Primeira parte do segredo
Texto manuscrito das memórias de LúciaNão me interessa questionar a autenticidade das aparições. Primeiro, porque estou convencida de que os pastores terão mesmo visto ou ouvido algo na Cova da Iria. Não interessa o quê. Acordemos que foi algo. Segundo, porque para reinterpretar segredos tenho que lhes atribuir uma origem.
O primeiro segredo oferece aos pastores uma visão do Inferno, e eis como no-lo descreve Lúcia (o texto respeita a sua ortografia):
(...) Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fôgo que parcia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fôgo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronziadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dôr e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios destinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa bôa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promeça de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
Parece-me uma revelação pouco original e em perfeita consonância com outras tradições gnósticas. Muito embora, à época, a missa fosse em Latim, as crianças escutavam relatos do Inferno feitos por familiares mais velhos, pelos contadores de histórias da bíblia ou, com sorte, contemplariam imagens sagradas nos livros da igreja, na catequese. A imagética relacionada com o Inferno não seria, portanto, novidade para o seu imaginário: a sopa de fogo eterno, os demónios, as almas dos condenados em sofrimento perpétuo.
Poderiam tê-lo inventado, mas admitamos que não, que foi real. A visão foi impressionante, terrífica conta Lúcia. Admito que uma visão, que por definição é no dolby digital das coisas etéreas, será deveras impressionante. Eu também já tinha ouvido falar muito do Vietnam, mas tal Inferno só me impressionou a sério quando o vi no Apocalypse Now.
Convenhamos: uma entidade divina não desceria ao mundo para assustar criancinhas cujos pecados não iriam muito além de diabruras com caudas das lagartixas. Portanto, esta visão parece-me cumprir a função das esculturas de demónios nas gárgulas e colunas das igrejas góticas: a de amedrontar crentes, para melhor os subjugar à oração e manutenção da estrutura eclesiástica. Assusta-se primeiro, pede-se depois. Segundo Lúcia, foi exactamente isto que aconteceu:
A conhecida gárgula da igreja de Notre Dame, em Paris
Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:
- Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer establecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz.
Rezar para salvar as almas dos pecadores parece-me bem. O que estranho neste discurso é o anúncio, feito pela própria Senhora, sobre a delegação de poderes, como salvadora de almas, que Deus nela deposita.
Seguem-se os segredos anexos ao da inicial visão do Inferno:
A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra peor. Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.
Considerando que se estava em 1917, a previsão relativa ao final da guerra em curso (1914-1918) não será grande surpresa, mas duvido que criancinhas analfabetas da Cova da Iria tivessem acesso a informação que lhes permitisse opinar ou inventar sobre a questão. A guerra acabaria mais dia, menos dia, porque, a bem ou a mal, sobretudo a mal, todas as guerras acabam; mas, em 1917, situar o início de uma outra guerra no papado seguinte, parece-me informação bastante precisa e credível.
A II Guerra Mundial começa sob Pio XII, e não Pio XI. Contudo, Lúcia argumenta que o que deu origem à guerra teve lugar durante a vigência de Pio XI, falecido exactamente em 1939 (Lúcia refere-se à anexação da Áustria, em 1938).
Não sei se a Irmã, naquela época, vivendo em recolhimento, teria acesso a informações relevantes sobre política mundial, mas vou acreditar que sim: dou o benefício da dúvida: imaginemos que a madre superiora leria, ao domingo, após o almoço, um jornal autorizado, ou um folheto da igreja com umas breves devidamente censuradas, o que justificaria os conhecimentos e explicações de Lúcia.
Quanto ao aparecimento de uma grande luz anunciadora da II Grande Guerra, Lúcia associa-a a uma invulgar aurora boreal ocorrida em Janeiro de de 1938. Seja.
A revelação sobre o início da II Guerra Mundial, datada com tal precisão, seria profeticamente consistente se as memórias de Lúcia não tivessem começado a ser escritas, por ordem do Bispo de Leiria, apenas em 1935.
Na primeira memória, exactamente a de 35, Lúcia descreve os primos, as circunstâncias das suas vidas, personalidades e mortes, e algumas consequências da primeira aparição, não revelando quaisquer segredos, os quais só aborda nas memórias seguintes, que datam de 1937 e 1941 (terceira e quarta memórias) - tornadas públicas alguns anos após a sua redacção.
Portanto, a revelação do segredo relativo à II Guerra Mundial numa altura em que já seria possível prevê-la (1937), embora não invalide a profecia, enfraquece-a. A existirem cartas ou documentos redigidos por Lúcia antes destas datas, e respeitantes a esta profecia, convinha que a Igreja os revelasse. Creio existirem, porque Lúcia afirma, no início das memórias, não saber porque lhe encomendam tais escritos, uma vez que a informação neles contida foi antes revelada. Se foi revelada, foi registada por ela ou por alguém em seu nome.
