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terça-feira, março 07, 2017

O que já não existe, existe

Lourenço Marques (foto tirada pelo meu pai no final dos anos 50)

Mudamos com o tempo? O que fomos já não somos?
Surgiram-me estas questões em conversa com a minha prima afastada. Falávamos sobre a toponímia do lugar onde nasci, insistindo eu ter nascido numa cidade que já não existe, e que esse lugar se chamava Lourenço Marques, um nome líquido e bonito. Ela respondeu, prosaicamente, nasceste no Maputo. E eu arrepiei-me e reafirmei-lhe que não, nunca; em nenhum documento, ainda hoje, escrevo ter nascido no Maputo. Se quiserem, emendem, mas eu nasci numa outra realidade, num outro tempo e até num outro espaço desse tempo, que é algo que a minha prima não pode compreender. Era outro espaço, lamento. Era outro espaço, repetia. Outro espaço social e psicológico. Para além de que Maputo é um nome de preto, disse-lhe. Os brancos nunca engoliram esse nome feio. Gozaram-no. Não conseguiria assumir o nome dessa cidade como lugar do meu nascimento, mesmo tentando ser muito racional e consciente: repudio-o naturalmente.
O espaço é o mesmo, dizia-me, o espaço é exactamente o mesmo, ria-se ela, isso é mesmo de colonialista, desculpa lá! Eu pensava que tu eras uma pós-colonialista, e afinal venho a descobrir que não passas de uma colonialista igual ao teu pai.
Fiquei um bocado calada. Sou uma colonialista igual ao meu pai? Olho para o passado e para o mundo e para a realidade como o meu pai olhou? Não. Mas alguma coisa terá ficado. Por exemplo, esta valoração dos nomes de branco e dos nomes de preto. Há nomes de preto bonitos, disse-lhe eu, mas naquele momento não me consegui lembrar de nenhum. Depois lembrei-me de Nampula. Nunca fui a Nampula, e pelo nome devia ser um lugar belíssimo. Mas havia lugares belíssimos que se chamavam Marracuene. Algumas das imagens de África mais belas que mantenho vêm de Marracuene. Era lá que via hipopótamos e jacarés e nenúfares sobre o rio, e havia as laranjas mais doces do mundo.
Quando o meu filho, negro como um tição, que há-de ser, me perguntar onde nasci, o que lhe responderei? Ah, querido da mamã, em Lourenço Marques, que agora se chama Maputo, que é um nome de preto feíssimo. E ri-me. A minha existência social e política está toda manchada, na pretensão de bem e de mal, pela estigmatização racial do mundo em que cresci. Não posso não ser o que fui, senti e vivi. O meu projecto de vida construiu-se sobre essa base, e o que escolho, escolho a favor ou contra, equilibrando-me sozinha entre o legítimo e o justo - conceitos tão enganosamente semelhantes.
O meu passado não acabou no momento em que o colonialismo acabou, nem esse é um tema importante para mim por mero acaso. Portanto, como diz a minha prima, afinal sou uma colonialista de segunda geração. Fruto de um colonialismo tardio, agonizante, que já não sabia proteger-se. Mas não fui, como o meu pai, produto de uma ideologia salazarista. E isso, penso eu, isso e o que naturalmente sou, para além do que bebi nesse tempo e nesse espaço, salvou-me um pouco. Tudo o resto, na minha vida, foi mudança, transição, foi o que haveria de ser, herança desse tempo inseguro, sem certezas.

Gostaria muito de dialogar sobre estes sentimentos com um alemão que tivesse 13 anos no final da II Guerra Mundial. Como lidou com as memórias do seu passado? Ou com um russo que tivesse nascido em Leninegrado em 1963, já nem digo Petrogrado, para lhe perguntar o que sente sobre o actual nome da cidade onde nasceu.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Novos colonialistas desiludidos

As pessoas não mudam. Quando as reencontramos, muitos anos depois, percebemos por que nos afastámos.

A minha mãe acha que vai morrer e não pode deixar-me sozinha no mundo. Por isso, localizou-a. Eu quero estar sozinha no mundo. Quero a minha mãe e mais os amigos que escolhi, e me escolheram. De resto, por favor, deixem-me completamente sozinha no mundo, mas não me ofendam com as palavras brutais que tive de escutar a vida inteira sem poder protestar, e de que fugi quando fui senhora de mim.

A minha mãe deu-lhe o meu número. Ela queria muito falar comigo. Tinha-me perdido o rasto. Tinha saudades da doce menina perdida: eu. Em 20 minutos, o passado bateu-me no rosto com uma fenomenal chapada. "Os negros, os cabrões, os filhos-da-puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes, não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda."
Ouvi isto toda a minha vida. Venham-me falar no colonialismo suavezinho dos portugueses... Venham-me cá com essa história da carochinha.

