quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Todas as horas
terça-feira, junho 17, 2008
Os jovens amantes
Compreendo ambos os lados: o relacionamento é passageiro, enquanto durar, e frutuoso. Para eles, porque é sempre passageiro, mesmo jurando fidelidade eterna, essa falácia, mas também porque aventuras com mulheres mais velhas, estabelecidas na vida, os isentam de fazer por ela - é possível levar uma boa vida enquanto elas pagam as contas, desde que ninguém se importe especialmente com isso - em tempos não muito distantes foi quase sempre ao contrário: os homens pagavam para ter em casa e poder exibir amantes jovens, e pagavam bem; para elas, apesar da despesa, tem os seus encantos, oh como as compreendo!, um jovem amante cheiroso, vigoroso, após o inferno dos casamentos anteriores, das obrigações conjugais e tarefas domésticas que estavam excessivamente atribuídas às mulheres. Criados os filhos, ou mais ou menos criados, e estraçalhado, rasgado, em pedaços pelo chão, pisado, o amor em que se acreditou, a ideia de amor, como uma velha bandeira derrotada, é tempo de rir, de gozar, de perder as estribeiras, de atirar ao mar o gasto coração moldado a terra, e com um novo coração aquático, ou etérico, sem ideais, reconstruir para si toda a ideologia amorosa da nossa cultura. O amor, tal como nos foi dado, é uma mentira aprazada. Desse amor resta companheirismo, hábito, fraternidade. Dura cinco dias. Tem, como tudo, princípio e fim nesta terra. As estruturas que sobre ele assentam são enormes mentiras. Não estão em crise, mas em prelúdio da extinção.
quinta-feira, junho 12, 2008
Um dia fui muito nova
Tenho recordações muito vagas das festas de Santo António. Uma mole infame e suada subindo Alfama até ao Castelo - uma loucura de carnes e vozes e mãos. Nada de interessante a comunicar. Estamos aqui todos juntos, estamos aqui no meio, tentando furar, bebendo cerveja já morna, ou vinho ou qualquer coisa, porque é o que se faz.
Uma sardinhada com três conspiradores, e não sabia que seria contra mim, no antigo jardim de São Pedro de Alcântara. Acho que me ri. E bebi. Era inocente e tinha os olhos muito amarelos.
Lembro-me de beijos ao final da noite. Muitos, perdidos, cheios de fome, mordidos, a pouco. Mas afinal não era nada, apenas uma boca que mordia, que lambuzava, como carne que pede sal.
quinta-feira, maio 29, 2008
O amor eterno
Sim, o amor é cego, mas quando vê, oh, meu Deus, quando começa a ver...
quinta-feira, maio 01, 2008
Da poesia
"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"
Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.
quinta-feira, abril 17, 2008
Os que me amam
sexta-feira, abril 11, 2008
As quatro avós do meu amor
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Até enjoam
terça-feira, maio 01, 2007
Jogo de damas II
domingo, abril 29, 2007
Jogo das damas
sábado, março 24, 2007
terça-feira, dezembro 06, 2005
R.I.P. (Rest In Peace)
A palavra "coração" só faz sentido de novo quando o perdemos.
terça-feira, novembro 29, 2005
Filosofia pura II
segunda-feira, novembro 28, 2005
Um saco cheio
Oh, por que não o abandonas no Largo de Camões, junto à estátua? Há por lá pombos, vagabundos, jovens das artes, velhos... talvez alguém possa dar aproveitamento à tua carga. Se tiveres princípios, uns resquícios, sobes à zona mais alta da cidade e abandonas o teu saco do roubo aberto, toda a noite. Se não chover, a carga do teu saco tornar-se-á volátil e cobrirá, pelo raiar da manhã, os rostos dos primeiros transeuntes, de repente felizes, sorridentes, respirando fundo, enchendo o peito do ar doce do teu saco. Enchendo o peito do ar doce de mim, do que eu te dei, mas tu me roubaste.
Dorme, sim, dorme agora o sono dos justos, dos consolados, dos que estão em paz com a sua consciência, com Deus e os homens. Dorme encostado ao saco do que me roubaste.
É isto, o amor?
Foto de Carsten Schillmann
sexta-feira, novembro 04, 2005
Cordas de linho
Comprei a tua casa, porque tu não estavas à venda, mas toda a propriedade me cercava; toda era uma plantação de cordas de linho vermelho como sangue escurecido, como cristas-de-galo excessivamente resistentes ao tempo, alta como cana velha e ondulante como pasto novo. Sentava-me na varanda com as pernas dependuradas, e as espigas de corda chegavam-me aos joelhos e escondiam-me as pernas. A plantação asfixiava a tua casa, que era minha, cerrava-a, apertava-a, luxuriante, sem aberturas. Quase não se respirava.
A cozinha estava velha. Havia enormes manchas escuras de gordura à volta dos manípulos das portas, das ferragens de armários e gavetas, e eu disse à minha mãe, “Vamos deitar isto tudo fora, vamos remodelar a cozinha, vai ficar tudo novo.”
Mas tu não estavas lá. Tu nunca estavas.
quarta-feira, agosto 31, 2005
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...