Na introdução das memórias que li, existe informação sobre outros documentos e cartas de Lúcia, os quais seriam menos extensos e importantes.
Segunda parte do segredo
Irmã Lúcia de Jesus
No segundo segredo, que é efectivamente o terceiro, a Senhora pede a consagração da Rússia à fé católica. Eis as palavras que a memória de Lúcia registou:
Para a impedir [a II Guerra Mundial - que não impediu] virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sufrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será consedido ao mundo algum tempo de paz.
Ora, o meu problema, no que respeita a este segredo, advém do facto de acreditar que entidades divinas não só não falam a linguagem dos mortais como desprezam a política mesquinha dos humanos.
Nossa Senhora interessada em questões de política de Leste? Deus e Nossa Senhora conferenciando, e considerando os ateus comunistas como perigosos? Vejamos, não lhes interessaria converter também os fanáticos árabes e chineses? E os negros animistas? Por que motivo só os russos?
A politização do discurso sagrado não convence quem tenha aprendido os mais elementares rudimentos do pensamento, mesmo que a fé seja grande. É que há a fé, mas há também uma lógica do discurso sagrado - que alguma terá.
Nisto, não é possível esquecer que politizar o sagrado foi especialidade da Igreja durante toda a sua existência. Tanto e tão bem como, hoje, o Islão.
A comunhão reparadora dos primeiros sábados, também referida no texto, gerará posteriores conversas entre Lúcia e o Menino Jesus, que lhe aparece no convento de Tuy, dez anos depois, com o objectivo de negociar formas conducentes à realização da comunhão sabatina para quem trabalhasse e não pudesse ir à igreja nesse dia. Portanto, em 1926, o Menino apareceu-lhe,
e Lúcia apresentou-lhe a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:
- Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.
Ela perguntou:
- Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?
Jesus respondeu:
- Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a 1ª ocasião que tiverem de se confessar”.
Não pretendo que pareça má-vontade da minha parte, mas este diálogo aparenta mais semelhanças com um processo de negociações para aprovação de uma Lei do que com uma comunicação com o altíssimo.
E era Jesus! Posso jurar que a presidenta da minha empresa não desceria tantos degraus para me autorizar uma falta importante e justificável.
Terceira parte do segredo
Quanto à última parte do segredo, o mais simbólico e enigmático, o Vaticano apressou-se a associá-lo ao assassinato do Santo Padre, e elegeu o atentado da Praça de São Pedro como símbolo da crise de valores cristãos. Conheçamos as palavras de Nossa Senhora, segundo Lúcia:
Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: "algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus. (clique sobre a imagem para aumentá-la)

A interpretação foi feita pelo Vaticano, que perguntou a Lúcia se concordava. Esta, rapidamente confirmou a simbologia atribuída ao segredo. Mas Lúcia escreveu sempre porque lho pediram, e iniciava os seus escritos com declarações de obediência e humildade. Esclarece que as redige a pedido de outrem, e não por vontade própria.
Afinal, o bispo branco da revelação será João Paulo II ou tratar-se-á da morte simbólica da Igreja?
Este segredo só foi revelado na passagem do segundo milénio. Estou em crer que as estruturas não saberiam o que lhe fazer, como explicá-lo. A tentativa de assassinato de João Paulo II deu muito jeito.
Na verdade, a Igreja perdeu poder, tem vindo a perder poder, e os homens de branco, e todos os seus seguidores, têm vindo a ser destituídos; destruídos.
É bem provável que o terceiro segredo, na prática o quarto, o qual a Igreja relaciona com a tentativa de assassinato do Papa por alguém sem comprovadas ligações ao comunismo, ou sequer à Rússia, seja a única profecia aceitável; a que terá sofrido menos intervenção no pós-aparição.
Talvez o último segredo anuncie o declínio de uma cultura eclesiástica falsamente sagrada que cobriu de cadáveres o chão que pisou. Mas, nesse caso, não faria sentido que o enviado divino de 1917 pertencesse ao panteão iconográfico católico. Nossa Senhora? E se a Senhora que apareceu na Cova da Iria, não fosse nossa nem senhora? É uma bela questão, não é?!
Este texto baseia-se na leitura de Memórias da Irmã Lúcia, 11ª ed., 2006, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima.
Optei por não incluir notas, quando me refiro às declarações de Lúcia, por se tratar de uma leitura sem fins científicos. No entanto, as notas referentes às páginas onde recolhi informação poderão vir existir, ou poderei fornecer essa indicação, caso exista interesse.
No que respeita ao texto dos segredos, baseei-me na parte final do livro (páginas 191 a 232).
Próximo episódio (assim que tiver tempo): como conseguiu Lúcia matar os primos à fome.