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segunda-feira, julho 21, 2008

O meu dente-de-leão





Quando estava a varrer a cozinha, apareceu-me, dançando com os cabelos da vassoura, uma semente de dente-de-leão. Apanhei-a sem a magoar, e soprei-a. Que lindo! Tinha mil patas de aranha branca e um coração de palha. Larguei a vassoura junto ao lava-louça, e estivemos a brincar. Caía tão lentamente, com tanta suavidade. Como um floco de neve elegante. Se movimentava o meu braço para a direita, ela elevava-se ou virava à esquerda, inesperada. Impedi-a de pairar sobre o frigorífico, porque não queria perdê-la da vista, nem suportaria que ficasse a morrer entalada num sítio onde não pudesse aceder-lhe.
Bailámos
muito tempo, até que reparei na vassoura caída no chão; tinha ainda muito que fazer, e quis guardar a semente de dente-de-leão para brincarmos mais tarde. Como tinha medo que fugisse com a deslocação do ar, ou que acabasse nas patas das cadelas, procurei uma caixa onde pudesse conservá-la certa. Acabei por metê-la numa embalagem quase vazia de chá preto da Zambézia. Continuei a trabalhar, mas quando passava o chão a esfregona, lembrei-me que o chá é muito odorífero, se calhar a semente podia sentir-se mal, ou ter falta de ar assim fechada; eu também não gostava que me fechassem, e, portanto, tinha a certeza que ela seria muito mais feliz se pudesse voar, ser livre para sempre, noutras mãos, ou não. Mas livre para voar com o vento. Abri a caixa do chá, levei-a na mão até à janela, como se fosse um passarinho muito frágil e pequeno, e soprei-a para o infinito.

domingo, maio 25, 2008

A beleza

Foto de Mehemed Fehmy Agha, Manequim e Escultura, EUA, 1940


É preciso ver que a beleza não acaba no que nos foi ensinado sobre a beleza. A maior parte do que nos disseram ser belo transformou-se num lugar comum que não aquece nem arrefece, melhor, que não gera criação, exceptuando um ou dois casos clássicos e irrefutáveis.
A beleza está muitas vezes, e cada vez mais, no que nos disseram ser horrível ou evitável.
A beleza muda. Andamos sempre à procura da gruta em que se esconde, agora. Por onde pára a beleza nestes dias? A beleza agora já pode ser feia?

Mas, claro, para aí chegar convém trazer sempre, desde cedo, pelo menos dois pares de óculos, e adaptá-los às condições de navegação.

quarta-feira, junho 13, 2007

Um sítio de ninhos


A minha casa fica no ar. No Verão, abro as janelas o dia inteiro. A minha casa fica na copa de uma velha árvore alta, entre ramos e folhagem, para que eu exista no mundo como se não lhe pertencesse.
Hoje, ao anoitecer, uma andorinha-bebé entrou pela janela da sala e ficou voando aos círculos, perdida, sem compreender por onde entrara.
Escondeu-se na estante, num vão entre livros, local onde fui resgatá-la, fechando-a muito de leve na concha das mãos, olhando-lhe o biquinho, a ponta da cauda, só um instante, a medo.
Assustava-se.
Como pensa uma andorinha-bebé que ainda não conhece a vileza ?
"Estou neste lugar; não é o meu; quero sair deste lugar." Mais nada. Quando me aproximei, terá pensado, "um bicho grande e feio: não quero ser apanhada. Bato as asas."
Pousei-a no rebordo da janela, e abri as mãos, com pena; percebeu-se livre e voou em direcção ao Mar da Palha. Perdi-a de vista muito antes.
Um dia a minha casa será um pombal, um sítio de ninhos, e quem chegar não me encontrará, porque estarei a catar as outras aves da minha espécie.

quarta-feira, maio 23, 2007

Moldaste o meu corpo em barro

See beauty in every living creature

(clique sobre as fotos para aumentá-las)



















The NU Project
(Pessoas reais. Corpos reais.)

pelo fotógrafo Matt Blum


domingo, maio 20, 2007

Toda a beleza do mundo

Foto: Monika Wiechowska


Raramente a poesia se encontra no poeta, seu inegável construtor, nem sempre habilitado a reconhecê-la acima da sua vaidade e da consciência da obra conseguida.
O poeta não interessa à poesia, que é de todos os bens públicos, o mais impudicamente público e inaprisonável de todos. A poesia circula no oxigénio do corredor da casa, é varrida pelo vento ao final da tarde de domingo, e pelas vassouras das mulheres de limpeza à segunda de manhã.
Por vezes, quase sempre, a poesia não tem forma nem lugar fixo, pelo que é facilmente captada por veios ignorados de certa inocência que passou ali, ou por manchas de pureza invisível que aqui ficaram esquecidas - aqui neste canto onde ninguém chegou.
Os sentidos do contemplador reconhecem a poesia mesmo que não tenham sido educados para a receber, mas a poesia não pertence aos sentidos: passa por eles, que a pulverizam como um perfume à roda do incauto e tolhido receptor.
Paralizado de poesia, o contemplador comove-se, e fecha-se, e por isso germina de si. A poesia encerra toda a beleza do mundo. Não há nada fora dela. Quando nos referimos ao amor como um ideal de harmonia e beleza, quando afirmamos, "ah, eu queria tanto encontrar o amor!", estamos de facto a dizer "ah, eu queria tanto encontrar a poesia!"
A poesia é o todo de tudo. Por isso, não há ainda qualquer linguagem humana para os poemas que as mãos constroem. É cedo.

terça-feira, agosto 02, 2005

Da beleza necessária à procriação

Eu e a minha prima afastada fomos hoje ter a nossa habitual conversa, versando filosofia pura, para as consultas externas do Hospital de Santa Maria. Estando perto do departamento materno-fetal, demos connosco a observar e comentar grávidas, daquela maneira useira que serve às mulheres para se comentarem umas às outras; chegámos à conclusão de que, para se levar com ele a torto e a direito, e, eventualmente, engravidar, não é preciso ser-se bonita. Há grávidas desdentadas, grávidas mancas, grávidas de olhos esbugalhados, grávidas secas de heroína...
Ora, sendo que a gravidez pressupõe farra, só podemos concluir que a beleza é coisa muito relativa e que não pode ser considerada para efeitos de enrodilhamento. Os homens gostam de mulheres bonitas, mas isso não quer dizer que se apaixonem por elas. Porque os homens não se apaixonam por quem querem, apaixonam-se por aquelas que queremos, que lhes impingimos, ou seja, nós!
O destino é cruel e, em alguns casos, justo, pelo que, mais facilmente, quem nada espera, recebe de bandeja a verdadeira beleza, e a respira, a bebe, se funde nela, do que, quem muito exige, a vislumbra de perto.
Mulheres e homens muito exigentes acabam, frequentemente, mortos de amor por simpáticos exemplares equinos em duas patas. É a vida!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...