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domingo, fevereiro 15, 2009

Cadê o Partido Socialista?

Há uns meses, o PS, e o resto da direita na Assembleia da República, inviabilizou um projecto-lei do Bloco de Esquerda e dos Verdes, relativo à união civil de homossexuais. Não porque não concordasse, mas porque não considerava oportuno, alegando ser necessário encaminhar o assunto para amplo debate social. Ora, todos nós sabemos como o PS é exímio em encaminhar projectos-lei, os seus, para ampla imposição social.
Com a candidatura de Sócrates a secretário-geral do PS, e consequente apresentação da respectiva moção política, percebemos a nega ao projecto da oposição: o PS pretende para si os louros do casamento de homossexuais. É apenas uma questão de currículo; servirá para defender que "nós é que". Ora, como há aqui basto interesse nos potenciais votos da esquerda, e da comunidade LGTB, convém não esquecer que este assunto já poderia estar resolvido desde Outubro, que isto é um bom exemplo da política oportunista do PS.

domingo, janeiro 18, 2009

Nós, as Bridget Jones


Certos amigos dizem que eu também me dedico a escrever umas coisas tipo Bridget Jones, mas inteligente. Discordo totalmente. Ainda agora estive a rever um dos filmes da dita. Não há uma Bridget Jones inteligente e outra burra. Nós, as Bridget Jones, somos todas muito parecidas, com o seu quê de burro, como qualquer pessoa apaixonada. A mim também me fascinam as cuecas de gola alta, e consumir televisão enquanto como pistachios com as cadelas, ou bolo de chocolate. Sou absolutamente tontinha quando estou interessada por um homem. E quando não estou, também não se aproveita grande coisa. Há, como eu, um grupo de mulheres que se atrasou bastante no cumprimento das tradições familiares, ou que começou por desprezá-las, vindo a perceber mais tarde, casadas as amigas, e cheias de filhos rebeldes, mas integradas e respeitadas, que não havia grande salvação fora do esquema sacrossanto da família, pelo menos nas estruturas sociais conhecidas. De forma mais ou menos longínqua, nós, as Bridget Jones, ainda sonhamos ser salvas pelo amor dedicado de um homem parecido com o Colin Firth, mesmo que seja manco. Mas é um sonho vago. Eu, por exemplo, tenho quase a certeza que no lar de terceira idade onde acabarei os meus tempos, há-de estar o homem ideal, aquele que gostará de mim como sou, e não será um psicopata dissimulado, como a maior parte dos que conheci. Andámos perdidos, mas o lar de terceira idade reunir-nos-á, e depois é que vou conhecer as alegrias da relação pura. Agora, obviamente, não, porque os homens que me interessam estão todos casados, e não me apetece nada passar de mulher livre a amante escondida e dependente. Agora, obviamente, não, porque os homens que se interessam por mim, não me despertam a libido por motivos diversos, que incluem ter pêlos no nariz, para além de que sei-muito-bem que não suportaria o quotidiano de um casamento com peúgas para lavar e etc. Um homem com o qual fosse sumamente feliz, para mim, é assim um ideal. E um ideal, caros leitores, é como sonhar que nos vai sair o Euromilhões, e vamos deixar de trabalhar, e fazer viagens cheias de aventuras e com dinheiro para gastar em cocktails, num bar da praia, ao pôr-do-sol.

