Mudamos com o tempo? O que fomos já não somos?
Surgiram-me estas questões em conversa com a minha prima afastada. Falávamos sobre a toponímia do lugar onde nasci, insistindo eu ter nascido numa cidade que já não existe, e que esse lugar se chamava Lourenço Marques, um nome líquido e bonito. Ela respondeu, prosaicamente, nasceste no Maputo. E eu arrepiei-me e reafirmei-lhe que não, nunca; em nenhum documento, ainda hoje, escrevo ter nascido no Maputo. Se quiserem, emendem, mas eu nasci numa outra realidade, num outro tempo e até num outro espaço desse tempo, que é algo que a minha prima não pode compreender. Era outro espaço, lamento. Era outro espaço, repetia. Outro espaço social e psicológico. Para além de que Maputo é um nome de preto, disse-lhe. Os brancos nunca engoliram esse nome feio. Gozaram-no. Não conseguiria assumir o nome dessa cidade como lugar do meu nascimento, mesmo tentando ser muito racional e consciente: repudio-o naturalmente.
O espaço é o mesmo, dizia-me, o espaço é exactamente o mesmo, ria-se ela, isso é mesmo de colonialista, desculpa lá! Eu pensava que tu eras uma pós-colonialista, e afinal venho a descobrir que não passas de uma colonialista igual ao teu pai.
Fiquei um bocado calada. Sou uma colonialista igual ao meu pai? Olho para o passado e para o mundo e para a realidade como o meu pai olhou? Não. Mas alguma coisa terá ficado. Por exemplo, esta valoração dos nomes de branco e dos nomes de preto. Há nomes de preto bonitos, disse-lhe eu, mas naquele momento não me consegui lembrar de nenhum. Depois lembrei-me de Nampula. Nunca fui a Nampula, e pelo nome devia ser um lugar belíssimo. Mas havia lugares belíssimos que se chamavam Marracuene. Algumas das imagens de África mais belas que mantenho vêm de Marracuene. Era lá que via hipopótamos e jacarés e nenúfares sobre o rio, e havia as laranjas mais doces do mundo.
Quando o meu filho, negro como um tição, que há-de ser, me perguntar onde nasci, o que lhe responderei? Ah, querido da mamã, em Lourenço Marques, que agora se chama Maputo, que é um nome de preto feíssimo. E ri-me. A minha existência social e política está toda manchada, na pretensão de bem e de mal, pela estigmatização racial do mundo em que cresci. Não posso não ser o que fui, senti e vivi. O meu projecto de vida construiu-se sobre essa base, e o que escolho, escolho a favor ou contra, equilibrando-me sozinha entre o legítimo e o justo - conceitos tão enganosamente semelhantes.
O meu passado não acabou no momento em que o colonialismo acabou, nem esse é um tema importante para mim por mero acaso. Portanto, como diz a minha prima, afinal sou uma colonialista de segunda geração. Fruto de um colonialismo tardio, agonizante, que já não sabia proteger-se. Mas não fui, como o meu pai, produto de uma ideologia salazarista. E isso, penso eu, isso e o que naturalmente sou, para além do que bebi nesse tempo e nesse espaço, salvou-me um pouco. Tudo o resto, na minha vida, foi mudança, transição, foi o que haveria de ser, herança desse tempo inseguro, sem certezas.
Gostaria muito de dialogar sobre estes sentimentos com um alemão que tivesse 13 anos no final da II Guerra Mundial. Como lidou com as memórias do seu passado? Ou com um russo que tivesse nascido em Leninegrado em 1963, já nem digo Petrogrado, para lhe perguntar o que sente sobre o actual nome da cidade onde nasceu.
Surgiram-me estas questões em conversa com a minha prima afastada. Falávamos sobre a toponímia do lugar onde nasci, insistindo eu ter nascido numa cidade que já não existe, e que esse lugar se chamava Lourenço Marques, um nome líquido e bonito. Ela respondeu, prosaicamente, nasceste no Maputo. E eu arrepiei-me e reafirmei-lhe que não, nunca; em nenhum documento, ainda hoje, escrevo ter nascido no Maputo. Se quiserem, emendem, mas eu nasci numa outra realidade, num outro tempo e até num outro espaço desse tempo, que é algo que a minha prima não pode compreender. Era outro espaço, lamento. Era outro espaço, repetia. Outro espaço social e psicológico. Para além de que Maputo é um nome de preto, disse-lhe. Os brancos nunca engoliram esse nome feio. Gozaram-no. Não conseguiria assumir o nome dessa cidade como lugar do meu nascimento, mesmo tentando ser muito racional e consciente: repudio-o naturalmente.
O espaço é o mesmo, dizia-me, o espaço é exactamente o mesmo, ria-se ela, isso é mesmo de colonialista, desculpa lá! Eu pensava que tu eras uma pós-colonialista, e afinal venho a descobrir que não passas de uma colonialista igual ao teu pai.
Fiquei um bocado calada. Sou uma colonialista igual ao meu pai? Olho para o passado e para o mundo e para a realidade como o meu pai olhou? Não. Mas alguma coisa terá ficado. Por exemplo, esta valoração dos nomes de branco e dos nomes de preto. Há nomes de preto bonitos, disse-lhe eu, mas naquele momento não me consegui lembrar de nenhum. Depois lembrei-me de Nampula. Nunca fui a Nampula, e pelo nome devia ser um lugar belíssimo. Mas havia lugares belíssimos que se chamavam Marracuene. Algumas das imagens de África mais belas que mantenho vêm de Marracuene. Era lá que via hipopótamos e jacarés e nenúfares sobre o rio, e havia as laranjas mais doces do mundo.
Quando o meu filho, negro como um tição, que há-de ser, me perguntar onde nasci, o que lhe responderei? Ah, querido da mamã, em Lourenço Marques, que agora se chama Maputo, que é um nome de preto feíssimo. E ri-me. A minha existência social e política está toda manchada, na pretensão de bem e de mal, pela estigmatização racial do mundo em que cresci. Não posso não ser o que fui, senti e vivi. O meu projecto de vida construiu-se sobre essa base, e o que escolho, escolho a favor ou contra, equilibrando-me sozinha entre o legítimo e o justo - conceitos tão enganosamente semelhantes.
O meu passado não acabou no momento em que o colonialismo acabou, nem esse é um tema importante para mim por mero acaso. Portanto, como diz a minha prima, afinal sou uma colonialista de segunda geração. Fruto de um colonialismo tardio, agonizante, que já não sabia proteger-se. Mas não fui, como o meu pai, produto de uma ideologia salazarista. E isso, penso eu, isso e o que naturalmente sou, para além do que bebi nesse tempo e nesse espaço, salvou-me um pouco. Tudo o resto, na minha vida, foi mudança, transição, foi o que haveria de ser, herança desse tempo inseguro, sem certezas.
Gostaria muito de dialogar sobre estes sentimentos com um alemão que tivesse 13 anos no final da II Guerra Mundial. Como lidou com as memórias do seu passado? Ou com um russo que tivesse nascido em Leninegrado em 1963, já nem digo Petrogrado, para lhe perguntar o que sente sobre o actual nome da cidade onde nasceu.