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terça-feira, junho 03, 2008

Selvagem

Colaboradoras, II Guerra Mundial, França, 1944 (ACME photo)


Acabei há umas semanas de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. O livro foi-me recomendado pelo amigo a quem há muitos anos dei a ler O País das Últimas Coisas.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.

É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.

quarta-feira, maio 28, 2008

A inocência

(clicar para aumentar imagem)

No café do bairro, um miúdo da vizinhança, seis anos, equilibrava-se entre dois suportes de chapéus de sol, com uma pata sobre cada um. Os objectos eram de plástico, pouco pesados, portanto inseguros, pelo que balançavam largamente sob o seu peso. Imaginei o garoto estatelado no passeio, e, ao passar por ele, disse-lhe, maternal, tem cuidado, olha que assim vais cair!
Não me respondeu. Continuou. Está bem. Sabemos como é. Fomos miúdos e também não quisemos saber. Deixa-o. Enquanto me afastava, escutei a seguinte versão daquilo a que chamarei música ligeira, que o pirralho me dedicava, pó caralho, pó caralho, pó caralho, pó caralho.
O pai deixou-se estar a ler o jornal desportivo na mesa da esplanada.

domingo, abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

segunda-feira, março 03, 2008

Os selvagens

Enquanto vigio o passeio das cadelas, observo os miúdos da escola do meu bairro, postando-me do lado de fora do gradeamento. Os putos saem do edifício gritando, e permanecem chiando, berrando, urrando ao longo da meia hora de intervalo, sem razão aparente. Espalham-se pelo pátio e interagem uns com os outros gritando. Não falam, gritam. Gritam muito, ao mesmo tempo, em diferentes tons, sem combinação. Uma coisa medonha.
Penso que também nos fazia bem sermos autorizados a meia horinha diária de gritaria sem censura, sem desconfianças de loucura. Cada um para seu lado, ou em uníssono, criativa ou tradicionalmente. A ideia agrada-me excessivamente. E seria um grande incremento para a indústria dos tampões para ouvidos.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Márcia olha-me com raiva

Observo com preocupação alguns adolescentes que foram crianças doces e se tornaram maus, hostis, agressivos. Não percebo o que lhes aconteceu. A educação falhou por escassez ou por excesso? Como é que se educa pela medida certa? Como é que uma mãe, ou um pai, sabe que é correcto dizer não num momento, e sim no outro? Cede-se? Não se cede? É a olho? Seguimos os livros? Posso educar a minha filha como a minha mãe me educou. Seria bastante mais fácil. De bofetada em bofetada, a miúda iria crescendo. Tenho a certeza.
O que determina que um adolescente seja uma pessoa respeitadora, confiante, educada, e, outro, um pequeno monstro de malvadez e má educação? Como posso eu saber no que se transformará a minha filha? Isto preocupa-me. Havia de sofrer muito, e sentir-me impotente e amarrada, se se transformasse numa Márcia.

Se pudessem baixar-lhes o volume

As crianças são amorosas, é evidente; vêem o mundo com uma lógica que perdemos, ou melhor, que tivemos de adaptar. São lindas, são boas, são puras, o pior é a gritaria.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...