domingo, outubro 05, 2008

Um estilo de vida excessivamente cancerígeno



A certa altura dos relacionamentos as mulheres consideram reunidas as condições para começar a chagar a cabeça aos namorados com a ideia do casamento, do juntar trapinhos e estar sempre perto como Deus e o Diabo. E eles engasgam-se, encolhem-se todos, arranjam desculpas sobre não ser a altura certa, que estão aflitos com um projecto, pedem tempo para pensar, defendem-se, coitados, como qualquer animal à beira do perigo.
A maior preocupação da mulher solteira consiste em convencer o namorado de que o casamento é mais económico, mais romântico e a ordem natural das coisas. Para além de que o sexo fica à distância de um braço esticado, argumento que normalmente resulta.
Enquanto isto, as mulheres casadas levam a cabo um combate diário com o homem que têm lá em casa, chamando-o à responsabilidade para o que é sensato e exequível. Pelo mundo inteiro, a cada segundo, 23 milhões de homens estão simultaneamente a ser acusados de infantilidade e imaturidade, topos de uma pirâmide de defeitos que englobam, a título de exemplo, a generalizada falta de higiene corporal e a inexistência de hora certa para chegar a casa. A mulher casada não se preocupa em convencer o marido a manter-se casado: ele já estudou todas a hipóteses de fuga e sabe que não vale a pena escavar um túnel durante 12 anos com uma colher de café: não há fuga. O casamento é a única prisão de alta segurança onde não é possível iludir a atenção dos guardas. Isso foi tarefa de que a esposa se ocupou lá para trás, enquanto encheu a barriga de amorosos filhos comuns e colaborou na contração de hipotecas para o bem do agregado. Para ter a certeza que a propriedade-marido está segura, se tem economias de solteira, empresta-lhas para que ele entre num franchising cujos lucros reverterão a favor dos filhos. Se não tem, mete-o em negócios de família.
Não compreendo a maratona das mulheres a favor da construção e manutenção desta prisão para si e para os outros. Este é um daqueles casos em que o exemplo nunca serve de exemplo. De fora, olhando à minha volta para as famílias no café, chego a sentir falta de ar. Que pessoas tão infelizes, dependentes, aprisionadas, fartas umas das outras. Eu não tenho sexo ao alcance do braço. Eu não tenho quem me traga um chazinho quando estou de cama nem me faça uma massagem ou o favorzinho de ir lá abaixo ao leite ou despejar o lixo. O que é tenho é a minha vida. Não pergunto a ninguém se posso, não tenho acusações a debitar ou a creditar. Estendo-me no sofá. Se não quero não lavo a louça. Se não quero não vou ou cinema nem ao supermercado. Ou vou. Tenho cá os amigos e bebo copos de vinho se me apetece. Às vezes janto maçãs. É a minha, minha vida.
Se tivesse em casa as pressões do emprego, ou similares, porque as pressões carregam por igual, e não pudesse furtar-me a elas, definharia como uma árvore sem água. Carregaria a vida como um condenado a trabalhos forçados eternos, um escravo da vontade dos outros. Não me pertenceria. Acredito que as pessoas tenham vivido assim. Acredito que vivam assim. Para mim, sinceramente, é um estilo de vida excessivamente cancerígeno. Acredito que o meu saia mais caro, mas a qualidade de vida tem os seus custos.