As pessoas não mudam. Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Uma afronta à memória do meu pai, mas com a memória do meu pai podemos bem: eu e ele. Se não fosse pela minha mãe, pelo respeito e amor que lhe tenho, rebentava-lhes os olhos com a minha verdade.
Os carniceiros foram todos tão bonzinhos que quando matavam o cabrito davam as vísceras aos pretos. A tripa. A pele. Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada e a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos, e se os faziam trabalhar sete dias por semana, sem horário, era apenas o legítimo tratamento de que precisavam os preguiçosos. Um favor que o branco lhes fazia. Civilizar os macacos. E agora, em Maputo, uma falta de respeito. "Faltamos lá nós. Têm saudades. Um branco é constantemente assaltado. Na rua. Em casa. Roubam-nos tudo, os cabrões."
"E, olha, assim que puderes vem cá visitar a madrinha."

Pode bem esperar sentada.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Pacificar África


"Eles hão-de matar-se uns aos outros". "Não querem trabalhar e morrerão de fome." "África sem brancos está condenada. Vão chorar por nós!"
O que os colonos preconizaram para o futuro de África sem poder branco, essas pragas rogadas no embarque para a metrópole, deixando para trás a terra, a casa, a conta bancária já sem valor, todos os bens, em alguns casos a vida roubada a um filho, um marido, uma mulher, um amigo, tornaram-se realidade pouco depois. O massacre militar e civil começou com as guerrilhas levadas a cabo por movimentos oposicionistas financiados pelo apartheid, ou pelo ocidente anti-comunista, contra os governos formados a partir das independências, e perdura, hoje, viabilizado pelos neocolonialismos, ocidentais, orientais, económicos em geral, e pelo desgoverno de líderes oportunistas e corruptos - o que se aplica não apenas às ex-colónias inglesas e francesas, mas também às que foram nossas.
As ex-colónias não foram ainda capazes de garantir a sua autonomia económica e política, tendo mergulhado num caos sangrento, social e culturalmente desestruturante.
Tomando-me como testemunha do período de dez anos que antecedeu as independências, e também do que as iniciou, fazendo passar pela memória os inúmeros momentos de crise grave durante a guerrilha pós-independência, e observando o panorama actual africano, torna-se claro que a ditadura colonial foi o que de mais suave aconteceu em África no último século. Não há nesta afirmação qualquer intenção de branquear as violências e injustiças coloniais cometidas sob o meu olhar. Eu sei o que vi e ouvi, o que mantenho guardado. E sei que há argumentos válidos dos dois lados. Ou seja, os brancos eram maus, mas nem todos o eram. Os negros eram explorados e oprimidos, mas nem todos os explorados e oprimidos albergam um coração simultaneamente revoltado, magoado e puro. Ou seja, os bonzinhos não são todos contaminados pela bondade. A dura verdade é que nesses terríveis anos coloniais os negros ganhavam quase nada, mas o que ganhavam, mesmo acrescentando a porrada, dava para comer e andar esfarrapado, e fazer aguardente de cana, e de caju para o Domingo. Era humilhante, sim, mas os filhos ainda não assassinavam os pais, e os irmãos não violavam as irmãs, e havia um ódio unificador comum: o colono, o explorador, a estrutura de exploração colonial que sustentavam a troco da farinha com peixe seco diários. No meio de tudo isto, uma certa paz podre, sim, sem dúvida, mas nela não se matavam uns aos outros. Ficou o podre; quase só o podre. Sim, era opressão, nenhum equívoco, mas quantos massacres de Wiriamu, multiplicados, sofreu África desde que os colonos saíram? E por que motivo me parece que quem os governa hoje não é menos injusto nem menos violento do que nós fomos? O opressor, o explorador continua por lá. E explora tanto ou mais. E com menos escrúpulos. Hoje é negro. É o irmão negro ou o amarelo, e as mãos continuam a ser besuntadas para se chegar à justiça, ou esquecê-la. Não há grande diferença entre o regime no qual vivem agora os povos das ex-colónias, e aquele que viveram sob os interesses portugueses.
Quero perceber como será possível pacificar África. E
ssa seria a quimera que quereria ver realizada.

quinta-feira, março 02, 2006

Os portugueses foram colonialistas bonzinhos

Andei a arrumar papéis velhos. Descobri várias relíquias. Mas descobri uma, em especial, que não sei como chegou cá, nem a esta casa, depois de todas aquelas por que passei.
Um cartão dobrado ao meio com o selo da Direcção dos Serviços de Saúde, o meu nome completo, o nº 55 (portanto, eu fui o 55) e o seguinte título, todo em maiúsculas: DISPENSÁRIO DE PUERICULTURA NÃO INDíGENA.

Isto só para confirmar que os portugueses tiveram uma colonização muito branda, nada de apartheid, e foram muito amigos dos pretinhos, muito diferentes do ingleses e dos belgas, e que por isso é que mantivemos aquilo mais tempo, porque os tratávamos muito melhor do que eles uns aos outros.
E mesmo o holocausto dos judeus também foi mentira, não eram campos de morte, era só um sítio onde iam aprender as alegrias do labor.

(Tenho imensa pena de não ter um scanner para vos mostrar este cartãozinho.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...