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quinta-feira, abril 10, 2008

O que é a felicidade?



Uma mulher casa aos 46, e vive com felicidade esse relacionamento tardio. Trata-se de um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo. Gostam um do outro. Têm rotinas nas quais se apoiam. Adoptam um cão, e, certo dia, correndo atrás do animal que lhe fugiu para a estrada, o marido é gravemente atropelado, sofrendo um traumatismo craniano profundo que alterará a sua percepção da realidade. A mulher fica sozinha, na casa sozinha, com o inocente cão que não consegue culpar.
Uma Vida e Três Cães
, de Abigail Thomas, oferece-nos as memórias desta mulher, jornalista, escritora, a sua relação com a doença do marido, internado numa clínica para doentes com lesões cerebrais irreversíveis, com os seus familiares, vizinhos, os cães, que vai adoptando, e que dormem todos na sua cama. Mas a obra é, antes de mais, uma simples reflexão, redigida com grande despojamento literário, sobre a natureza da felicidade, a importância dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como comer gelados, fazer malha, sentir a respiração morna dos cães contra a pele do nosso braço, ver e escutar os outros. É um livro sobre a felicidade, porque é um livro sobre a aceitação da vida. Ofereceram-mo porque a autora e protagonista era uma mulher como eu, uma mulher que dorme com os cães. Voltei a questionar-me sobre a felicidade, assunto que é muito recorrente em mim, que vai e volta, mas permanece pairando sobre tudo o que penso ou escrevo. A felicidade. O que eu julgava que ela seria, aos 18 anos, e o que penso a esse respeito, agora. Ser livre, pensava eu. Ser feliz era ser livre. E o que penso hoje sobre a natureza da liberdade, sobre as múltiplas prisões que a seguram pela corrente. Li-o e fui sorrindo. Dou comigo sentada no sofá a dizer à Morena e à Micas, somos tão felizes as três, não somos?! Não respondendo, dizem-me que sim. Somos mesmo felizes as três, cum caraças! Demorei muito anos a descobrir a enorme felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de mim. Achava que não podia existir na solidão. A felicidade está na solidão. Achei que não poderia encontrá-la dentro de casa. A felicidade está dentro de casa. Pensava que para ser feliz precisaria da viver experiências ruidosas e coloridas. Tropeço em felicidade nos passeios que vou dando através da Serra do Louro, ou quando vou à praia, a S. João da Caparica, e deixo as cadelas de bofes à boca. Não têm pedalada para mim, as gordas. Às vezes, se me meto pelo mato, apanho carraças nas pernas, e isso também é a felicidade. Não conseguia imaginar a minha vida quando tivesse 40 anos. Achava que seria uma infeliz mulher rejeitada, de meia idade, quase velha, demasiado velha. Mas agora, que tenho 45, não me sinto velha nem rejeitada nem de meia idade nem infeliz, mas viva, e cada vez mais capaz de me maravilhar, de me deixar tocar pelos elementos. Também cada vez mais capaz de responder aos outros, de destrinçar o certo do errado. Sei muito bem o que me faz bem e o que me faz mal, mas aí não incluo os rissóis nem os bolos de arroz. Não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada. Limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. A felicidade resulta dessa aceitação.


Abigail Thomas (2008), Uma Vida e Três Cães, Lisboa, Sextante Editora (12,60€ na FNAC)

sábado, março 29, 2008

A casa dele

Alfred Wallis, The Hold House, circa 1932



Não o incomodo. Não lhe dou trabalho. Fica tudo como estava antes de eu entrar. A sua vida igualzinha, sem tirar nem pôr. É assim todos os dias desde que arranjei a chave da sua casa. Custou-me muito, mas consegui, por mor de antigas cunhas e muito seguras. Quando estou cansada e vazia, e se ele não está, entro em silêncio, sento-me num sofá, e perco-me a contemplar os pormenores da mobília, a folhear os livros de família e os diários em gavetas. Como se ele estivesse na capa deste livro; as suas mãos terão folheado este livro; aperto-o contra o peito, com ternura; beijo-lhe a capa; cheiro-a de olhos muito fechados. Ele há-de estar ali. Remexo-me no sofá. Não o incomodo. Não perturbo uma leve aragem do seu dia. Tudo igual ao que era antes de eu ter nascido. Mas o seu corpo senta-se neste sofá. A sua roupa. Deve ter o seu cheiro. Se fosse uma cadela poderia cheirá-lo nesta coberta; que pena não ser uma cadela. Nascer, morrer, ter um dono. Percorro toda a casa, até a arrecadação, sobretudo as coisas velhas. O quarto onde dorme acompanhado, onde faz amor com a mulher que ama. Os seus ténis velhos. Um casaco castanho. A camisa de dormir com que a mulher cobre os seios que ele adora. E tanta dignidade. O quarto das crianças, que cheira tão bem, tão a novo. Que casa tão bonita, tão leve, despretensiosa. Que bem que se está na sua casa, que rescende a amor, sol e flores vivas. Saio recomposta. Suspiro como se tivesse calcorreado quilómetros e precisasse descansar. Ele está bem; que bom, saber que está bem, que é feliz, que poderia ser feliz, que é o único a sentir-se morto lá dentro.

sexta-feira, junho 22, 2007

Pela estrada dentro



Não há pessoas simples. Nem histórias. Nem vidas. Simples. As histórias a que chamamos simples são uma fina teia de complexidades invisíveis e caladas que se aceitaram. Aí está a simplicidade. Nessa aceitação.
A metáfora total está nas histórias simples on the road.
Há uma estrada que é necessário percorrer, seja qual for o meio. Esse caminho é tudo o que queremos, precisamos fazer. Atravessamos campos de trabalho ao sol, à chuva, pela turvação do pó do trigo levantado, pela claridade do amanhecer, do entardecer, para chegar a um lugar que não sabemos muito bem onde fica, mas é lá longe. Aí faremos as pazes com o nosso irmão desavindo. Connosco. Podemos estrebuchar, mas, no final, no que toca aos outros, e a nós, resta-nos aceitar, sorrir e calar. Parece tão simples, não parece?!






Fotogramas de Uma História Simples, de David Lynch

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...