domingo, março 04, 2007

Os humanos não-humanos


As inscrições impressas nos pacotes de açúcar que nos colocam nos pires de café são cultura de massas, e a mensagem costuma ser fácil, permitindo identificação e reconhecimento imediatos. É a regra. Alguns trazem anedotas bacocas sobre maridos, mulheres e pares de cornos a rasar o chão, outros, perguntas de história do tempo em que eu andava na primária, coisas do género, "em que ano Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil"? Infelizmente, os pacotes de açúcar não ensinam grande coisa, porque seria um excelente meio para divulgação de mensagens construtivas.
Ontem, porém, colocaram-me, no pires, um pacotinho de açúcar, embalado pelos cafés Chaves de Ouro, contendo o texto do artigo 16º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Uma mensagem realmente interessante. E li, "Todos têm o direito de casar e de constituir família. No casamento, ambos os cônjuges têm direitos iguais."
Os pacotinhos de café são cultura de massas, repito, portanto, espera-se que o senhor Zé e a dona Eugénia leiam a mensagem e pensem, "pois, sim senhor, tá certo, casamento, família, iguais: Genita, qué que tu vais fazer pó jantar?!"; isto poderá ser assim tal e qual, mesmo que o senhor Zé assente a mão na dona Eugénia apenas porque sim, e ela consinta, porque até é mulher e, pronto, é fraca, ou seja, beta, porque parece que agora está na moda classificar os homens e mulheres como alfas e betas, tal como cães e lobos, sendo que há, portanto, fêmeas alfa, nas quais eu me incluo sem privilégio, como me escrevia um leitor, no outro dia, e as beta, lote a que pertencerá a dona Eugénia. E, de repente, ocorre-me que há fêmeas exactamente como eu, que foram à escola, que leram livros, e que continuam a levar porrada e a sujeitar-se a situações inenarráveis. E, também, que o senhor Zé a a dona Eugénia, em muitos, muitos casos perpetuaram-se no Tiago Bruno e na Cátia Vanessa, que eu bem os vejo.
Voltando ao acúcar, e juro não saber de onde vem tanto texto à volta de um pacote de seis por cinco, com apenas seis a oito gramas de conteúdo, o artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que nele inscreveram não se aplica ao nosso país, e deveria, portanto, ser feita uma ressalva - em muito países, excepto em Portugal, etc. Porque em Portugal, nem todos têm o direito ao casamento: gays e lésbicas estão impedidos de o fazer. Porque em Portugal, nem todos têm o direito de constituir família: gays, lésbicas, mulheres e homens celibatários não têm acesso à procriação medicamente assistida. No caso dos gays e lésbicas, o acesso continua vedado à adopção. Nos casos que conheço de mulheres e homens solteiros candidatos à adopção, aceitaram ficar com crianças consideradas menos adoptáveis, ou seja, os restos, os rejeitados pelos casais, os meninos e meninas com deficiências psicomotoras.
Portanto, algo entra aqui em contradição: ou em Portugal não se aplicam as normas da Declaração Universal dos Direitos Humanos (e não!), porque estamos acima disso, porque somos melhores, porque temos as nossas tradições, e, nelas, gays, lésbicas e celibatários(as) não são humanos, ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos está errada do primeiro ao último parágrafo, e, portanto, gays, lésbicas e celibários não são humanos.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Sindroma do marido reformado


Jovens liberais eufóricos apregoam, nestes dias tão destituídos de memória, o regresso das mulheres ao sossego do lar, para tratar das crianças e dos assuntos domésticos, com vista a optimizar os rendimentos do agregado, mantendo intactos os valores tradicionais da família tão em desagregação, dizem eles. Alegam que já vergam a mola horas mais que suficientes, mal dormem, mal comem, ganhando mais que bastante para sustentar a casa e consumos acessórios. Ora, exactamente a este propósito, sobrevoemos por minutos a dose de realidade empírica que me foi oferecida, ontem, por um documentário que passou na tv cabo.

As japonesas com 20 anos em 1960, altura em que casaram e constituíram família, permanecendo em casa, como era devido, vendo partir o marido para trabalhos com os quais contraíram segundo casamento, e de que começam a reformar-se, desenvolveram uma doença depressiva: o chamado sindroma do marido reformado.
Eu, que sou especialista em catálogos de doenças depressivas, e em várias línguas, nunca tinha ouvido falar nesta: sindroma do marido reformado!
Educadas tradicionalmente para a submissão ao marido, para terem e criarem os seus filhos, cuidarem da sua casa, roupa e alimentação, estas mulheres habituaram-se, durante mais de 40 anos, a uma estranha relação conjugal, a que continuaram a chamar casamento, mas que se tratou, de facto, de uma relação empresarial gerida eficazmente, da qual ambos eram escravos, de uma forma ou de outra.
Os maridos estiveram quatro décadas de passagem pela família, embora a liderassem. Dormiam e saíam, a correr, sem férias, sem folgas. Não existiam laços afectivos, nem diálogo. Nem tempo nem predisposição. De nenhuma das partes. Alguém consegue imaginar japoneses, mesmo japoneses com tempo, a dialogarem sobre sentimentos, a manifestarem-nos?!
Habituaram-se, pois, a viver uma vida semi-celibatária, sem outros afectos. O marido vinha a casa, de vez em quando, e não ocupava muito espaço. Era um estranho, mas um estranho que não estava presente, ou, se estava, se tratava correctamente, para rapidamente desaparecer com a mesma correcção. Hoje, a perspectiva do regresso a casa dos maridos, leva-as a colocarem a hipótese do suicídio, a pedir-lhes que adiem a reforma, e a procurarem, em desespero, a ajuda da psicoterapia. Não suportam a ideia de viver com aquele estranho. Não resistem ao stress, à depressão, ao medo que tal ideia lhes causa. Não sabem dialogar com o estranho. Sentem dores de estômago, subida da tensão arterial, ficam gravemente doentes. No Japão há milhares de casos.



