As culturas enfermam da distinção castradora que consiste em avaliarmo-nos uns aos outros de forma generalizadamente sexualizada e sexuada.
Ao primeiro contacto, procuramos saber se o nosso interlocutor é homem ou mulher, e se o seu género e comportamento sexuais estão conformes ao sexo biológico que lhe associamos, a que depreendemos pertencer. Posicionamo-nos em relação ao outro a partir da informação recolhida nesse instante.
A nossa própria identificação sexual determina o tipo de interrelações que os outros estabelecerão connosco, e, consequentemente, a nossa importância e campo de acção enquanto cidadãos. O sexo biológico, o género e a sexualidade, resumindo, a natureza dos órgãos sexuais e consequente adequação a padrões de comportamento condizentes, bem como o que se faz com eles, determinam tudo o que uma vida pode conter, afectando quaisquer relações sociais, profissionais, sentimentais, até familiares, que possamos vir a estabelecer.
Não posso compreender nem aceitar que se efectue uma categorização de seres humanos conforme a identidade e prática sexuais, ou seja, que a possibilidade que cada um tem de aceder a determinada via profissional, compra de habitação, possibilidade de adoptar, respeito, dependa de se ser homem ou mulher, de se parecer e agir em consonância, ou da escolha de um parceiro sexual com o par cromossomático oposto.
Nunca senti que tivesse de ser coisa alguma diferente porque nasci mulher. Sempre me senti uma pessoa exactamente como se sentem as outras. Rigorosamente todos nos sentimos exactamente como os outros, independentemente do sexo biológico a que pertencemos, e do género com o qual nos identificamos. Isto acontece por um motivo muito prosaico: muito antes de sermos um sexo, um género, seres sexuados, somos pessoas. Isso é o que conta, no princípio e no fim. O problema é que não sentimos que os outros sejam pessoas como nós, ou não lhes permitimos que se sintam pessoas como nós. Fazemos uma triagem com base num reconhecimento e normalização sexualizados.
Parece-me injusto que a integração dos indivíduos numa cultura dependa da identificação desse ser com o aspecto e os comportamentos padrão atribuídos por um molde hegemónico ao seu sexo biológico. Não me satisfaz a obrigatoriedade de assumir comportamentos masculinos ou femininos conforme me relaciono com alguém que percepciono como homem ou mulher. Incomoda-me que muito antes de querermos saber se uma pessoa é honesta, nos preocupe confirmar se a sua sexualidade está de acordo com padrões ditos universais, ou com os nossos. Aflige-me a obsessão que mantemos relativamente à sexualidade alheia, sintetizando todo um ser humano nessa questão particular.
Sinto-me bem em ambientes sociais nos quais me é impossível saber quem é o quê em termos de sexo e género. Posso respirar fundo e ser apenas uma pessoa, sem me preocupar em estar particularmente atraente ou agradável porque sou uma mulher. Não tenho que seduzir ninguém nem posso saber se sou alvo de sedução. Não interpreto sinais, porque podem ser erróneos. Não me interessa se estou penteada, se tenho baton, se não se nota muito a barriga, se consigo disfarçar outros defeitos que valorizo. Um ambiente sexualmente heterogéneo, em que, todos, à partida, podem ser qualquer coisa igual ou diferente, e isso não lhes importa, permite-me ultrapassar as limitações do processo de aculturação, que dificultam olhar o mundo como uma estrutura de relacionamentos humanos diversos, muito acima de uma paupérrima hierarquia sexualizada.
Ultrapasso-me enquanto ser sexualizado. Torno-me uma pessoa com dúvidas, opiniões e sentimentos, perante outras. Não penso em mim como uma mulher entre homens ou entre mulheres, como no início, quando era criança, não pensava.
Percepcionar o mundo fora de padrões sexuais, transforma-o. É outro mundo. Torna-o mais justo, menos conflituoso, mais fácil. A possibilidade desta indistinção sexual e de género, esta fluidez, mostra-nos que a haver necessidade de se estruturar o mundo segundo categorias, elas estarão sempre erradamente situadas na esfera do sexo.