Pacheco Pereira tem um ódio de estimação aos anónimos, o que advirá do facto de dar a cara. No caso dele, tanto faz. Tem poder. É inatingível. Aparece na televisão. E isto talvez seja o mais importante de tudo para se passar de besta a bestial: aparecer na televisão! PP tem vantagem em dar a cara e, na sua posição, não pode entender que não se dê. Os bloggers que dão a cara consideram-se uma elite da blogosfera. Também formam a sua aldeia global, conhecendo-se pessoalmente ou não, mas vigiando-se mutuamente. Porque têm regras, imensas regras.
O comum mortal, funcionário por conta de outrem, com algumas ideias, e capacidade para as exprimir, raramente pode existir na blogosfera sem um nick. Eu não poderia fazê-lo sem correr sérios riscos relativamente à manutenção do meu emprego. Prevalece enorme hipocrisia social sobre o que é a decência, o respeito e a responsabilidade. Qualquer destas noções, no pensamento tradicional, exclui a sexualidade, a emotividade, o entusiasmo exaltado, a divergência, a diferença, o egotismo, determinada expressividade não padronizada, não formal, em, suma, a matéria da arte, que depois procuramos nos outros para nos sentirmos, por minutos, livres, verdadeiros; para reconhecermos quem somos, para perceber que existimos.
Para sobreviver, temos precisado de nos robotizar em público. Podemos não o fazer, mas os custos serão elevados.
Os anónimos por detrás de nicks ou os outros anónimos-anónimos não são o problema da blogosfera; nem o pequeno chat do beijinho, do abraço, do bom fim-de-semana. Ou mesmo, o grande, quando os leitores tomam de assalto as caixas de comentários para realmente debater um assunto. Tenho aqui excelentes comentadores sem blogue, que lêem e comentam sem qualquer má intenção.
Um blogue é um espaço de autoria, melhor ou pior, e em redor da autoria sempre existiu corte. Era assim no século XVIII. Antes, muito antes. Sempre. Autor, os outros autores, corte de admiradores. Nesse contexto, surgem os parasitas, os tais bichinhos que vivem na sombra dos bichos maiores. Não é como no sermão de Vieira, porque são os pequenos que comem os grandes. Assim sobrevivem, e conseguem sentir-se, na sua pequenez, maiores.
O problema da blogosfera é o mesmo da vida: os outros são um risco, mas não é possível viver sem eles. Por vezes encontramos amigos que se revelam inimigos. Cortamos relações, afastamo-nos, afastamo-los, e se vierem bater à nossa porta é muito possível que não os deixemos entrar, porque na nossa casa só entra quem quisermos.

Pessoalmente, continuo a achar que as caixas de comentários devem estar abertas. Tal imediatismo de reacção e resposta distingue um blogue de uma publicação periódica em papel. A partir do momento em que a blogosfera se popularizou, impôs-se um rastreio a quem vem bater à nossa porta, pretendendo entrar na nossa casa. Não me permito ser incomodada pelos promotores da Tele 2 nem pelos fiéis Testemunhas de Jeová. Nos blogues, como na nossa casa, há razões para moderar os comentários: não extinguiremos os parasitas, que procurarão próxima vítima, mas podemos fechar-lhes a porta.
Gosto muito de blogues onde não posso comentar, e adoraria fazê-lo. Aborrece, porque, como sempre, paga o justo pelo pecador. Enviar mails dá mais trabalho. Considero o Abrupto um bom blogue e frequento-o periodicamente. Não tenho qualquer simpatia pelo Pacheco Pereira como político, mas não é isso que está em causa.
Os maus blogues proliferam. São incontáveis. Obviamente, não me lembraria de deixar comentários num mau blogue. Da mesma forma que raramente comento posts com que não concordo. Mas, se comento, não tenho como objectivo insultar quem os escreveu: não insulto, na vida, aqueles de quem discordo. Entro e saio. Mas lembremo-nos que, no trânsito, também estão os parasitas dos blogues. Devem ser os que me apitam quando paro no vermelho. Os que me fazem sinais de luzes quando vou a 120 na auto-estrada. O que é que posso fazer? Ignorá-los e seguir calmamente a minha vida. Na blogosfera, idem, idem.