O sindroma do marido reformado é consequência de uma estrutura social baseada da divisão rígida das tarefas, na separação dos sexos de acordo com tais obrigações.
Não existe apenas o sofrimento da esposa, porque o marido, um desgraçado que trabalha a 300 quilómetros para garantir a subsistência da família, não só não é feliz, como, na maior parte dos casos, nem sabe que é indesejado. Vai sendo poupado ao seu próprio estatuto de visita obrigatória e indesejável, o qual desconhece, e só vem a descobrir quando, finalmente, é confrontado com a doença da mulher. Sofrem todos em nome de uma tradição que é, na prática, uma inútil escravidão voluntária. Serve ninguém. Ambos os cônjuges são fiéis a um modelo de honra que não os honrou, porque não respeitou a inteireza das suas vidas, porque não os realizou como indivíduos nem como par.

Conheço um caso muito semelhante: uma amiga da família recomeça a tomar Prozac sempre que o marido regressa, semestralmente, da plataforma petrolífera onde trabalha; encharca-se de calmantes e vitaminas enquanto aguarda ansiosamente pela sua partida, sorrindo, limpando cuidadosamente o pó aos cantos da casa, que ele pensa pertencer-lhe, mas que, na verdade, e por justo usocapião, lhe pertence a ela e aos filhos. Ele não passa de um intruso tolerado. As férias do marido implicam fazer-lhe sala, como a uma visita de cerimónia, durante as 24 horas do dia; e a minha amiga não suporta o stress, a tensão de ser uma fada do lar só para ele ver, porque julga ser o que ele espera dela. Já nem sabe. Já passou tanto tempo. E quando casaram era assim.
Emagrece, anda irascível. Assim que o deposita no avião, vêmo-la sorrir outra vez, sentir-se feliz, livre para estar em casa sozinha a ler, a bordar, ocupar-se dos filhos, do trabalho da casa. Para poder ser quem se habituou a ser – uma mulher celibatária - e viver sem medo.

Portanto, regresso aos valores tradicionais, caros jovens desmemoriados?! Divisão das tarefas de acordo com supostas competências adstritas a um sexo?! Aqui vos deixo a experiência da vida real! Não tentem fazer isto sozinhos em casa!

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Não me peçam em casamento

Andrew Benyei, Perfect Marriage

Um casal chinês contratou uma união de oito anos, findos os quais, poderá ser renovada, ou não. Depende da vontade com que estiverem. Se ninguém a renovar no prazo de 90 dias após o término, cessa. Acho isto genial.

A última vez que me propuseram casamento foi em Junho do ano passado. Pedi uns tempos para pesar os prós e os contras e, confesso, passei mal: tive princípios de asma, tosse, engasgamentos, como se me tivessem atado uma corda ao pescoço e começassem a apertar o nó, devagarinho, puxando cada dia um bocadinho mais; a angústia de me imaginar casada e presa, tirava-me o sono, torturava-me. Não me imaginava a passar as manhãs de sábado a arrumar a casa, a lavar roupa e louça de empreitada, essas coisas que as mulheres casadas fazem, sejam emancipadas ou não, porque têm de ser feitas ou vence o caos; até que ao 16º dia de meditação não aguentei mais, desenfiei o laço pela cabeça, e mandei o proponente apresentar a proposta a outra mortal qualquer, mas a mim, não.
Pude respirar. Fundo. Reconheci aqueles sintomas; já os havia sentido uns anos antes. Peçam-me o que quiserem, mas não me peçam em casamento.

