WARNING
Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo
o húmido duma língua desejada
Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer
Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada
com travo orgiástico
Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina
a cortar-te as veias
Tu, sim, tu
devias ter-te lembrado
antes de morrer
Os serial killers
também fazem
minete
Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo
Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.