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segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Dê-se prioridade aos caldos!

Vladimir Nabokov considerava-se "um escritor americano, nascido na Rússia, formado na Inglaterra, onde estudei literatura francesa antes de passar quinze anos na Alemanha."

domingo, junho 26, 2005

A língua pelo céu da boca



Escrever um romance tem a sua técnica. Não que pessoalmente a saiba usar, confesso que não sei, mas reconheço-a!
Ter lido muito não faz de nós escritores. Quanto mais se lê, mais se reconhece que não se sabe escrever, e melhor se conclui que se publica excessivamente para a qualidade do que é oferecido.
Por muito que nos debrucemos, das nove às cinco, sobre o teclado do computador, uma obra não sai apenas por insistência nossa: pede para sair. Depende do nosso trabalho, não da nossa exclusiva vontade. E isso não sei explicar.
Não saímos escritores porque decidimos tornar-nos famosos, vender livros, dar entrevistas para as revistas de letras. Não ficamos escritores após uma sessão de fotos a preto-e-branco que servirá para o marketing do nosso livro. Conseguir escrever duas frases sem problemas maiores de sintaxe não nos garante uma entrada na História da Literatura - e às mulheres raramente garante!
Precisamos, para além de bom "ouvido", de excelente intuição e de uma boa história. E, boas histórias, têm de começar mal, acabar mal, e debruçarem-se sobre o que se considera O Mal.
Não se escrevem boas obras sobre O Bem; não directamente. Chega-se ao Bem pela travessia do Mal. Nesse caso é possível. Uma boa história faz-nos passar pelas passas do Algarve. Não nos sossega. Os livros do Dalai Lama e todos os outros sobre auto-ajuda, os quais têm uma secção destacada, e de velas acesas, na FNAC, não são romances, são livros doutrinários - e claro que têm a sua função - aconselho. Tenho alguns cá em casa. Já me serviram bastante, a sério. Mas um romance, um romance daqueles que ficam a ecoar para sempre na nossa memória, isso... é a pedra filosofal.
A arte, como a publicidade, não pode prender-se a uma grande moral. Há limites; há sempre limites, mas a obra de arte é intrinsecamente livre ou não seria arte. Uma moral amoral.
Lolita, de Vladimir Nabokov é isso. Não tem falhas de argumento nem de estilo. Não é mero fruto da inspiração. Houve ali muito suor.
Este começou por ser o primeiro parágrafo de um dos melhores romances do século XX. Excelentemente escrito: coloquialidade, períodos curtos, velocidade, ironia. Repare-se no pormenor fabuloso que consiste na descrição da morte da mãe: duas simples palavrinhas "piquenique, faísca" - e a cena revela-se totalmente:
Nasci em Paris, em 1910. O meu pai era pessoa branda e indolente, uma salada de genes rácicos: cidadão suíço de mista ascendência franco-Austríaca, com umas gotas do Danúbio nas veias. Daqui a um instantinho mostrar-lhes-ei alguns deliciosos postais ilustrados, de um azul muito brilhante. Era dono de um luxuoso hotel da Riviera. O seu pai e dois avós tinham vendido vinho, jóias e seda, respectivamente. Aos trinta anos desposou uma jovem inglesa, filha de Jerome Dunn, o alpinista, e neta de dois párocos de Dorset, especialistas em assuntos obscuros - paleopedologia, um, e harpas eólicas, outro. A minha muito fotogénica mãe morreu num singular acidente (piquenique, faísca) quando eu tinha três anos (...)
Certamente o romance teria tido sucesso se começasse desta forma. Mas não começou, não começa. O autor mudou de ideias, lá teve as suas boas razões!, e redigiu um dos mais perfeitos e belos parágrafos iniciais de toda a história da literatura. Este é o verdadeiro primeiro parágrafo da obra:
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Quem é que não dava a porra de uns anos de vida para ter escrito estes dois parágrafos?! Até o Saramonho, a quem não sobrarão muitos, Deus me perdoe!
Experimentem ler alto, não em silêncio. É uma cançoneta. Um poema.
O segredo deste parágrafo não é segredo, está à vista: contaminação de géneros literários: poesia, ritmo, paralelismo simbólico: luz/vida; fogo/virilidade; pecado/alma; uma viagem/língua; céu-da-boca/dentes, e, no final, explodem as três sílabas, como notas musicais: Lo-li-ta!
Quanto tempo perdeu Vladimir Nabokov à volta deste singular parágrafo?! Algumas horas, alguns dias, voltou a ele incessantemente, durante meses, até conseguir este primor de economia narrativa?
Frases curtas, sincopadas, logo seguidas de uma um pouco mais longa, mas não muito mais, o suficiente, apenas. Uma escrita tão sensual como o desejo que conta em crescendo: Lo, Lola, Dolly, Lolita... a língua, o céu-da-boca, os dentes, os braços, Lolita. Não é um ritmo qualquer, é o do corpo sexual: desliza.
Dificilmente se escreve assim à primeira. São precisos anos. O "ouvido", o corpo e o espírito precisam de ter vivido história, desejo, frustração, de ter perdido muito e ganho pouco. Não se aprende grande coisa ganhando. Quem ganha muito, escreve pouco. A perda ensina a escrever. Ou a dançar ou a desenhar. Sem perda, não tínhamos arte, apenas decoração - e mesmo a decoração, ainda pensarei melhor nisso!
Em Nabokov parece-me nada ser por acaso. Até a perfeição eufónica do seu nome: Vla-di-mir Na-bo-kov. Algumas coisas não podem ser mera coincidência!
Por exemplo, o meu nome, I-sa-be-la! A língua também viaja pela boca, não viaja?!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...