Fico a olhar, fascinada, as pessoas na televisão. Os portugueses. Políticos. Intelectuais. Ou não. Os convidados das notícias. Que bem parecem. A forma gentil como movimentam as mãos. São pessoas sérias. Todas humildes e modestas. Higiénicas. Ninguém mija fora do écran, quanto mais dentro. O meio sorriso, nem muito aberto nem muito fechado. A cabecinha de lado, o sorriso retórico, politicamente correcto, socialmente correcto, culturalmente correcto. Os trejeitos com a boca, exclamativos, semânticos; a preocupação em dizer as coisas certas, com as palavras que se esperam. Os tiques que procuram aceitação, o abanar de cabeça, o baixar de cabeça, as palavras que rabiscam numa folha, e que infelizmente não vemos. Que repetitivos, que vazios, que chatos. Dêem-me a rua, por favor: as pessoas que passam, as mulheres que vendem no passeio, o homem que diz, "haviam de pagar mais de um milhão por cada divórcio", e a senhora que está convencida que "agora facilitam tudo, depois é esta falta de respeito, então uma pessoa quando se casa não é para sempre?" Gosto mais destes; as massas que não fazem jeitinhos, que não prestam vassalagens aos que prontamente pagam as vassalagens.