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terça-feira, outubro 18, 2005

Confissão I

Nunca concebi que o corpo de Cristo se pudesse materializar numa hóstia, e sempre achei tal ideia demasiado sensual para se praticar numa cerimónia tão circunspecta e assexual como uma missa: homens, mulheres e crianças, em fila, para, de boca semi-aberta, receber um corpo sagrado, mas um corpo!, que lentamente se desfaz entre o palato e a língua.
Sinceramente! Perante tal ritual, quem pode estranhar que na Índia ofereçam leite, mel, fruta e flores aos yonis e lingas!

Quando era miúda, porém, desejava provar a rodelinha imaculadamente branca, que diziam sagrada, e devia mesmo ser!, dado o ar tão compungido dos que a recebiam na missa.
Quando me mandaram para a catequese e tive de me preparar para a primeira comunhão, entusiasmei-me com a antecipação de acesso à hóstia – era, sobretudo, uma iniciação ao mundo temporal, uma espécie de diploma que não sabia para que servia, mas que me permitia participar no ritual e satisfazer a curiosidade: a que sabia, qual a textura?

Gostava da catequese. Como não havia contas, não era burra como na escola. Líamos histórias do velho e do novo testamento, e eu gostava mais do novo, porque o Jesus era bom e perdoava a todos por igual.
Escrevíamos redacções sobre pormenores do evangelho, opinávamos livremente sobre o carácter exemplar das histórias. E fazíamos provas a sério, com perguntas a sério, como na escola, mas sem contas, e eu acertava em tudo.

O meu problema residia na confissão. Não me agradava ir ao confessionário revelar ao senhor padre da Matola pecados que não tinha cometido ou de que não tinha consciência. Impingia-lhe sempre a mesma lenga-lenga, "fui respondona com a minha mãe, não limpei o pó, não faço nada, só quero estar deitada na cama a ler, fui vender montinhos de mangas para a portão e a minha mãe apanhou-me, roubei uma quinhenta do seu porta-moedas para dar ao mufana que nos apanha o capim para os coelhos...!"
E o senhor padre perguntava-me, "então, e mais, minha filha?" O senhor padre exigia-me sempre mais pecados... Quais?
E, então, eu, que nunca gostei de decepcionar pessoas e tentei sempre contornar as questões de forma pacífica, tive uma ideia: inventar pecados! Era isso, inventar pecados!
Passei a desfiar ao senhor padre da Matola um ror deles, que se consubstanciavam no que os outros me faziam, ou no que os via fazer, de forma geral: “roubei o afiador e a borracha à Micá, e escondi-os, depois roubei o estojo com o compasso ao Xico, roubo a torto e a direito, a toda a gente, digo asneiras grossas no intervalo, bato todos os dias no João e no Luisinho, por causa dos cromos... - que eu, desde o princípio dos tempos, sempre sonhei arrear nos rapazes!
E o senhor padre, que até se dizia à boca cheia que era vermelho e apoiava os terroristas, sentiu-se dividido: por um lado, eu tinha-me tornado suficientemente útil para justificar aquele ofício, por outro, o anjinho revelara-se uma espécie de Rosemary´s Baby.
“Minha filha, que graves pecados mortais andas cometendo; minha filha, não envergonhes a Deus nem a teus pais”, etc, etc.,, e “não podes agredir o teu irmão, nem praguejar, Deus te valha, criança”.
De maneira que percebi cedo a ironia de se estar vivo no meio dos outros.
Tinha a obrigação de pecar para que, forçadamente, se justificasse a absolvição, e o mundo retomasse a sua ordem natural!

Confissão II

Assim que pude, livrei-me da confissão. Não me confesso há uns 30 anos!
Claro que, conforme fui crescendo, houve a necessidade de me recontar; alguns amigos foram cumprindo essa função do cura. Umas vezes melhor, outras pior.
Houve alturas em que desisti. Houve alturas em que fui salva do silêncio.
Pode parecer que após 30 anos sem confissão espiritual, estarei para aqui atafulhada de pecados, mas não, porque, entretanto, aprendi a confessar-me a toda a gente.
Sou isto, e não me envergonho, de maneira que cada um leva o pedaço respectivo e me absolve ou não, de acordo com o seu julgamento. Sou isto que, como diz a minha prima afastada, para além de não ter vergonha na cara, veio directamente da pré-história para a actualidade sem transbordos pelo meio.
Não vivo com farpas cravadas nos dedos nem espinhas na garganta. Agora, já não. Mas reparo que uma boa parte das pessoas vai enchendo e calando, enchendo e calando, e passam todos por mim em alerta vermelho, em iminente estado de ataque terrorista ou explosão atómica.
Pensando nesses, descobri um blog excelente: o confessionário do século XXI.
Sigam o link e confessem-se anonimamente. Tornar a confissão num texto público e anónimo é uma ideia engenhosa. Permite que nos identifiquemos: afinal não estamos sozinhos; outros também fazem, pensam, sofrem aquilo.
Ontem, estava a discutir isto com a minha prima afastada, a da filosofia pura: achamos sempre que somos especiais, mas, iguaizinhos a nós, com as mesmas dores ou alegrias, existem uns bons milhões.
Eu já me confesso mais que o razoável, portanto, confessai-vos vós, filhos de Deus, que eu irei ler, absolver-vos e abençoar-vos - mas, cuidado, como é anónimo, disfarcem o estilo!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...