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segunda-feira, abril 28, 2008

Não me faças sofrer

Foto de Herodote Christophe, La gironde


Li numa revistazeca de fim-de-semana que para mudarmos de vida temos de abandonar a zona de conforto na qual nos instalámos, e arriscar. Sentirmo-nos incómodos.
Mas, oh meu amigo, vamos lá ver, eu não me instalei; eu não tinha para onde ir, e fui ficando. Não foi uma zona de conforto. Foi uma zona. E tentei que nem uma desgarrada largá-la. Tenho tentado que nem uma enterrada viva. Sair. Quero sair da zona e nunca mais voltar. Respirar fora. Arrancá-la de mim como se arranca a pele a um coelho acabado de socar, como se degola uma codorniz. Só isso. Sair. Mudar. Tirar. Arrancar. Degolar. Matar. Eu quero dar cabo disto, e ser outra, dar cabo disto e ser outra, outra.

sábado, setembro 23, 2006

O corpo rasgado

Foto de Baciar

Não sei se tem importância, mas esqueci-me de te dizer que tenho as mamas atravessadas de cicatrizes. O peito, de um lado ao outro. As costas.
Podes segui-las com o fio da língua; considerá-las entretenimento adicional.



quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Quero as cicatrizes

Cansei-me de meninos e meninas bonitos, todos iguais. Sem uma marca na cara, sem uma unha partida, ou uma fralda de fora, uma t-shirt amarrotada.
Cansei-me de meninos Gant, de meninos Massimo Dutti, de meninos River Wood.
E da Gisele Bundchen, Martina Klein, Heidi Klun, Adriana Lima. Não as distingo! As mesmas pernas, as mesmas mamas, a mesma anca, os mesmos rostos de produção em série!









Lá terei de usar este impertinente advérbio: antigamente. Antigamente a História corria igual, mas Marilyn Monroe não se confundia com Elisabeth Taylor; há 10 anos ainda era possível distinguir a Claudia Schiffer da Cindy Crawford.









A beleza está nos sinais particulares, no que nos distingue uns dos outros. Gosto da cara do Seal. Dos cabelos despenteados do Jorge Palma. A Laetitia Casta é um monumento porque tem os dentinhos tortos, e o resto, claro, aquele resto absolutamente redondo e macio. A Zeta-Jones é um avião de longo curso, daqueles com segundo andar, e terceiro; não, a Zeta-Jones é o Concorde. Eu sei lá, a Zeta-Jones ultrapassa a velocidade do som! Agora, aquela menina sem sal do Match Point. Como se chama? Não interessa. É a girl next door, com a sua boquinha de lábios felacionistas, como os outros lábios felacionistas.
Quero sinais na cara, cicatrizes nos braços. Quero as pessoas que se enganam, que se esquecem. Mostrem-me um bocado de vida vivida, e que o corpo a prove. E o espírito. Um carro não está lá fora na rua sem levar riscos, amolgadelas, sem a antena roubada. É a vida!
Estou farta dos magros, e dos altos, louros de olhos azuis, cabeludos. Venham os gordos, os baixos, os morenos de olhos escuros; venham os carecas. Uma ordem de beleza diversa, muito diversa, mas já não este ideal ariano, primeiro ocidental, depois universal.
Estou tão farta de gente igual.


terça-feira, fevereiro 07, 2006

O primeiro rosto



Isabelle Dinoire, uma francesa de 38 anos, perdeu nariz, lábios, queixo e parte do rosto, há cerca de dois anos. O seu cachorro, um Labrador, arrancou-lhos enquanto dormia. Isabelle tomava sedativos, pelo que não acordou, não sentiu qualquer dor. Estranho comportamento, o do cão, mais tarde abatido: atacar alguém que dorme. Muito estranho mesmo: um Labrador? Um cachorro Labrador? Teria fome e queria acordá-la? Julgou-a um boneco de borracha? Um acesso de loucura, problema que o cruzamento entre algumas raças e consaguinidades gerou? Não saberemos nunca, porque aos animais não foi dado o poder do verbo, sendo acrescidamente abatidos sem julgamento.
Sabemos isto, apenas: Isabelle acordou sem rosto, e, querendo fumar, não percebeu por que motivo não conseguia segurar o cigarro na boca; vendo-se ao espelho, descobriu, em terror, que a sua cara se transformara numa cratera ensanguentada.

