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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Todas as horas

Imagem: Mary Ellen Mark, Matt Dillon, 1983


Estive a fazer zapping. Num canal qualquer passava um filme com o Harrison Ford muito jovem, muito belo, e uma actriz que não reconheci, com os olhos azuis cheios de rimel. Estavam abraçados na cama. Ela dizia-lhe, não sabia que isto estava certo. Tenho passado todas as horas, de todos os dias, esforçando-me por te esquecer, sem perceber que o que tenho é passado todas as horas a lembrar-te. Era mais ou menos assim.

terça-feira, junho 17, 2008

Os jovens amantes


Li na Visão, creio, que mulheres mais velhas e enxutas, sobretudo no Brasil, mas por todo o chamado Ocidente, Portugal incluído, arranjam rapazes mais novos como parceiros, e que eles não parecem importar-se especialmente com as rugas ou as carnes mais flácidas.
Compreendo ambos os lados: o relacionamento é passageiro, enquanto durar, e frutuoso.
Para eles, porque é sempre passageiro, mesmo jurando fidelidade eterna, essa falácia, mas também porque aventuras com mulheres mais velhas, estabelecidas na vida, os isentam de fazer por ela - é possível levar uma boa vida enquanto elas pagam as contas, desde que ninguém se importe especialmente com isso - em tempos não muito distantes foi quase sempre ao contrário: os homens pagavam para ter em casa e poder exibir amantes jovens, e pagavam bem; para elas, apesar da despesa, tem os seus encantos, oh como as compreendo!, um jovem amante cheiroso, vigoroso, após o inferno dos casamentos anteriores, das obrigações conjugais e tarefas domésticas que estavam excessivamente atribuídas às mulheres. Criados os filhos, ou mais ou menos criados, e estraçalhado, rasgado, em pedaços pelo chão, pisado, o amor em que se acreditou, a ideia de amor, como uma velha bandeira derrotada, é tempo de rir, de gozar, de perder as estribeiras, de atirar ao mar o gasto coração moldado a terra, e com um novo coração aquático, ou etérico, sem ideais, reconstruir para si toda a ideologia amorosa da nossa cultura. O amor, tal como nos foi dado, é uma mentira aprazada. Desse amor resta companheirismo, hábito, fraternidade. Dura cinco dias. Tem, como tudo, princípio e fim nesta terra. As estruturas que sobre ele assentam são enormes mentiras. Não estão em crise, mas em prelúdio da extinção.

quinta-feira, junho 12, 2008

Um dia fui muito nova

Foto de Stanko Abadzic, Girl with fish necklace, 2006


Tenho recordações muito vagas das festas de Santo António. Uma mole infame e suada subindo Alfama até ao Castelo - uma loucura de carnes e vozes e mãos. Nada de interessante a comunicar. Estamos aqui todos juntos, estamos aqui no meio, tentando furar, bebendo cerveja já morna, ou vinho ou qualquer coisa, porque é o que se faz.
Uma sardinhada com três conspiradores, e não sabia que seria contra mim, no antigo jardim de São Pedro de Alcântara. Acho que me ri. E bebi. Era inocente e tinha os olhos muito amarelos.
Lembro-me de beijos ao final da noite. Muitos, perdidos, cheios de fome, mordidos, a pouco. Mas afinal não era nada, apenas uma boca que mordia, que lambuzava, como carne que pede sal.

quinta-feira, maio 29, 2008

O amor eterno

Amou-a 20 anos em silêncio, mas um dia ela pronunciou "lábios", "mijo" e "lixo" numa mesma frase. Ele não gostou. Pareceu-lhe porco, pareceu-lhe vil, injusto. Que mulher horrenda, que desperdício de sentimento. E em 20 minutos desamou-a. Que digo eu? Em 20 segundos desamou-a para sempre. Respirou fundo e retomou a vida.
Sim, o amor é cego, mas quando vê, oh, meu Deus, quando começa a ver...

quinta-feira, maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


quinta-feira, abril 17, 2008

Os que me amam

Dali e Gala

O homem era um romântico. Não sei, talvez não. O que é um romântico? Todo o contacto que tomava comigo o perturbava. Se nos víamos de relance na passadeira do Almada Fórum, tremia, e não ousava voltar-se para trás; se nos encontrávamos na Feira do Livro, trocávamos palavras de circunstância, titubeava, percebia que me mentia, que os sentimentos que mantinha por mim permaneciam bem escondidos no seu sorriso social; era a sua sisudez excessiva, os olhos muito abertos, apavorados; se olhava para mim, se me descobria, tremia. Não o percebia trémulo, pelo contrário, parecia-me bem seguro, indiferente, e contudo, eu sabia, ele tremia. Lia uma palavra minha. Descobria-me a caligrafia num livro que alguém lhe emprestara. Ouvia o meu nome no corredor. No elevador parecia-lhe sentir o meu cheiro. Aquela mulher, vista por trás, tinha o meu corpo. Ao longe, pelo corte de cabelo, parecia eu. Uma mulher com dois cães... Uma mulher com uma mãe, talvez levasse a minha a passear. Um carro igual ao meu, mas com outra matrícula. Tremia. Eu era viciante. Eu era o vício. A ideia. A fantasia de mulher. De vida. O sonho. O futuro. O brilho do dia. O sol na solidão do quarto. Podia confiar: eu era o seu mais seguro nada.