A única ideia agradável que tenho do casamento consiste em poder adormecer e acordar com alguém ao lado, ter companhia para férias, ter companhia, de forma geral. E sexo, sexo, sexo bastante disponível, até fartar. Quanto ao resto, ter de adequar os hábitos de vida aos de outra pessoa, abdicar das minhas manhãs de sábado no café, pelos meandros do jornal, não poder estiraçar-me pelo sofá durante o fim-de-semana, vendo televisão e filmes, lendo jornais e livros, não poder sentar-me ao computador e escrever sem ser interrompida, fazer comida só se me apetecer, não aspirar o chão, falar com a cadela, que concorda comigo em tudo... oh, o sossego de se estar sozinha, o sossego do silêncio, o sossego de não ter responsabilidades e de se fazer o que se quer com o tempo livre!
Quem experimenta a vida de solteira durante 20 anos pode lá imaginar-se dentro de uma camisa de forças, constrangida relativamente ao que é ou não permitido! Ceder aqui para obter acolá?! Não há volta a dar!
O casamento implica obrigações e negociações enormes. Muita trabalheira! Muita gente a sujar, a mexer em tudo. Com ideias. Com horários que não são os nossos. Impossível!
Depois, os efeitos psicológicos de saber que me tinha metido num negócio para toda a vida seriam desastrosos. Asfixiaria, como me sinto asfixiar só de tentar imaginar-me encaixada seja no que for. Sou inencaixável. Não descansei enquanto não me livrei da última hipoteca contraída, e eram só 30 anos.

No entanto, a ideia dos chineses, admito, é interessante: talvez conseguisse assumir um contrato a curto prazo. A seis meses, por exemplo. Ou três, só para experimentar, e pronto, sempre eram três meses de sexo à discrição, e cama quentinha, e essa face é sempre tentadora. Seria só estender o braço e dizer, “querido, anda cá que ainda faltam dois dias para acabar o contrato!”

quinta-feira, setembro 14, 2006

Sobre o aborrecimento sexual dos casais


As pessoas juntam-se para toda a vida! Erro.
Numa relação, excepto os filhos, nada é para toda a vida. As pessoas juntam-se para o tempo que for possível. E esse, que o vivam bem.
Se se partisse para uma união com a consciência de que é muito mais provável ela acabar em dois anos do que durar quinze, talvez durasse vinte, ou a vida inteira.
Os amigos zangam-se, os colegas zangam-se, os irmãos, os primos, os pais e os filhos. Por que carga de água é que os pares que formam casais do dito "amor fusional" não haveriam de zangar-se, e detestar-se, ocasionalmente, e pensar "bem feita!", e mandarem-se uns valentes berros, de vez em quando? E fazerem-se as pazes? E zangarem-se outra vez?
Juntam-se pensando que o quotidiano se compõe apenas de dias bons, de sorrisos? Eu pensava que nos juntávamos para podermos andar à porrada com mais eficácia, mais constância, quando é para esse efeito, e para podermos abraçar-nos mais rapidamente, mais perdidamente, quando é este.

O sexo, essa loucura!
Em que filme, em que livro, em que ópera é que foram beber esta ideia, sem pés nem cabeça, de que o sexo é uma espécie de fogo-de-artifício diário, um exacerbamento permanente?
Uma coisa é a necessidade fisiológica, outra o exagero. Por exemplo, eu gosto de bacalhau, adoro bacalhau, sabem lá o prazer que me dá comer um prato de bacalhau! A ser assim, por que não como eu bacalhau todos os dias? É muito simples, porque tudo o que é demais enjoa.
É muito simples, o repetitivo torna-se rotina, e a rotina é o que se realiza mecanicamente.
Exemplo: ir deitar o lixo orgânico no contentor depois de jantar.