Isabelle foi operada o mês passado: uma operação arriscada, polémica e muito mediatizada. Era ético? O seu rosto aceitaria ou rejeitaria os novos tecidos? Podemos, a partir de agora, realizar transplantes de rosto, comprando o de uma Catherine Zeta-Jones muito probrezinha, e deixando-lhe, em troca, o nosso, que nunca nos agradou - porque a verdade é que o que é nosso, por muito lindo que seja, nunca nos agrada?!
Ultrapassemos a questão ética. O rosto de Isabelle não rejeitou, até agora, os novos tecidos, e esta pode sair à rua, olhar-se, ser olhada. Viver de novo. Considerando que tomava sedativos de tal ordem, que a colocavam num estado de morte em vida, situação que permitiu ser comida, sem sentir, é possível que se trate, agora, de viver pela primeira vez. Há males que vêm por bem!
Agrada-me este final feliz; que positivo tudo isto se revelou para Isabelle, para a equipa médica que a operou e acompanhou, para a ciência, para todos nós.
Isabelle Dinoire possui, de novo, um rosto. Provavelmente, o seu primeiro, o mais verdadeiro, o único, o que reconhecerá o resto da vida. Não é apenas seu, o dos genes herdados, mas uma espécie de "miscigenação" genética induzida. Em última análise, body art! Melhor, body science-art! Nunca, como hoje, a transdisciplinaridade foi tão palpável. Ciências-Artes Plásticas-Filosofias-Poesias-Religião...
Eis a construção de um rosto. De um corpo, afinal. Ser o que é, mas ser, também, ao olhar-se, agora, a outra.
Ninguém sabe o que é perder um rosto e poder recuperá-lo, sendo outro. Que identidade tão especial!
Ninguém sabe, ainda, para que serve um corpo. Nunca soubemos. No novo mundo, aprendê-lo-emos. Este é já o novo mundo!

sexta-feira, outubro 07, 2005

Decoração-a-dias

paradoxal amar um corpo próprio alheio gizado a cicatrizes
um corpo território a colonizar terra oferecida às queimadas às lâminas aos arados aos caboucos abertos para novos edifícios
um corpo sulcado
este corpo decorado
o que vale um corpo
Cicatrizes de Marte

terça-feira, outubro 04, 2005

O meu corpo, outra vez

Não consigo imaginar-me noutro corpo.
Como tocaria as cicatrizes profundas da mama direita? E os dois sinais grandes no abdómen? As manchas e sardas do rosto? Os vincos muito sulcados nas palmas das mãos e dos pés?
Sei viver neste corpo e em mais nenhum, porque nenhum outro é meu nem sou eu. E eu gosto do meu.

terça-feira, setembro 27, 2005

Os animais selvagens


Foto de Denis Piel, 1985

- Tente nunca se apaixonar por um animal selvagem, Mr. Bell - aconselhou-o Holly. - foi aí que o Doc errou. Estava sempre a trazer animais selvagens lá para casa. Um falcão com uma asa partida. Uma vez apareceu com um lince adulto a coxear. Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.

Truman Capote, Boneca de Luxo

Mr. Bell concentrou-se na bebida, chocalhando os cubos de gelo no copo, o que lhe levou dois, três minutos.
- Ouça, Holly, isto, raramente conseguimos ver: nós procuramos iguais! Doc não errou, mas, certo, ele não sabe que um animal selvagem, ferido, procura outro que lhe lamba as chagas com a língua benta: por exemplo, a vulva lacerada dum parto difícil, você saberá isso melhor que eu - o peito aberto pelo estilhaço de um projéctil...
Oh, Holly, os animais selvagens buscam os do seu clã, rondam-se, cheiram-se e enroscam-se, após o que, num irreprimível impulso heterofágico, se atacam e destroem e condenam, retirando-se à cata do próximo animal ferido, do próximo igual, disposto a lamber-lhe as últimas feridas.
Mas você já observou de perto um animal selvagem, em sofrimento? Veja-os no zoológico, todos eles feridos de morte. Fitou-os nos olhos? Diga-me, não a incomoda aquilo? Não lhe apetece libertá-los, levá-los para a quinta da sua tia Jamie, curá-los, e ficar a vê-los voar para a floresta, de onde regressarão feridos, ou de onde não regressarão?
Minha santa Holly, você deixou o liceu há quê, dois anos?! Ttrabalhando neste lugar, é provável que já tenha visto de tudo, mas escute: Doc não errou: apaixonou-se por um animal selvagem! Mas, oh Deus, como explicar-lhe isto: se você se apaixonar por um animal doméstico, pode acabar o resto dos seus dias a olhar para o lodo da terra!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...