sexta-feira, abril 11, 2008

As quatro avós do meu amor


A minha prima afastada telefonou-me de Roma para dizer que tinha sonhado comigo.
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Até enjoam

Há pessoas muito felizes, que não sabem que são felizes. Até pensam que são tristes, mas não, são felizes. São felizes para caraças. Andam para aí a queixar-se, e chateiam este e mais aquele, mas, vá-se lá saber da justiça divina!, são felizes. Também há pessoas amadas que não dão valor ao amor. Até pensam que ninguém gosta delas, mas é mentira, têm sempre um ombrozinho certo onde chorar. São amadas para caraças. Queixam-se que ninguém gosta delas, e mais isto e mais aquilo, mas injustamente, porque são amadas, amadas, tão amadas que até chateia. Pior, enjoa. Quem tem tudo não sabe o que é viver com nada.

terça-feira, maio 01, 2007

Jogo de damas II

Marco Paulo - Quarenta anos de amor eterno


O nosso amor era grande. Havia esperança, depois filhos, uma casa, votos sagrados, tudo como Deus quer. Quando estavas comigo, eu era toda a tua menina; quando estavas com ela, ela era tanto a tua mulher.

domingo, abril 29, 2007

Jogo das damas


O teu amor era grande. Tudo o que era meu te prendia a atenção. Tudo o que me interessava te interessava, sobretudo as minhas amigas, as do coração.

terça-feira, dezembro 06, 2005

R.I.P. (Rest In Peace)

A partir do momento adulto em que se começa a dizer a palavra "coração" é sinal que já se perdeu tudo. Quando esta palavra, que estava esquecida desde a primária, desde quando era desenhada a canetas de feltro vermelhas, volta à superfície, percebe-se que alguma coisa falhou.
A palavra "coração" só faz sentido de novo quando o perdemos.

terça-feira, novembro 29, 2005

Filosofia pura II

Uma namorada de Verão deve acabar com o Verão, porque, com o Inverno, as namoradas de Verão tendem a apaixonar-se - para lamúria invernil já basta a mulher que temos lá em casa.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Um saco cheio

Roubaste tudo o que não tinhas dado nem prometido. Roubaste, roubaste o que não tencionavas oferecer, mas que te foi oferecido. Roubaste tudo. E, agora, partes com o saco gordo do teu roubo, porque roubaste muito, e o saco pesa tanto. Como vais carregar esse saco tão pesado do que não prometeste, do que não deste e, contudo, recebeste? O que farás a esse saco?
Oh, por que não o abandonas no Largo de Camões, junto à estátua? Há por lá pombos, vagabundos, jovens das artes, velhos... talvez alguém possa dar aproveitamento à tua carga. Se tiveres princípios, uns resquícios, sobes à zona mais alta da cidade e abandonas o teu saco do roubo aberto, toda a noite. Se não chover, a carga do teu saco tornar-se-á volátil e cobrirá, pelo raiar da manhã, os rostos dos primeiros transeuntes, de repente felizes, sorridentes, respirando fundo, enchendo o peito do ar doce do teu saco. Enchendo o peito do ar doce de mim, do que eu te dei, mas tu me roubaste.
Dorme, sim, dorme agora o sono dos justos, dos consolados, dos que estão em paz com a sua consciência, com Deus e os homens. Dorme encostado ao saco do que me roubaste.
É isto, o amor?


Foto de Carsten Schillmann

sexta-feira, novembro 04, 2005

Cordas de linho

Era a tua casa cheia de gente. Eu era gente e estava na tua casa, mas eu não valia, e de todos só tu me interessavas, e eras o único que não podia ver nem ter, porque te fechavas numa sala todo o santo dia, fiando linho, e se eu perguntava por ti, alguém me dizia, ele está lá dentro, fiando linho; podia imaginar-te, as mãos correndo fios, ao mesmo tempo que te receava, que me envergonhava enfrentar-te. Era um alívio imaginar-te apenas, e era um calvário.
Comprei a tua casa, porque tu não estavas à venda, mas toda a propriedade me cercava; toda era uma plantação de cordas de linho vermelho como sangue escurecido, como cristas-de-galo excessivamente resistentes ao tempo, alta como cana velha e ondulante como pasto novo. Sentava-me na varanda com as pernas dependuradas, e as espigas de corda chegavam-me aos joelhos e escondiam-me as pernas. A plantação asfixiava a tua casa, que era minha, cerrava-a, apertava-a, luxuriante, sem aberturas. Quase não se respirava.
A cozinha estava velha. Havia enormes manchas escuras de gordura à volta dos manípulos das portas, das ferragens de armários e gavetas, e eu disse à minha mãe, “Vamos deitar isto tudo fora, vamos remodelar a cozinha, vai ficar tudo novo.”
Mas tu não estavas lá. Tu nunca estavas.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...