Nunca concebi que o corpo de Cristo se pudesse materializar numa hóstia, e sempre achei tal ideia demasiado sensual para se praticar numa cerimónia tão circunspecta e assexual como uma missa: homens, mulheres e crianças, em fila, para, de boca semi-aberta, receber um corpo sagrado, mas um corpo!, que lentamente se desfaz entre o palato e a língua.
Sinceramente! Perante tal ritual, quem pode estranhar que na Índia ofereçam leite, mel, fruta e flores aos yonis e lingas!
Quando era miúda, porém, desejava provar a rodelinha imaculadamente branca, que diziam sagrada, e devia mesmo ser!, dado o ar tão compungido dos que a recebiam na missa.
Quando me mandaram para a catequese e tive de me preparar para a primeira comunhão, entusiasmei-me com a antecipação de acesso à hóstia – era, sobretudo, uma iniciação ao mundo temporal, uma espécie de diploma que não sabia para que servia, mas que me permitia participar no ritual e satisfazer a curiosidade: a que sabia, qual a textura?
Gostava da catequese. Como não havia contas, não era burra como na escola. Líamos histórias do velho e do novo testamento, e eu gostava mais do novo, porque o Jesus era bom e perdoava a todos por igual.
Escrevíamos redacções sobre pormenores do evangelho, opinávamos livremente sobre o carácter exemplar das histórias. E fazíamos provas a sério, com perguntas a sério, como na escola, mas sem contas, e eu acertava em tudo.
O meu problema residia na confissão. Não me agradava ir ao confessionário revelar ao senhor padre da Matola pecados que não tinha cometido ou de que não tinha consciência. Impingia-lhe sempre a mesma lenga-lenga, "fui respondona com a minha mãe, não limpei o pó, não faço nada, só quero estar deitada na cama a ler, fui vender montinhos de mangas para a portão e a minha mãe apanhou-me, roubei uma quinhenta do seu porta-moedas para dar ao mufana que nos apanha o capim para os coelhos...!"
E o senhor padre perguntava-me, "então, e mais, minha filha?" O senhor padre exigia-me sempre mais pecados... Quais?
E, então, eu, que nunca gostei de decepcionar pessoas e tentei sempre contornar as questões de forma pacífica, tive uma ideia: inventar pecados! Era isso, inventar pecados!
Passei a desfiar ao senhor padre da Matola um ror deles, que se consubstanciavam no que os outros me faziam, ou no que os via fazer, de forma geral: “roubei o afiador e a borracha à Micá, e escondi-os, depois roubei o estojo com o compasso ao Xico, roubo a torto e a direito, a toda a gente, digo asneiras grossas no intervalo, bato todos os dias no João e no Luisinho, por causa dos cromos... - que eu, desde o princípio dos tempos, sempre sonhei arrear nos rapazes!
E o senhor padre, que até se dizia à boca cheia que era vermelho e apoiava os terroristas, sentiu-se dividido: por um lado, eu tinha-me tornado suficientemente útil para justificar aquele ofício, por outro, o anjinho revelara-se uma espécie de Rosemary´s Baby.
“Minha filha, que graves pecados mortais andas cometendo; minha filha, não envergonhes a Deus nem a teus pais”, etc, etc.,, e “não podes agredir o teu irmão, nem praguejar, Deus te valha, criança”.
De maneira que percebi cedo a ironia de se estar vivo no meio dos outros.
Tinha a obrigação de pecar para que, forçadamente, se justificasse a absolvição, e o mundo retomasse a sua ordem natural!
Sinceramente! Perante tal ritual, quem pode estranhar que na Índia ofereçam leite, mel, fruta e flores aos yonis e lingas!
Quando era miúda, porém, desejava provar a rodelinha imaculadamente branca, que diziam sagrada, e devia mesmo ser!, dado o ar tão compungido dos que a recebiam na missa.
Quando me mandaram para a catequese e tive de me preparar para a primeira comunhão, entusiasmei-me com a antecipação de acesso à hóstia – era, sobretudo, uma iniciação ao mundo temporal, uma espécie de diploma que não sabia para que servia, mas que me permitia participar no ritual e satisfazer a curiosidade: a que sabia, qual a textura?
Gostava da catequese. Como não havia contas, não era burra como na escola. Líamos histórias do velho e do novo testamento, e eu gostava mais do novo, porque o Jesus era bom e perdoava a todos por igual.
Escrevíamos redacções sobre pormenores do evangelho, opinávamos livremente sobre o carácter exemplar das histórias. E fazíamos provas a sério, com perguntas a sério, como na escola, mas sem contas, e eu acertava em tudo.
O meu problema residia na confissão. Não me agradava ir ao confessionário revelar ao senhor padre da Matola pecados que não tinha cometido ou de que não tinha consciência. Impingia-lhe sempre a mesma lenga-lenga, "fui respondona com a minha mãe, não limpei o pó, não faço nada, só quero estar deitada na cama a ler, fui vender montinhos de mangas para a portão e a minha mãe apanhou-me, roubei uma quinhenta do seu porta-moedas para dar ao mufana que nos apanha o capim para os coelhos...!"
E o senhor padre perguntava-me, "então, e mais, minha filha?" O senhor padre exigia-me sempre mais pecados... Quais?
E, então, eu, que nunca gostei de decepcionar pessoas e tentei sempre contornar as questões de forma pacífica, tive uma ideia: inventar pecados! Era isso, inventar pecados!
Passei a desfiar ao senhor padre da Matola um ror deles, que se consubstanciavam no que os outros me faziam, ou no que os via fazer, de forma geral: “roubei o afiador e a borracha à Micá, e escondi-os, depois roubei o estojo com o compasso ao Xico, roubo a torto e a direito, a toda a gente, digo asneiras grossas no intervalo, bato todos os dias no João e no Luisinho, por causa dos cromos... - que eu, desde o princípio dos tempos, sempre sonhei arrear nos rapazes!
E o senhor padre, que até se dizia à boca cheia que era vermelho e apoiava os terroristas, sentiu-se dividido: por um lado, eu tinha-me tornado suficientemente útil para justificar aquele ofício, por outro, o anjinho revelara-se uma espécie de Rosemary´s Baby.
“Minha filha, que graves pecados mortais andas cometendo; minha filha, não envergonhes a Deus nem a teus pais”, etc, etc.,, e “não podes agredir o teu irmão, nem praguejar, Deus te valha, criança”.
De maneira que percebi cedo a ironia de se estar vivo no meio dos outros.
Tinha a obrigação de pecar para que, forçadamente, se justificasse a absolvição, e o mundo retomasse a sua ordem natural!