Exemplo: uma rapidinha antes de dormir. Não façam demais, mas façam bem. Só pode existir aborrecimento sexual se as pessoas deixaram de se amar, ou se insistiram na repetição de um exercício mal praticado, que cansa e não resulta.
O sexo não é um exercício, se bem me lembro.
É um ritual. Convinha que fosse. E os rituais fazem-se em ocasiões especiais.
Não, não é como ir deitar fora o lixo depois do jantar. É mesmo especial. Pode ser no vão da escada, mas, se for, que seja especial. Que não seja uma obrigação.
Informo: a cama também serve para dormir.
Mas podem inovar à vontade, mudar de ares e de decoração. Essas coisas todas que já leram nas revistas.
Agora, clubes de "sexo alternativo" para combater o aborrecimento sexual? Não, essa não me vendem. Nesse caso, separem-se e pratiquem amor-livre. Tem muito mais lógica.
Clubes de swingers para variar da rotina, sadomasoquistas, para variar... outras ideias que nem me passam pela cabeça, ou que passam, mas que prefiro remeter para domínio criminal, para variar e desaborrecer o casal? Qual casal? Não querendo ser chata nem moralista nem etc., - se calhar até quero! - um casal aborrecido, é um casal acabado. E se está acabado, acabou. Não insistam.
Bem, eu nunca vivi com ninguém mais que, sei lá, quinze dias seguidos, por isso não faço grande ideia... mas acho que deve ser assim como digo!
De certeza que é!


quarta-feira, março 08, 2006

Mensagem numa garrafa, 10


Nunca percebi por que motivo os meus amigos se sentem tão felizes quando vão de férias sem as esposas.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Casamentos por interesse (1º parte) - O amor vem depois

O amor, esse conceito tão abstracto, que todos os dias aqui venho defender, contra não sei que vendilhões do Templo, é uma invenção contemporânea.
A minha mãe casou sem amor, em 1960. É certo que o parceiro lhe não foi imposto pela família, mas a pressão social exercida num meio rural, sobre uma mulher de 36 anos, ainda solteira, deve ter sido sufocante.
A minha mãe decidiu escolher, para companheiro da vida inteira (e esta ideia continua a parecer-me bonita, quero lá saber dos vendilhões do Templo!), um homem que conhecia muito vagamente; que, tendo integrando um contingente de brancos enviado para as colónias, a fim de exercer trabalhos conducentes ao desenvolvimento de projectos técnicos emergentes, a pediu em casamento, por carta enviada de Lourenço Marques; pediu-a logo ao primeiro contacto epistolográfico, enviando fotografia de fato completo, sorridente.
A fotografia fez furor. Era um rapaz perfeito. Alto, forte, sorridente.
A família da minha mãe foi às Caldas da Rainha recolher informação sobre o moço: sim, que era bom rapaz, trabalhador, muito amigo da mãe, muito dado às putas e às amantes!, mas bom rapaz. Servia-se das amantes só como como concubinas, não pensava permitir-llhes qualquer estatuto na sua vida. Sabemos que foi para África deixando por cá uma carrada de viúvas inconsoláveis; que era muito amigo da mãe, ponto final; que era trabalhador, ponto final parágrafo.
Nas poucas cartas que trocaram nos três meses que mediaram o pedido e o casamento, mostrou-se correcto, terno e brincalhão. Toda a vida o foi, aquele cabrão: correcto, terno e brincalhão. Com os brancos, claro. Nunca mudou. Foi isso, foi putanheiro, arranjou as amantes que pôde e as que não pôde. Adiante.

A minha mãe escolheu o parceiro que pareceu poder oferecer-lhe uma vida melhor. Não teria de continuar a aperfeiçoar peças de louça na fábrica do Raul da Bernarda, iria trabalhar na sua casa, para o seu marido, para os seus filhos, numa outra terra que não conhecia, mas onde sabia que se vivia bem.

Assim casou a minha mãe, em Outubro de 1960, e por procuração, no Mosteiro de Alcobaça; embarcou para Lourenço Marques, no Príncipe Perfeito, num certo dia de Janeiro de 1961.
À chegada, desceu de branco, quando o meu pai a foi buscar ao navio.
Via nessa altura, pela segunda vez, o rosto queimado do homem com quem se havia cruzado, dois ou três anos antes, no café duma prima. Não se conheciam. Não se amavam.
Eu nasci em 1963.
O meu pai morreu em 2001.
Viveram casados durante 41 anos, e eu, que andei por ali algum tempo, sei que se amaram sempre.



O Príncipe Perfeito

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...