Caixas para levar comida feitas a partir de cana do açúcar, copos em cuja manufactura entra xarope de milho e talheres feitos a partir de batata. No meu tempo, desculpem, no meu tempo, a cana do açúcar mastigava-se e chupava-se, e era uma extraordinária fonte de energia, o xarope de milho entrava na nossa alimentação, e a batata, enfim, a batata comia-se com couves e bacalhau. É provável que eu seja uma conservadora, no final de contas, porque me aflige que as coisas mudem a um ponto em que se podem fazer talheres da alimentícia batata. Mas afinal não há no mundo escassez de alimentos?! Andarei mal informada?
Ouvi esta descrição de produtos feitos a partir da cana, da batata e do milho num programa da Oprah dedicado ao dia da Terra. A actriz Sandra Bullock, convidada da apresentadora, é proprietária de um restaurante algures na Califórnia onde todos os produtos take away são biológicos, biodegradáveis. Nada de plástico. A questão que ponho relativamente aos assuntos que me incomodam é sempre a mesma: porque é que isto me incomoda? Porque é que acho que o caminho para um melhor ambiente não está em transformar alimentos em objectos usa-deita-fora? Bem, em primeiro lugar, porque na minha lógica antiquada, os alimentos devem alimentar, antes de mais nada. Num mundo onde a carência alimentar continua a reinar, parece-me um insulto fazerem-se talheres a partir de batatinhas que haviam de encher a barriga a quem as comesse. Parece-me um insulto que se plante seja o que for para se fazerem objectos, ou usar como combustível.
Em segundo lugar, incomoda-me a filosofia do usa-deita-fora, que transforma o nosso planeta numa enorme lixeira. Quanto era pequena todos vivíamos doutra maneira. Tínhamos caixas e copos de plástico que reutilizávamos até ao esgotamento. Deitamos hoje fora embalagens que, noutros tempos, se nos viessem parar às mãos, guardaríamos religiosamente e serviriam como contentor para qualquer outra coisa.
E mesmo pensando positivamente que todo aquele material plástico será reciclado, ele será reciclado para outros produtos que se destinam a deitar fora, perpetuando o ciclo do lixo, ou que não têm utilidade alguma: este fim-de-semana, após uma gigantesca limpeza cá em casa, a minha mulher-a-dias disse-me que a maior parte do plástico reciclado é usado para se fazerem flores artificiais, daquelas que se põem no cemitério. Parecia deliciada com a posse deste conhecimento, mas, oh, como odeio as flores artificiais, que não são flores! Não é possível reciclar o plástico para algo mais sólido e durável, como banheiras, bancos de jardim, peças para automóveis?!