Quanto ao Pacheco Pereira, o homem tem razão em quase tudo o que escreve na "Fauna". Pensar a blogosfera, interpelá-la, obrigá-la a rever-se, só pode fazer-lhe bem. Estamos no bom caminho.
(O link para o Abrupto, se ainda não têm, encontra-se aqui ao lado, na barra lateral direita.)
O comum mortal, funcionário por conta de outrem, com algumas ideias, e capacidade para as exprimir, raramente pode existir na blogosfera sem um nick. Eu não poderia fazê-lo sem correr sérios riscos relativamente à manutenção do meu emprego. Prevalece enorme hipocrisia social sobre o que é a decência, o respeito e a responsabilidade. Qualquer destas noções, no pensamento tradicional, exclui a sexualidade, a emotividade, o entusiasmo exaltado, a divergência, a diferença, o egotismo, determinada expressividade não padronizada, não formal, em, suma, a matéria da arte, que depois procuramos nos outros para nos sentirmos, por minutos, livres, verdadeiros; para reconhecermos quem somos, para perceber que existimos.
Para sobreviver, temos precisado de nos robotizar em público. Podemos não o fazer, mas os custos serão elevados.
Os anónimos por detrás de nicks ou os outros anónimos-anónimos não são o problema da blogosfera; nem o pequeno chat do beijinho, do abraço, do bom fim-de-semana. Ou mesmo, o grande, quando os leitores tomam de assalto as caixas de comentários para realmente debater um assunto. Tenho aqui excelentes comentadores sem blogue, que lêem e comentam sem qualquer má intenção.
Um blogue é um espaço de autoria, melhor ou pior, e em redor da autoria sempre existiu corte. Era assim no século XVIII. Antes, muito antes. Sempre. Autor, os outros autores, corte de admiradores. Nesse contexto, surgem os parasitas, os tais bichinhos que vivem na sombra dos bichos maiores. Não é como no sermão de Vieira, porque são os pequenos que comem os grandes. Assim sobrevivem, e conseguem sentir-se, na sua pequenez, maiores.
O problema da blogosfera é o mesmo da vida: os outros são um risco, mas não é possível viver sem eles. Por vezes encontramos amigos que se revelam inimigos. Cortamos relações, afastamo-nos, afastamo-los, e se vierem bater à nossa porta é muito possível que não os deixemos entrar, porque na nossa casa só entra quem quisermos.
Pessoalmente, continuo a achar que as caixas de comentários devem estar abertas. Tal imediatismo de reacção e resposta distingue um blogue de uma publicação periódica em papel. A partir do momento em que a blogosfera se popularizou, impôs-se um rastreio a quem vem bater à nossa porta, pretendendo entrar na nossa casa. Não me permito ser incomodada pelos promotores da Tele 2 nem pelos fiéis Testemunhas de Jeová. Nos blogues, como na nossa casa, há razões para moderar os comentários: não extinguiremos os parasitas, que procurarão próxima vítima, mas podemos fechar-lhes a porta.
Gosto muito de blogues onde não posso comentar, e adoraria fazê-lo. Aborrece, porque, como sempre, paga o justo pelo pecador. Enviar mails dá mais trabalho. Considero o Abrupto um bom blogue e frequento-o periodicamente. Não tenho qualquer simpatia pelo Pacheco Pereira como político, mas não é isso que está em causa.
Os maus blogues proliferam. São incontáveis. Obviamente, não me lembraria de deixar comentários num mau blogue. Da mesma forma que raramente comento posts com que não concordo. Mas, se comento, não tenho como objectivo insultar quem os escreveu: não insulto, na vida, aqueles de quem discordo. Entro e saio. Mas lembremo-nos que, no trânsito, também estão os parasitas dos blogues. Devem ser os que me apitam quando paro no vermelho. Os que me fazem sinais de luzes quando vou a 120 na auto-estrada. O que é que posso fazer? Ignorá-los e seguir calmamente a minha vida. Na blogosfera, idem, idem.
Quanto ao Pacheco Pereira, o homem tem razão em quase tudo o que escreve na "Fauna". Pensar a blogosfera, interpelá-la, obrigá-la a rever-se, só pode fazer-lhe bem. Estamos no bom caminho.
(O link para o Abrupto, se ainda não têm, encontra-se aqui ao lado, na barra lateral direita.)