Canal Odisseia. A mamã ursa-castanha roubava mel da colmeia que derrubara. As abelhas atacaram-na, pelo que fugiu para junto das crias, com a barriga cheia e uma ou duas picadas no focinho. Os ursinhos brincavam. Quando a mamã chegou, deitou-se de costas, expondo as quatro tetas húmidas, disponíveis. Os três bebés treparam para cima dela e, escarranchados no enorme corpo fofo, chupavam-lhe o leite, enquanto seguravam a saliência da mama e a pressionavam delicadamente, para que corresse mais, para que corresse melhor. Larguei o Público aberto sobre o sofá, e deixei-me estar boquiaberta, os olhos fixos no écran, sequiosa da teta sobrante e do corpo enorme e macio no qual também eu queria escarranchar-me, sem idioma, despida e igual, gozando o doce manto oloroso, para poder ser, de verdade, o animal que de verdade sou.
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domingo, fevereiro 17, 2008
domingo, junho 24, 2007
Mulher grizzly
Durante muitos anos recorri a uma fantasia que me ajudava a adormecer.
Imaginava-me vivendo com uma comunidade de animais peludos: cães selvagens, lobos, ursos..., e adormecia com eles, a céu aberto, na rostilhada do seu calor, odor e protecção. Não fantasiava coisa alguma sobre as minhas ocupações diurnas, afastada da civilização. Interessava-me a noite sem luz ou abrigo artificial.
Na noite dos animais havia conforto. Eu era um ser de carne entre outros seres de carne, tão juntos que quase se amalgamavam. Essa evocação dos corpos quentes, olorosos, que se empurravam contra as carnes mútuas para se aquecerem, sossegava-me, e adormecia, finalmente, na minha incoerente noite civilizada.
Ao longo da vida desejei ser apenas um animal selvagem. Ter o cheiro não lavado de um bicho peludo: uma mistura agridoce de terra, vegetais, sangue, suor e excremento. Procurei dar importância apenas ao importante, usando a tabela de valores de um animal, para o qual um prato de ouro, um sabonete, e uma mola da roupa, são objectos da mesma ordem.
Tenho sido, até onde me deixaram ser, naturalmente selvagem. Não fossem a leitura, o cinema, a música, e as artes plásticas e cénicas, que aqui me prendem, porque me libertam tanto quanto mais selvagens se assumem, e todo o interesse pela cultura humana haveria de me passar ao lado. Que se lixassem todos e mais as suas lutas, que me ferem tanto. Mais os seus ódios, egoísmos, egotismos, que me ferem tanto, e nos quais tenho de me envolver, porque afinal não sou apenas um animal. Nem cega nem surda nem autista.
Os animais não são bons nem maus nem sabem o que é a justiça tal como a concebemos, nem a solidariedade ou a liberdade. Sentem-nas. São associais e apolíticos. Contudo, têm uma ética e respeitam-na. Lambem as feridas uns dos outros. E os olhos, os focinhos, as orelhas, as vulvas, os ânus sem nenhum outro interesse que curar, conhecer, procriar, limpar. E lutam por domínios, mas lutam corpo-a-corpo, com as garras e as presas. Mordem-se, arranham-se, mutilam-se; uns ganham, outros perdem, mas olham-se bem nos olhos ao longo dos processos. Tocam-se. Rasgam-se. E comem-se, se têm fome, porque têm fome, mas olham-se nos olhos. Tudo isto me parece sempre muito mais humano do que a nossa vida humana.
Sigo avidamente casos conhecidos de meninos ou meninas selvagens encontrados após anos de vida com os animais. Tenho sempre pena deles. Por terem sido encontrados. Vejo desgosto nos seus rostos; prisão, inadequação; desejam fugir, regressar à selva para dormir na rostilhada morna dos animais.
Eu também preferia ter vivido sempre com os lobos e os macacos e os ursos, e morrer quando tivesse de morrer, mas andar nua e descalça e ser livre, e não ter de fingir nem ser o que não sou nem interrogar-me todos os dias sobre aquilo que, sendo impossível ou indesejável, os seres humanos possibilitam até ao descarnamento da essência da vida.
Imaginava-me vivendo com uma comunidade de animais peludos: cães selvagens, lobos, ursos..., e adormecia com eles, a céu aberto, na rostilhada do seu calor, odor e protecção. Não fantasiava coisa alguma sobre as minhas ocupações diurnas, afastada da civilização. Interessava-me a noite sem luz ou abrigo artificial.
Na noite dos animais havia conforto. Eu era um ser de carne entre outros seres de carne, tão juntos que quase se amalgamavam. Essa evocação dos corpos quentes, olorosos, que se empurravam contra as carnes mútuas para se aquecerem, sossegava-me, e adormecia, finalmente, na minha incoerente noite civilizada.
Ao longo da vida desejei ser apenas um animal selvagem. Ter o cheiro não lavado de um bicho peludo: uma mistura agridoce de terra, vegetais, sangue, suor e excremento. Procurei dar importância apenas ao importante, usando a tabela de valores de um animal, para o qual um prato de ouro, um sabonete, e uma mola da roupa, são objectos da mesma ordem.
Tenho sido, até onde me deixaram ser, naturalmente selvagem. Não fossem a leitura, o cinema, a música, e as artes plásticas e cénicas, que aqui me prendem, porque me libertam tanto quanto mais selvagens se assumem, e todo o interesse pela cultura humana haveria de me passar ao lado. Que se lixassem todos e mais as suas lutas, que me ferem tanto. Mais os seus ódios, egoísmos, egotismos, que me ferem tanto, e nos quais tenho de me envolver, porque afinal não sou apenas um animal. Nem cega nem surda nem autista.
Os animais não são bons nem maus nem sabem o que é a justiça tal como a concebemos, nem a solidariedade ou a liberdade. Sentem-nas. São associais e apolíticos. Contudo, têm uma ética e respeitam-na. Lambem as feridas uns dos outros. E os olhos, os focinhos, as orelhas, as vulvas, os ânus sem nenhum outro interesse que curar, conhecer, procriar, limpar. E lutam por domínios, mas lutam corpo-a-corpo, com as garras e as presas. Mordem-se, arranham-se, mutilam-se; uns ganham, outros perdem, mas olham-se bem nos olhos ao longo dos processos. Tocam-se. Rasgam-se. E comem-se, se têm fome, porque têm fome, mas olham-se nos olhos. Tudo isto me parece sempre muito mais humano do que a nossa vida humana.
Sigo avidamente casos conhecidos de meninos ou meninas selvagens encontrados após anos de vida com os animais. Tenho sempre pena deles. Por terem sido encontrados. Vejo desgosto nos seus rostos; prisão, inadequação; desejam fugir, regressar à selva para dormir na rostilhada morna dos animais.
Eu também preferia ter vivido sempre com os lobos e os macacos e os ursos, e morrer quando tivesse de morrer, mas andar nua e descalça e ser livre, e não ter de fingir nem ser o que não sou nem interrogar-me todos os dias sobre aquilo que, sendo impossível ou indesejável, os seres humanos possibilitam até ao descarnamento da essência da vida.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...