam os filhos como se possuí um bezerro para a matança, e abusavam.
Hoje, os filhos possuem os pais, e abusam.
Hoje, o meu pai seria acusado de violência infantil e o tribunal haveria de lhe aplicar uma multa. No caso do meu pai seria injusto, mas penso que muitos dos actuais progenitores beneficiariam de penalizações sérias. As crianças precisam de ser educadas com autoridade e afecto em igual proporção. Ter-se perdido a autoridade, gerou um caos generalizado nas atitudes e valores. A violência de que os professores se queixam vem de casa, e existe em casa: os filhos reinam sobre todos os territórios. Vejo crianças bater no pais. Ouço adolescentes dialogarem com os pais de forma absolutamente inaceitável, independentemente dos contextos que tenham gerado tais conversas. Não me parece mal responsabilizar os progenitores pela ineficiente educação que proporcionam, mas não seria mal pensado, e eu sei que custa!, reabilitar a humilhante bofetada que a minha amiga sueca diz ser fascista. Que seja, mas a bofetada, a exemplar bofetada aplicada com conta, peso e medida, faz falta.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...